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Jornal de Pediatria

Print version ISSN 0021-7557

J. Pediatr. (Rio J.) vol.87 no.3 Porto Alegre May/June 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0021-75572011000300010 

ARTIGO ORIGINAL

 

Pais não autoritativos e o impacto no uso de drogas: a percepção dos filhos adolescentes

 

 

Mariana C. BenchayaI; Nadia K. BischII; Taís C. MoreiraII; Maristela FerigoloIII; Helena M. T. BarrosIV

IMestre, Ciências da Saúde. Serviço Nacional de Orientações e Informações sobre a Prevenção do Uso Indevido de Drogas (VIVAVOZ), Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), Porto Alegre, RS
IIMestre, Ciências da Saúde. VIVAVOZ, UFCSPA, Porto Alegre, RS
IIIDoutora, Ciências Médicas. VIVAVOZ, UFCSPA, Porto Alegre, RS
IVPós-doutora em Neuropsicofarmacologia. VIVAVOZ, UFCSPA, Porto Alegre, RS

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Verificar a associação entre uso de drogas e estilos parentais percebidos pelos filhos adolescentes brasileiros.
MÉTODOS: Este estudo transversal foi realizado com adolescentes de 14 a 19 anos que ligaram para o Serviço Nacional de Orientações e Informações sobre a Prevenção do Uso Indevido de Drogas. Participaram do estudo 232 adolescentes. As entrevistas, realizadas por telefone, incluíram: a Escala de Responsividade e Exigência Parental, que classifica os estilos materno e paterno percebidos pelos adolescentes em autoritativo, negligente, indulgente e autoritário; variáveis sociodemográficas; e instrumento para avaliar consumo no mês e abuso de substâncias.
RESULTADOS: Os estilos parentais materno e paterno percebidos como negligente, indulgente ou autoritário (não autoritativos) tiveram associação significativa para uso de drogas [odds ratio (OR) = 2,8, intervalo de confiança de 95% (IC95%) 1,3-5,7 para mães, e OR = 2,8, IC95% 1,3-6,3 para pais]. Os estilos não autoritativos também demonstraram relação significativa com uso de tabaco no mês para o estilo materno (OR = 2,7, IC95% 1,2-6,5) e para o paterno (OR = 3,9, IC95% 1,4-10,7), uso de cocaína/crack no mês (OR = 3,9, IC95% 1,1-13,8) e abuso de qualquer droga (OR = 2,2, IC95% 1,0-5,1) somente para o estilo paterno. A análise de regressão logística mostrou que o estilo materno (OR = 3,3, IC95% 1,1-9,8), sexo do adolescente (OR = 3,2, IC95% 1,5-7,2) e idade (OR = 2,8, IC95% 1,3-6,2) tiveram associação com o uso de drogas.
CONCLUSÕES: Adolescentes que avaliam suas mães como não autoritativas apresentam maior chance de usar drogas. Os pais não autoritativos têm mais associação com abuso de drogas pelos adolescentes.

Palavras-chave: Psicotrópicos, adolescentes, relações pais-filho.


 

 

Introdução

As relações estabelecidas entre pais e filhos adolescentes e o impacto dos estilos parentais no desenvolvimento psicossocial têm sido objeto de atenção de diferentes estudos1-3. Na adolescência, estão presentes inúmeras adaptações e mudanças nas habilidades interpessoais4 e, por isso, torna-se importante um ambiente familiar que ofereça acolhimento e orientação necessários diante da complexidade das emoções vivenciadas5. A presença de relações familiares com extrema rigidez disciplinar, ou com dificuldades na imposição de limites para o comportamento do jovem, pode interferir na organização satisfatória desse período, acarretando algum tipo de comportamento de risco5, incluindo o uso e abuso de drogas.

