Scielo RSS <![CDATA[Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas]]> http://www.scielo.br/rss.php?pid=1981-812220190001&lang=pt vol. 14 num. 1 lang. pt <![CDATA[SciELO Logo]]> http://www.scielo.br/img/en/fbpelogp.gif http://www.scielo.br <![CDATA[Línguas indígenas: patrimônio e conhecimento]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-81222019000100005&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt <![CDATA[DOSSIER “NEW PERSPECTIVES ON KINSHIP TERMINOLOGY IN TUPIAN AND CARIBAN LANGUAGES”]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-81222019000100011&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt <![CDATA[Terminologias de parentesco dos grupos da família linguística Mondé]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-81222019000100015&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt Resumo Este artigo apresenta alguns resultados preliminares de estudos acerca da terminologia de parentesco usada pelos grupos indígenas da família linguística Mondé, do tronco Tupi. A investigação é mais detalhada no caso dos Gavião de Rondônia, cuja terminologia de parentesco é descrita e considerada em relação à nominação e ao casamento. São apresentados alguns dados da terminologia de parentesco para os povos Paiter (Suruí de Rondônia), Cinta Larga, Salamãy e Aruá. A terminologia das relações de parentesco básicas dos povos Gavião, Cinta Larga e Paiter é apresentada a fim de se investigar a variação dentro da família. A análise linguística dos termos revela aspectos do pensamento indígena sobre parentesco. Os métodos da linguística diacrônica são utilizados para fornecer evidências sobre a terminologia de parentesco do grupo ancestral, Proto-Mondé, e sobre a evolução dos sistemas terminológicos atuais.<hr/>Abstract This article presents some preliminary results from studies on the kinship terminology used by indigenous groups of the Mondé branch of the Tupi language family. This investigation pays particular attention to the Gavião people of Rondônia, whose kinship terminology is described and considered in relation to naming and marriage pratices. Some kinship terminology data is also included for the Paiter (Suruí of Rondônia), Cinta Larga, Salamãy, and Aruá groups, and terminology for basic kinship relations in the Gavião, Cinta Larga, and Paiter are also presented to investigate variation within the family. Linguistic analysis of these terms reveals aspects of the indigenous view of kinship. Diachronic linguistic methods are utilized to generate findings on kinship terminology in the ancestral group, Proto-Mondé, and on the evolution of contemporary terminological systems. <![CDATA[Termos de parentesco nas línguas Tuparí (família Tupí)]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-81222019000100033&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt Resumo Este artigo analisa os termos de parentesco nas cinco línguas do ramo Tuparí, da família linguística Tupí, em duas abordagens distintas. Inicialmente, o artigo apresenta uma comparação das terminologias de parentesco das línguas Tuparí e reconstrói correlatos no Proto-Tuparí para as principais categorias de parentes consanguíneos e afins. As cinco línguas Tuparí apresentam termos claramente cognatos e reconstruíveis para a protolíngua para as diversas posições de parentesco: avós (FF, FM, MF, MM), pais (M, F), tios (MZ, MB, FZ), irmãos (B, Z), primos (FBS, FBD), filhos (S, D), sobrinhos (BS, BD, ZD, ZS), netos (SS, SD, DS, DD) e afins (W, H, DH). A partir da comparação das terminologias de parentesco nas línguas Tuparí, o artigo discute aspectos da terminologia do sistema de parentesco Tuparí, procurando situá-lo no contexto da teoria amazônica do parentesco pós-1990, tendo como base as representações terminológicas das línguas individuais e as reconstruções postuladas para Proto-Tuparí.