Scielo RSS <![CDATA[Revista do Instituto de Estudos Brasileiros]]> http://www.scielo.br/rss.php?pid=0020-387420180001&lang=pt vol. num. 69 lang. pt <![CDATA[SciELO Logo]]> http://www.scielo.br/img/en/fbpelogp.gif http://www.scielo.br <![CDATA[Entreviver - desafios cosmopolíticos contemporâneos]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0020-38742018000100013&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt <![CDATA[Cosmopolitropicália: diplomacia animista em São Paulo]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0020-38742018000100024&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt <![CDATA[Uma onda de lama: viagem de águas tóxicas, de Bento Rodrigues ao Atlântico brasileiro]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0020-38742018000100033&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt ABSTRACT This article offers an anthropological examination of the aftermath of the Samarco dam disaster of November 2015. We analyze the widely used metaphor of the wave of mud to track how news, experience, and representation of toxic iron ore tailings water traveled from Bento Rodrigues down the Doce River to the coast. We draw on eyewitness testimonials, on scientific reports, on social media, on documentary films, and on a theatre production. We draw on sociological research conducted by a team at the Brazilian coast. The wave of mud image helps us understand the physical and symbolic effects of this environmental disaster and crime.<hr/>RESUMO O artigo oferece uma análise antropológica do momento posterior ao desastre da Samarco, ocorrido em novembro de 2015. Exploramos a metáfora da onda de lama para seguir notícias, experiências e representações sobre o deslocamento de rejeitos de mineração, ocorrido a partir de Bento Rodrigues, descendo o rio Doce até atingir o oceano. Baseamo-nos em testemunhos oculares, relatórios científicos, notícias, redes sociais, documentários e, ainda, em uma peça de teatro. Igualmente, utilizamos trabalho etnográfico conduzido na costa do Espírito Santo. A imagem da onda de lama permite entender os efeitos físicos e simbólicos desse desastre e crime ambiental. <![CDATA[Magia, visão e ação]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0020-38742018000100052&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt RESUMO Culturas indígenas e antigas tradições espirituais centradas na Terra, vindas da Europa e do Oriente Médio, veem o mundo como relacional, como uma teia de vida interconectada. Essa percepção introduz perspectivas fundamentais para enfrentarmos as grandes crises de nosso tempo: colapso ambiental massivo em escala global, além da enorme disfunção social e política dele derivada. Precisamos de ferramentas e de uma visão clara de outras possibilidades para a cura de ecossistemas, de sistemas sociais e indivíduos, bem como de estratégias de organização, criação de redes e enfrentamento do poder. Baseando-se em sua ficção visionária e em décadas de trabalho dedicados à permacultura, ao ativismo e à espiritualidade centrada na Terra, Starhawk sugere como podemos levar adiante essa mudança.<hr/>ABSTRACT Indigenous cultures and ancient European and Middle Eastern earth-based spiritual traditions see the world as relational, as a web of interconnected life. That consciousness furnishes key understandings for approaching the great crises of our time: massive environmental on a global scale, and the massive social and political dysfunction that drives it. To heal, we need. We need tools and a clear vision of other possibilities for healing both ecosystems, social systems and individuals, and we need strategies for organizing, networking, and confronting power. Starhawk draws on her visionary fiction, and her decades of work in permaculture, activism, and earth-based spirituality to suggest how we can make this shift. <![CDATA[Fora do que se acredita existir: a Terra em perspectiva multidimensional]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0020-38742018000100066&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt RESUMO O que devem os intelectuais pensar hoje das religiões loucas, “irracionais”? E de que maneira a antropologia se faz necessária para que se alcance essa compreensão? Aborda-se tais perguntas à luz do caso de Barbara Marciniak, outrora uma popular médium ou “canal” de espíritos ligada à Nova Era, considerando o que ela concebe como extraterrestres das Plêiades. A partir de uma análise de sua concepção de pensamento, opta-se por uma “antropologia de conceitos” que se concentra nas partes do pensamento de Marciniak que divergem do pensamento moderno.