Nessa perspectiva, alguns estudos buscam entender melhor as associações de comportamentos que denotam abuso de drogas entre adolescentes, a partir das relações pais-filhos estabelecidas6,7. O conjunto de atitudes dos pais, adotadas na educação dos filhos, pode ser definido como estilo parental. Mais especificamente, o estilo parental representa a maneira pela qual os pais lidam com as questões de disciplina, hierarquia e apoio emocional na relação com os filhos8,9. Maccoby & Martin9 propuseram um modelo teórico de estilos parentais, com duas dimensões fundamentais nas práticas educativas dos pais, denominadas exigência (demandingness) e responsividade (responsiveness). A exigência parental inclui as atitudes dos pais que visam controlar e monitorar o comportamento dos filhos, impondo-lhes limites e estabelecendo regras. A responsividade refere-se àquelas atitudes compreensivas que os pais têm e que visam, por meio do apoio emocional e da bidirecionalidade na comunicação, favorecer o desenvolvimento da autonomia e da autoafirmação dos filhos.

Da tipologia de estilos parentais, definida a partir dessas dimensões, derivam quatro estilos: autoritativo, negligente, indulgente e autoritário. O termo autoritativo caracteriza o estilo parental que combina elevados níveis de controle e de afetividade. Essa expressão é amplamente utilizada na literatura brasileira10-12. Pais com elevada responsividade, manifestação de afeto e apoio, ao mesmo tempo em que exigem e realizam de forma apropriada o exercício de autoridade e de colocar limites, são classificados como autoritativos. Pais que apresentam níveis baixos de responsividade e de demonstração de afeto e controle, sem manifestar interesse nas atividades, companhias e preocupações dos filhos, são considerados negligentes. Indulgentes são aqueles muito afetivos, mas pouco exigentes. Os autoritários manifestam um padrão elevado de exigência, com predomínio da imposição de regras, sem perceber relevância nas opiniões dos filhos. São pouco afetivos, demonstrando diminuído apoio ao adolescente9.

Entre muitos fatores que podem contribuir para o consumo de drogas, estão os estilos parentais não autoritativos, que compreendem os estilos negligente6,13, indulgente e autoritaritário6. A associação entre esses e o uso de drogas é pouco descrita entre brasileiros, e sua identificação constitui-se em um importante elemento para o planejamento de intervenções com pais e filhos adolescentes, especialmente na prevenção do uso de drogas.

A presente pesquisa objetivou investigar a associação entre o uso de substâncias por adolescentes que ligaram para um serviço de teleatendimento, buscando orientações e informações sobre a prevenção do uso indevido de drogas, as características desse consumo e os estilos parentais percebidos pelos próprios adolescentes.

 

Métodos

Participaram deste estudo transversal, do tipo caso-controle, adolescentes brasileiros com idade entre 14 e 19 anos que ligaram para o Serviço Nacional de Orientações e Informações sobre a Prevenção do Uso Indevido de Drogas (VIVAVOZ), no período de fevereiro de 2009 a junho de 2010. O VIVAVOZ é um serviço concebido pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD) e pela Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), que oferece aconselhamento telefônico reativo, gratuito, anônimo, aberto à população e especializado em prestar orientações e informações sobre drogas, em linguagem adequada, desprovida de preconceito14.

As entrevistas foram realizadas por telefone, com duração média de 30 minutos. Utilizou-se um software específico para protocolar as ligações. Participaram dos atendimentos e aplicação dos instrumentos de pesquisa uma equipe de 40 consultores, acadêmicos da área da saúde capacitados em drogas de abuso, domínio do software e aconselhamento telefônico reativo15. Para a aplicação dos instrumentos da pesquisa, foi realizado treinamento adicional, que incluiu aulas expositivas sobre o uso de drogas na adolescência e sua relação com os estilos parentais e treinamento para aplicação da Escala de Responsividade e Exigência Parental. Para preservar o anonimato no teleatendimento, o autorrelato do uso de substâncias foi utilizado para avaliar o desfecho do estudo. Há evidência de confiabilidade nos autorrelatos, tanto através de estudos com avaliação clínica detalhada de uso de drogas quanto por avaliação de material biológico16-18.