<hr/>Abstract This article analyzes kinship terminology in the five languages of the Tupari branch of the Tupi family through two distinct approaches. First, the article compares kinship terms used in the Tupari languages and reconstructs ancestral Proto-Tupari forms for the main categories of consanguineous kin and in-laws. The five members of the Tupari branch possess clearly cognate terms which can be reconstructed for the proto-language of the family in various shared kinship configurations: grandparents (FF, FM, MF, MM), parents (M, F), aunts and uncles (MZ, MB, FZ), siblings (B, Z) and cousins (FBS, FBD), children (S, D), nieces and nephews (BS, BD, ZD, ZS), grandchildren (SS, SD, DS, DD), and affines (W, H, DH). Building upon the comparison of kinship terms within the contemporary Tupari languages and the ancestral forms reconstructed for Proto-Tuparí, these kinship systems are then discussed through the lens of anthropological theory, situating them within the theoretical developments in Amazonian kinship studies since 1990. <![CDATA[Reestruturação dos termos de parentesco Proto-Omagua-Kukama]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-81222019000100065&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt Abstract This article reconstructs the system of kin terms in Proto-Omagua-Kukama (POK), the ancestral language of the Omagua and Kukama-Kukamiria, and compares it to Tupinambá, a former language of the Brazilian Atlantic coast and their closest relative in the Tupí-Guaraní language family. I identify semantic shifts, analogy-based innovations, calques, and borrowings. I suggest that some of these changes are likely due to concomitant changes in pre-POK social structure. The identification of borrowings is potentially fruitful in determining which languages contributed to the setting that gave rise to POK. Detailed study of the evolution of the divergent grammar and lexicon of POK is crucial to understanding this social and linguistic history.<hr/>Resumo Este artigo reconstrói o sistema terminológico de parentesco em Proto-Omagua-Kukama (POK), a língua ancestral dos Omagua e dos Kukama-Kukamiria, e compara-o ao de Tupinambá, a língua antigamente falada no litoral atlântico brasileiro, seu parente linguístico mais próximo. Identifico mudanças semânticas, inovações baseadas em analogia, calques e empréstimos. Sugiro que algumas dessas mudanças resultem de alterações concomitantes na estrutura social pré-POK. A identificação de empréstimos pode render frutos para a determinação de quais línguas contribuíram ao contexto em que surgiu o POK. O estudo detalhado da evolução da gramática e do léxico divergentes de POK é crucial para entender sua história social e linguística. <![CDATA[Nota sobre o sistema de parentesco em Proto-Tupí-Guaraní]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-81222019000100079&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt Resumo Este estudo explora o sistema de terminologia de parentesco da língua Proto-Tupí-Guaraní (PTG) a partir de uma perspectiva interdisciplinar, que soma contribuições da Etnologia, da Linguística Histórica e dos trabalhos etnográficos realizados com povos Tupí-Guaraní. Fazem-se inferências sobre pré-história cultural utilizando métodos filogenéticos comparativos, um conjunto de ferramentas computacionais para explorar mudanças evolutivas em populações relacionadas, aplicados a um banco de dados de termos de parentesco em 24 línguas Tupí-Guaraní. Discute-se a amostra usada no estudo, os procedimentos de codificação adotados para dados tipológicos e os componentes, valores iniciais e premissas do modelo evolutivo. A análise de reconstrução de estados ancestrais baseada no critério de máxima parcimônia reconstrói vários traços tipológicos do sistema de parentesco do PTG, como: fusão e bifurcação na primeira geração ascendente (+1); distinções na terminologia de irmãos baseadas na idade relativa e no sexo do ego; e equação terminológica entre irmãos e primos paralelos. O estudo avalia o estado atual da reconstrução de formas linguísticas para termos de parentesco em PTG e mapeia estas formas no sistema inferido por análise comparativa. Este estudo de comprovação de conceito demonstra a utilidade de análise filogenética para inferir estruturas de sistemas de parentesco em comunidades linguísticas ancestrais.<hr/>Abstract This study explores the kinship terminology of Proto-Tupí-Guaraní (PTG) through an interdisciplinary perspective that draws on ethnology, historical linguistics, and the ethnography of Tupi-Guaranian peoples. Inferences about cultural prehistory are made through phylogenetic comparative methods, a suite of computational tools for exploring evolutionary change in related populations, applied to a dataset of kinship terms from 24 Tupi-Guaranian languages. The study outlines the coding procedure for typological data, along with the parameters, inputs, and assumptions of the evolutionary models. Parsimony-based ancestral state inference is used to reconstruct a number of typological features of the kinship system of PTG, such as