Scielo RSS <![CDATA[Cadernos Pagu]]> http://www.scielo.br/rss.php?pid=0104-833320180002&lang=pt vol. num. 53 lang. pt <![CDATA[SciELO Logo]]> http://www.scielo.br/img/en/fbpelogp.gif http://www.scielo.br <![CDATA[Quem tem medo de Judith Butler? A cruzada moral contra os direitos humanos no Brasil]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-83332018000200400&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt <![CDATA[A “política do gênero”: um comentário genealógico]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-83332018000200401&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt Resumo Este texto reconstrói a trajetória de constituição paulatina de uma política antigênero fabricada pelo Vaticano e seus aliados no contexto das conferência das Nações Unidas dos anos 1990 e começo dos anos 2000. Também examina, de maneira breve, o papel desempenhado pela América Latina na dinâmica geopolítica que naquele momento ocorreu em torno a questões de gênero e sexualidade. <![CDATA[Exorcizando um fantasma: os interesses por trás do combate à “ideologia de gênero”]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-83332018000200402&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt Resumo A perseguição à filósofa Judith Butler em sua visita ao Brasil no final de 2017 revelou o poder do fantasma da chamada “ideologia de gênero”, um espectro que serve de eixo articulador de diferentes grupos de interesse que lutam contra o avanço dos direitos sexuais e reprodutivos. Este artigo busca identificar esses grupos e seus interesses, analisar sua aliança e a gramática política de sua atuação. O texto traz elementos históricos para retraçar a emergência da campanha contra os direitos sexuais em nosso país, assim como analisar sociologicamente as condições que permitiram sua disseminação como cruzada moral.<hr/>Abstract The persecution of philosopher Judith Butler during her visit to Brazil in late 2017 revealed the power of the ghost of the so-called “gender ideology”, a specter that serves as an articulating focus of various interest groups that struggle against the advance of sexual and reproductive rights. This article seeks to identify these groups and their interests, analyze their alliances and the political grammar of their action. The article presents historic elements to retrace the emergence of the campaign against sexual rights in Brazil and to sociologically analyze the conditions that permit its dissemination as a moral crusade. <![CDATA[The witch is loose: Protests against Judith Butler's Visit to Brazil in Light of Her Reflections on Ethics, Politics and Vulnerability]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-83332018000200403&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt Resumo O objetivo deste artigo é analisar os protestos contra a visita de Judith Butler ao Brasil, em 2017, à luz de sua própria reflexão sobre ódio, medo, violência, reconhecimento e liberdade, com especial atenção à sua obra publicada a partir da década de 2000. Minha hipótese é a de que, em sua obra recente sobre ética, o modo como Butler entrelaça reconhecimento e ação política contribui para explorarmos a relação entre a recusa da diferença na esfera pública brasileira e a invisibilidade da vulnerabilidade política de grupos e pessoas retratados como ameaças.<hr/>Abstract The purpose of this article is to analyze the protests against Judith Butler’s visit to Brazil in 2017 in the light of her own reflection on hatred, fear, violence, recognition and freedom, with special attention to her work published since the 2000s. My hypothesis is that, in hes recent work on ethics, Butler's intertwining of recognition and political agency contributes to explore the relationship between the refusal of difference in the Brazilian public sphere and the invisibility of the political vulnerability of groups and individuals portrayed as public threats. <![CDATA[Judith Butler e a pomba-gira]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-83332018000200404&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt Resumo Este texto aborda a pressão que setores conservadores vêm exercendo contra as conquistas no campo de gênero e sexualidade e comenta sobre a violência das manifestações desses grupos. A partir de experiências em pesquisa, coloca em xeque a oposição entre religiosidade e formas alternativas de vivência de sexualidade e de gênero. Pensando na teoria de Judith Butler, indaga as possíveis brechas, as possibilidades de mediação e os limites de se pensar em categorias fixas. Assinala que talvez o caminho seja o de aproximação à multiplicidade dos agentes e suas formas inauditas de agência, e à criatividade de suas poéticas que associam à religião. E defende a necessidade de torcer o pensamento, inclusive torcer a própria teoria de Butler.<hr/>Abstract This article examines the pressure that conservative sectors in Brazil continue to exercise against progress made in the fields of gender and sexuality. It also comments on the violence of these groups’ protests and rallies. Based on research experiences, the article calls the opposition between religion and alternative forms of sexuality and gender into check. Considering Judith Butler’s theories, the work examines possible openings, as well as the possibilities of mediation, and the limits of thinking in accordance with fixed categories. It also signals that the best path for considering these questions may be by drawing closer to the multiplicity of agents and their unprecedented forms of agencies, as well as the creativity of their poetics when associated with religion. Furthermore, the work defends the necessity of bending agency, including bending Butler’s own theories. <![CDATA[Necrobiopoder: Quem pode habitar o Estado-nação?]