Scielo RSS <![CDATA[Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas]]> http://www.scielo.br/rss.php?pid=1981-812220160001&lang=es vol. 11 num. 1 lang. es <![CDATA[SciELO Logo]]> http://www.scielo.br/img/en/fbpelogp.gif http://www.scielo.br <![CDATA[Carta do Editor]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-81222016000100005&lng=es&nrm=iso&tlng=es <![CDATA[Dinâmicas das agriculturas amazônicas]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-81222016000100013&lng=es&nrm=iso&tlng=es <![CDATA[Spatial and professional mobilities of two generations of family farmers in the eastern Amazon]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-81222016000100017&lng=es&nrm=iso&tlng=es Resumo A mobilidade social de agricultores familiares em áreas de frentes pioneiras da Amazônia, durante muitos anos, esteve associada à migração geográfica, em busca de uma terra para trabalhar. O afastamento cada vez mais importante das terras, a modernização do comportamento dos jovens e o aumento do nível médio de estudo implicaram mudanças importantes nestas estratégias, uma vez que os agricultores preferem atingir a mobilidade social por meio dos estudos escolares e da migração para a cidade. Se esses dados são conhecidos, a quantificação do fenômeno (em particular, com questionários biográficos) no caso de três assentamentos da Amazônia oriental e a diferenciação interna ao grupo dos agricultores (segundo o tipo de família e o lugar de moradia) constituem as principais inovações deste artigo.<hr/>Abstract This article is about the new patterns of migration among farmer families in the eastern Amazon. These patterns were commonly framed as a strategy of social mobility, where moving was a way to acquire land. However, recent studies have shown that migration drivers are evolving because of social modernization and the rise of educational standards. While farmer families’ new strategies are well known, such as investing in education and moving to cities, little attention has been given to their quantification. By examining three “projetos de assentamento” (settlement projects) in the eastern Amazon, we wish to highlight the diversity of strategies that are used, and examine the way they relate to existing geographical and social settings. <![CDATA[Local knowledge and practices of guarana producers (<em>Paullinia cupana</em> Kunth var. <em>sorbilis</em>) on the middle Amazon: two grassroots organizations confronting innovation]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-81222016000100033&lng=es&nrm=iso&tlng=es Resumo O guaraná (Paullinia cupana Kunth var. sorbilis) é uma planta nativa da Amazônia, conhecida mundialmente por suas propriedades estimulantes. Desde 1974, um processo de modernização dos sistemas de cultivo vem sendo difundido na região por agroindústria monopolista e por empresa de pesquisa agropecuária. Isso se traduziu na difusão de pacotes tecnológicos modernizantes, visando ao aumento da produtividade agrícola. Manejada e consumida originalmente pelos indígenas Sateré-Mawé, o produto vem perdendo vínculo com seu território de origem, o que estimulou, a partir dos anos 1990, a busca por alternativas de valorização da procedência e do modo de produção de base familiar e agroecológica. A pesquisa, realizada com produtores de duas organizações locais do baixo Amazonas, buscou revelar suas inciativas de reterritorialização da produção, suas práticas de manejo e conservação in situ da planta, e suas reações à difusão de formas inovadoras de produção e de inserção no mercado. Partindo-se da hipótese da existência de uma dinâmica funcional diferente em cada organização, identificamos que as relações dos produtores com o mercado, com a proteção do conhecimento tradicional e com a própria planta evoluíram em trajetórias sócio-históricas distintas, as quais resultaram em diferentes sistemas de referências socioculturais, ecológicas e tecnológicas.