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Revista Brasileira de Otorrinolaringologia

Print version ISSN 0034-7299

Rev. Bras. Otorrinolaringol. vol.72 no.4 São Paulo July/Aug. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-72992006000400013 

ARTIGO ORIGINAL

 

Caracterização clínica de idosos com disfunção vestibular crônica

 

 

Juliana Maria GazzolaI; Fernando Freitas GanançaII; Mayra Cristina ArataniIII; Monica Rodrigues PerraciniIV; Maurício Malavasi GanançaV

IFisioterapeuta. Especialista em Gerontologia pela UNIFESP - EPM. Pós-Graduada (Mestrado) em Ciências pelo Curso de Pós-Graduação em Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço da UNIFESP - EPM. Bolsista da FAPESP. Fisioterapeuta voluntária observadora do Setor de Reabilitação Vestibular da Disciplina de Otoneurologia da UNIFESP
IIMédico Otorrinolaringologista Doutor em Medicina pela UNIFESP - EPM. Professor Afiliado da Disciplina de Otoneurologia da UNIFESP - EPM. Professor do Curso de Pós-graduação em Reabilitação Neuromotora da UNIBAN
IIIFisioterapeuta. Especialista em Gerontologia pela UNIFESP - EPM. Fisioterapeuta voluntária observadora do Setor de Reabilitação Vestibular da Disciplina de Otoneurologia da UNIFESP
IVFisioterapeuta. Doutora em Ciências da Reabilitação pela UNIFESP - EPM. Professora Coordenadora do Mestrado em Fisioterapia da Universidade Cidade de São Paulo. Fisioterapeuta voluntária observadora do Setor de Reabilitação Vestibular da Disciplina de Otoneurologia da UNIFESP
VProfessor Titular de Otorrinolaringologia da UNIFESP - EPM. Pesquisador Sênior do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu (Mestrado) em Ciências da Reabilitação Neuromotora da UNIBAN. Responsável pela Área de Equilibriometria do Setor de Otorrinolaringologia do Centro de Medicina Diagnóstica Fleury - São Paulo (SP)

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A tontura de origem vestibular é comum entre idosos.
OBJETIVO:
Caracterizar idosos com disfunção vestibular crônica em relação aos dados sociodemográficos, clínico-funcionais e otoneurológicos.
MATERIAL E MÉTODO:
Estudo de casos que incluiu 120 idosos com disfunção vestibular crônica. Foram realizadas análises descritivas simples.
RESULTADOS:
A 5,77±amostra apresentou maioria feminina (68,3%), com média etária de 73,40 1,84±anos. O número médio de doenças associadas ao quadro vestibular foi de 3,83 e o número médio de medicamentos foi de 3,86±2,27. O exame vestibular evidenciou vestibulopatia periférica deficitária unilateral (29,8%) e as hipóteses diagnósticas prevalentes foram labirintopatia metabólica (40,0%) e vertigem posicional paroxística benigna (36,7%). Para 52 (43,3%) pacientes, a tontura começou há mais de 5 anos. Em relação à queda, 64 idosos (53,3%) apresentaram pelo menos uma queda no último ano e 35 (29,2%) referiram quedas recorrentes.
CONCLUSÕES:
A amostra foi representada por maioria feminina e média etária elevada, com doenças associadas ao quadro vestibular e polifarmacoterapia. As vestibulopatias e a topografia mais freqüentes foram, respectivamente, labirintopatia metabólica e vascular e síndrome periférica deficitária unilateral. A tontura é uma condição crônica e a associação de vestibulopatias é comum. A ocorrência de quedas é prevalente na população de idosos com disfunção vestibular crônica.

Palavras-chave: doença vestibular, idoso, tontura.


 

 

INTRODUÇÃO

A disfunção vestibular assume particular importância na população idosa, pois, o aumento da idade é diretamente proporcional à presença de múltiplos sintomas otoneurológicos associados, tais como vertigem e outras tonturas, perda auditiva, zumbido, alterações do equilíbrio corporal, distúrbios da marcha e quedas ocasionais, entre outros1.

As tonturas são decorrentes de distúrbios primários ou secundários do sistema vestibular em aproximadamente 85% dos casos2.