Os participantes responderam ao instrumento para avaliar o consumo e abuso de substâncias e a Escala de Responsividade e Exigência Parental, após oferecerem consentimento. Utilizou-se para a avaliação do consumo e abuso de substâncias o instrumento do National Household Surveys on Drug Abuse (NHSDA)19. Segundo esse instrumento, o diagnóstico de abuso de substâncias é considerado quando o usuário preencher pelo menos dois dos seguintes critérios: a) gasta muito de seu tempo para conseguir drogas, usá-las ou para se recuperar de seus efeitos; b) utilizou quantidades ou em frequência maior do que gostaria; c) tolerância (a necessidade de utilizar mais quantidades da substância para produzir o mesmo efeito); d) estava em situação de risco físico sob efeito ou após o efeito de drogas; e) teve problemas pessoais devido ao consumo de drogas (com a família, polícia ou escola, dificuldades emocionais ou psicológicas); f) desejo de reduzir ou interromper o uso de drogas.

A escala utilizada para avaliar os estilos parentais, adaptada de estudo estadunidense20, validada por Teixeira et al.10 e testada anteriormente em amostra brasileira11, mostrou aplicação factível por telefone, em estudo piloto realizado por nós. O instrumento é composto por escalas Likert, com cinco pontos que variam de nunca a sempre para cada item. Permite avaliar os estilos parentais a partir da percepção de adolescentes de 14 a 19 anos10. Contém 24 itens, sendo 12 relacionados à exigência e 12 à responsividade das práticas educativas de pais e de mães, separadamente. Os itens relacionados à exigência referem-se às práticas educativas direcionadas ao controle e supervisão de atividades dos filhos, como por exemplo: "Controla as suas notas no colégio". Os itens de responsividade denotam transmissão de afeto, apoio, envolvimento na relação pais e filhos, como, por exemplo: "Você pode contar com a ajuda do seu pai/mãe caso tenha algum tipo de problema". Os quatro tipos de estilos parentais são obtidos conforme cálculo das medianas da própria amostra, para as subescalas de exigência e responsividade parentais10. Os autores sugerem a exclusão, para análise dos estilos, daqueles casos cujos escores sejam idênticos aos valores das medianas em exigência e responsividade materna e paterna10. Os valores medianos obtidos neste estudo foram 37 para exigência e 40 para responsividade materna, 33 para ambas subescalas paternas. Na falta de pai e mãe, avaliou-se o estilo parental dos pais substitutos.

Foram incluídos no estudo todos os adolescentes com idade entre 14 e 19 anos que ligaram para o VIVAVOZ e aceitaram participar por meio do consentimento livre e esclarecido. Alguns adolescentes não responderam aos itens do estilo dos pais ou das mães devido à falta de presença desses em sua vida. Consideramos usuário de alguma substância aquele adolescente que referiu fazer uso ao menos uma vez de uma substância específica no último mês7, ou seja, não foi incluído na análise o uso eventual de qualquer substância. O cálculo amostral foi realizado com base em estudo sobre uso de drogas entre adolescentes7. Utilizou-se a prevalência do estilo negligente, considerado risco para o uso de drogas e o mais prevalente na amostra estudada (31%). Foi estimado um total de 168 adolescentes, considerando um nível de significância de 0,05 e um poder estatístico de 80%21. O número total de jovens que buscaram o serviço no período do estudo foi de 2.370. Desses, 34% declararam não aceitar participar, 20% referiram falta de tempo naquele momento e 46% tiveram a ligação perdida. Assim, 287 adolescentes responderam ao questionário e 232 preencheram os critérios de inclusão.