fusion and bifurcation in the first ascending generation (+1), relative age and sex-based distinctions in sibling terminology, and terminological equation between siblings and parallel cousins. The current state of reconstruction of the linguistic forms for kinship terms in PTG is reviewed, and these forms are mapped onto the system inferred through comparative analysis. This proof-of-concept study demonstrates the utility of phylogenetic analysis for inferring kinship structures in ancestral language communities. <![CDATA[Termos de parentesco: primeiras reconstruções em Proto-Arara-Ikpeng]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-81222019000100101&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt Resumo Sobre a classificação genética da família linguística Karíb, Meira e Franchetto (2005) propõem que o ramo pekodiano é formado pelas línguas Bakairi, Arara e Ikpeng, sendo que estas duas últimas estão no limite do que pode ser considerado como dialetos de uma mesma língua. Por sua vez, os falantes de Arara e Ikpeng alegam ser parentes próximos e relatam um nível razoável de inteligibilidade: conseguem, em geral, conversar com sucesso, embora encontrem, às vezes, dificuldades de compreensão. Para o referido estudo, os autores utilizaram dados lexicais provenientes apenas das línguas Bakairi e Ikpeng, pressupondo esta última como codialeto de Arara. O presente artigo busca realizar um estudo comparativo entre Arara e Ikpeng, utilizando, para isso, termos de parentesco. Para uma compreensão holística das semelhanças e diferenças entre essas duas línguas, buscamos realizar análises tanto do ponto de vista linguístico – comparando as formas dos termos de parentesco – quanto antropológico, cotejando os sistemas apontados por etnografias existentes. Os dados linguísticos, por sua vez, são provenientes de trabalhos de campo realizados nas comunidades Arara e Ikpeng por Ana Carolina Ferreira Alves (nos anos de 2014 a 2017) e por Angela Fabíola Alves Chagas (em 2012), respectivamente.<hr/>Abstract On the genetic classification of the Cariban language family, Meira and Franchetto (2005) propose a branch they term ‘Pekodian’, which includes Bakairi, Arara, and Ikpeng. The latter two languages are on the border of the language-dialect distinction; speakers of both varieties claim to be close relatives and report a reasonable level of mutual intelligibility, and while they can successfully converse, there are occasional comprehension difficulties. Meira and Franchetto used lexical data from only the Bakairi and Ikpeng languages, implicitly assuming that Arara and Ikpeng are co-dialects. The present work compares Arara and Ikpeng kinship terms. In order to obtain a holistic understanding of the differences between these languages we undertake analyses which are both linguistic (comparing the forms of kinship terms) and anthropological (comparing the systems described in existing ethnographies). The language data come from fieldwork conducted in Arara communities by Ana Carolina Ferreira Alves from 2014 to 2017 and in Ikpeng communities by Angela Fabíola Alves Chagas in 2012. <![CDATA[Termos de parentesco em Karitiana e como eles podem contribuir para a reconstrução da terminologia de parentesco em Proto-Tupi]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-81222019000100121&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt Abstract This paper reports a case study that discusses issues related to the reconstruction of kinship terminology in Proto-Tupi, based on previous work by Araújo and Storto (2002) on the Arikém and Juruna subfamilies. It also presents the remaining kin terminology of the Karitiana language (Arikém branch or subfamily) which was not discussed in the case study. Comparing Karitiana (Landin, 1989) and Juruna (Lima, 1995) kin terminology, Araújo and Storto (2002) have shown that some cognates can be found in the two languages and proposed that they reconstruct in Proto-Tupi. These authors claim that these reconstructed items indicate the following hypotheses: (1) the speakers of Proto-Tupi (4500 BP) had a Dravidian kinship system; (2) the speakers of Proto-Tupi had a kinship and naming system in which ego was equated with the paternal grandparent of the same sex as ego. Besides the 11 cognates discussed by Araújo and Storto (2002), we discuss the remaining 19 kin terms that form the Karitiana kinship system according to Landin (1989).