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Revista Brasileira de Oftalmologia

Print version ISSN 0034-7280

Rev. bras.oftalmol. vol.70 no.6 Rio de Janeiro Nov./Dec. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-72802011000600003 

ARTIGO ORIGINAL

 

Estudo das correlações entre a área do disco óptico e as características geométricas e biomecânicas da córnea

 

Study of correlation between optic disc size and corneal geometry and biomechanics

 

 

Renata Siqueira da SilvaI; Jorge Augusto Siqueira da SilvaII; Fernanda Bina Fonyat de LimaIII; Bruno de Freitas ValbonIV; Marcella Quaresma SalomãoV; Renato Ambrósio JuniorVI

I'Fellowship' em Glaucoma no Wills Eye Hospital - Filadélfia- EUA; Membro do Grupo de Estudos de Tomografia e Biomecânica da Córnea - Rio de Janeiro (RJ), Brasil
IIResidente do 2° ano do CEPOA - Centro de Estudos e Pesquisas Oculistas Associados - CEPOA - Rio de Janeiro (RJ), Brasil
III'Fellow' de Catarata do Hospital São Vicente de Paulo - Rio de Janeiro (RJ), Brasil
IVPós-graduando (Mestrado) da Universidade Federal Fluminense - UFF - Rio de Janeiro (RJ), Brasil
V'Fellowship' em Córnea e Cirurgia Refrativa no Cole Eye Institute - Cleveland Clinic - EUA
VIProfessor Associado de Oftalmologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUCRJ - Rio de Janeiro (RJ), Brasil; Coordenador Científico do Grupo de Estudos de Tomografia e Biomecânica de Córnea - Rio de Janeiro (RJ), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Correlacionar área do disco óptico com parâmetros geométricos e biomecânicos da córnea.
MÉTODOS: Estudo retrospectivo nos arquivos de pacientes do Instituto de Olhos Renato Ambrósio a fim de se identificar os pacientes que realizaram exames HRT (Heidelberg Retina Tomography), Pentacam e ORA. A retinografia digital foi revisada de modo a se classificar na escala DDLS (Disc Damage Likelihood Scale).
RESULTADOS: 244 olhos de 122 pacientes (75 mulheres) foram incluídos no estudo. A média de idade foi de 47,2 anos (de 8 a 97 anos, desvio padrão de 21,7). Não houve correlação significante entre área do disco e nenhuma das medidas de PIO (IOPg, IOPcc). Encontrou-se uma relação negativa significativa com CRF (r=-0,1337, p=0,0263). A relação com histerese foi também negativa (-0,1123), mas o valor p foi maior que 0,05 (0,0625). Não houve correlação significante entre área do disco e progressão paquimétrica mínima ou média. Entretanto, observou-se correlação significante e positiva entre a área do disco e astigmatismo corneano (Delta K), sendo de 1,15 (p=0,0129).
CONCLUSÃO: Existe uma correlação negativa entre a área do disco óptico e os parâmetros biomecânicos e estruturais da córnea. Tal correlação pode ser parte da explicação da córnea ser um fator de risco para maior susceptibilidade do nervo óptico para neuropatia glaucomatosa.

DESCRITORES: Disco óptico; Córnea/anatomia & histologia; Topografia da córnea; Biomecânica; Estudos retrospectivos