<hr/>Abstract Guarana (Paullinia cupana Kunth var. sorbilis) is a native plant of the Amazon, known worldwide for its stimulant properties. Since 1974, a process of modernization of farming systems has been widespread in the region by monopolistic agribusiness and agricultural research companies. This has resulted in the dissemination of modernizing technological packages aimed at increasing agricultural productivity. Managed and originally consumed by Sateré-Mawé indians, guarana has lost the link with its region of origin, which from 1990 on stimulated the search for alternative valorization of the origin and of family-based and agroecologically-based production. Research, conducted with producers of two local organizations from the lower Amazon aimed to identify initiatives to further re-territorialization of production, management practices and in situ conservation of the plant, as well as reactions to the dissemination of innovative forms of production and marketing. Starting from the hypothesis that different functional dynamics exist in each organization, we established that the producers’ relationships with the market, with traditional knowledge protection and with the plant itself evolved in different socio-historical trajectories. These trajectories resulted in different systems of socio-cultural, ecological and technological reference. <![CDATA[<em>Guaraná</em>, the time machine of the Sateré-Mawé]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-81222016000100055&lng=es&nrm=iso&tlng=es Resumo Mais que um produto agrícola, o guaraná é o passado, o presente e o futuro do povo junto ao qual foi encontrado pelos missionários jesuítas que fizeram o primeiro registro histórico de sua ocorrência na região interfluvial Madeira-Tapajós, na segunda metade do século XVII. Constitui, desde então, o marcador étnico por excelência do povo Sateré-Mawé. Além de estar no centro das explicações sobre a sua origem e organização social, o guaraná fez dos Sateré-Mawé o primeiro povo indígena brasileiro na história com um produto próprio, transformado e sistematicamente comercializado, em tempos coloniais e do Império. No Brasil republicano, da virada do milênio, é um dos primeiros que aparece associado aos conceitos e práticas mais avançados na perspectiva dos paradigmas pós-modernos da sustentabilidade, da produção orgânica certificada, do comércio justo e solidário e do desenvolvimento ecossustentável. E o faz sempre investido de uma notável potência de agregação social: originalmente, no seio de uma sociedade tradicionalmente segmentada e, na contemporaneidade, ocupando papel destacado em movimentos colaborativos interinstitucionais nacionais e internacionais. Para os Sateré-Mawé, o seu Waraná nativo é memória e promessa de navegação segura ao longo do tempo. Este artigo se propõe apresentar e discutir como isso vem sendo possível.<hr/>Abstract More than an agricultural product, guaraná is the past, the present, and the future of the Sateré-Mawé people. It was among them that Jesuit missionaries entering the region between the Madeira and the Tapajós rivers in the second half of the seventeenth century, first found the plant. Since then, guaraná has been the ultimate Sateré-Mawé ethnic marker. Besides being fundamental in accounting for their origin and social organization, guaraná enabled the Sateré-Mawé to become the first indigenous people to appear in Brazilian history as having their very own product processed and systematically commercialized during colonial and imperial times. In the Brazilian Republic of the third millennium, it is one of the first products to be associated with the most advanced concepts and practices in the perspective of postmodern paradigms such as sustainability, organic certified agriculture, fair trade and eco-sustainable development. It holds a considerable power of aggregation within a traditionally segmented society and, at the same time, it has an axial role in collaborative movements both at international and national levels. For the Sateré-Mawé, their native Waraná is both memory and a promise of safe navigation over time. This article is about how this has been possible. <![CDATA[Sociality and diversity of pequi (<em>Caryocar brasiliense</em> Caryocaraceae) among the Kuikuro of the Upper Xingu river (Brazil)]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-81222016000100087&lng=es&nrm=iso&tlng=es Resumo Este artigo versa sobre aspectos socioculturais do cultivo de pequi (Caryocar brasiliense) entre os Kuikuro do alto Xingu, para os quais esta espécie possui alto valor simbólico e alimentar. O cultivo de pequi é uma prática compartilhada entre os nove