Inicialmente, as análises descritivas foram realizadas para as variáveis sociodemográficas, características de consumo e abuso de substâncias. As análises bivariadas para detectar as associações com significância estatística entre as variáveis do consumo de drogas e dos estilos parentais, agrupando os estilos negligente, indulgente e autoritário, foram efetuadas usando o teste qui-quadrado. Além disso, foram apresentados os odds ratio (OR) e seus respectivos intervalos de confiança (IC95%). Para diminuir fatores de confusão entre a associação dos estilos parentais e uso de drogas, foi aplicada análise de regressão logística. Como variável dependente, foi utilizado o uso de drogas, e as características sociodemográficas e os estilos de mãe e de pai foram as variáveis independentes. Variáveis com p < 0,20 na análise bivariada foram selecionadas e incluídas na análise multivariada. Essas foram introduzidas no modelo de regressão, usando-se o procedimento stepwise forward. A análise foi conduzida pelo programa Statistical Package for the Social Sciences (SPSS, 18.0), considerando um nível de significância p < 0,05. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UFCSPA, processo nº 451/09, parecer nº 805/09.

 

Resultados

No período, 287 adolescentes aceitaram participar do estudo, dos quais 73 referiram usar drogas, e 214, não. Foram excluídos 55 indivíduos, sendo 9 usuários e 46 não usuários, por terem o preenchimento incompleto da escala de estilos parentais ou valores das medianas iguais às subescalas de exigência e responsividade materna e paterna.

A amostra final constituiu-se por 232 adolescentes, dos quais 64 (27%) eram usuários de alguma substância psicoativa, com média de idade de 16±20 anos, composta principalmente de indivíduos do sexo feminino (63%). Em relação à escolaridade, 120 (55%) estavam cursando o ensino médio e 135 (66%) tinham renda inferior a 5 salários mínimos. As características sociodemográficas de usuários e não usuários de drogas estão descritas na Tabela 1. Detectou-se que os adolescentes mais velhos e os do sexo masculino tiveram maior associação com uso de drogas.

Dos 232 adolescentes, alguns não tinham um dos pais e nem responsáveis substitutos. Por isso, 7 deles não responderam aos itens referentes ao estilo materno e 26, aos itens paternos. Os escores de exigência e responsividade das mães (n = 225) tiveram média de 36±8 e 36±11, respectivamente. Esses escores para os pais (n = 206) corresponderam a 32±10 e 31±13. Quanto aos estilos encontrados na amostra geral, 73 (32%) mães eram autoritativas, 72 (31%) eram negligentes, 42 (20%) eram autoritárias e 38 (17%) eram indulgentes. Com referência aos pais, 76 (37%) eram autoritativos, 64 (31%) eram negligentes, 35 (17%) eram indulgentes e 31 (15%) eram autoritários. Na Tabela 2, estão descritas as relações entre os estilos parentais e uso ou não uso de drogas. Há diferença significativa para o estilo materno e paterno associado ao consumo de drogas. As mães autoritativas são mais frequentemente associadas aos adolescentes não usuários (85%), e os três demais estilos não autoritativos são associados aos usuários de drogas em aproximadamente 30%. Já em relação aos estilos parentais dos pais, percebe-se que tanto aqueles entendidos como autoritativos quanto como autoritários têm maior associação, com mais de 85% dos adolescentes não usuários.

Adolescentes que perceberam ambos os pais com estilos parentais não autoritativos tiveram 2,8 vezes mais chance de fazer uso de qualquer droga. Quando as mães são percebidas como negligentes, indulgentes ou autoritárias, há 2,7 vezes mais chance de usar tabaco, e há 3,9 vezes mais probabilidade de usar tabaco quando os adolescentes avaliam os pais como não autoritativos. Os adolescentes que avaliaram os pais como negligentes, indulgentes ou autoritários apresentaram maior suscetibilidade, em 3,9 vezes, de usar cocaína/crack. Além disso, houve associação significativa entre uso abusivo de qualquer droga e pais com estilos não autoritativos. Na Tabela 3, estão descritos os resultados das relações entre o consumo das substâncias e os estilos parentais, separadamente. Na Tabela 4, pode-se observar que os estilos não autoritativos das mães mantiveram-se associados a adolescentes usuários de drogas, mesmo após o controle de fatores de confusão, assim como adolescentes do sexo masculino e adolescentes com idades entre 17 e 19 anos.

