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Revista Brasileira de Otorrinolaringologia

Print version ISSN 0034-7299

Rev. Bras. Otorrinolaringol. vol.72 no.1 São Paulo Jan./Feb. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-72992006000100013 

ARTIGO ORIGINAL

 

Perfil da automedicação nos pacientes otorrinolaringológicos

 

 

Alexandre Barbosa ServidoniI; Liliane CoelhoI; Marcos de Lima NavarroII; Fernanda Gobbi de ÁvilaII; Raquel MezzaliraIII

IR3 - ORL
IIOtorrinolaringologista
IIIOtorrinolaringologista - mestre

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Descrever os hábitos de automedicação praticados pelos pacientes portadores de afecções otorrinolaringológicas, visando caracterizar aspectos problemáticos passíveis de intervenção.
FORMA DE ESTUDO: Estudo descritivo.
MATERIAL E MÉTODO: Utilizamos como instrumento para a obtenção dos dados deste trabalho um questionário em formato de testes de múltipla escolha, contendo 17 questões sobre os hábitos de automedicação, distribuído a pacientes atendidos na clínica de otorrinolaringologia do Instituto Penido Burnier, durante o mês de julho de 2003.
RESULTADO: Aproximadamente 83% dos pacientes relataram já ter usado ou comprado medicação sem apresentação da receita médica. Porém, desse total, 73% responderam que tal medicação não requeria "apresentação obrigatória" da receita para a sua compra. Os mais utilizados foram: analgésicos/antitérmicos (90%), seguidos pelos antigripais (78%) e pelos AINEs (69%). Os antibióticos apareceram em 8 (11%). Com relação aos motivos ou doenças que os pacientes acreditavam possuir, as cefaléias (76%), que justificassem a automedicação, observamos: em 1 seguidas por resfriados/gripes (74%) e por quadros febris (56%). Já as otites apareceram em último lugar (12%).
CONCLUSÃO: Este trabalho demonstra a necessidade de contínuas campanhas informativas e conscientizadoras da população em geral quanto aos riscos de uma automedicação desnecessária ou equivocada, além da devida regulamentação e fiscalização do mercado farmacêutico pelas autoridades competentes.

Palavras-chave: automedicação, otorrinolaringologia, pacientes otorrinolaringológicos.


 

 

INTRODUÇÃO

A automedicação é um hábito comum em nosso país, sobretudo em pacientes com afecções otorrinolaringológicas, e sempre foi um assunto muito discutido e controverso nas relações médico-paciente e farmacêutica.

Em especial nos países em desenvolvimento, como o Brasil, a automedicação pode ser considerada uma necessidade que complementa o sistema de saúde. Desse modo, a Organização Mundial de Saúde já publicou diretrizes para avaliação dos medicamentos que poderiam ser usados em automedicação1.

Uma automedicação equivocada pode trazer sérias conseqüências para o indivíduo que dela se vale, tais como mascaramento de doenças evolutivas, enfermidades iatrogênicas e diversos efeitos indesejáveis.

Em nosso país, onde a maioria da população possui escassa instrução e informação com relação a medicamentos e seu uso correto, a prática da automedicação torna-se ainda mais arriscada. Ainda não possuímos controles rígidos estipulados por agências reguladoras, além do fraco envolvimento de profissionais da área da saúde com a orientação dos usuários.

Além disso, o não-cumprimento da obrigatoriedade da apresentação de receita médica faz com que existam no Brasil cerca de 80 milhões de pessoas adeptas da automedicação, segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias Farmacêuticas2.

Neste trabalho é apresentado um estudo descritivo da automedicação praticada por pacientes atendidos na Clínica de Otorrinolaringologia do Instituto Penido Burnier.

O objetivo desta pesquisa foi descrever os hábitos de automedicação dos pacientes de nossa clínica, visando caracterizar e quantificar aspectos problemáticos passíveis de intervenção e correção.

 

MATERIAL E MÉTODO

Utilizamos como instrumento para a obtenção dos dados deste trabalho, um questionário em formato de testes de múltipla escolha (Anexo 1), contendo 17 questões sobre os hábitos de automedicação, o qual era respondido pelo paciente durante a espera pela consulta médica, após uma justificativa sobre a finalidade do mesmo.

Este questionário foi elaborado com base no trabalho de Arrais et al. (1997)3 e por meio de sugestões do corpo clínico deste instituto.

Foram aplicados 150 questionários, igualmente distribuídos entre atendimentos de consultório durante dias úteis e atendimentos de urgência nos finais de semana.

A pesquisa foi realizada durante o mês de julho de 2003.

 

RESULTADOS

Do total de 150 questionários entregues, obtivemos retorno de 72 (48%), sendo os demais provavelmente ignorados pelos pacientes.

Das 17 questões apresentadas, notamos que houve dificuldade por parte dos pacientes em responder apenas aquela referente à quantidade de princípios ativos contidos na medicação usada, apesar de toda explicação fornecida. Mais da metade dos pacientes (57%) não respondeu esta questão.

A faixa etária variou dos 15 aos 72 anos de idade, com uma média de 38 anos.

A distribuição entre os sexos foi de 58% de mulheres e 42% de homens.

Praticamente 83% dos usuários já usaram ou compraram medicamentos sem apresentação de receita médica. Porém, deste total, 73% responderam que tal medicação não requeria "apresentação obrigatória" de receita para sua compra.

Em 62% das vezes o medicamento era para consumo próprio; 10% para consumo familiar; 25% para ambas as situações e 3% para outras pessoas.

