Este documento está relacionado com:
Este documento está relacionado com:
Este documento está relacionado com:

Open-access Perfil epidemiológico do tratamento cirúrgico do câncer de pulmão: análise retrospectiva, Brasil, 2014-2023

Resumo

Objetivo  Analisar as influências socioeconômicas no tratamento cirúrgico do câncer de pulmão no Brasil e fornecer reflexões para propor estratégias mais eficazes no enfrentamento dessa doença.

Métodos  Dados de 2014 a 2023 foram extraídos do Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde brasileiro e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Analisaram-se o sexo e a região de procedência dos pacientes que realizaram procedimentos cirúrgicos de câncer de pulmão. As análises estatísticas foram realizadas utilizando os softwares GraphPadPrism 8.0.1 e R (versão 4.4.2)

Resultados  Analisaram-se 20.805 procedimentos cirúrgicos e 112.118 diagnósticos de neoplasias malignas dos brônquios e pulmões no Brasil entre 2014 e 2023. As mulheres representaram 50,6% dos procedimentos. Os homens responderam por 54,7% dos diagnósticos. Não houve diferença significativa entre os sexos na realização de procedimentos ou consultas (p-valor>0,05). A região Sul apresentou a maior taxa de procedimentos (20,1/1 milhão de habitantes/ano). A região Norte teve a menor (3,5/1 milhão). Identificou-se aumento de 51,6% nos procedimentos ao longo da década, com correlações positivas entre o índice de desenvolvimento humano (r=0,62; p-valor<0,001) e a renda per capita (r=0,48; p-valor 0,010) com procedimentos.

Conclusão  Fatores socioeconômicos parecem influenciar o acesso ao tratamento cirúrgico do câncer de pulmão no Brasil, com disparidades regionais significativas, especialmente nas regiões Norte e Nordeste. O aumento nos procedimentos reflete avanços tecnológicos e políticas públicas, mas desigualdades no acesso persistem. Investimentos em infraestrutura e políticas equitativas são essenciais para enfrentar essas desigualdades.

Palavras-chave
Neoplasias Pulmonares; Procedimentos Cirúrgicos Operatórios; Desigualdades de Saúde; Fatores Socioeconômicos; Estudos Retrospectivos

Abstract

Objective  To analyze the socioeconomic influences on the surgical treatment of lung cancer in Brazil and to provide reflection points to propose more effective strategies for tackling this disease.

Methods  Data from 2014 to 2023 were extracted from the Hospital Information System of the Brazilian Unified Health System and the Brazilian Institute of Geography and Statistics. Sex and region of origin of patients who underwent surgical procedures for lung cancer were analyzed. Statistical analyses were performed using GraphPadPrism software version 8.0.1 and R software version 4.4.2.

Results  20,805 surgical procedures and 112,118 diagnoses of malignant neoplasms of the bronchi and lungs in Brazil were analyzed between 2014 and 2023. Women accounted for 50.6% of the procedures. Men accounted for 54.7% of the diagnoses. There was no significant difference between sexes in terms of procedures performed or consultations (p-value>0.05). The South region had the highest rate of procedures (20.1/1 million inhabitants/year). The North region had the lowest rate of procedures (3.5/1 million). A 51.6% increase in procedures was identified over the decade, with positive correlations between the Human Development Index (r=0.62; p-value<0.001) and per capita income (r=0.48; p-value 0.010) with procedures.

Conclusion  Socioeconomic factors appear to influence access to surgical treatment of lung cancer in Brazil, with significant regional disparities, especially in the North and Northeast regions. The increase in surgical procedures reflects technological advances and public policies, but inequalities in access persist. Investments in infrastructure and equitable policies are essential to address these inequalities.

Keywords
Lung Neoplasms; Operative Surgical Procedures; Health Inequalities; Socioeconomic Factors; Retrospective Studies

Resumen

Objetivo  Analizar las influencias socioeconómicas en el tratamiento quirúrgico del cáncer de pulmón en Brasil y proporcionar reflexiones para proponer estrategias más efectivas para el enfrentamiento de esta enfermedad.