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-83332018000200405&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt Resumo Nos estudos sobre pessoas trans, travestis, população negra, mulheres, entre outras, o Estado aparece como agente fundamental que distribui de forma não igualitária o reconhecimento de humanidade. Há um núcleo de referência bibliográfica compartilhado por este campo de pesquisa. O conceito de biopoder de Michael Foucault, como técnica de governo que tem como objetivo “fazer viver, deixar morrer”, é recorrente. Quando as pesquisas se referem à violência do Estado, geralmente se aciona a noção de “soberania”, também de Foucault, em contraposição à de governabilidade (conjunto de técnicas voltadas para o cuidado da vida). Mais recentemente o conceito de necropoder de Achille Mbembe passou a compor este corpus conceitual. Este artigo sugere outro conceito: necrobiopoder. Necropoder e biopoder são termos indissociáveis para se pensar a relação do Estado com os grupos humanos que habitaram e habitam os marcos do Estado-nação. Vida vivível e vida matável, para utilizar os termos de Giorgio Agamben, são formas de gestão da população e não podem ser postas em uma perspectiva cronológica, em que o necropoder (ou poder soberano) teria sido ultrapassado pelo biopoder.<hr/>Abstract In the studies on trans-people, transvestites, black population, women, among others, the state appears as a fundamental agent that distributes in a non-egalitarian way the recognition of humanity. There is a core bibliographical reference shared by this field of research. Michael Foucault’s concept of biopower, as a government technique that aims to “to make live, to let die”, is recurrent. When the research refers to state violence, it usually triggers the notion of “sovereignty”, also by Foucault's, as opposed to governability (a set of techniques that are life-oriented). More recently Achille Mbembe’s concept of necropower has become part of this conceptual corpus. This article suggests another concept: necrobiopower. Necropower and biopower are inseparable terms for one to think about the relation of the State with the human groups that inhabited and inhabit the marks of the Nation-State. Livable life and killable life, to use the terms of Giorgio Agamben, are forms of population management and cannot be put in a chronological perspective, where the necropower (or sovereign power) would have been surpassed by biopower. <![CDATA[“Não se meta com meus filhos”: a construção do pânico moral da criança sob ameaça]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-83332018000200406&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt Resumo Nos últimos anos, empreendedores morais diversos foram responsáveis por disseminar um pânico moral contra materiais didáticos escolares, programas educacionais e exposições artísticas que incluíam a abordagem das diferenças de gênero e sexualidade. Este artigo visa analisar três episódios envolvidos nesse pânico: a reação, em 2011, contra materiais didáticos pelo enfrentamento da homofobia nas escolas, a discussão, entre 2014 e 2015, sobre planos educacionais na qual se difundiu a noção de “ideologia de gênero” e, em 2017, a perseguição a exposições e performances artísticas em Porto Alegre e São Paulo que antecedeu a vinda de Judith Butler ao Brasil. Discutirá como a formação do pânico moral dependeu do recurso discursivo estratégico de transformar iniciativas que visassem promover avanços aos direitos sexuais em ameaça às crianças.<hr/>Abstract In recent years, diverse moral entrepreneurs have been responsible for disseminating a moral panic against school teaching materials, educational programs and art exhibitions that addressed gender differences and sexuality. This paper aims to analyze three episodes involved in panic: the reaction, in 2011, against teaching materials for confronting homophobia in schools; the discussion, that happened between 2014 and 2015, on educational plans in which the notion of "gender ideology" was disseminated; and, in 2017, the persecution to exhibitions and artistic performances in Porto Alegre and São Paulo that preceded the arrival of Judith Butler to Brazil. We will discuss how the building of moral panic depended on the strategic discursive resource of transforming initiatives that aimed to promote advances in sexual rights in a threat to children. <![CDATA[“Joga pedra na Judith”: discursos de ódio e populismo]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-83332018000200407&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt Resumo O objetivo deste artigo é tentar apontar uma possível ligação entre as hostilidades sofridas por Judith Butler no Brasil e uma captura dessas manifestações conservadoras por movimentos políticos. Minha hipótese é a de que um novo populismo pode estar em formação. Nesse sentido, o artigo dialoga com teorias do populismo no Brasil e no atual contexto internacional. O trabalho de Butler serve também como pano de fundo para uma reflexão da política populista e de como os ataques a direitos sexuais e reprodutivos servem de combustível para alimentar forças autoritárias com grande apelo às massas.<hr/>Abstract The aim of this paper is to try to point out a possible link between the hostilities suffered by Judith Butler in Brazil and a capture of these conservative demonstrations by political movements. My hypothesis is that a new populism may be in the making. In this sense, the article dialogues with populism theories in Brazil and in the current international context. Butler’s work also serves as a backdrop for a reflection of populist politics and how attacks on sexual and reproductive rights serve as fuel to power authoritarian forces with great appeal to the masses.