povos indígenas que compõem uma sociedade pluriétnica e multilinguística na região dos formadores do Rio Xingu, da qual os Kuikuro fazem parte. A despeito da grande importância desta espécie entre os povos da região, sua diversidade morfológica nunca foi devidamente investigada em pesquisa acadêmica. Nosso objetivo é apresentar e analisar os aspectos socioculturais envolvidos no cultivo de pequi que incidem sobre a diversidade varietal da espécie, aqui tomada como a diversidade percebida e nomeada pelos Kuikuro. O estudo foi realizado na aldeia Kuikuro de Ipatse entre 2002 e 2003 (Fausto) e 2010 e 2012 (Smith), por meio de entrevistas e registro audiovisual das atividades de colheita e processamento dos frutos. Observamos que os conhecimentos e práticas de seleção e cultivo de sementes de pequi favorecem sua diversidade intraespecífica nos pequizais cultivados. As análises aqui apresentadas contribuem para demonstrar a impossibilidade de dissociar patrimônio cultural e genético no contexto dos sistemas agrícolas amazônicos.<hr/>Abstract This article aims to investigate and document socio-cultural aspects of the cultivation, domestication and processing of pequi (Caryocar brasiliense) among the Kuikuro Indians of the Upper Xingu, for whom this fruit has important symbolic and nutritional roles. Pequi cultivation is shared by the nine indigenous peoples who constitute the regional multiethnic system of the Upper Xingu. Despite the species’ importance among these peoples, its morphological diversity has not been the subject of intensive research yet. We intend to correlate social and cultural aspects involved in the management practices of the Kuikuro and the morphological diversity of pequi. Fieldwork was carried out between 2002 – 2003 (Fausto) and 2010 – 2012 (Smith) in the Kuikuro village of Ipatse in the Xingu Indigenous Park. Fieldwork involved interviewing families, participative observations and audiovisual recording. We observed that the knowledge and practices of seed selection and cultivation favor intraspecific diversity of the cultivated pequi groves. Our analysis, thus, supports the inextricable connection between genetic and cultural heritage in Amazonian agricultural systems. <![CDATA[Worlds of gardens and forests]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-81222016000100115&lng=es&nrm=iso&tlng=es Resumo Pretendo explorar neste artigo as relações entre os domínios da roça (koo) e da floresta (ka’a), importante oposição da cosmologia wajãpi (grupo Tupi que habita o estado do Amapá). Ka’a e koo, contudo, não se constituem como uma oposição fixa, mas antes como posições relacionais que se movem, nas quais a capoeira ocupa um papel fundamental. Algo que é evidenciado tanto numa dinâmica de ocupação territorial - por meio do cultivo de áreas de mata primária e o abandono dos roçados após a colheita -, quanto por meio das relações perspectivistas que movimentam as categorias de roça e floresta, plantas cultivadas e não-cultivadas, através de distintos sujeitos. Nesse contexto, compreender a dinâmica das relações entre floresta e roçado é fundamental para melhor refletir sobre como algumas famílias wajãpi entendem a atividade agrícola. Proponho essa reflexão estabelecendo um diálogo com ecologia histórica que aponta para a existência de florestas antropizadas, contexto em que a agricultura se apresenta como uma atividade central para a produção de biodiversidade.<hr/>Abstract In this paper I intend to explore the relationship between the areas of garden (koo) and forest (ka’a), a major opposition in Wajãpi cosmology. The Wajãpi are a Tupi group located in the state of Amapá. In their cosmology the garden and forest do not constitute a fixed opposition, but represent relational positions that move into two directions: a dynamic of territorial occupation by cultivating areas of primary forest, followed by the abandoning of clearings after the harvest; and perspectival relationships that shift the categories of garden and forest, cultivated and non-cultivated, through different subjects. In this context, understanding the dynamics of the relationships between forest and cultivation is critical for a better comprehension of the Wajãpi perspective on agricultural activity. I propose a reflection that establishes a