Métodos  Los datos de 2014 a 2023 fueron extraídos del Sistema de Información Hospitalaria del Sistema Único de Salud de Brasil y del Instituto Brasileño de Geografía y Estadística. Se analizó el sexo y la región de procedencia de los pacientes sometidos a procedimientos quirúrgicos por cáncer de pulmón. Los análisis estadísticos se realizaron utilizando el software GraphPadPrism 8.0.1 y R (versión 4.4.2).

Resultados  Se analizaron 20.805 procedimientos quirúrgicos y 112.118 diagnósticos de neoplasias malignas de bronquios y pulmones en Brasil entre 2014 y 2023. Las mujeres representaron el 50,6% de los procedimientos. Los hombres representaron el 54,7% de los diagnósticos. No hubo diferencia significativa entre sexos en la realización de procedimientos o consultas (p-valor>0,05). La región Sur presentó la mayor tasa de procedimientos (20,1/1 millón de habitantes/año). La región Norte tuvo el valor más bajo (3,5/1 millón). Se identificó un incremento de 51,6% en los procedimientos a lo largo de la década, con correlaciones positivas entre el índice de desarrollo humano (r=0,62; p-valor<0,001) y el ingreso per cápita (r=0,48; p-valor 0,010) con los procedimientos.

Conclusión  Los factores socioeconómicos parecen influir en el acceso al tratamiento quirúrgico del cáncer de pulmón en Brasil, con disparidades regionales significativas, especialmente en las regiones Norte y Nordeste. El aumento de trámites refleja avances tecnológicos y políticas públicas, pero persisten desigualdades en el acceso. Las inversiones en infraestructura y políticas equitativas son esenciales para abordar estas desigualdades.

Palabras clave
Neoplasias Pulmonares; Procedimientos Quirúrgicos Operatorios; Desigualdades en Salud; Factores Socioeconómicos; Estudios Retrospectivos

Aspectos éticos

Esta pesquisa utilizou bancos de dados de domínio público e anonimizados.:

Introdução

A incidência e a mortalidade do câncer de pulmão apresentam desafios significativos de saúde pública, com implicações de grande alcance para os sistemas de saúde e as comunidades afetadas. Destacaram-se disparidades regionais na mortalidade por câncer de pulmão no Paraná, Brasil, oferecendo a visão sobre a influência de fatores socioeconômicos nesse cenário (1). A correlação entre as taxas de mortalidade e os indicadores como o índice de desenvolvimento municipal ressalta a conexão entre o status socioeconômico dos pacientes e o acesso ao tratamento (2,3).

Há, na literatura, análises realizadas sob um escopo nacional. Pesquisadores do Rio Grande do Norte revelaram panorama semelhante (2), indicando alta prevalência de diagnósticos de câncer de pulmão em estágio avançado em todo o Brasil. Sugeriu-se a associação crítica entre fatores como envelhecimento populacional, renda per capita e disparidades regionais. A relação entre esses indicadores e a incidência da doença apontou a necessidade urgente de entender e abordar as disparidades no acesso oportuno aos serviços de saúde.

Em 2017, pesquisadores chineses (4) indicaram que a influência do contexto socioeconômico na incidência e mortalidade do câncer de pulmão perpassava as divisas do Brasil, caracterizando um fenômeno global. A crescente incidência entre mulheres em países como Brasil, Espanha e Chipre, juntamente com o aumento das taxas de mortalidade em regiões mais desenvolvidas, destacou a complexidade dos fatores que moldam esse panorama epidemiológico (4).

