Scielo RSS <![CDATA[Scientiae Studia]]> http://www.scielo.br/rss.php?pid=1678-316620140002&lang=pt vol. 12 num. 2 lang. pt <![CDATA[SciELO Logo]]> http://www.scielo.br/img/en/fbpelogp.gif http://www.scielo.br <![CDATA[<b>Editorial</b>]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1678-31662014000200001&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt <![CDATA[<b>Virada animal, virada humana</b>: <b>outro pacto</b>]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1678-31662014000200002&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt Este artigo foi composto a partir da comunicação apresentada no Ciclo de conferências "Humanos e animais: os limites da humanidade", promovido pelo IEA/USP. Já bastante modificado desde então, o texto incorpora ainda comentários de interlocutores de diferentes áreas ou perspectivas de conhecimento, de modo a explicitar tanto as dificuldades quanto o caráter promissor de tais esforços interdisciplinares. No mesmo passo, as reflexões do artigo emergem do exame de uma bibliografia heterogênea, mas que, conforme o tratamento aqui despendido, converge para a urgência contemporânea de se conceber e praticar um outro pacto entre os humanos modernos e os animais, sem o qual o próprio humanismo ver-se-á ameaçado. Para outro humanismo, outra natureza insiste em pedir passagem.<hr/>This article was composed from a communication presented in the cycle of conferences "Humans and animals: the limits of humanity", promoted by IEA/USP. Amply modified since then, the text incorporates commentaries of interlocutors from different areas or perspectives of knowledge, so as making explicit both the difficulties and the promising character of such interdisciplinary efforts. In the same time, the reflections of the article emerge from the use of a heterogeneous bibliography, but that, in conformity with the treatment here used, converges to the contemporary urgency of conceiving and practicing another pact between modern humans and the animals. Without this pact humanism itself will be menaced. For other humanism, another nature insists in asking its place. <![CDATA[<b>Politics and animal life</b>: <b>the analogy of the good government</b>]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1678-31662014000200003&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt Aristóteles sostiene que los animales no requieren un monarcon con poderes arbitrarios para gobernarse, como tampoco lo requiere una ciudad bien gobernada. Con ello inaugura una analogía entre la vida animal y la vida política. Examinando algunos textos de él y de filósofos posteriores (Vitoria, Locke, Condillac y Rousseau), se constata que la analogía tiene continuidad y que se complementa con nociones modernas, como la de soberanía e interés. Aplicado por Condillac a los animales, el interés es entendido como una guía que orienta la vida de los animales, y no sólo como un "instinto" conducente a obtener alimentación y reproducción. Asimismo, la capacidad de movimiento de algunos animales requiere algún grado de conciencia de sí, del entorno y de la propia posibilidad de muerte. El conjunto lleva a que es difícil hablar de lo político sin una analogía con la vida animal o viceversa y a que dicha analogía obligaría reconocer derechos a los animales, tal como se constata ya en la jurisprudencia y en algunos textos jurídicos.<hr/>Aristote maintains that, in order to govern themselves, animals need neither a monarcon with arbitrary powers, nor a well governed city. With this assessment he establishes an analogy between animal life and political life. Following analysis of some of his and later philosophers' (Vitoria, Locke, Condillac, and Rousseau) texts, we can affirm that this analogy has displayed continuity and that it is complemented with some modern concepts, such as those of sovereignty and interest. Applied by Condillac to animals, the concept of interest is understood as a guide that orientates their life, and not only as an "instinct" conducive to obtaining food and enabling reproduction. Likewise, the capacity of movement of some animals requires a certain degree of consciousness of self, of the environment and of the possibility of their own death. The ensemble shows that it is hard to talk about the political without an analogy with the animal life, and vice versa; and that the analogy would support the obligation to recognize rights of animals, as already some courts have decided and as can be found in some legal texts. <![CDATA[<b>Animalidade transcendental</b>: <b>o problema da naturalização do <i>a priori</i> em Konrad Lorenz</b>]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1678-31662014000200004&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt Um dos aspectos característicos da fundamentação epistemológica da etologia de Konrad Lorenz é a tentativa de síntese entre a teoria darwiniana e a gnosiologia kantiana. A partir dessa premissa, delinearemos, antes de tudo, uma breve história da tradição transcendentalista, focalizando a atenção em alguns elementos que seus críticos consideraram insustentáveis. Em segundo lugar, analisaremos a tentativa de Lorenz de implantar a estrutura transcendental em suas pesquisas etológicas, com uma consequente naturalização do conceito de "a priori". Em terceiro lugar, veremos como a atribuição de a priori próprios das espécies particulares abre a possibilidade de interpretar a epistemologia de Lorenz de duas maneiras distintas, aparentemente conflitantes. Finalmente, preferiremos uma dessas interpretações e mostraremos como ela permite o entendimento das distintas modalidades de conhecimento animal e humano.