dialogue with historical ecology that points to the existence of anthropic forests. In this way, agriculture is presented as a central activity for the production of biodiversity and areas of anthropic forests. <![CDATA[The world of Ka’apor horticulture: practices, representations and their transformations]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-81222016000100133&lng=es&nrm=iso&tlng=es Resumo Com base em pesquisas etnográficas efetuadas nos últimos anos entre os indígenas Ka’apor das aldeias Xiepihu-rena e Paracui-rena, na Terra Indígena Alto Turiaçu, localizada na Amazônia maranhense (Brasil), o artigo aborda o mundo das representações e práticas hortícolas Ka’apor, considerando aspectos das narrativas orais que contextualizam estes conhecimentos dentro da cosmovisão indígena, as características da horticultura na atualidade em termos da diversidade dos cultivos, assim como as mudanças na organização do trabalho hortícola na conjuntura atual, caraterizada pelos conflitos gerados pela exploração ilegal de madeira na Terra Indígena Alto Turiaçu e a influência das políticas públicas.<hr/>Abstract This article is based on ethnographic research conducted in recent years among the indigenous Ka’apor of the Xiepihu-rena and Paracui-rena villages in the Alto Turiaçu indigenous reserve, located in the Brazilian Amazonian state Maranhão. The article relates to the world of representations and horticultural practices of the Ka’apor, discussing aspects of oral narratives that contextualize this knowledge within the indigenous world view. It furthermore elaborates on present-day horticultural characteristics in terms of crop diversity, as well as changes in the current organization of horticultural work, due to public policies and the conflicts generated by illegal timber exploitation in the Alto Turiaçu indigenous reserve. <![CDATA[Networks and observatories of agrobiodiversity, how and for whom? A survey in the Cruzeiro do Sul area, Acre]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-81222016000100159&lng=es&nrm=iso&tlng=es Resumo A diversidade de plantas cultivadas, selecionadas e conservadas pelos agricultores tradicionais, é de interesse tanto local quanto nacional, além de constituir um patrimônio biológico e cultural. No caso da Amazônia, apesar de atualmente dispormos de uma suma de dados sobre a agrobiodiversidade, a diversidade das opções metodológicas mobilizadas torna difícil uma visão sintética de suas dinâmicas. Para entendê-las, torna-se imprescindível assegurar um monitoramento, em longo prazo, de localidades sentinelas ou observatórios, e construir indicadores a serem compartilhados entre populações locais, pesquisadores e formuladores de políticas públicas. Como exemplo, propomos uma abordagem exploratória da agrobiodiversidade levantada junto a 52 agricultores de duas comunidades da região de Cruzeiro do Sul (Acre), a partir de uma abordagem qualitativa sobre as formas locais de denominação das plantas e quantitativa, fundamentada sobre a medida da riqueza (número de espécies ou variedades presentes). A amplitude da riqueza é de 338 plantas, principalmente variedades locais, levantadas com uma alta frequência de espécies ou de variedades apenas cultivadas por um ou dois agricultores, sua estruturação é marcada pela presença de um modelo aninhado, sendo evidenciado o núcleo de plantas de maior coesão.<hr/>Abstract The diversity of cultivated plants that are selected and preserved by traditional farmers attracts local and national interest, and constitutes an important biological and cultural heritage. In the case of the Amazon, besides the existence of a great set of data on agrobiodiversity, the wide range of methods hampers a synthetic view of its dynamics. To understand this, it is essential to have a monitoring system in the long term in specific sites, or to build observatories and indicators to be shared among local populations, researchers and public policy makers. As an example, we propose an exploratory approach to the agrobiodiversity managed by 52 farmers in two communities of the Cruzeiro do Sul region (Acre), from a qualitative (based on the local names of plants) and quantitative approach (based on the measure of richness). The amplitude of the richness is of 338 cultivated plants, mainly