Este artigo teve como objetivo realizar a análise das influências socioeconômicas no tratamento cirúrgico do câncer de pulmão no Brasil. Ao examinar essa relação complexa entre fatores sociais e biológicos de risco, pretendeu-se identificar as disparidades existentes e fornecer reflexões para propor estratégias mais eficazes e equitativas no enfrentamento dessa doença.

Metódos

Delineamento do estudo

Trata-se de estudo observacional, transversal e retrospectivo, que analisou dados de 2014 a 2023. Este foi conduzido com base nos protocolos Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology e Sex and Gender Equity in Research, visando aumentar a transparência do estudo e garantir a equidade de sexo.

Contexto

Os dados foram coletados de duas bases brasileiras de dados secundários: o Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SIH-SUS) e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). As informações referiram-se ao número de procedimentos cirúrgicos realizados em todo o território nacional, estratificando-o em cinco macrorregiões geográficas: Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul. O período analisado foi de 1º de janeiro de 2014 a 31 de dezembro de 2023.

Participantes

Incluíram-se todos os pacientes submetidos a procedimentos cirúrgicos para o tratamento de câncer de pulmão financiados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), registrados no SIH-SUS, com diagnósticos classificados sob a Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID-10) C34 (neoplasia maligna dos brônquios e pulmões). Não foram aplicados critérios de exclusão, assegurando a inclusão de todas as internações registradas no período de estudo.

Variáveis

As variáveis analisadas incluíram aspectos demográficos, como sexo, faixa etária e etnia; características clínicas, como o número de diagnósticos e procedimentos cirúrgicos realizados; e fatores socioeconômicos, como o índice de desenvolvimento humano (IDH) e a renda per capita por macrorregião geográfica.

Fontes de dados/mensuração

Os dados clínicos e demográficos foram obtidos do SIH-SUS, enquanto os dados socioeconômicos foram extraídos do Censo Demográfico 2022 do IBGE. As informações foram padronizadas para análise, com o índice de procedimentos ajustado para 1 milhão de habitantes por estado e região.

Viés

Esforços foram realizados para minimizar vieses, incluindo o uso de fontes oficiais e amplamente validadas, como o SIH-SUS e o IBGE, e a realização de ajustes populacionais para comparar as taxas de procedimentos entre estados e regiões. Foi realizada avaliação da normalidade dos dados anteriormente às análises estatísticas, garantindo a validade dos testes aplicados.

Tamanho do estudo

O tamanho da amostra foi determinado pela totalidade dos dados disponíveis no período de estudo. Foram analisados 20.805 procedimentos cirúrgicos realizados e 112.118 diagnósticos de neoplasias malignas dos brônquios e pulmões registrados entre 2014 e 2023.

Métodos estatísticos

Análises descritivas de acordo com sexo e macrorregião foram reportadas com frequências e porcentagens. Para variáveis categóricas, foram realizados: testes de Shapiro-Wilk para verificar a normalidade dos dados; teste t não pareado para comparar os sexos; modelo de Prais-Winsten para analisar tendências anuais no número de diagnósticos e procedimentos; teste de análise de variância unidirecional com teste de post-hoc de Tukey para avaliar diferenças regionais; e correlação de Spearman para identificar associações entre IDH, renda per capita e número de procedimentos. As análises estatísticas foram realizadas utilizando os softwares GraphPad Prism 8.0.1 e R (versão 4.4.2).

Resultados

Entre 2014 e 2023, foram reportados 20.805 procedimentos cirúrgicos pulmonares, bem como 112.118 diagnósticos de neoplasmas malignos dos brônquios e pulmões, de acordo com o CID-10 C34. Do número total de procedimentos cirúrgicos realizados, 10.529 (50,6%) foram em mulheres e 10.276 (49,4%) em homens. Em relação aos diagnósticos de câncer de pulmão, 61.273 (54,7%) foram em homens e 50.845 (45,4%) em mulheres.