ABSTRACT

PURPOSE: To correlate optic disc size geometry, corneal architecture and biomechanics.
METHODS: Optic disc area and geometry was accessed by HRT III (Heidelberg Retina Tomography - Heidelberg eng), Pentacam (Oculus) was used for accessing IOP and corneal parameters and ORA (Ocular Response Analyze - Reichert) was utilized to access corneal biomechanical properties. Classification based DDLS (Disc Damage Likelihood Scale) scale from retinography was performed. Settings: Instituto de Olhos Renato Ambrósio.
RESULTS: 244 eyes of 122 patients (75 female) were included. The average age was 47,2 years (from 8 to 97 years). A significant negative correlation was found between disc optic size and CRF (r=0,1337, p=0,0263). A small trend was also found between optic nerve size and hysteresis (r=-0,1123, p=0,0625). A significant negative correlation was also found between disc optic size and thinnest point, maximal pachymetri progression, corneal volume at (1, 4 e 6mm) and difference from thinnest and central value (p<0,05). The highest negative correlation was with corneal volume within 4mm in diameter (r=-1,887; p=0,0017). A positive correlation between size of optic disc and cornea astigmatism (delta K), was found (r= 1,15; p=0,0129).
CONCLUSION: There is a negative correlation between optic disc size and corneal thickness and biomechanical properties. These findings may help explaining susceptibility for the development of glaucoma neuropathy in some cases.

Keywords: Optic disc; Cornea/anatomy & histology; Corneal topography; Biomechanics; Retrospective studies


 

 

INTRODUÇÃO

Desde a publicação em junho de 2002 do estudo OHTS (Ocular Hypertension Treatment Study), que identificou, em análise multivariada, a espessura corneana central (ECC) como o mais importante fator preditivo para o desenvolvimento de lesão glaucomatosa do nervo óptico em pacientes hipertensos oculares(1), há um crescente interesse nas relações entre características da córnea e a neuropatia óptica glaucomatosa. Os achados do OHTS foram validados com o estudo europeu EGPS (European Glaucoma Prevention Study Group)(2). O modelo de predição que combina os dados do OHTS e do EGPS calcula que para cada 40 micra de diminuição da ECC, há um risco duas vezes maior de desenvolvimento de lesão glaucomatosa em cinco anos(3). Adicionalmente, outros estudos têm relacionado espessura corneana mais baixa com maior gravidade na apresentação da lesão glaucomatosa(4-6).

Inicialmente, as explicações para a associação entre a influência da espessura corneana no desenvolvimento da neuropatia óptica glaucomatosa estavam baseadas no fato de que córneas mais finas apresentam uma influência negativa na medida da pressão intraocular (PIO) por meio de tonometria de aplanação. Deste modo, pacientes com córneas mais finas apresentariam medidas de PIO menos elevadas e, consequentemente, seriam menos tratados, o que aumentaria o risco de lesão.

A influência da espessura da córnea na medida da pressão intraocular (PIO) por meio de tonometria de aplanação é bastante reconhecida(7-9). Segundo o princípio de Imbert-Fick, no qual se baseia a tonometria de aplanação, a pressão interna de uma esfera cheia de fluidos é diretamente proporcional à força requerida para realizar externamente o aplanamento de sua parede, contanto que a superfície seja uma membrana perfeitamente elástica, seca, esférica, e infinitamente fina. De fato, as limitações do princípio de Imbert-Fick já eram reconhecidas por Goldmann e Schmidt quando introduziram este método em 1957, ao fazerem duas suposições na tentativa de compensar tais limitações: 1) a córnea sem doença apresentava uma espessura pouco variável, em torno de 500 µm; 2) os efeitos da rigidez da córnea seriam equilibrados pela tensão de superfície do menisco de lágrima em contato com a ponta do instrumento ao aplanar uma área circular com diâmetro de 3,06 mm(10).

De forma alternativa, a hipótese de existir uma relação entre a espessura corneana e uma maior susceptibilidade para lesão glaucomatosa foi aventada com base nas relações anatômicas entre a córnea e o disco óptico, que são as aberturas da parede escleral. Considerando-se as origens genética e embrionária semelhantes, bem como a continuidade destas estruturas, as propriedades biomecânicas da córnea de elasticidade e resistência podem estar relacionadas com as do disco óptico a nível da lâmina cribiforme, o que explicaria maior impacto da pressão nas fibras nervosas.