landraces, with a high frequency of species or varieties present in only one or two farmers plots. The structure of this diversity is characterized by the presence of a nested pattern, with a core of plants with greater cohesion. <![CDATA[Crop domestication in the upper Madeira River basin]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-81222016000100193&lng=es&nrm=iso&tlng=es Abstract Most native Amazonian crops were domesticated in the periphery of the basin. The upper Madeira River basin is an important part of this periphery where several important crops were domesticated and others are suspected to have been domesticated or arrived early. Some of these crops have been reasonably well studied, such as manioc, peanut, peach palm, coca and tobacco, while others are not as well known, such as the hot peppers Capsicum baccatum and C. frutescens, and still others need confirmation, such as cocoyam and annatto. We review the information available for manioc, peach palm, Capsicum, peanut, annatto and cocoyam. The state-of-the-art for Capsicum frutescens, annatto and cocoyam is insufficient to conclude definitively that they were domesticated in the upper Madeira, while all the others have at least one of their origins or centers of diversity in the upper Madeira.<hr/>Resumo A maioria dos cultivos nativos da Amazônia foi domesticada na periferia da bacia. A bacia do alto rio Madeira é uma parte importante dessa periferia, onde se suspeita que vários cultivos importantes foram domesticados, alguns são confirmados e outros possivelmente chegaram há muito tempo na região. Alguns destes cultivos foram razoavelmente bem estudados, tais como mandioca, amendoim, pupunha, coca e tabaco, enquanto outros não são tão bem conhecidos, como as pimentas Capsicum baccatum e C. frutescens, e ainda outros precisam de confirmação, como taioba e urucum. Revisamos as informações disponíveis para a mandioca, pupunha, Capsicum, amendoim, urucum e taioba. O estado da arte de Capsicum frutescens, urucum e taioba é insuficiente para concluir definitivamente que eles foram domesticados no alto rio Madeira, enquanto todos os outros têm pelo menos uma das suas origens ou centros de diversidade na região. <![CDATA[Reality, science and fantasy in the controversies about the Mapinguari in southwestern Amazonia]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-81222016000100209&lng=es&nrm=iso&tlng=es Resumo A existência de um monstro conhecido como Mapinguari é amplamente registrada em inúmeras localidades na Amazônia. Os Karitiana, povo de língua Arikém (Tupí) que habita o estado de Rondônia, também discorrem sobre o Mapinguari – termo com o qual eles nomeiam, em português, o monstro que, na sua língua, chamam Owojo ou Kida harara –, relatando terríveis encontros com a criatura nas matas regionais. Nesse sentido, se o Mapinguari vem sendo tratado pela literatura como exemplo de crença ou de folclore, para os Karitiana não parece haver dúvidas sobre sua realidade – ou seja, não parece se tratar de uma crença, mas de um dado deste mundo indígena –, o que pode ser apreendido facilmente nos efeitos que a presença do ‘bicho’ (kida) – modo como os Karitiana conceituam os seres perigosos das matas – têm no cotidiano indígena, incluindo as formas pelas quais este grupo indígena ocupa e explora seu território. Soma-se a esta controvérsia a sugestão, por parte de alguns pesquisadores, de que o Mapinguari pode ser o que restou das preguiças gigantes, animais considerados extintos, mas que alguns julgam ainda habitar certos recônditos amazônicos. É sobre este diálogo entre crenças folclóricas, ontologias indígenas e hipóteses científicas que este trabalho se debruça.