<hr/>Resumo Neste artigo, temos como objetivo relatar um estudo de caso que discute questões relacionadas à reconstrução de terminologia de parentesco em Proto-Tupi baseados em um trabalho de Araújo e Storto (2002) nas subfamílias Ariké e Juruna, bem como apresentar o restante da terminologia de parentesco na língua Katitiana (ramo Arikém), não discutida no estudo de caso. Comparando a terminologia de parentesco em Karitiana (Landin, 1989) e Juruna (Lima, 1995), Araújo e Storto (2002) mostraram que alguns cognatos podem ser encontrados nas duas línguas, e propuseram que eles se reconstroem em Proto-Tupi. As autoras afirmam que estes itens reconstruídos corroboram as seguintes hipóteses: (1) que os falantes de Proto-Tupi (4500 AP) tinham um sistema dravidiano de parentesco, no qual ego era identificado com o avô ou a avó paternos (do mesmo sexo que ego). Além dos 11 termos discutidos por Araújo e Storto (2002), apresentamos uma discussão dos 19 termos restantes do sistema de parentesco Karitiana de acordo com Landin (1989). <![CDATA[Kin on the Wing: padrões de residência, mobilidade e aliança no grupo de caçadores-coletores Achê]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-81222019000100131&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt Abstract This paper provides a structural and historical overview of the kinship of a group of Tupi-Guarani-speaking hunter-gatherers, the Ache (Guayaki) of eastern Paraguay. I begin by considering the distinguishing features of Ache kin terminology, describing its characteristic tension between the dimensions of generation and crossness, before considering arguments for historical transformations offered for similar cases in lowland South America. The Ache case shows that the “Hawaiianization” of terms in ego’s generation does not necessarily entail an inward-looking endogamy, as some anthropologists (Dole, 1969; Wagley, 1977) have argued. By describing the network of Ache foraging bands as a residence-based form of kin organization, I show that “Hawaiianization” is not only perfectly compatible with the creation of alliances over considerable distances (Asch, 1998; Ives, 1998; Hornborg, 1998), but that “Hawaiianization” and distant marriage actually work together in the production of band alliances. At various points I highlight semantic, ethnographic, and historical data which, despite lying outside the scope of the phylogenetic analysis undertaken in other contributions to this issue, may nonetheless bear on some of its claims.<hr/>Resumo Este artigo apresenta um panorama estrutural e histórico do parentesco de um grupo de caçadores-coletores Tupí-Guaraní, os Achê (Guayaki) do Paraguai oriental. Começo com uma discussão das características distintivas da terminologia do parentesco dos Achê, descrevendo a sua tensão característica entre as dimensões de geração e de cruzamento, para depois considerar argumentos para as transformações históricas que casos semelhantes nas terras baixas da América do Sul oferecem. O caso dos Achê mostra que a ‘hawaiianização’ de termos na geração do ego não implica necessariamente uma endogamia voltada para dentro, como argumentaram alguns antropólogos (Dole, 1969; Wagley, 1977). Ao descrever a rede de grupos coletores Achê como uma forma de organização de parentesco baseada na residência, mostro que a ‘hawaiianização’ não é apenas perfeitamente compatível com a criação de alianças a grandes distâncias (Asch, 1998; Ives, 1998; Hornborg, 1998), evidenciando que a ‘hawaiianização’ e o casamento distante funcionam juntos. Em várias partes, destaco os dados semânticos, etnográficos e históricos. Embora esses dados estejam fora do escopo da análise filogenética realizada em outras contribuições para este número especial, eles podem, no entanto, ser relevantes para algumas afirmações presentes nesta edição. <![CDATA[Notas sobre duas terminologias de parentesco Caribe no norte amazônico: Katwena-Tunayana e Waiwai]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-81222019000100147&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt Resumo Este artigo apresenta uma descrição da terminologia de parentesco katwena-tunayana, língua caribe do norte amazônico, com base em pesquisa de doutorado realizada na bacia do rio Trombetas, afluente da margem esquerda do rio Amazonas, no noroeste do estado do Pará. Mais precisamente, a pesquisa foca aldeias distribuídas no alto curso do Trombetas e nos rios Mapuera e Turuni, seus afluentes ocidentais. A terminologia é tomada em conjunto com as atitudes de parentesco e relacionada a dados sobre o parentesco waiwai praticado na mesma região, obtidos diretamente em campo e por meio de consulta a trabalhos publicados por autores que pesquisaram com os Waiwai em outros contextos. O objetivo é fornecer um panorama inicial do parentesco katwena-tunayana, explorando relações com a etnonímia e também o contraste com o parentesco waiwai.