 

Discussão

Os dados sobre os estilos parentais mostram que os adolescentes estudados percebem mais seus pais (mães e pais) como autoritativos e negligentes. Dados semelhantes são encontrados em estudo brasileiro realizado sobre o tema, no qual a maioria dos pais e das mães é classificada como negligentes, seguido do estilo autoritativo12.

Este estudo verificou associação significativa entre o uso de drogas e os estilos parentais percebidos por seus filhos, adolescentes brasileiros. Os estilos materno e paterno dos usuários de drogas, em sua maioria, foram negligentes, e o modelo parental autoritativo de mães e pais esteve mais associado aos jovens não usuários de drogas. Estudo anterior realizado com apenas os estilos parentais autoritativo, autoritário e permissivo apontou que os filhos de pais permissivos tendem a apresentar uso de tabaco e álcool6. Isso significa que nas relações com dificuldades de imposição de limites, e diminuída a presença de afeto e apoio, os adolescentes apresentam maior suscetibilidade ao uso de drogas, quando comparados com aqueles que têm elevada afetividade, entendimento de exigências impostas e negociadas, além da presença de comunicação bidirecional com os pais6. A associação positiva entre o estilo autoritativo e o não consumo de substâncias, bem como a presença do modelo negligente relacionado ao uso de drogas, também foram encontrados em estudos semelhantes7,13. Por outro lado, a literatura tem reportado a associação do uso de práticas parentais com a privação de privilégios e afeto aos problemas de conduta com atitudes impulsivas, como o comportamento antissocial22, que frequentemente se relaciona ao uso de drogas2.

Outro resultado importante deste estudo refere-se ao estilo parental materno. O modelo educativo autoritário, indulgente ou negligente das mães aumenta a chance em três vezes de o adolescente fazer uso de drogas, o que caracteriza maior importância para as interações estabelecidas com as mães. O papel dos pais não parece tão relevante. Muitas vezes, cabe às mães o papel de aconselhar e acompanhar emocionalmente os filhos23, o que pode justificar o resultado encontrado no que se refere à dimensão de responsividade com média mais elevada nas mães.

As dimensões de exigência e responsividade das mães, de acordo com a percepção dos adolescentes, apresentaram médias maiores que as dos pais. Outro estudo também apontou que as mães, na percepção de filhos adolescentes, são mais afetivas, transmitem maior apoio e interesse nas suas atividades, ao mesmo tempo em que manifestam maior exigência do que os pais, que, por sua vez, são percebidos como menos sensíveis e envolvidos nas interações familiares12.

A literatura revela dados semelhantes aos nossos no que se refere ao uso de tabaco, em que filhos de pais negligentes apresentaram chance aumentada de fazer consumo dessa substância24. Estudo realizado com adolescentes franceses apontou uma relação negativa entre controle parental e uso de substâncias, sendo que essa relação foi maior para o uso de tabaco e maconha do que para uso do álcool25. Outros resultados foram encontrados em pesquisa que avaliou consumo de maconha, cocaína e ecstasy, ressaltando que menores níveis de apoio e controle parental estiveram associados ao consumo de cocaína e ecstasy. Ao contrário, o apoio dos pais foi considerado maior entre os adolescentes usuários de maconha e de não usuários de drogas7. No presente estudo, também não foi encontrada significância estatística no que se refere à relação entre os estilos parentais percebidos e consumo de maconha e álcool, diferentemente dos resultados obtidos em estudo longitudinal24, que apontou a existência de associação entre o consumo de álcool e os estilos autoritário e negligente.