<hr/>ABSTRACT What should intellectuals make of mad, “irrational” religion today? And in what way is anthropology needed to reach that understanding? These questions are addressed apropos of the case of Barbara Marciniak, a once-popular New Age spirit medium, or “channel,” for what she conceives of as extraterrestrials from the Pleiades. An examination of her conception of thought leads to an approach called “the anthropology of concepts”, which focuses on the parts of Marciniak’s thinking that diverge from modern thought. <![CDATA[Natureza incomum: histórias do antropo-cego]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0020-38742018000100095&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt RESUMO O aumento do consumo de minerais e energia levou a uma destruição sem precedentes do que conhecemos como natureza e dos recursos a ela associados, geralmente localizados em territórios habitados por grupos indígenas que reagem politicamente a essa destruição, somando forças com movimentos que protestam contra a devastação do meio ambiente. Conceituando uma política radicalmente diferente como “natureza incomum”, a autora apresenta o que chama de “antropo-cego”: um processo de criação de mundo por meio do qual mundos heterogêneos que não se fazem com uma divisão entre humanos e não humanos são obrigados a operar com essa distinção, ao mesmo tempo que a excedem.<hr/>ABSTRACT Increasing consumption of minerals and energy has led to an unprecedented destruction of what we know as nature and natural resources, usually located in territories inhabited by indigenous groups who respond politically to this destruction, joining movements that protest the destruction of the environment. Conceptualizing a radically different politics as “uncommoning nature”, the author presents what she calls the “anthropo-not-seen”: a worldmaking process through which heterogeneous worlds that do not make themselves through the division between humans and nonhumans are both obliged into that distinction and exceed it. <![CDATA[A planta redescoberta: um relato do encontro da ayahuasca com o povo Yudjá]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0020-38742018000100118&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt RESUMO Oferecendo-se mais como uma fala do que um artigo, este texto é um relato etnográfico sobre um movimento de recriação do xamanismo que tem animado o povo Yudjá nos últimos cinco anos e que foi deslanchado por seu encontro com a ayahuasca. A fim de desdobrar o meu próprio encontro com esse encontro, procuro criar uma vizinhança ou afinidade entre o movimento Yudjá, o conceito deleuze-guattariano de agenciamentos e certos movimentos que animam a ecosofia guattariana e as cosmopolíticas stengersianas.<hr/>ABSTRACT More a speech than an article, this text is an ethnographic account of a movement to recreate shamanism that has animated the Yudjá people in the last five years and which was triggered by their encounter with ayahuasca. In order to unfold my own encounter with this encounter, I seek to create a proximity or affinity between the Yudjá movement, the Deleuze-guattarian concept of assemblages, and some dimensions of Félix Guattari’s ecosophy and Isabelle Stengers’ cosmopolitics. <![CDATA[Entrevivendo em suspensão]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0020-38742018000100137&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt RESUMO Inspirado pelo trabalho etnográfico com mergulhadores profissionais, cujas habilidades e tecnologia são relevantes para o modo como astronautas treinam na terra e sobrevivem no espaço sideral, este artigo teoriza sobre o que significa para humanos viver em suspensão. Eu argumento que encontros científicos com ambientes extraterrestres são marcados pela coexistência de tropos de superfície e suspensão, que falam de modos contrastantes de corporizar e conceber vida extrema. O contraste entre os tropos de superfície e suspensão ressoa profundamente com, sugiro, alguns dos desafios que os extremófilos - organismos que vicejam em ambientes extremos - apresentam para visões neodarwinistas de evolução. Eu concluo salientando as relações emaranhadas entre sentir e pensar que existem na conceitualização de relações ambientais.<hr/>ABSTRACT Inspired by ethnographic work with professional scuba divers, whose skills and technology are relevant to how astronauts train on earth and survive in outer space, this article theorizes about what it means for humans to live in suspension. I argue that scientific encounters with extra-terrestrial environments are marked by the co-existence of surface and suspension tropes that speak of contrasting ways of embodying and conceiving extreme life. The contrast between surface and suspension tropes resonates profoundly with, I suggest, some of the challenges that extremophiles - organism that thrive in extreme environments - present for Neo-Darwinian views on evolution. I conclude by stressing the entangled relationship between feeling and thinking that exists in the conceptualisation of environmental relations. • <![CDATA[Sobre a vida multiespécie]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0020-38742018000100159&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt RESUMO O artigo a seguir apresenta uma discussão sobre a ideia de uma vida multiespécie, através de dois passos. O primeiro deles se refere a um questionamento do dispositivo antropocêntrico que opera no pensamento antropológico, discutindo seu processo recorrente de delimitação da vida humana como uma vida qualificada, política, em detrimento da vida animal como desqualificada, mecânica. O segundo passo indica elementos constitutivos de um pensamento ecológico que não se subordina ao tipo de reducionismo presente na oposição clássica entre cultura e natureza. A partir desses dois passos, o termo multiespécie é discutido em função do diagnóstico do esgotamento do aparato conceitual fundado no exclusivismo do humano e na ideia da natureza como um pano de fundo para as ações humanas.