<hr/>Abstract This paper presents a description of kinship terminology in Katwena-Tunayana, a Cariban language of northern Amazonia, based on an ongoing doctoral research project in the Trombetas River Basin, a left tributary to the Amazon River in the northwest of the Brazilian state of Pará. More specifically, the research focuses on the villages distributed along the upper course of the Trombetas, on the Mapuera and Turuni Rivers, both left tributaries to the Trombetas. The terminology is discussed in conjunction with the kinship attitudes and related to data on Waiwai kinship practiced in the same region, which were obtained in the field and through publications from authors who researched the Waiwai in other contexts. The objective is to provide an initial panorama of Katwena-Tunayana kinship by exploring its relations to ethnonymy and its contrasts to Waiwai kinship. <![CDATA[A economia invisível do babaçu e sua importância para meios de vida em comunidades agroextrativistas]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-81222019000100169&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt Resumo A amêndoa de babaçu (Attalea speciosa Mart. ex Spreng) é um dos principais produtos da extração vegetal no Brasil. As florestas secundárias formadas por babaçuais localizam-se na transição entre Amazônia, Cerrado e Nordeste semiárido, área onde reside um dos mais expressivos contingentes do campesinato no país. Apesar da disponibilidade de dados sobre a produção comercial de amêndoas, uma ampla gama de produtos derivados do babaçu é ignorada pelos levantamentos oficiais da produção extrativa. Para suprir essa lacuna, este trabalho examinou a importância econômica de produtos derivados da palmeira de babaçu em 200 comunidades agroextrativistas no vale do rio Mearim, no Maranhão, a principal região produtora. Projeções feitas a partir de diagnósticos socioeconômicos aplicados em 2017 a mais de mil domicílios em 18 municípios do Médio Mearim indicam que a valoração monetária de toda a produção de derivados de babaçu obtida apenas nesse território alcançaria cerca de R$ 100 milhões, valor três vezes superior em relação ao que foi divulgado apenas para as amêndoas. Compreender os detalhes da importância econômica dos produtos do babaçu é condição necessária para delinear instrumentos não apenas para o fortalecimento desta economia, como também para reforçar a conservação dos babaçuais e proporcionar melhores condições de vida para as comunidades agroextrativistas.<hr/>Abstract Babassu (Attalea speciosa Mart. ex Spreng) kernels are one of Brazil's main non-timber forest products. Secondary forests of babassu palms are located in the transition zone that connects the Brazilian Eastern Amazon, the central-western savannas and the semi-arid Northeast. This area holds one of the most significant populations of rural workers in the country. Although data is available on commercial production of babassu palm kernels, a wide range of products derived from this palm are ignored by official surveys. In order to fill in this gap, this study examined the economic importance of products derived from the babassu palm in 200 agro-extractive communities in the Mearim River Valley in the state of Maranhão, the main productive region. Projections utilizing a 2017 socioeconomic survey applied in over one thousand households in 18 municipalities in the Mearim Valley indicate that the monetary value of babassu products in this area alone approaches R$ 100 million, three times the disclosed value of the kernels. It is important to understand the economic importance of babassu products in order to develop tools not only to strengthen this economy, but also improve conservation of babassu forests and the well-being of agro-extractive communities. <![CDATA[Patrimônios indígenas nos 80 anos do Museu das Missões: etno-história e etnomuseologia aplicada à imaginária missional]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-81222019000100189&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt Resumo Ao questionar o paradigma