Novas evidências clínicas identificam a espessura corneana como um fator de risco para progressão da neuropatia óptica glaucomatosa. O estudo EMGT (Early Manifest Glaucoma Trial), no seguimento de onze anos, identificou a ECC como um importante fator de predição para progressão do glaucoma em pacientes com níveis pressóricos mais elevados(11). É interessante notar que, provavelmente pelo fato que menos pacientes com glaucoma desenvolveram progressão da doença, o seguimento de cinco anos do mesmo estudo falhou em identificar tal associação clínicas(12).

Outros parâmetros da córnea, como a ceratometria, também exercem importante influência no "erro" da medida da PIO por aplanação, que é hiperestimada em casos de córneas mais espessas e mais curvas. Entretanto, um modelo matemático elaborado por Liu e Roberts identifica que o módulo de Young da córnea, relacionado com suas propriedades biomecânicas, exerce uma influência independente e superior à espessura e curvatura da córnea(13).

O estudo clínico das propriedades biomecânicas da córnea tornou-se possível com a introdução do sistema de não contato, ORA (Ocular Response Analyzer, Reichert), em 2005. O ORA é um tonômetro de sopro que utiliza um pulso de ar extremamente controlado e monitorado em sua intensidade, com fases ascendentes e descendentes simétricas. O exame leva cerca de 20 mili segundos. O pulso de ar desencadeia deformação na superfície da córnea que passa por um primeiro momento de aplanação, que é identificado por um pico no reflexo da córnea (ponto 1, Figura 1). Após tal momento, a córnea ainda sofre a pressão do pulso de ar até ficar ligeiramente côncava (ponto 2, Figura 1) e retorna ao seu estado original de modo a passar por um segundo momento de aplanação (ponto 3, Figura 1). O comportamento da córnea e o sinal obtido durante o exame representa as propriedades biomecânicas da córnea medida. A diferença entre a pressão do pulso de ar nos momentos de aplanação é relacionada com a capacidade viscoelástica da córnea de armazenar energia e é denominada histerese (Histerese = P1 - P2). Quatro parâmetros são gerados na versão atual do software do ORA: PIO calibrada para Goldmann, PIO compensada da córnea, histerese e fator de resistência corneana(14).

 

 

Congdon et al. realizaram um estudo no qual se mediu a histerese em uma coorte de pacientes com diagnóstico de glaucoma, que foram avaliados retrospectivamente para determinar o grau e a progressão da lesão. O estudo identificou que histerese mais baixa era um importante fator de predição de piora dos parâmetros perimétricos(15).

Por outro lado, a medida central da espessura da córnea (ECC) não reflete de forma completa as características geométricas da córnea. A córnea é fisiologicamente mais fina no centro e mais espessa na sua periferia, com aumento gradual em direção ao limbo. O perfil de progressão paquimétrico é um parâmetro tomográfico da córnea que tem características paramétricas "Gaussianas" em uma população normal e tem características significativamente distintas em córneas normais e com ceratocone(16,17). O tomógrafo de córnea e segmento anterior, Pentacam (Oculus) tem software específico que analisa graficamente a progressão paquimétrica e calcula a média de progressão para cada olho estudado.

Além da limitação de ser uma medida pontual, a espessura central não é necessariamente o ponto mais fino da córnea, havendo em 12% das córneas normais, uma diferença superior a 10µm(18). Estudos da ECC mostram importante variação ao longo do tempo(19), o que pode ser explicado por variação na posição da ponteira do ultrassom na córnea, uma vez que não observamos tal variação ao longo de quatro anos no mapa paquimétrico em um grupo de 116 olhos com córneas normais(20).

Novos estudos vêm sendo realizados para identificar novas relações entre a córnea e o nervo óptico, de modo que sirvam para justificar uma maior susceptibilidade de córneas mais finas e com menor viscoelasticidade para a lesão do nervo óptico. Lesk et al. concluíram que pacientes com glaucoma de ângulo-aberto e hipertensão ocular com córneas mais finas apresentam maior diminuição da profundidade de escavação que pacientes com córneas mais espessas, quando submetidos a redução da PIO(21). Esta avaliação, realizado com o HRT (Heidelberg Retina Tomography) reconhecidamente demonstra uma maior variação a nível da lâmina cribiforme (complacência) nos pacientes com córnea mais fina. Adicionalmente, o estudo observou menor melhora nos parâmetros de fluxo sanguíneo da rima neural por meio do scanning laser Doppler flowmetry no grupo com córneas mais finas(21).