<hr/>ABSTRACT The following article discusses the idea of a multispecies life in two steps. The first of them addresses the anthropocentric device that operates in anthropological thinking, discussing its recurrent process of delimiting human life as a qualified, political life, in detriment of animal life as disqualified, mechanical. The second step indicates constitutive elements of an ecological thinking that is not subordinated to the type of reductionism present in the classical opposition between culture and nature. From these two steps, the concept of “multispecies” is discussed in terms of the diagnosis of the exhaustion of the conceptual apparatus based on the exclusivism of the human and the idea of nature as a background for human actions. <![CDATA[Macacos também choram, ou esboço para um conceito ameríndio de espécie]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0020-38742018000100179&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt RESUMO Este artigo discute parte das práticas de conhecimento relativas aos animais e à caça de macacos entre os Guajá, considerando o processo de destruição de seus territórios. O artigo explicita conexões feitas e refeitas continuamente, em um regime que relaciona humanos e animais, sem, no entanto, recorrer à ideia de que caça e criação seriam formas complementares de relação com os animais. Sugiro que as maneiras como humanos e bugios vivem juntos talvez encontre aqui outra forma de pensar a própria ideia de “espécie”. O desafio a mais do artigo está em refletir, a partir dessa “noção indígena de espécie”, como poderíamos pensar outros fenômenos, por exemplo, o surto de febre amarela experimentado no Sudeste brasileiro no ano de 2017.<hr/>ABSTRACT This article explores part of the Guajá knowledge practices related to animals and to the hunting of howler monkeys, considering the ongoing process of their territory destruction. The article puts forward the connections, constantly done and undone, in a regime that relates humans and animals in many ways. There is no intention, however, to appeal to the idea that hunting and nurturing would be complementary ways of relating to animals. The challenge of understanding revealed by the ways that humans and monkeys live together, may point to an alternative form to think the very concept of “species”. The extra challenge of this article is to explore, from this “notion of species”, how could we think other phenomena, such as, for instance, the yellow fever burst experienced in the southeast Brazil in 2017. <![CDATA[Botos bons, peixes e pescadores: sobre a pesca conjunta em Laguna (Santa Catarina, Brasil)]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0020-38742018000100205&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt RESUMO Em Laguna (Santa Catarina, Brasil), pescadores artesanais e golfinhos-nariz-de-garrafa desenvolvem formas peculiares de pescar juntos. “Botas boas” e “botos bons” (como são conhecidos os animais que participam da pesca) conduzem cardumes de tainhas em direção aos pescadores, sinalizam a localização dos peixes e o momento certo de lançar as tarrafas. Este artigo apresenta uma descrição geral dessa pesca, abordando as relações entre botos, pescadores e peixes, os conhecimentos dos pescadores sobre os golfinhos, a comunicação entre eles, bem como a coaprendizagem e o desenvolvimento interespecífico de habilidades entre botos e pescadores.<hr/>ABSTRACT In Laguna (Santa Catarina, Brazil), artisanal fishermen and bottlenose dolphins have developed peculiar ways of fishing together. “Good dolphins” (as the animals that are involved in fishing are known) lead schools of mullets to the fishermen and signal the location of the fish and the timing for throwing the nets. This article presents a general description of this fishing, exploring the relations among dolphins, fishermen and fish, the fishermen’s knowledge about dolphins, the communication between them, as well as the co-learning and the interspecific development of skills among dolphins and fishermen. <![CDATA[Neurobiologia das plantas: uma perspectiva interespecífica sobre o debate]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0020-38742018000100226&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt RESUMO Este trabalho apresenta um balanço do debate ocasionado pelas ideias suscitadas nas ciências das plantas com o advento da neurobiologia das plantas, destacando, a partir das tensões geradas entre diferentes grupos de cientistas, os elementos do que Hustak &amp; Myers (2012) chamam de uma “narrativa mais rica”, além do enfoque redutivo da biologia contemporânea sobre células e genes, ou de uma lógica evolucionista neodarwiniana, e com maior atenção ao organismo e seus modos de relação. Uma narrativa que também dê conta da maneira como as plantas se expressam e permita desvelar os emaranhados nos quais plantas e cientistas estão envolvidos. Inspirada nas ideias introduzidas no campo interespecífico pelas etnografias multiespécies, a hipótese que se coloca é a de que essas tensões, sozinhas ou combinadas, sugerem modos de acessar a perspectiva das plantas.