O último relatório da Organização Mundial da Saúde destaca a situação alarmante da tuberculose (TB) na América Latina (AL). Entre 2020 e 2023, observa-se um aumento significativo da mortalidade (14%) na AL e uma ligeira diminuição em 2024 (13%)(1). Este editorial tem como objetivo analisar esse problema e destacar a importância da criação de uma Rede de Pesquisa em TB para a região para atingir a meta da OMS de acabar com a TB na AL.
Os países latino-americanos enfrentam vários desafios que impedem um progresso mais rápido em direção à eliminação da TB. Isso inclui fatores socioeconômicos, culturais, educacionais e de organização de serviços de saúde. Problemas como a coinfecção TB/HIV, o aumento da diabetes, tabagismo e outras doenças crônicas somam-se a fatores como a desnutrição, o consumo de substâncias psicoativas e o acesso limitado aos serviços de saúde. Fatores que são acentuados pelas desigualdades sociais e econômicas da região, tornando ainda mais difícil a eliminação da TB na AL.
Outro aspecto preocupante é o aumento de casos de TB multirresistente (TB-MDR) e TB extensivamente resistente (TB-XDR), destacando sua distribuição heterogênea, que variou em 2023 entre 0-11,9% dos novos casos de TB de acordo com o país da AL(1). Esses casos representam um desafio crítico para os sistemas de saúde e para os pacientes devido ao seu tratamento prolongado, que pode exceder 20 meses, e ao risco de transmissão de cepas resistentes, embora já tenhamos os regimes BPaL/BPaLM orais encurtados de seis meses de duração para RR /MDR e preXDR em vários países da Região.
Além disso, o impacto econômico é considerável. Enquanto o tratamento de um caso de TB suscetível custa entre 100 e 500 dólares, o tratamento para a TB-MR varia entre 5.000 e 15.000 dólares, e para a TB-XDR pode exceder os 30.000 dólares por paciente(2). Embora a região possa contar com a ajuda do fundo estratégico da Organização Panamericana de Saúde (OPAS) para subsidiar os custos desses tratamentos, ainda há muito trabalho a ser feito para garantir que os pacientes tenham acesso. Este cenário reforça a necessidade urgente de fortalecer estratégias de prevenção, diagnóstico precoce e manejo adequado da resistência aos medicamentos na região.
O diagnóstico precoce da TB em muitos países da AL enfrenta sérias dificuldades devido à disponibilidade insuficiente de recursos para diagnóstico rápido, seja por meio de técnicas laboratoriais ou de imagem, e à formação insuficiente dos profissionais de saúde. Entretanto, é importante destacar que a AL apresenta os melhores níveis de confirmação bacteriológica do mundo, atingindo uma média de 86% em 2023. Este indicador reflete a melhora na capacidade da região de realizar diagnósticos oportunos com os métodos atualmente disponíveis. Isso representa um avanço importante no combate à TB(1), mas ainda é necessária a ampliação da busca ativa voltada às populações em situação de maior vulnerabilidade e áreas afetadas pela TB.
Em 2023, durante a 78ª Assembléia Geral das Nações Unidas, foi aprovada a declaração política “Fim da TB”, um compromisso global que destaca a necessidade de avançar na ciência, no financiamento e na inovação, bem como os seus benefícios para combater de maneira urgente a epidemia mundial de TB. Esta declaração enfatiza a garantia de acesso equitativo à prevenção, aos testes de diagnóstico, ao tratamento e aos cuidados dignos para todas as pessoas afetadas(3). A Estratégia pelo Fim da TB destaca a criação de redes como uma das principais abordagens para atingir o objetivo de mitigar a TB como epidemia até 2035 e eliminá-la completamente até 2050(4). A abordagem envolve uma colaboração abrangente e interdisciplinar que reúne atores como governos, organizações não governamentais, indústria, profissionais de saúde, pesquisadores, gestores e sociedade civil(5).
O trabalho em rede está estruturado em torno de quatro objetivos centrais(5) que são: 1. Fortalecer a atenção integral focada nas pessoas afetadas pela TB; 2. Fortalecer as políticas públicas e os sistemas de apoio relacionados à TB, 3. Promover a pesquisa e a inovação para melhorar as ferramentas de diagnóstico, terapêuticas e preventivas e 4. Garantir a sustentabilidade financeira e o compromisso político de longo prazo para erradicar a doença (Figura 1).
Várias iniciativas têm sido descritas em nível internacional para atingir este propósito, entre as quais se destacam:
Iniciativa Europeia de Pesquisa sobre Tuberculose (ERI-TB): Focada em garantir a pesquisa e a inovação necessárias para eliminar a TB na Europa.
Rede de Pesquisa sobre TB do BRICS: Lançada em 2017, esta rede inclui Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul e, mais recentemente, incorporou Irã, Egito e Etiópia.
Comitê Consultivo Etíope sobre Tuberculose e Pesquisa (TRAC): Focado no fortalecimento da capacidade de pesquisa e estratégias para abordar a TB em contextos específicos.
Centro de Pesquisa Integrada do Vietnã para Tuberculose e Respirologia (VICTORY): Uma importante iniciativa de pesquisa e desenvolvimento na Ásia, visando a prevenção e o tratamento de doenças respiratórias, incluindo a TB.