Pakravan et al., em estudo retrospectivo envolvendo pacientes com glaucoma de ângulo-aberto, encontraram uma relação negativa entre a área do nervo óptico e a ECC(22), existindo diferenças significativas entre os grupos raciais. Tal relato sugere que um nervo com maior diâmetro sofra maior impacto da pressão de acordo com a lei de Laplace, o que justificaria uma maior susceptibilidade a lesão pela pressão elevada.

O objetivo deste trabalho é relacionar as características biomecânicas da córnea medidas com o ORA, as características estruturais (geometria) da córnea medidas com o Pentacam HR e o diâmetro do nervo óptico medido com o HRT.

 

MÉTODOS

Foi feito um estudo retrospectivo com base nos arquivos de pacientes do Instituto de Olhos Renato Ambrósio, de modo a se identificar os pacientes que realizaram exames HRT (Heidelberg Retina Tomography), Pentacam e ORA. A tentativa de eliminar a influência da raça neste estudo, limitou-se a incluir olhos de pacientes considerados como de origem caucasiana. Todos os exames de HRT e ORA foram feitos no mesmo dia, de forma sequencial. Os pacientes que apresentavam alguma doença na córnea ou cirurgia corneana prévia foram excluídos. Apenas pacientes com ambos os olhos elegíveis para o estudo foram incluídos.

Apenas exames com qualidade considerada adequada foram selecionados para o estudo, excluindo-se os pacientes com pelo menos um exame de qualidade comprometida, de acordo com os padrões da cada instrumento.

O exame do ORA foi realizado com duas medidas consecutivas em cada olho. Os dados IOPg, IOPcc, CRF e histerese foram considerados. O exame do Pentacam foi realizado com sistema rotacional digital de Scheimpflug, programado para realizar 25 fotos em 2 segundos em 360º.

Os dados dos exames (HRT, ORA e Pentacam) de cada paciente foram exportados para planilha do Excell (Microsoft Office 2006) usando os softwares disponíveis de cada aparelho. Os mapas topográficos e paquimétricos e os perfis de progressão paquimétrica foram extraídos do exame Pentacam para cada paciente e armazenados em arquivo digital (jpeg). Da mesma forma a retinografia digital com o HRT3 OU Report foram gerados e arquivados para cada paciente.

Cada retinografia foi revisada e classificada na escala DDLS (Disc Damage Likelihood Scale - Figura 2)(23) por pesquisadora treinada (RSS) em fellowship pelo próprio Dr. G. Spaeth, quem descreve tal classificação.

 

 

Os dados de todos os exames de cada olho foram combinados na mesma planilha para possibilitar estudo estatístico utilizando-se o software SPSS v 13.0. Como o exame do ORA consistiu em duas medidas, o estudo das concordâncias entre cada medida foi realizado. Utilizou-se o teste de Pearson (Pearson's product-moment correlation) para IOPg, CRF e histerese, uma vez que tais dados foram considerados normais ou Gaussianos por meio do teste de Kolmogorov-Smirnov (Kolmogorov-Smirnov Test of Composite Normality). IOPcc teve uma distribuição não normal, de modo que utilizou-se o teste de Spearman (Spearman's rank correlation).

Considerando-se que pelo teste de Kolmogorov-Smirnov, a área do disco óptico teve distribuição normal ou gaussiana, as correlações entre a área do disco óptico foram feitas utilizando-se o teste de Pearson, no caso do segundo parâmetro ser também gaussiano, ou teste de Spearman, no caso do segundo parâmetro ter distribuição não gaussiana. As correlações foram estudadas com: CRF (Corneal Resistance Factor), histerese, ceratometria (K1, K2 e K-médio), astigmatismo corneano (delta K), eixo do astigmatismo, profundidade, volume e ângulo da câmara anterior, paquimetria mais fina, progressão paquimétrica mínima, média e máxima, volume corneano (1, 4 e 6 mm), distância do ápice ao ponto mais fino, diferença entre o ápice e o ponto mais fino e classificação DDLS.