<hr/>One of the main features of Konrad Lorenz's epistemological foundation of ethology is the attempt of synthesis between Darwinian theory and Kantian gnosiology. Starting from this premise I will outline, first of all, a brief history of transcendentalist tradition, focusing attention on some elements that its critics have regarded as untenable. Secondly, I will analyze Lorenz's attempt to implant the transcendental structure in his ethological researches as being a consequence of the naturalization of the concept of "a priori". Thirdly, I will see how the attribution of a priori proper to single species opens the possibility of interpreting the epistemology of Lorenz in two apparently conflicting ways. Finally, I will prefer one of these interpretations and I will show that it enables us to understand the distinct modalities of animal and human knowledge. <![CDATA[<b>Primatologia, culturas não humanas e novas alteridades</b>]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1678-31662014000200005&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt De modo semelhante aos rompantes etnocêntricos de uma cultura humana frente a outras, as relações entre humanos e primatas não humanos incluem um estranhamento pontuado por atração e repulsa, identificação e diferença. Ciência, arte e mitologia são a expressão viva e atualizada disso. Desde 1960, a primatologia destaca-se nesse cenário por contribuir significativamente na revisão das definições sobre o comportamento dos primatas e, consequentemente, na redefinição do humano ao apresentar a polêmica proposição de existência de "culturas" entre animais não humanos. Assim, a aproximação entre humanos e primatas não humanos parece inexorável e irreversível. Isso implica, por exemplo, em cogitar se esse processo engendra, ou não, a constituição de novas alteridades a partir de um novo outro (não humano), carregado de significados. Isso incluiria, por exemplo, a reformulação de representações e de categorias de classificação, bem como o aprofundamento do debate sobre os direitos dos animais não humanos. Ao dirigir tal tipo de desafio a situações de pesquisa antropológica deve-se ter aguda consciência de que o registro etnográfico das relações entre humanos e os outros primatas será uma construção empírica, perceptual e teórica. Dado o tipo particular de relação estabelecida entre humanos e outros primatas, pautada em um universo fronteiriço de incômodas semelhanças e diferenças, constituem-se aí coletivos híbridos em que o alcance e a profundidade das interações possíveis ainda são desconhecidos.<hr/>The relations between humans and non-human primates resemble the ethnocentric reaction of one human culture in relation to others, and include an estrangement marked by attraction and rejection, identification and differentiation. Art, science and myths are the vivid and updated expression of these phenomena. Since the 1960's primatology stands out in that scenario for contributing significantly to the revision of the definitions about the behavior of primates and, consequently, for the redefinition of human beings, and for making the controversial proposal of the existence of non-human animal "cultures". Then, the close connection between humans and non-human primates seems relentless and irreversible - and raises the question on whether or not these processes engender a new kind of otherness deriving from a non-human other that is full of meaning. This would include, for example, the reformulation of the representations and categories of classification, as well as deepening the debate about the rights of non-human animals. When the challenge is taken up in situations of anthropological research that address the relationships between human beings and the other primates, the ethnographic register that describes the relations between human beings and other primates will be an equally sharp empirical, perceptual and theoretical construction. Given the peculiar type of relationship established between human beings and other primates, implemented in a frontier universe of uncomfortable similarities and differences, they constituted a hybrid collective where interactions are possible but we do not know exactly how complex or how depth they are. <![CDATA[<b>Of humans and lich</b><b>ens</b>]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1678-31662014000200006&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt La versión estadística del concepto de naturaleza humana sigue siendo un concepto central en muchas ramas de las ciencias humanas. La clave del concepto es que existe un núcleo de fenotipos específicos que caracteriza a las especies biológicas, incluyendo la nuestra. Llamo a esta perspectiva esencialismo estadístico. Voy a sugerir que la tipicidad y la uniformidad fenotípica se consideran supuestos legítimos en muchas ciencias humanas, ya que el desarrollo biológico se interpreta como un proceso inherentemente conservador que utiliza sólo recursos endógenos, mientras que la evolución se interpreta como un proceso de normalización que destruye la variación fenotípica. Llamo a esta visión perspectiva homeostática. Voy a criticar la perspectiva homeostática presentando argumentos apoyados en consideraciones teóricas y empíricas. En particular, voy a destacar dos prejuicios anacrónicos que se encuentran en el corazón de la perspectiva homeostática: en primer lugar, su visión monomórfica de las especies, así como su visión monoorganísmica y monogenómica del organismo; en segundo lugar, su compromiso con una visión causal endógena del desarrollo. Finalmente voy a argumentar que el esencialismo estadístico es problemático porque respalda los mismos prejuicios monistas y endógenos que caracterizan la perspectiva homeostática. Parafraseando a Margulis y Sagan, los científicos pueden engañarse fácilmente al descuidar la investigación sobre la diversidad humana y la plasticidad del desarrollo.