<hr/>Abstract The monster known as Mapinguari is widely mentioned throughout Amazonia. The Karitiana people (speaking a Tupí language of the Arikém family) in northern Rondônia state equate the Portuguese term “Mapinguari” with a monster they call Owojo or Kida harara in their own language, relating tales of frightening encounters in the jungle. Whereas the Mapinguari is generally treated in the literature as a folkloric belief (i.e. an “Amazonian yeti or bigfoot”), there is no doubt among the Karitiana that this creature exists. We can perceive the monster’s reality in the effects it has on the ways the Karitiana occupy and explore their territory. Moreover some scholars have suggested that the Mapinguari could be a kind of living fossil, or folkloric memory of the Giant Sloths that used to roam in this region in the past, and that perhaps is still around. The present article focuses on the dialogue between folkloric beliefs, indigenous ontologies, and scientific hypotheses. <![CDATA[From production to market: food habits and food safety of the quilombola community of baixo Acaraqui, Abaetetuba, Pará]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-81222016000100225&lng=es&nrm=iso&tlng=es Resumo Este trabalho apresenta a análise e compreensão das diferentes estratégias de Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) desenvolvidas pelas famílias da Comunidade Quilombola do baixo Acaraqui, Abaetetuba, Pará. A comunidade enfrenta mudanças em suas práticas alimentares, devido à redução dos recursos naturais (animais de caça, peixes e camarões), à diminuição das áreas para produção agrícola e ao aumento do valor comercial da produção. Utilizando uma abordagem qualitativa e os procedimentos de observação participante, entrevista semiestruturada, registro fotográfico, listagem livre e oficinas sobre hábitos alimentares, buscou-se obter informações que permitissem uma compreensão das práticas produtivas e alimentares localmente desenvolvidas. Observou-se maior especificação da produção, diminuindo a diversidade das espécies cultivadas e reduzindo a autossuficiência das famílias; aumento da importância do extrativismo do açaí como fator econômico gerador de renda; substituição de produtos naturais (sucos, chás) por produtos industrializados (café, refrigerante); aumento do poder aquisitivo, estimulado pelo comércio e pelos benefícios sociais recebidos (bolsa família, aposentadoria e seguro defeso). Essa realidade tem influenciado as práticas produtivas e alimentares das famílias, interferindo nas decisões produtivas e na aquisição dos alimentos, tornando-as cada vez mais dependentes do comércio e da geração de renda para garantir a SAN das famílias quilombolas.<hr/>Abstract This research presents the analysis of different strategies of Food and Nutritional Security (SAN) developed by the families of the Quilombola Community of baixo Acaraqui, Abaetetuba, Pará. The community is facing changes in their eating habits due the reduction of natural resources (hunting animals, fish and shrimps), decrease of the area for agricultural production and increase of the commercial value of production. Using a qualitative approach and the following procedures: participant observation, semi-structured interviews, photographic record, itemized lists and workshops on eating habits, we investigated the community and their production and food practices. We observed a higher specialization of production, decreasing the diversity of local production and of the families’ self-sufficiency; increasing in the importance of extraction of açaí as an income generator; substitution of natural products (natural juices, teas) for industrial products (coffee, soda); increase in purchasing power, stimulated both by market trades and the social benefits received (bolsa família, pension and seguro defeso). This reality has significantly influenced the production practices and eating habits of the local families, interfering with production decisions and food acquisition, making families dependent on trade and income generation in order to ensure the SAN of the quilombola families. <![CDATA[The burial patterns in the Archaeological Site of Lapa do Santo (early Holocene, east-central Brazil)]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-81222016000100243&lng=es&nrm=iso&tlng=es Resumo No Brasil, esqueletos humanos do início do Holoceno são raros, impedindo um estudo detalhado das práticas funerárias desse período. O sítio arqueológico Lapa do Santo é uma exceção. Entre 2001 e 2009, foram exumados 26 sepultamentos do Holoceno Inicial, que são aqui descritos e distribuídos em sete padrões distintos. A inumação dos mortos na Lapa do Santo tem início entre 10300-10600 cal AP, com enterros simples e articulados (Padrão 1). Entre 9400-9600 cal AP, as práticas funerárias caracterizavam-se pela manipulação perimortem e o subsequente enterro dos ossos