Tabela 1 Comparação das diferenças médias dos índices de procedimentos ajustados com teste de Tukey, intervalos de confiança de 95% (IC95%) e p-valores ajustados. Regiões brasileiras, 2014-2023
Regiões Diferença média (IC95%) da diferença p-valor
Norte versus Nordeste -2,21 (-4,20; -0,22) 0,023
Norte vs. Centro-Oeste -2,60 (-4,59; -0,61) 0,005
Norte vs. Sudeste -8,29 (-10,28; -6,30) <0,001
Norte vs. Sul -16,56 (-18,55; -14,57) <0,001
Nordeste vs. Centro-Oeste -0,39 (-2,38; 1,60) 0,981
Nordeste vs. Sudeste -6,08 (-8,07; -4,09) <0,001
Nordeste vs. Sul -14,35 (-16,34; -12,36) <0,001
Centro-Oeste vs. Sudeste -5,69 (-7,68; -3,70) <0,001
Centro-Oeste vs. Sul -13,96 (-15,95; -11,97) <0,001
Sudeste vs. Sul -8,27 (-10,26; -6,28) <0,001

O teste t não pareado comparando procedimentos entre homens e mulheres não foi estatisticamente significativo (p-valor 0,693). O teste foi bilateral com estatística t de 0,400 e 18 graus de liberdade. O número médio de procedimentos foi de 1.028 para homens e 1.053 para mulheres, com diferença de 25,30 (erro-padrão da média -63,16; intervalo de confiança de 95% [IC95%] -107,4; -158,0; p-valor 0,693; r2=0,009). O teste F comparando variâncias resultou na estatística F de 3,522 com 9 e 9 graus de liberdade e p-valor 0,074, indicando nenhuma diferença significativa nas variâncias. Para consultas, o teste t não pareado resultou na diferença também não significativa (p-valor 0,064). Este foi um teste bilateral com estatística t de 1,970 e 18 graus de liberdade. A diferença média foi -1.043 (erro-padrão da média 529,4; IC95% -2,16; 69,46; r2=0,177), sugerindo o tamanho de efeito moderado. O teste F comparando as variâncias resultou na estatística F de 1,604 com 9 e 9 graus de liberdade e p-valor 0,492, indicando nenhuma diferença significativa nas variâncias. O tamanho da amostra para ambas as colunas A e B foi 10.

Ao comparar os indicadores de procedimentos de cada região, o Sul ocupou o primeiro lugar com 20,1 procedimentos cirúrgicos para ressecção de neoplasias pulmonares e brônquicas por 1 milhão de habitantes por ano. Seguiram-se o Sudeste com 11,8, o Centro-Oeste com 6,1, o Nordeste com 5,7 e o Norte com 3,5 cirurgias para tratamento do câncer de pulmão por 1 milhão de habitantes por ano (Figura 1A).

Figura 1
Índice de procedimentos cirúrgicos nas regiões do Brasil (A) e número de procedimentos realizados no país de 2014 a 2023 (B)

A tendência de aumento estatisticamente significativa foi observada no número de procedimentos realizados para tratar neoplasmas brônquicos e pulmonares, após a correção da autocorrelação serial pelo modelo de Prais-Winsten (p-valor<0,001) (Figura 1B). Com a aplicação desta análise, observou-se que a tendência de crescimento do número de procedimentos cirúrgicos ao longo dos anos se manteve significativa (coeficiente=81.03; IC95% 43.53; -118.53; p-valor<0,001). O teste de Durbin-Watson indicou a redução da autocorrelação serial (Durbin-Watson=1.695; p-valor=0,045). A diferença foi 51,6%, com 1.608 procedimentos em 2014 e 2.438 em 2023 (r2=0,876). O teste de análise de variância revelou diferença significativa entre as médias do índice de procedimentos das cinco regiões (F (4,45) = 182,2, p-valor<0,001). O valor R2 foi 0,942, indicando bom ajuste do modelo, o que sugeriu diferenças significativas entre as médias das regiões.