Em 72% dos casos recorreu-se a conselhos com o farmacêutico ou balconista, e em 54% com terceiros (parente, vizinho ou amigo). Além disso, em 56% das vezes o paciente recebeu sugestões na farmácia, no momento da compra.

Entre os que souberam responder a questão, 11,74% relataram que havia apenas 1 princípio ativo no medicamento; 23% relataram haver 2 princípios ativos e 3% referiram 3 ou mais.

Quanto às medicações mais utilizadas, obtivemos os seguintes resultados: em primeiro lugar os analgésicos e antitérmicos (90%), seguidos pelos antigripais (78%) e antiinflamatórios (69%). Os antibióticos apareceram em penúltimo lugar (11%).(Tabela 1)

 

 

Com relação aos motivos ou doenças que os pacientes acreditavam possuir que justificassem a automedicação, verificamos o seguinte: em primeiro lugar as cefaléias (76%), seguidas por resfriados e gripes (74%) e quadros febris (56%). Já as otites, por exemplo, apareceram em último lugar (12%). (Tabela 2)

 

 

Cerca de 51% dos usuários basearam-se em prescrições médicas antigas para se automedicarem.

As demais questões apresentadas no questionário não se mostraram relevantes para o objetivo final desta pesquisa.

Os Gráficos 1 a 7 mostram os resultados deste estudo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DISCUSSÃO

Pudemos constatar neste estudo uma prática maior da automedicação entre as mulheres, sobretudo na terceira e quarta décadas de vida; já entre os homens a distribuição foi mais homogênea, nas diversas idades analisadas, em acordo com os resultados obtidos nos trabalhos de Carlini5 e Paulo8.

Foi possível verificar que a maior parte dos medicamentos era adquirida para uso próprio, e não familiar, fato que minimiza os riscos de contaminação cruzada de familiares pelo uso comum de certos medicamentos (como gotas nasais), bem como diminui os riscos de tratamentos inadequados e/ou incompletos para outros membros da família. Tal constatação também havia sido demonstrada no trabalho de Arrais et al3.

Já os problemas que geraram os casos de automedicação continuam sendo, em sua maioria, doenças autolimitadas, o que não justifica o uso de medicações como os antibióticos. Porém, o uso de analgésicos, antigripais e xaropes para tosse, desde que corretamente utilizados, estaria justificado, visando apenas melhora da sintomatologia e da qualidade de vida do paciente.

Muitos desses medicamentos ainda refletem o mercado farmacêutico nacional, caracterizado pela presença de muitos produtos desnecessários, ou pelo menos de eficácia questionável, intensamente propagandeados, mas sem a devida orientação para o público em geral.

Notamos também um número relativamente baixo de medicações que necessitavam de apresentação obrigatória da receita médica no ato da compra, fato que pode sugerir uma maior conscientização da população em relação às normas regulamentares e aos perigos da automedicação equivocada.

Constatamos, enfim, que os medicamentos estão incorporados à dinâmica de uma sociedade de consumo, estando desse modo sujeitos aos interesses mercadológicos e assim afastando-se da sua finalidade primordial de prevenção, diagnóstico e tratamento das enfermidades que afligem o ser humano.

 

CONCLUSÃO

Este trabalho demonstra a necessidade de se realizarem campanhas informativas e conscientizadoras da população em geral quanto ao uso correto das diversas medicações disponíveis no mercado. Para isto, é imprescindível a participação ativa de profissionais da área da saúde, sobretudo médicos e farmacêuticos, além da colaboração da indústria de medicamentos, da regulamentação governamental e de uma ampla e contínua fiscalização pelas autoridades competentes.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. World Health Organization. Guidelines for the medical assessment of drugs for use in self-medication. Copenhagen; 1986.        [ Links ]

2. Ivannissevich A. Os perigos da automedicação. Rio de Janeiro: Jornal do Brasil, 23 jan.1994.        [ Links ]

3. Arrais PSD et al. Perfil da automedicação no Brasil. Rev. Saúde Pública 1997; 31: 71-7.        [ Links ]

4. England RJA et al. Accuracy of patient self-medication with topical eardrops. The Journal of Laryngology and Otology 2000; 114: 24-5.        [ Links ]

5. Carlini EA & Masur J. Venda de medicamentos sem receita médica nas farmácias de São Paulo. Rev Assoc Med Bras 1986; 32: 75-8.        [ Links ]

6. Chetley A. A health business? World health and the pharmaceutical industry. London: Zed Books; 1990.        [ Links ]

7. Haines A. Health care in Brazil. BMJ 1993; 306: 503-6.        [ Links ]

8. Paulo LG & Zanine AC. Automedicação no Brasil. Rev Ass Med Bras 1988; 34: 69-75.        [ Links ]

9. World Health Organization. Collaborating Centre for Drug Statistics Methodology and Nordic Council on Medicines. Guidelines for ATC Classification. Oslo, 1990.        [ Links ]

10. Capellà D & Laporte JR. Métodos aplicados en estudios descriptivos de utilización de medicamentos. In: Laporte JR & Tognoni G. Principios de epidemiologia del medicamento. 2 ed. Barcelona: Masson-Salvat; 1994. p.67-93.        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Alexandre Barbosa Servidoni
Rua Álvaro Muller 901 Bairro Guanabara
Campinas SP 13023-181

Este artigo foi submetido no SGP (Sistema de Gestão de Publicações) da RBORL em 5 de junho de 2005.
Artigo aceito em 5 de agosto de 2005.

 

 

Clínica de ORL do Instituto Penido Burnier