 

RESULTADOS

Duzentos e quarenta e quatro olhos de 122 pacientes (75 mulheres) foram incluídos no estudo. A média de idade foi de 47,2 anos (de 8 a 97 anos, desvio padrão de 21,7).

O estudo da concordância entre os parâmetros do ORA revelou boa reprodução das medidas. As correlações entre a primeira e segunda medidas para IOPg, IOPcc, CRF e histerese foi respectivamente de 0,9130, 0,8541, 0,8487 e 0,8098 (p<0,005).

A média de área do disco foi de 2,04 mm com desvio padrão de 0,51. A variável mostrou-se normal ou Gaussiana, de acordo com teste de Kolmogorov-Smirnov (p=0,12, ks=0,0481).

Não houve correlação significante entre área do disco e nenhuma das medidas de PIO (IOPg, IOPcc). Observou-se uma associação negativa significativa entre a área do disco e os parâmetros biomecânicos e geométricos da córnea. A Tabela 1 resume as médias, desvio padrão e se a distribuição foi considerada paramétrica.

Não foram encontradas associações significantes com a ceratometria, profundidade, volume e ângulo da câmara anterior.

Encontrou-se uma relação negativa significativa com CRF (Figura 3), sendo o fator de correlação de -0,1337 (p=0,0263). A relação com histerese foi também negativa (-0,1123), mas não foi significante com valor p maior que 0,05 (0,0625).

 

 

As correlações entre área do disco e paquimetria mais fina (Figura 4), progressão paquimétrica máxima (Figura 5), volume corneano (1, 4 e 6mm) e diferença paquimétrica entre o ponto mais fino e o apical foram significantes e negativas (p<0,05). A correlação com maior significância foi com o volume corneano em 4mm de diâmetro (Figura 6), sendo -1,887 (p=0,0017).

 

 

 

 

 

 

Não houve correlação significante entre área do disco e progressão paquimétrica mínima ou média, bem como distância do ponto mais fino ao ápice corneano e ceratometria. Entretanto, observou-se correlação significante e positiva entre a área do disco e astigmatismo corneano (Delta K), sendo de 1,15 (p=0,0129). Observou-se uma correlação significativa entre a área do disco e o eixo do astigmatismo, com valor r = -0,1766 (p=0,0034). Entretanto, observando-se a distribuição dos eixos no gráfico de dispersão, observa-se que há uma distribuição homogênea entre os valores de área do disco óptico e os eixos do astigmatismo (Figura 7).

 

 

A Tabela 2 resume as correlações entre área do disco e os parâmetros estudados, bem como o teste estatístico utilizado.

 

DISCUSSÃO

As correlações entre parâmetros da córnea com características do nervo óptico é uma das áreas de maior interesse em pesquisas, uma vez que estas podem representar clinicamente fatores de risco para a neuropatia óptica glaucomatosa.

O presente estudo encontrou uma associação negativa entre parâmetros tomográficos (geométricos) e biomecânicos da córnea e a área do disco óptico. Um recente estudo anterior(22) encontrou resultados semelhantes correlacionando-se apenas a espessura corneana.

Existem importantes correlações entre as características geométricas e biomecânicas da córnea e estruturais do nervo óptico com outras características individuais, como sexo, idade, raça e pigmentação da íris(24-33). Um estudo realizado em olhos de cadáver falhou em identificar associações entre a espessura da córnea e da lâmina cribriforme, mas artefatos relacionados com a preservação provavelmente influenciaram nos resultados(34).