Correlações positivas podem ser observadas entre o IDH de um estado e o número de procedimentos cirúrgicos, com o coeficiente de correlação de Spearman de 0,62 (IC95% 0,30; -0,81; p-valor<0,001). Notavelmente, o Rio Grande do Sul, apesar de não ter o maior IDH (0,771), possuiu o maior número de procedimentos por 1 milhão de habitantes (266,8) (Figura 2). A renda per capita também mostrou correlação positiva com essa comparação. Foi observado o coeficiente de correlação de Spearman de 0,48 (IC95% 0,11; -0,73; p-valor 0,010) em relação às cirurgias. Na análise do IDH, o Rio Grande do Sul se destacou, pois tinha mais do que o dobro (266,8 versus 129,5) do número de procedimentos realizados por 1 milhão de habitantes comparado ao estado com a maior renda per capita, São Paulo (Figura 3).

Figura 2
Correlação entre índice de desenvolvimento humano (IDH) dos estados e seu índice de procedimentos cirúrgicos. 2014-2023
Figura 3
Correlação entre renda per capita em reais (R$) dos estados brasileiros e seu índice de procedimentos cirúrgicos. 2014-2023

Discussão

A ressecção pulmonar é amplamente reconhecida como o padrão-ouro para o tratamento terapêutico do câncer de pulmão nos projetos iniciais (5). Esse procedimento é indicado principalmente para carcinomas de não pequenas células, que atingem 85,0% dos casos de câncer de pulmão, representando a forma mais prevalente da doença (6). Essa abordagem cirúrgica oferece maior sobrevida a longo prazo quando comparada a outras modalidades terapêuticas em pacientes com carcinomas de não pequenas células nos estádios I e II. Explorar as desigualdades regionais sem acesso a este tratamento torna-se fundamental, uma vez que tais disparidades podem limitar os benefícios proporcionados por avanços na detecção precoce e técnicas cirúrgicas inovadoras.

Este estudo revelou correlações significativas entre indicadores socioeconômicos e desfechos de saúde para pacientes com câncer de pulmão no Brasil. Estes resultados demonstraram a associação positiva entre o IDH e a renda per capita dos estados com o número de procedimentos cirúrgicos realizados, corroborando achados anteriores sobre a influência do contexto socioeconômico na acessibilidade ao tratamento (7–9). Identificou-se tendência significativa de aumento no número de procedimentos realizados para tratar neoplasias brônquicas e pulmonares, indicando o crescente ônus do câncer de pulmão e a necessidade urgente de melhoria na infraestrutura de saúde.

A análise de variância mostra diferenças estatisticamente significativas (p-valor<0,001) entre as macrorregiões do Brasil no número de procedimentos realizados, apontando padrões distintos no uso dos serviços de saúde. A localização geográfica e a distribuição desigual de serviços de saúde de alta complexidade ajudam a explicar as disparidades regionais no acesso à saúde (7-10). A meta-análise realizada em 2013 (11) destacou o papel das condições socioeconômicas na alocação de recursos e na acessibilidade aos serviços de saúde. Foi sugerido que pacientes com menor posição socioeconômica tinham menor acesso a tratamentos especializados para o câncer de pulmão, corroborando este estudo e enfatizando a tendência global de desigualdade em saúde impulsionada por fatores econômicos e geográficos (11). O Sudeste e o Sul brasileiros abrigam os principais centros universitários do país e infraestrutura bem equipada. Essas regiões tendem a ter infraestrutura hospitalar mais robusta e de maior qualidade, além de serviços especializados, facilitando o acesso da população a procedimentos mais complexos (12). A região Norte enfrenta desafios logísticos e falta de distribuição dos serviços de saúde, com boa parte significativa da população residindo em áreas remotas, distantes dos principais centros de saúde (13,14).