A vertigem e outras tonturas de origem vestibular são muito freqüentes na população idosa. Segundo Ganança e Caovilla3 as citações sobre a prevalência da vertigem são diversas. É presente em 5 a 10% da população mundial; sétima queixa mais encontrada em mulheres e quarta nos homens; aflige 47% dos homens e 61% das mulheres com mais de 70 anos; a queixa mais comum após os 75 anos de idade; o segundo sintoma mais comum até os 65 anos e o mais comum após os 65 anos; presente em 65% dos indivíduos com 65 anos ou mais, 50% a 60% dos idosos que vivem na comunidade ou em 81 a 91% dos idosos atendidos em ambulatórios geriátricos.

As síndromes otoneurológicas mais freqüentemente encontradas nos idosos são Vertigem Posicional Paroxística Benigna (VPPB), Doença de Ménière, Labirintopatias Vasculares, Labirintopatias Metabólicas, Presbivertigem/ Presbiataxia/ Presbitinnitus/ Presbiacusia, Neurite Vestibular, Trauma Labiríntico, Ototoxicoses, Síndrome Cervical, Migrânea Vestibular, Surdez Súbita, Doenças Imunomediadas, Schwannoma Vestibular, Insuficiência Vertebrobasilar e Esclerose Múltipla2.

Tinetti et al.4 têm considerado a tontura como uma síndrome geriátrica, condição de saúde multifatorial que ocorre do efeito acumulativo dos déficits nos múltiplos sistemas, imputando aos idosos maior vulnerabilidade aos desafios circunstanciais. Estes autores verificaram que as atividades e estados emocionais mais freqüentemente associados aos episódios de tontura foram levantar-se, virar-se e a ansiedade. Observaram, também, que sintomas depressivos, déficit de equilíbrio, infarto agudo do miocárdio prévio, hipotensão postural, número de medicamentos e déficit auditivo foram variáveis clínicas associadas ao aumento de risco para tontura. Ainda, a probabilidade de relatos de tontura foi fortemente associada ao número de variáveis predisponentes.

Uma avaliação clínica abrangente, que investiga os dados sociodemográficos, clínico-funcionais e otoneurológicos de idosos com vestibulopatia crônica pode contribuir para um diagnóstico mais preciso e uma conduta terapêutica mais adequada.

O objetivo deste estudo é caracterizar idosos com disfunção vestibular crônica em relação aos dados sociodemográficos, clínico-funcionais e otoneurológicos.

 

MÉTODO

Trata-se de estudo transversal descritivo em que a amostra foi constituída por pacientes com 65 anos ou mais, do gênero masculino ou feminino, com disfunção vestibular crônica, caracterizada pela queixa de tontura e/ou desequilíbrio e/ou atordoamento e/ou outras sensações inespecíficas de tontura há pelo menos três meses. Os pacientes foram incluídos por seqüenciamento, provenientes do Ambulatório de Otoneurologia da Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina (UNIFESP - EPM).

Foram excluídos do estudo os idosos em crise vertiginosa ou que apresentaram acuidades visual e auditiva gravemente diminuídas e absolutamente incapacitantes às atividades de vida diária, mesmo com uso de lentes corretivas e/ou aparelhos de amplificação sonora e aqueles impossibilitados de deambular independentemente e com locomoção exclusivamente por cadeira de rodas.

0 estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UNIFESP - EPM, protocolo número 01215/05. Todos os pacientes incluídos na pesquisa fizeram a leitura da Carta de Informação e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Trata-se de parte de um estudo financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), processo número 03/10119-3.

Os idosos foram inicialmente submetidos à avaliação clínica otoneurológica, que incluiu anamnese e exame físico otorrinolaringológico, audiometria, imitanciometria e exame vestibular, realizado por intermédio da vectoelectronistagmografia, de acordo com os critérios propostos por Ganança et al.2 e Ganança et al.5.

Os dados foram coletados no período compreendido entre abril de 2003 a novembro de 2004.

As variáveis analisadas foram classificadas em dados sociodemográficos, clínico-funcionais e otoneurológicos.

Os dados sociodemográficos avaliados foram gênero, idade, cor, estado civil, grau de escolaridade e arranjo de moradia.

Os dados clínico-funcionais avaliados foram número de doenças, doenças classificadas de acordo com o Código Internacional de Doenças6, número de medicamentos, medicamentos classificados pelo Anatomical Therapeutic Chemical (ATC) Classification Index7, atividades, posições e sintomas relacionadas ao aparecimento da tontura, uso de dispositivo de auxílio à marcha e ocorrência de quedas.