Uma das limitações mais importantes deste estudo é não haver correlação com aspectos funcionais do nervo óptico por meio de avaliação perimétrica. A amostra entretanto, constituiu-se de pacientes com glaucoma ou suspeita de glaucoma encaminhados para propedêutica complementar específica. Outro viés possível é o fato de que muitos pacientes estavam em uso de medicação tópica para tratamento de glaucoma. É possível que exista uma influência de medicações hipotensoras oculares, como as prostaglandinas, em parâmetros estruturais e biomecânicos da córnea(35,36). Tal associação merece estudos mais detalhados.

O estudo de Pakravan et al. encontra importantes diferenças entre caucasianos e afro-americanos(22). Entretanto, estudos com relação a grupos raciais ficam comprometidos na população brasileira devido a grande miscigenação populacional. Por tal motivo, decidimos restringir o estudo a pacientes de origem caucasiana. Entretanto, novos estudos prospectivos podem ser realizados com maior cuidado na classificação racial dos pacientes. De fato, está bem estabelecido que existem diferenças significativas entre raças nos parâmetros corneanos e do nervo óptico, sendo que, na média, olhos de pacientes afro-americanos apresentam córneas mais delgadas e com propriedades biomecânicas mais baixas e nervos com maior diâmetro(24-33).

A hipótese que foi corroborada com o presente estudo é que existe uma maior susceptibilidade para lesão axonal em casos de nervos com área maior. Por exemplo, aceita-se que a maior propensão ao aumento verticalizado com lesão neural nas regiões superior e inferior do disco óptico está relacionado com uma maior relação de tamanhos dos poros da lâmina cribiforme, possivelmente com menos tecido conectivo para suporte(37,38).

É aceito que a espessura da córnea exerce influência na medida da PIO. Entretanto, há fatores corneanos, relacionados com sua geometria e também com as características biomecânicas que estão relacionados com a medida por tonometria de aplanação. Além disso, a influência da córnea na doença glaucomatosa parece estar relacionada com um aspecto mais essencial além de artefato de medida da PIO(39).

De acordo com os postulados e a equação de Young-Laplace, há uma maior distribuição e impacto da pressão com maior tensão superficial em áreas maiores. A denominada Lei de Laplace(22), muito utilizada em fisiologia respiratória, determina portanto uma explicação física para o fato de nervos com maior diâmetro terem maior susceptibilidade para lesão por pressão, de acordo com a teoria mecânica da fisiopatologia do glaucoma. Tal mecanismo também poderia influenciar o fato de pacientes com nervos menores, possivelmente mais robustos, terem menor chance de lesão axonal. Entretanto, tal conceito deve ser considerado com cautela, pois é sabido que pacientes com discos ópticos de menor diâmetro têm menor "tolerância" para presença de escavação, para haver doença glaucomatosa.

Novos estudos, envolvendo outros parâmetros biomecânicos, bem como o pulso ocular e o fluxo sanguíneo devem ser realizados. Estes podem ter influências distintas em casos com maior ou menor área de disco, ou com córneas mais finas ou espessas. Adicionalmente, estudos devem ser realizados para correlacionar os parâmetros da geometria da escavação e aspectos funcionais perimétricos.

 

CONCLUSÕES

Existe uma correlação negativa entre a área do disco óptico e os parâmetros biomecânicos e estruturais da córnea. Tal correlação pode ser parte da explicação da córnea ser um fator de risco para maior susceptibilidade do nervo óptico para neuropatia glaucomatosa.

 

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Endereço para correspondência:
Renato Ambrósio Junior
Rua Conde de Bonfim, nº 211/712 - Tijuca
CEP 20520-050 - Rio de Janeiro (RJ), Brazil
Tel/Fax: 55(21) 2234-4233; celular 55(21) 8222-1979
e-mail: renatoambrosiojr@terra.com.br

Recebido para publicação em: 19/1/2011
Aceito para publicação em 21/6/2011

 

 

Instituição onde o trabalho foi realizado: Instituto de Olhos Renato Ambrósio - Rio de Janeiro (RJ), Brasil.
Os autores declaram inexistir conflitos de interesse

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