desarticulados de múltiplos indivíduos (Padrão 2). Entre 8200-8600 cal AP, esqueletos desarticulados de um único indivíduo, cujos ossos longos comumente apresentam fraturas perimortem, eram depositados em covas circulares (Padrão 3). Os demais padrões incluem esqueletos cujos membros foram removidos (Padrão 4), enterro de esqueleto completo desarticulado na forma de feixe (Padrão 5), cremação (Padrão 6) e enterro em cova circular, recoberto por blocos de arenito (Padrão 7). Caracteriza uma diversidade de sepultamentos desconhecida para o Holoceno Inicial, que contrasta com a homogeneidade tecnofuncional e de hábitos alimentares atribuída a esses grupos. Indica também constantes transformações ao longo do tempo, contradizendo a visão de que esses grupos seriam avessos a inovações culturais.<hr/>Abstract Human skeletons dating from the early Holocene are rare, preventing a detailed study of the funerary practices of that period. The archeological site Lapa do Santo is an exception. Between 2001 and 2009, 26 burials dated to the early Holocene were exhumed. Here they are described and classified into seven distinct burial patterns. The site started to be used as a burial ground between 10300-10600 cal BP with simple articulated burials (Pattern 1). Between 9400-9600 cal BP, funeral practices are characterized by the perimortem handling of the corpse and subsequent burial of disarticulated bones of multiple individuals (Pattern 2). Between 8200-8600 cal BP, disarticulated skeletons of single individuals, whose long bones show perimortem fractures, were deposited in circular pits (Pattern 3). The other burial patterns include skeletons whose members were removed (Pattern 4), burials of complete skeletons in bundles (Pattern 5), cremation (Pattern 6) and disarticulated burials covered with sandstone blocks (Pattern 7). This assemblage characterizes a unique diversity of funerary practices for the early Holocene. It contrasts sharply with the homogeneity traditionally attributed to the lithic technology and dietary habits of these groups. It also points to constant changes over time, contradicting the view that these groups were averse to cultural innovation. <![CDATA[Obscure cognates and lexical reconstruction: notes on the diachrony of the Xinguan Arawak languages]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-81222016000100277&lng=es&nrm=iso&tlng=es Abstract The present paper discusses evidence supporting the claim that the common Xinguan Arawak noun for ‘hand’, *wɨʂɨku, is a shared lexical innovation of this subgroup and that, in addition, a formation for ‘finger’ derived from a nominal compound with the roots for ‘hand’ and ‘head’, *kapɨ-tɨwɨ, sets Waurá, Mehinaku and Kustenaú apart from other languages of the family, including Yawalapiti. The reconstructed Proto-Arawak etymon for ‘hand’, *kʰapɨ, is preserved in the Xinguan Arawak languages only in the form of obscure cognates, instantiating interesting developments in lexical semantics as well as a relatively uncommon sound change in Yawalapiti. The discussion incorporates and addresses the historical linguistic significance of the earliest documentation of the Xinguan Arawak languages, the material gathered by Karl von den Steinen in 1887-1888. The analyses and data discussed highlight serious shortcomings in some of the reconstructed forms and diachronic developments advanced by Payne (1991), such as the postulation of a shift *a &gt; ɨ in Waurá and the reconstruction of syllable-final *h for the Proto-Arawak language, one of the most controversial aspects of his comparative study.<hr/>Resumo O presente artigo traz evidências em favor da hipótese de que o termo Xinguano para ‘mão’, *wɨʂɨku, constitui uma inovação lexical compartilhada pelas línguas deste ramo da família Arawak e, ainda, que formações para ‘dedo’, envolvendo a composição das raízes nominais para ‘mão’ e ‘cabeça’, *kapɨ-tɨwɨ, colocam o Waurá, o Mehinaku e o Kustenaú à parte de outras línguas da família, incluindo o Yawalapiti. O étimo *kʰapɨ ‘mão’, reconstruído para o Proto-Arawak, apresenta cognatos obscuros nas línguas Arawak do Xingu, instanciando desenvolvimentos interessantes na semântica lexical e uma mudança sonora relativamente pouco comum no reflexo atestado em Yawalapiti. O trabalho inclui uma apreciação