<hr/>ABSTRACT This paper presents a balance of the debate caused by the ideas raised in plants sciences with the advent of plants neurobiology, highlighting from the tensions generated between different groups of scientists the elements of what Hustak &amp; Myers (2012) call a “richer narrative”, beyond reductive focus of contemporary biology on cells and genes, or a neodarwinian evolutionary logic, and with greater attention to the organism and modes of relation. A narrative that also accounts for the way plants express themselves and reveal the entanglements in which plants and scientists are involved. Inspired by the ideas introduced in the interspecific field by the multispecies ethnography, the hypothesis is that these tensions, alone or in combination, suggest ways of accessing the perspective of the plants. <![CDATA[Por uma antropologia do entre: reflexões sobre um novo e urgente descentramento do humano]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0020-38742018000100250&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt RESUMO Neste artigo pretende-se refletir sobre problemas de antropologia contemporânea visando a ressituar o objeto da disciplina (o humano e suas relações) face às crescentes ameaças ecológicas do presente e do futuro desse presente. Tais problemas apontam para um novo descentramento do humano em relação ao cosmos, o que implica repor a pergunta sobre quem ou o que mesmo descrevemos em nossas etnografias. A realidade humana será a realidade do humano? O desafio é o de encarar o fundamento inerentemente antropocêntrico da antropologia (como, de resto, das ciências sociais e das humanidades) como condição para engendrarmos descrições mais realistas que respondam a esse descentramento e abram passagem a abordagens que permitam reconhecer novas coalizões políticas (se não melhor, cosmopolíticas) que apontem para continuidades entre humanos e seus mundos, conforme indica parte importante do pensamento contemporâneo.<hr/>ABSTRACT This article seeks to reflect on questions related to contemporary anthropology, or anthropology in contemporaneity, in order to resituate the object of the discipline (the human and its relations) in the face of the increasing ecological threats of the present and its future. Such problems indicate a new decentering of the human in relation to the cosmos, which implies going back to the question of who or what we describe in our ethnographies.? The challenge here is to face the inherently anthropocentric foundation of anthropology (as well as of the social sciences and the humanities) as a condition for engendering more realistic descriptions that can respond to this decentering, and that can open the way to approaches that allow us to recognize new political (or, rather, cosmopolitical) coalitions that highlight continuities between humans and their worlds, which a significant part of contemporary thought. <![CDATA[Virtualidade e equivocidade do ser nos xamanismos ameríndios]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0020-38742018000100267&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt RESUMO O presente artigo pretende explorar alguns aspectos dos problemas da tradução e da variação ontológica nos estudos dos xamanismos ameríndios, em especial no que se refere à maneira pela qual têm sido pensadas as conexões e limites do humano pela escrita etnográfica. Para tanto, o artigo revisa alguns dos pressupostos relacionados ao uso da noção de ontologia na teoria antropológica, tendo em vista discutir os dilemas relacionados à tradução das cópulas predicativas e suas consequências para a compreensão dos regimes xamanísticos de conhecimento, assentado em configurações virtuais.<hr/>ABSTRACT This article discusses the relationships between ontological variation, translation and the study of Amerindian shamanism and its conceptions of human extensions and connections. Revising some aspects of the anthropological use of the notion of ontology, the article explores some ethnographic translations of copular verbs and its consequences for the undestanding of shamanistic virtual regimes of knowledge. <![CDATA[O dia em que virei índio - a identificação ontológica com o outro como metamorfose descolonizadora]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0020-38742018000100289&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt RESUMO Este texto combina reflexões sobre as dificuldades encontradas em meu trabalho etnográfico junto à Fundação Cacique Cobra Coral, em especial no que diz respeito a transformações na forma como a alteridade foi vivida ao longo do processo etnográfico, com críticas de antropólogos indígenas à antropologia e suas práticas, de modo a fazer com que elementos da pesquisa etnográfica iluminem, na medida do possível, dimensões pouco compreendidas das referidas críticas. O texto então busca oferecer algumas reflexões sobre os impactos do aparecimento de todo um contingente de antropólogos declaradamente “animistas” dentro de um contexto em que a antropologia tacitamente reproduz, em algumas de suas práticas, o naturalismo materialista das ciências ditas “duras”.