Os filhos que tiveram a percepção dos modelos parentais paternos como não autoritativos tiveram duas vezes mais chance de desenvolver abuso de alguma droga. Estudos apontam o início precoce do consumo de drogas entre adolescentes e ainda referem que quanto mais cedo o indivíduo iniciar o uso de álcool ou tabaco, maior será sua vulnerabilidade para o desenvolvimento de abuso ou dependência das mesmas substâncias e uso concomitante de drogas ilícitas26,27.

Aponta-se também que, nesta amostra, o uso de drogas esteve associado a algumas características sociodemográficas, como sexo e idade. O sexo dos adolescentes apresentou relação significativa com o consumo de substâncias na amostra estudada, sendo que os meninos usam drogas três vezes mais quando comparados às meninas. De fato, o consumo de álcool parece estar mais associado aos adolescentes do sexo masculino28, assim como o consumo de substâncias em geral26. Os adolescentes mais velhos apresentam chance maior, em quase três vezes, de fazer consumo de substâncias, resultado também encontrado em estudo que investigou o consumo de álcool entre adolescentes28.

Uma das limitações do nosso estudo refere-se ao fato de ter sido realizado considerando-se somente a percepção de adolescentes acerca dos estilos parentais. Estudos que busquem mensurar as percepções tanto dos pais quanto dos filhos adolescentes podem fornecer dados mais amplos no que se refere à avaliação de modelos parentais e consumo de drogas. Além disso, na adolescência, os filhos tendem a perceber de forma mais negativa a relação com seus pais29. Como a visão unicausal do consumo de drogas pode ser associada a práticas e orientações inócuas ou nocivas5, é necessário um entendimento do uso de drogas como fenômeno multifatorial, que abrange aspectos muito amplos das redes sociais, educacionais e comunitárias, além dos estilos parentais. Outra limitação refere-se ao fato de o contato telefônico não permitir a confirmação biológica do consumo de drogas, devido a problemas de coleta nessa amostra da população disseminada em um país de dimensões continentais. Ao mesmo tempo, apresenta vantagens, uma vez que mantém o anonimato14. Diferentes estudos têm demonstrado a confiabilidade nas informações fornecidas por usuários de drogas a respeito de seu consumo16,17 e a relevância do relato de adolescentes sobre o consumo de substâncias e problemas relacionados, especialmente quando há menor ameaça à confidencialidade de seus dados18.

Em conclusão, demonstrou-se que o estilo autoritativo materno contribui para a prevenção do uso de drogas e que o estilo autoritativo paterno tende a estar associado ao não abuso de drogas. Cabe ressaltar que a identificação da associação entre os estilos parentais e o uso e abuso de drogas pode ser realizada em serviços de atenção à saúde, contribuindo para a prevenção desses problemas e para a promoção de relações familiares mais saudáveis.

 

Agradecimentos

Os autores agradecem à Coordenação de Aperfeiçoamento Pessoal de Nível Superior (CAPES) (bolsa de pesquisa em nível de Mestrado - M.C.B.); ao CNPq (bolsa de produtividade 1C - H.M.T.B.); à colaboração da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD); e à contribuição da Psicóloga Dra. María Piedad Rangel Meneses.

 

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Correspondência:
Mariana Canellas Benchaya
Farmacologia, VIVAVOZ
Rua Sarmento Leite, 245/316 - Centro
CEP 90050-170 - Porto Alegre, RS
Tel.: (51) 3303.8764
E-mail: maribenchaya@gmail.com

Artigo submetido em 25.10.10, aceito em 16.02.11.

 

 

Apoio financeiro: Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD) e Associação Mario Tannhauser de Ensino Pesquisa e Assistência (AMTEPA).
Não foram declarados conflitos de interesse associados à publicação deste artigo.
Como citar este artigo: Benchaya MC, Bisch NK, Moreira TC, Ferigolo M, Barros HM. Non-authoritative parents and impact on drug use: the perception of adolescent children. J Pediatr (Rio J). 2011;87(3):238-244.