dos dados das línguas Arawak do Xingu coletados por Karl von den Steinen na sua expedição de 1887-1888. Em nível mais geral, se propõe aqui a modificação ou a rejeição de certas afirmações feitas por Payne (1991) a respeito de desenvolvimentos diacrônicos, como a postulação de uma mudança *a &gt; ɨ em Waurá, e a reconstrução de *h em posição final de sílaba, um dos aspectos mais controversos do seu trabalho de reconstrução comparativa. <![CDATA[Eidorfe Moreira and Vieira’s sermons in 17<sup>th</sup> century Belém]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-81222016000100295&lng=es&nrm=iso&tlng=es Resumo O universo intelectual de Eidorfe Moreira (1912-1989) abrigou as mais diferentes manifestações do pensamento. Tendo a Amazônia marcado profundamente a sua obra, Eidorfe Moreira, um discípulo da Geografia Cultural, construiu campos de leitura bem ilustrativos de sua formação, em que o binômio Geografia/História Cultural norteou o principal de seus trabalhos. A passagem do Padre Antônio Vieira (1608-1697) por Belém despertou-lhe o interesse, sobretudo os sermões que pregou na matriz da cidade. Eidorfe Moreira valeu-se de autores como João Lúcio de Azevedo, Raymond Cantel e João Francisco Lisboa para arguir a parenética – e a política – nos sermões de Vieira.<hr/>Abstract The intellectual universe of Eidorfe Moreira (1912-1989) covered different manifestations of thought. As Amazonia profoundly marked his work, Eidorfe Moreira, a disciple of cultural geography, developed fields of study that were quite illustrative of his formation and in which cultural geography and history gave direction to his major works. The presence of Father Antonio Vieira (1608-1697) in Belém captured his attention, especially the sermons that he preached in the city’s parish church. Eidorfe Moreira had read authors, such as João Lúcio de Azevedo, Raymond Cantel and João Francisco Lisboa, in order to argue for the importance of eloquence – and politics – in Vieira’s sermons. <![CDATA[A translation of DeBoer and Lathrap’s classic “The making and breaking of Shipibo-Conibo ceramics”]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-81222016000100315&lng=es&nrm=iso&tlng=es Resumo DeBoer e Lathrap discutem a indústria cerâmica dos Shipibo-Conibo do leste peruano, documentando a passagem de objetos gerados pelo seu sistema comportamental atual até sua incorporação ao registro arqueológico. Descrevem a procura por matéria-prima, a manufatura das vasilhas e sua distribuição dentro das habitações, assim como as funções primárias e secundárias das vasilhas e os padrões de descarte da cerâmica. Embora a classificação cerâmica não seja o principal objetivo dos autores, o texto fornece informações úteis sobre a taxonomia dos Shipibo-Conibo (em especial quanto à sua função) e sobre as variações produzidas pelas diferentes oleiras. Ao focar nas variações de uso e na longevidade dos vasilhames, como nos processos que transformam objetos cerâmicos em artefatos arqueológicos, o artigo contribui para uma crescente literatura voltada a iluminar os processos de formação do registro arqueológico, que tem implicações sobre a formulação do planejamento de estratégias de amostragem na Arqueologia (texto introdutório de Carol Kramer para a versão publicada em 1979).<hr/>Abstract DeBoer and Lathrap discuss the ceramic industry of the Shipibo-Conibo of eastern Peru, documenting the passage of objects from their context in a contemporary behavioral system to their incorporation into the archaeological record. They describe the procurement of raw materials, vessel manufacture, and distribution within households, the primary functions and the secondary uses of vessels, and the pattern of ceramic discard. While not primarily concerned with classification, the authors provide useful information about native taxonomy (particularly as it relates to vessel function), and about variations among potters. In focusing on variations in vessel use and longevity, and on the processes which transform ceramic objects into archaeological artifacts, the article contributes to a growing literature illuminating formation processes of the archaeological record, and has implications for the formulations of archaeological sampling design (introduction by Carol Kramer of the 1979 version).