<hr/>ABSTRACT This text combines reflections on the challenges encountered by me in my ethnographic work with the Cacique Cobra Coral Foundation, in special in what concerns the transformation in the way alterity was experienced throughout the ethnographic process, with criticisms made by indigenous anthropologists to anthropology and its practices, with the goal of making elements of the ethnographic research illuminate, as much as possible, uncomprehended dimensions of the mentioned criticisms. The text then offers some reflections on the impacts of the appearance of the whole contingent of self-declared “animist” anthropologists, in a context in which anthropology tacitly reproduces, in some of its practices, the materialistic naturalism of the so called “hard” sciences. <![CDATA[Culpa e cuidado no candomblé baiano]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0020-38742018000100307&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt RESUMO O objetivo principal deste artigo é discutir a inadequação de certos conceitos “nossos” para a descrição de realidades ancoradas em outras premissas. Após afirmar que, inicialmente, a preocupação constante da maioria dos filhos de santo que conheci com o risco de serem vitimados por algum feitiço me soava como paranoia, demonstro como essa noção está atrelada ao que o etnopsiquiatra Tobie Nathan denominou “sociedade de universo único” e é, portanto, inoperante no candomblé baiano. Ao final do artigo sugiro, com base em diversas situações vivenciadas durante a pesquisa de campo, que o termo “prevenção” é um descritor mais adequado para aquilo que eu, inicialmente, classificara como “paranoia”.<hr/>ABSTRACT My aim in this paper is to discuss how inadequate some of “our” concepts are to describe other realities, based on different assumptions. The constant worries that my friends in candomblé had about the risk of becoming victims of sorcery initially sounded to me as a paranoid behavior. Thus, I try to show that the notion of paranoia has to do with “single universe societies”, in the distinction proposed by ethnopsychiatrist Tobie Nathan. At the end of my paper, based on situations I experienced throughout my field research, I suggest that the term “prevention” would be a fitter description for the phenomenon I, at first, had classified as “paranoia”. <![CDATA[O feitiço e a feitiçaria capitalista]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0020-38742018000100324&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt RESUMO Parece ser comum aos pesquisadores da área a percepção de que o Alto Xingu, conjunto multilíngue de povos que habitam a região dos formadores do rio Xingu, vem passando por mudanças significativas associadas ao aumento do afluxo de dinheiro e bens industrializados ao longo da última década ou mais. O que segue é uma tentativa preliminar de formular uma hipótese sobre um aspecto particular desse contexto - a questão de se há uma relação, e qual, entre essas mudanças e a feitiçaria - com base na etnografia dos Aweti, povo tupi xinguano. Resistir à tentação de achar que nós sabemos melhor do que eles o que está acontecendo, e que sabemos o que é melhor para eles, é também compreender qual a forma, ou uma das formas, que a resistência à captura capitalista pode tomar em seu mundo.<hr/>ABSTRACT The perception that the Upper Xingu, a multi-linguistic community of indigenous peoples that inhabit the upper reaches of the Xingu river, is going through significant chances associated to the increasing flux of money and manufactured goods over the last decade or more seems to be shared by many researchers working on the area. What follows is a preliminar hypothesis about a particular aspect of this context - the issue of a possible relation between these chances and indigenous sorcery - based on the ethnography of the Aweti, a tupi speaking xinguano people. To resist the temptation to think that we know better them themselves what is going on, and that we know what is best for them, is also to understand what forms the resistance to capitalist capture can take in their world. <![CDATA[Reativar a feitiçaria e outras receitas de resistência - pensando com Isabelle Stengers]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0020-38742018000100338&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt RESUMO Este ensaio busca explorar os sentidos de reclaim - cuja tradução oscilará entre “reativação” e “retomada” - do modo como figura em textos de envergadura mais política da filósofa da ciência Isabelle Stengers. Num diálogo constante com a escritora e ativista neopagã Starhawk, Stengers discute as possibilidades de reativar ou retomar certas práticas marginalizadas e desqualificadas pelo mundo moderno-capitalista - como a magia e a feitiçaria - vendo aí modalidades de resistência política e possibilidades de recuperação de um “comum”. O foco será lançado em dois livros de Stengers - La sorcellerie capitaliste (com Philippe Pignarre) e Au temps des catastrophes - nos quais são tematizadas receitas de resistência, que exigem práticas de “desenfeitiçamento”, bem como um alinhamento com Gaia.