jesuítico fundante no Museu das Missões, a presente análise discute o não lugar indígena na exposição de longa duração lotada no pavilhão Lúcio Costa, de modo que se possa pensar aquele acervo como integrante dos patrimônios indígenas nacionais. Para tal, a partir de abordagem etno-histórica e etnomuseológica interessada na democratização de acervos, o estudo analisa a produção, a forma, o conteúdo e o consumo da imaginária missional ao tempo das missões indígeno-jesuíticas. Ao fim, levantam-se possibilidades sobre as implicações que esta abordagem pode trazer ao Museu das Missões, a partir das comemorações dos 80 anos desta instituição, propondo uma ressignificação de seu acervo e um redimensionamento da relação estabelecida com a população Mbyá Guarani contemporânea.<hr/>Abstract By questioning the founding Jesuit paradigm at the Museu das Missões, this analysis discusses the indigenous non-place at the permanent exhibition in the Lúcio Costa Pavilion in such a way that this collection can be seen as part of national indigenous heritage. This is done through an ethnohistorical and ethnomuseological approach addressing the democratization of collections; the study analyzes the production, form, content, and consumption of missionary imagery at the time of the Jesuit missions targeting indigenous peoples in Brazil. It concludes with a discussion of the possible implications this approach may have for the Museu das Missões as it celebrates its 80th anniversary, suggesting a resignification for its collection as well as adapting the relationship it has constructed with the contemporary Mbyá Guarani population. <![CDATA[Terra Preta de Índio em várzeas eutróficas do rio Solimões, Brasil: um exemplo da não intencionalidade na formação de solos antrópicos na Amazônia Central]]> http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-81222019000100207&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt ABSTRACT Amazonian dark earths (ADEs) are fertile soils created by pre-Columbian Amerindian societies of the Amazon Basin. However, it is still not clear whether these soils were produced intentionally to improve infertile Amazonian upland soils or if they resulted from the accumulation of organic matter from sedentary settlements. This study characterizes the ADEs found in the naturally fertile alluvial floodplains of the Amazon River in the Central Brazilian Amazon according to total, exchangeable, and available contents of elements and organic carbon in soil profiles. ADEs contained higher levels of available elements and total P, Ca, Zn, and Cu. High total Cr, Ni, Co, and V content in these soils indicate that mafic minerals contributed to their composition, while higher contents of P, Zn, Ba, and Sr indicate anthropic enrichment. The presence of ADEs in floodplain areas strongly indicates non-intentional anthropic fertilization of the alluvial soils, which naturally contain levels of P, Ca, Zn, and Cu higher than those needed to cultivate common plants. The presence of archaeological sites in the floodplains also shows that pre-Columbian populations lived in these regions as well as on bluffs above the Amazon River.<hr/>Resumo Terras Pretas de Índio (TPI) são solos com elevada fertilidade criados pelas sociedades ameríndias pré-colombianas na bacia amazônica. Ainda não existe um consenso se esses solos foram formados intencionalmente para melhorar a fertilidade dos solos distróficos de terra firme da Amazônia ou se resultaram da acumulação de material orgânico em assentamentos sedentários. O objetivo desta pesquisa foi realizar uma caracterização pedogeoquímica de TPI localizadas em áreas de várzeas naturalmente férteis do rio Solimões na Amazônia Central brasileira. Foram analisados os teores totais, trocáveis e disponíveis de elementos e carbono nos solos. As TPI mostraram altos conteúdos trocáveis e disponíveis de P, Ca, Zn e Cu. Elevados conteúdos totais de Cr, Ni, Co e V indicam contribuição de minerais máficos na gênese dos solos, enquanto que teores elevados de P, Zn, Ba e Sr nas TPI indicam enriquecimento antrópico. A ocorrência de TPI em áreas de várzea é uma forte evidência da fertilização não intencional dos solos de várzea, os quais, em condições naturais, apresentam teores de P, Ca, Zn e Cu acima dos níveis críticos para muitas culturas. A presença de sítios arqueológicos em áreas de várzea mostra que as populações pré-colombianas habitaram as várzeas e os interflúvios do rio Solimões.