<hr/>A statistical version of the concept of human nature remains a major foundational concept in many branches of the human sciences. The kernel of the concept is that there exists a core of species-specific phenotypes that characterises biological species, including ours. I call this view statistical essentialism. I will suggest that phenotypic typicality and uniformity are considered legitimate assumptions in many human sciences because biological development is interpreted as an inherently conservative process utilising only endogenous developmental resources, while evolution is interpreted as a normalizing process destroying phenotypic variation. I call this view homeostatic perspective. I will criticise the homeostatic perspective by presenting arguments supported by both theoretical considerations and empirical evidence. In particular, I will emphasise two anachronistic biases at the heart of the homeostatic perspective: first, its mono-morphic view of species as well as mono-organismic and mono-genomic view of the organism; secondly, its commitment to an endogenous view of developmental causation. I will finally argue that statistical essentialism is problematic because it endorses the same monistic and endogenous prejudices characterising the homeostatic perspective. Paraphrasing Margulis and Sagan, human scientists can easily fool themselves by neglecting research on human diversity and developmental plasticity. <![CDATA[<b>A ruptura articulatória dos seres</b>: <b>a propósito da exposição da vida à dispersão da sua ontologia</b>]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1678-31662014000200007&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt Este artigo trata da possibilidade de renovar o entendimento da eugenia no mundo contemporâneo. A biologia e a genética são fontes científicas da eugenia, mas não fazem parte de seu núcleo filosófico. Essa é a razão pela qual vemos a ontologia subjacente à eugenia como nossa principal preocupação. O estatuto da eugenia como uma prática está mudando rapidamente e a vida é tanto o objeto como a dimensão oculta dessa mudança. Entendida por meio da história dos seres, a dispersão da ontologia permite um entendimento renovado tanto da humanidade quanto da animalidade. Como se pode entender que uma ciência completamente reconhecida no início do século XX se tenha tornado uma prática silenciosa no século XXi? A disseminação das novas técnicas genéticas e a discrição atual acerca da eugenia parecem estar ligadas ao avanço de sua reabilitação. Ainda estamos em um estágio inicial de nosso entendimento da genética humana. Não há razão para pensar que esse conhecimento não será explorado pela eugenia. A plasticidade de nossa condição humana encontra nisso uma de suas possibilidades.<hr/>This article is about the possibility of renewing the understanding of eugenics in contemporary world. Biology and genetics are scientific resources of eugenics, but they are not alone at its philosophical core. This is the reason why we regard the ontology behind eugenics as our main concern. The status of eugenics as a practice is rapidly changing, and life is both the object and the hidden dimension of this change. Understood through the history of being(s), ontology's dispersion allows a renewed understanding of both humanity and animality. How can we understand that a fully recognized science at the beginning of the twentieth century became a silent practice of the twenty-first century? The dissemination of new genetic techniques and today's discretion with respect to eugenics appear to be connected within steps towards its rehabilitation. We are still at an early stage of our understanding of human genetics. There's no reason to think that such knowledge will not be explored through eugenics. After all, the plasticity of our human condition finds in it one of its possibilities. <![CDATA[<b>Valsa para carrapatos</b>]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1678-31662014000200008&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt Este artigo trata da possibilidade de renovar o entendimento da eugenia no mundo contemporâneo. A biologia e a genética são fontes científicas da eugenia, mas não fazem parte de seu núcleo filosófico. Essa é a razão pela qual vemos a ontologia subjacente à eugenia como nossa principal preocupação. O estatuto da eugenia como uma prática está mudando rapidamente e a vida é tanto o objeto como a dimensão oculta dessa mudança. Entendida por meio da história dos seres, a dispersão da ontologia permite um entendimento renovado tanto da humanidade quanto da animalidade. Como se pode entender que uma ciência completamente reconhecida no início do século XX se tenha tornado uma prática silenciosa no século XXi? A disseminação das novas técnicas genéticas e a discrição atual acerca da eugenia parecem estar ligadas ao avanço de sua reabilitação. Ainda estamos em um estágio inicial de nosso entendimento da genética humana. Não há razão para pensar que esse conhecimento não será explorado pela eugenia. A plasticidade de nossa condição humana encontra nisso uma de suas possibilidades.<hr/>This article is about the possibility of renewing the understanding of eugenics in contemporary world. Biology and genetics are scientific resources of eugenics, but they are not alone at its philosophical core. This is the reason why we regard the ontology behind eugenics as our main concern. The status of eugenics as a practice is rapidly changing, and life is both the object and the hidden dimension of this change. Understood through the history of being(s), ontology's dispersion allows a renewed understanding of both humanity and animality. How can we understand that a fully recognized science at the beginning of the twentieth century became a silent practice of the twenty-first century? The dissemination of new genetic techniques and today's discretion with respect to eugenics appear to be connected within steps towards its rehabilitation. We are still at an early stage of our understanding of human genetics. There's no reason to think that such knowledge will not be explored through eugenics. After all, the plasticity of our human condition finds in it one of its possibilities.