O ineditismo deste estudo reside em identificar disparidades específicas na realização de procedimentos cirúrgicos, evidenciando como estados com índices socioeconômicos semelhantes podem apresentar diferenças substanciais na oferta desses serviços. O Rio Grande do Sul, por exemplo, apesar de não possuir o maior IDH do país, lidera em número de procedimentos por 1 milhão de habitantes (266,8). Esse dado contradiz a tendência esperada e sugere que outros fatores, como políticas locais de saúde, podem mitigar as limitações socioeconômicas tradicionais, apontando novas direções para futuras pesquisas.

Houve aumento significativo de 51,6% no número de procedimentos para o tratamento de neoplasmas brônquicos e pulmonares entre 2014 e 2023. Esse crescimento refletiu avanços nos métodos de detecção precoce e nas políticas de rastreamento, que possibilitaram diagnósticos mais rápidos e maior número de intervenções cirúrgicas (15). A implementação de técnicas minimamente invasivas, como a lobectomia toracoscópica, tem sido associada a recuperação mais rápida e menores taxas de complicações. Isso constitui importante estratégia de minimização de custos pela diminuição do tempo de internação, beneficiando o sistema público de saúde e os pacientes (16-19). Estes resultados corroboram a literatura que destaca como as inovações tecnológicas e as iniciativas de rastreamento têm promovido aumento no acesso a tratamentos oncológicos eficazes (15,20).

Outro aspecto relevante desta pesquisa foi a análise de disparidades de sexo no contexto cirúrgico. Embora os homens apresentassem maior incidência de diagnósticos de câncer de pulmão (54,7%), as mulheres foram submetidas ao número ligeiramente maior de procedimentos cirúrgicos (50,6% vs. 49,4%). Esse dado complementa a literatura, que aponta diferenças de comportamento em relação à busca por cuidados de saúde e melhores prognósticos entre as mulheres (8,21). A tendência de diagnóstico em estágios mais iniciais e a menor prevalência de comorbidades em mulheres podem explicar, em parte, esse padrão, mas estes resultados sugerem que essas diferenças devem ser exploradas mais detalhadamente em investigações futuras.

Este estudo apresentou limitações que devem ser consideradas ao interpretar os resultados. Foi utilizado o banco de dados do Departamento de Informação e Informática do Sistema Único de Saúde, fonte de dados secundários que podem variar em precisão e completude entre diferentes regiões. Essa variabilidade pode afetar a comparabilidade dos resultados e talvez não capture totalmente as disparidades regionais no acesso e uso dos serviços de saúde (22). Esta pesquisa não considerou fatores individuais dos pacientes, como comorbidades, comportamentos de estilo de vida e predisposições genéticas, que podem influenciar tanto os desfechos do câncer de pulmão quanto o acesso aos cuidados.

O desenho ecológico do estudo também limitou a capacidade de estabelecer relações causais entre fatores socioeconômicos e desfechos de saúde. Como os dados coletados foram retrospectivos, houve ausência de informações detalhadas sobre fatores que podem influenciar a tendência, além de mudanças nos critérios de indicação cirúrgica ou na disponibilidade de recursos. Portanto, viés de aferição não pode ser descartado e caracteriza como potencial limitação deste estudo. Embora tenham sido observadas associações entre indicadores socioeconômicos e uso dos serviços de saúde, possíveis fatores de confusão, como diferenças culturais no uso do tabaco, variações na conscientização sobre os sintomas do câncer de pulmão e disparidades nos comportamentos de busca por atendimento entre as regiões, podem afetar ainda mais o acesso aos cuidados e os resultados do tratamento.

Este estudo investigou a influência dos fatores socioeconômicos no tratamento cirúrgico do câncer de pulmão no Brasil e revelou disparidades significativas entre as regiões do país. O Sul apresentou o maior número de procedimentos por 1 milhão de habitantes. O Norte e o Nordeste apresentaram números menores, refletindo desigualdades na distribuição dos serviços de saúde no país. Observou-se a correlação positiva entre o IDH e a renda per capita com o número de procedimentos, destacando a importância do desenvolvimento socioeconômico no diagnóstico e tratamento. A análise por sexo mostrou maior incidência de diagnósticos entre os homens, mas as mulheres se submeteram a mais procedimentos cirúrgicos, sugerindo diferenças nos comportamentos de busca de saúde e na progressão da doença.