<hr/>ABSTRACT This essay aims to explore the meanings of the concept of reclaim, as it appears in some political writings of Isabelle Stengers, philosopher of science. In her constant dialogue with Starhawk, neo-pagan activist and writer, Stengers discusses the possibilities of reclaiming certain practices - such as magic and witchcraft - which were marginalized and disqualified by the modern-capitalist world, recognizing among them modalities of political resistance and possibilities for the recovery of a “common wealth”. This essay will focus on two books of Stengers - La Sorcellerie capitaliste (with Philippe Pignarre) and Au Temps des catastrophes - which thematize recipes of resistence, recipes that provides ways to break the spells and to produce alignments with Gaia. <![CDATA[O papel do exotismo na arte contemporânea internacional na era da globalização - um estudo empírico das revistas internacionais de arte de 1971 a 2010]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0020-38742018000100362&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt ABSTRACT In the era of globalization, the visibility of non-Western artists has become more and more important. In trying to enhance global diversity and cultural relativism, an exotic cultural form has emerged. As a result, peripheral artists can be tempted to represent their own cultural identity as a new esthetic value, but through a stereotyped image suited to Western tastes. Through the study of articles about Japanese, Chinese, and Korean artists published in international art magazines, we will look at the growth in their visibility and the development of clichés and stereotypes toward them. We will aim to discover whether a sense of exoticism generated by the mass-media, by broadcasting stereotyped images, plays an important role in determining the visibility of non-Western countries in international contemporary art.<hr/>RESUMO Na era da globalização, a visibilidade dos artistas não ocidentais tornou-se cada vez mais importante. Ao tentar melhorar a diversidade global e o relativismo cultural, surgiu uma forma cultural autêntica. Como resultado, os artistas periféricos podem ser tentados a representar a própria identidade cultural como um novo valor estético, mas através de uma imagem estereotipada adaptada ao gosto ocidental. Através do estudo de artigos sobre artistas japoneses, chineses e coreanos publicados em revistas internacionais de arte, analisaremos o crescimento de sua visibilidade e o desenvolvimento de clichês e estereótipos em relação a eles. Pretendemos descobrir se o sentimento de exotismo gerado pelos meios de comunicação de massa, através da transmissão de imagens estereotipadas, desempenha um papel importante na determinação da visibilidade dos países não ocidentais na arte contemporânea internacional. <![CDATA[D’a terra devastada à tempestade: José Paulo Moreira da Fonseca e a recepção poética de Eliot na lírica brasileira dos anos 1950]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0020-38742018000100389&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt RESUMO O marco significativo da primeira recepção, entre nós, de T. S. Eliot, seja como crítico, seja como poeta, data da geração de 45. Este artigo examina um dos momentos representativos do diálogo intertextual, em particular, com The waste land (1922): trata-se do poema “A tempestade”, do poeta-pintor José Paulo Moreira da Fonseca (1922-2004). Em virtude de seu duplo e uno ofício, Fonseca estende, ainda, o diálogo, em seu poema, ao campo das artes plásticas, por meio da écfrase, especialmente com Giorgione e Velázquez.<hr/>ABSTRACT The first reception of T. S. Eliot, whether as critic or poet, in Brazil dates from Generation of’45. This article examines one representative moment of the intertextual dialogue with The waste land (1922): it is the poem “A tempestade” (“The storm”) of the poet-painter José Paulo Moreira da Fonseca (1922-2004). Because of his double talent, Fonseca also extends the dialogue in his poem to the painting (through ekphrasis), especially with Giorgione and Velazquez. <![CDATA[Entre parceiros e companheiros: por uma releitura política de Os parceiros do Rio Bonito, de Antonio Candido]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0020-38742018000100418&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt RESUMO O marco significativo da primeira recepção, entre nós, de T. S. Eliot, seja como crítico, seja como poeta, data da geração de 45. Este artigo examina um dos momentos representativos do diálogo intertextual, em particular, com The waste land (1922): trata-se do poema “A tempestade”, do poeta-pintor José Paulo Moreira da Fonseca (1922-2004). Em virtude de seu duplo e uno ofício, Fonseca estende, ainda, o diálogo, em seu poema, ao campo das artes plásticas, por meio da écfrase, especialmente com Giorgione e Velázquez.<hr/>ABSTRACT The first reception of T. S. Eliot, whether as critic or poet, in Brazil dates from Generation of’45. This article examines one representative moment of the intertextual dialogue with The waste land (1922): it is the poem “A tempestade” (“The storm”) of the poet-painter José Paulo Moreira da Fonseca (1922-2004). Because of his double talent, Fonseca also extends the dialogue in his poem to the painting (through ekphrasis), especially with Giorgione and Velazquez.