Estas iniciativas refletem o compromisso global na luta contra a TB, promovendo a colaboração entre regiões e países para alcançar soluções inovadoras e eficazes(5).
Se nos concentrarmos na AL, há antecedentes de cooperação regional. Por exemplo, no Brasil, a iniciativa da Rede Brasileira de Pesquisas em Tuberculose (REDE-TB), lançada em 2001, destaca-se como uma iniciativa fundamental na promoção da pesquisa, colaboração científica e articulação com o programa nacional de controle da TB. Outras iniciativas semelhantes que conectam pesquisa e prática clínica existem na Colômbia, Chile, México e Peru, mas não há conexão entre elas. Além disso, em 2006 foi consolidada a Sociedade Latino-Americana de Tuberculose e outras micobacterioses (SLAMTB), uma rede de cientistas da AL que tem contribuído para a promoção, informação e colaboração científica em torno da TB, sem maior coordenação política com outros atores e estratégias para cumprir com os quatro pontos centrais de uma Rede.
Espera-se que o estabelecimento de uma rede de pesquisa ampla e integrada na AL tenha um impacto significativo no progresso em direção à eliminação da TB. Um exemplo do valor da colaboração científica é um estudo que mostrou que países com maiores taxas de colaboração internacional são capazes de impulsionar a quantidade e a qualidade da produção científico-tecnológica(6).
O compartilhamento de conhecimento não apenas incentiva o trabalho colaborativo entre pesquisadores, mas também impulsiona o desenvolvimento de métodos mais eficazes para a prevenção, diagnóstico e tratamento da TB. A falta de uma abordagem integrada que combine atores estratégicos, como governo, academia e sociedade civil, dificulta o progresso na luta contra a doença e ressalta a necessidade urgente de uma rede regional forte e coordenada. É essencial adotar uma abordagem integrada e coordenada que vá além do setor da saúde, envolvendo também educação, participação comunitária, políticas sociais e cooperação internacional.
Esta rede colaborativa maximizará os recursos disponíveis, melhorará o acesso equitativo aos cuidados, aumentará a qualidade dos serviços e promoverá a pesquisa e a inovação. Dessa forma, seremos capazes de criar um ambiente propício para a pesquisa e inovação em TB, aumentar o financiamento para pesquisa e inovação na região, promover e melhorar abordagens para o intercâmbio de dados e garantir acesso equitativo aos benefícios da pesquisa e inovação. Com o apoio da OPAS e com a participação de todos os países da região, a resposta integral à TB será fortalecida, respeitando as particularidades e capacidades de cada nação. Este esforço conjunto reafirma o compromisso da AL com um futuro onde a TB será eliminada e a equidade em saúde será uma realidade.
Referências bibliográficas
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1. World Health Organization. Global tuberculosis report 2024 [Internet]. Geneva: WHO; 2024 [cited 2024 Dec 01]. Available from: https://www.who.int/teams/global-tuberculosis-programme/tb-reports/global-tuberculosis-report-2024
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2. Diel R, Vandeputte J, de Vries G, Stillo J, Wanlin M, Nienhaus A. Costs of tuberculosis disease in the European Union: a systematic analysis and cost calculation. Eur Respir J. 2014,43(2):554-65. https://doi.org/10.1183/09031936.00079413
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3. Cirillo D, Anthony R, Gagneux S, Horsburgh CR Jr, Hasan R, Darboe S, et al. A successful UN High-Level Meeting on antimicrobial resistance must build on the 2023 UN High-Level Meeting on tuberculosis. Lancet Global Health 2024;12(8):e1225-e1226. https://doi.org/10.1016/s2214-109x(24)00229-8
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4. World Health Organization. Global strategy and targets for tuberculosis prevention, care and control after 2015 (Resolution WHA67.1, Agenda item 12.1) [Internet]. Geneva: WHO; 2014 [cited 2024 Dec 01]. Available from: https://apps.who.int/gb/ebwha/pdf_files/WHA67/A67_R1-en.pdf
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5. World Health Organization. Toolkit for Developing a National TB Research Plan in support of the third pillar of WHO’s end TB strategy [Internet]. Geneva: WHO; 2016 [cited 2024 Dec 01]. Available from: https://www.who.int/publications/i/item/9789241511513
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6. Migliori GB, Centis R, D’Ambrosio L, Silva DR, Rendon A. International collaboration among medical societies is an effective way to boost Latin American production of articles on tuberculosis. J Bras Pneumol. 2019;45(2):e20180420. https://doi.org/10.1590/1806-3713/e20180420
» https://doi.org/10.1590/1806-3713/e20180420
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Como citar este artigo
Chimara E, Silva PA, Andrade KB, Villarino A, Gago G, Arcêncio RA. Towards the elimination of tuberculosis in Latin America: opportunities through network cooperation. Rev. Latino-Am. Enfermagem. [cited]. Available from: . https://doi.org/10.1590/1518-8345.0000.4575
Datas de Publicação
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Publicação nesta coleção
18 Ago 2025 -
Data do Fascículo
2025














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