Os avanços tecnológicos e as políticas públicas também contribuíram para o aumento considerável nos procedimentos ao longo dos anos, embora isso não tenha sido uniforme em todas as regiões. As limitações dos dados do Departamento de Informação e Informática do Sistema Único de Saúde, incluindo a falta de detalhes e subnotificação, apontaram a necessidade de melhorias na qualidade dos registros de saúde. Este estudo enfatizou a escassez de estratégias focadas em contribuir para o acesso mais equitativo ao tratamento cirúrgico do câncer de pulmão no Brasil, especialmente em regiões com maiores disparidades socioeconômicas, com investimentos em infraestrutura de saúde e políticas que reduzam as desigualdades.

Referências bibliográficas

  • 1 Marques VD, Massago M, Silva MT, Roskowski I, Lima DAN, Santos L, et al. Exploring regional disparities in lung cancer mortality in a Brazilian state: A cross-sectional ecological study. PLoS One. 2023;18(6):e0287371.
  • 2 Lima KYN, Cancela MC, Souza DLB. Spatial assessment of advanced-stage diagnosis and lung cancer mortality in Brazil. PLoS One. 2022;17(3):e0265321.
  • 3 Takemura T, Kataoka Y, Okazaki K, Sakurai A, Imakita T, Ikegaki S, et al. Influence of social determinants of health on patients with advanced lung cancer: a prospective cohort study. BMJ Open. 2018;8(10):e023152.
  • 4 Wong MCS, Lao XQ, Ho KF, Goggins WB, Tse SLA. Incidence and mortality of lung cancer: global trends and association with socioeconomic status. Sci Rep. 2017;7(1):14300.
  • 5 William Junior WN, Colabrich AFC, Laloni MT, Geib G, Mascarenhas ES, Lima VCC. Diretrizes de tratamentos oncológicos: Pulmão não-pequenas células. 2024. Available from: https://sboc.org.br/images/Diretrizes-2024/pdf/32---Diretrizes-SBOC-2024---Pulmao-NSCLC-localizado-v3-FINAL.pdf
    » https://sboc.org.br/images/Diretrizes-2024/pdf/32---Diretrizes-SBOC-2024---Pulmao-NSCLC-localizado-v3-FINAL.pdf
  • 6 Siegel RL, Miller KD, Wagle NS, Jemal A. Cancer statistics, 2023. CA Cancer J Clin. 2023;73(1):17-48.
  • 7 Coube M, Nikoloski Z, Mrejen M, Mossialos E. Persistent inequalities in health care services utilisation in Brazil (1998–2019). Int J Equity Health. 2023;22(1):25.
  • 8 Costa SNL, Fernandes FCGM, Santos CA, Souza DLB, Barbosa IR. Gender and regional differences in lung cancer mortality in Brazil. Asian Pac J Cancer Prev. 2020;21(4):919-26.
  • 9 Viacava F, Oliveira RAD, Carvalho CC, Laguardia J, Bellido JG. SUS: oferta, acesso e utilização de serviços de saúde nos últimos 30 anos. Cien Saude Colet. 2018;23(6):1751-62.
  • 10 Palmeira NC, Moro JP, Getulino FA, Vieira YP, Soares Junior AO, Saes MO. Análise do acesso a serviços de saúde no Brasil segundo perfil sociodemográfico: Pesquisa Nacional de Saúde, 2019. Epidemiol Serv Saude. 2022;31(3):e2022966.
  • 11 Forrest LF, Adams J, Wareham H, Rubin G, White M. Socioeconomic inequalities in lung cancer treatment: systematic review and meta-analysis. PLoS Med. 2013;10(2):e1001376.
  • 12 Martins LOM, Reis MF, Chaoubah A, Rego G. Ethnic-regional differences in the allocation of high complexity spending in Brazil: time analysis 2010–2019. Int J Environ Res Public Health. 2023;20(4):3006.
  • 13 Shimizu HE, Carvalho ALB, Brêtas Júnior N, Capucci RR. Regionalização da saúde no Brasil na perspectiva dos gestores municipais: avanços e desafios. Cien Saude Colet. 2021;26(Suppl 2):3385-96.
  • 14 Azeredo-da-Silva AF, Zanotto BS, Martins F, Navarro N, Alencar R, Medeiros C. Health care accessibility and mobility in breast cancer: a Latin American perspective. BMC Health Serv Res. 2024;24(1):764.
  • 15 Koning HJ, Aalst CM, Jong PA, Scholten ET, Nackaerts K, Heuvelmans MA, et al. Reduced lung-cancer mortality with volume ct screening in a randomized trial. N Engl J Med. 2020;382(6):503-13.
  • 16 Liang H, Liang W, Zhao L, Chen D, Zhang J, Zhang Y, et al. Robotic versus video-assisted lobectomy/segmentectomy for lung cancer. Ann Surg. 2018;268(2):254-9.
  • 17 Burfeind Junior WR, Jaik NP, Villamizar N, Toloza EM, Harpole Junior DH, D’Amico TA. A cost-minimisation analysis of lobectomy: thoracoscopic versus posterolateral thoracotomy. Eur J Cardiothorac Surg. 2010;37(4):827-32.
  • 18 Farjah F, Backhus LM, Varghese TK, Mulligan MS, Cheng AM, Alfonso-Cristancho R, et al. Ninety-day costs of video-assisted thoracic surgery versus open lobectomy for lung cancer. Ann Thorac Surg. 2014;98(1):191-6.
  • 19 Ramos R, Masuet C, Gossot D. Lobectomy for early-stage lung carcinoma: a cost analysis of full thoracoscopy versus posterolateral thoracotomy. Surg Endosc. 2012;26(2):431-7.
  • 20 Rivera MP, Tanner NT, Silvestri GA, Detterbeck FC, Tammemägi MC, Young RP, et al. Incorporating coexisting chronic illness into decisions about patient selection for lung cancer screening. An official American thoracic society research statement. Am J Respir Crit Care Med. 2018;198(2):e3-13.
  • 21 Stabellini N, Bruno DS, Dmukauskas M, Barda AJ, Cao L, Shanahan J, et al. Sex differences in lung cancer treatment and outcomes at a large hybrid academic-community practice. JTO Clin Res Rep. 2022;3(4):100307.
  • 22 Viana SW, Faleiro MD, Mendes ALF, Torquato AC, Tavares CPO, Feres B, et al. Limitations of using the DATASUS database as a primary source of data in surgical research: a scoping review. Rev Col Bras Cir. 2023;50:e20233545.
  • 23 Brasil. DATASUS. Brasília: Ministério da Saúde; 2024 [cited 2025 Mar 7]. Available from: https://datasus.saude.gov.br/
    » https://datasus.saude.gov.br/

Editado por

Disponibilidade de dados

O banco de dados utilizado na pesquisa está disponível em: https://datasus.saude.gov.br/(23)

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    04 Ago 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    17 Set 2024
  • Aceito
    12 Fev 2025
location_on
Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente - Ministério da Saúde do Brasil SRTVN Quadra 701, Via W5 Norte, Lote D, Edifício P0700, CEP: 70719-040, +55 (61) 3315-3464 - Brasília - DF - Brazil
E-mail: ress.svs@gmail.com
rss_feed Acompanhe os números deste periódico no seu leitor de RSS
Ir para o topo Reportar erro