Os dados otoneurológicos foram compostos por diagnóstico sindrômico e topográfico da disfunção vestibular, número de afecções vestibulares associadas, classificação da disfunção vestibular quanto ao tipo de afecção, tempo de início da tontura, tipo de tontura, duração da tontura, periodicidade da tontura, escala visual analógica (EVA) de tontura e sintomas associados.

Para as análises estatísticas foram realizadas as análises descritivas dos dados. As análises foram realizadas pelo programa computacional The SAS System for Windows8.

 

RESULTADOS

A amostra deste estudo foi constituída por 120 idosos com diagnóstico médico de síndrome vestibular crônica em acompanhamento ambulatorial, com média etária de 73,40 anos e desvio-padrão (DP) de 5,77, sendo a idade máxima de 89 anos. Os dados sociodemográficos estão descritos na Tabela 1.

 

 

O número médio de doenças por indivíduo foi de 3,83 e DP de 1,84, com o máximo de nove doenças associadas, sendo que 29 (24,2%) apresentaram uma ou duas doenças, 48 (40,0%) três ou quatro doenças e 43 (35,8%) cinco ou mais doenças. A Tabela 2 apresenta dados referentes às prevalências das doenças classificadas de acordo com o Código Internacional de Doenças6.

 

 

O número médio de medicamentos utilizados pelos pacientes foi de 3,86 e DP de 2,27, sendo o uso máximo de 10 medicamentos. A Tabela 3 mostra o número de medicamentos utilizados e a Tabela 4 os classificados segundo o ATC7.

 

 

 

 

Doze (10,0%) idosos utilizavam dispositivo de auxílio para deambulação.

Em relação ao evento queda, 64 idosos (53,3%) apresentaram pelo menos uma queda no último ano. Desses, 35 (54,6%) referiram episódios recorrentes do evento. O medo de quedas e a tendência a quedas foram referidos pela maioria dos pacientes, 72,5% e 79,2%, respectivamente.

O diagnóstico topográfico da disfunção vestibular, dado pelo exame vestibular foi referente a 105 pacientes, do total de 120 idosos. Quinze pacientes não tinham realizado o exame vestibular até o momento da avaliação. O resultado do exame vestibular concluiu, em ordem decrescente de prevalência, Síndrome Vestibular Deficitária em 39,0% dos casos (15,2% na orelha direita, 14,3% na orelha esquerda e 9,5% em ambas as orelhas), Síndrome Vestibular Irritativa em 32,4% dos casos (4,8% na orelha direita, 2,9% na orelha esquerda, 12,4% ambas as orelhas e 12,4% sem lado acometido determinado), normal em 20,0% dos pacientes; Síndrome Vestibular Central em 7,6% dos idosos; e Síndrome Vestibular Mista em 1,0% dos indivíduos.

A prevalência do número de afecções vestibulares foi classificada em uma doença para 45,0% dos idosos, duas doenças para 38,3% e três ou mais doenças em 6,7% deles. As afecções vestibulares identificadas nos 120 idosos encontram-se na Tabela 5, em ordem decrescente de prevalência.

 

 

A autopercepção da intensidade da tontura referida pelos idosos com disfunção vestibular crônica, quantificada por meio da EVA, apresentou média de 6,62 pontos e DP de 2,45, tendo sido pontuada nos escores mínimo (zero) e máximo (dez) para alguns pacientes.

A prevalência do tempo de início da tontura foi de 3 a 6 meses para 10,8% dos pacientes, 7 a 11 meses em 8,3% deles, 1 a 2 anos em 25,0%, 3 a 4 anos em 12,5% e mais de 5 anos em 43,3%.

A caracterização da tontura quanto ao tipo, duração e periodicidade está apresentada na Tabela 6.

 

 

As atividades, posições e sintomas desencadeantes da tontura estão apresentados, em ordem decrescente, na Tabela 7.

 

 

Em relação aos sintomas auditivos associados, a hipersensibilidade a sons foi o mais comum, manifestando-se em 90 idosos (75,0%), seguido por zumbido (70,8%), déficit auditivo (60,0%) e sensação de pressão/ plenitude aural (54,2%). A prevalência dos sintomas neurovegetativos referidos foi sudorese/ palidez/ taquicardia em 43,3% pacientes, náuseas em 43,3%, vômitos em 17,5% e sensação de desmaio iminente em 40,8%. Destacou-se a importância dos sintomas psicológicos dos idosos vestibulopatas, como ansiedade em 74,2% dos idosos, distúrbio da memória e concentração em 68,3% e sentimento de medo em 40,0%. Outros sinais e sintomas comuns da amostra estudada foram oscilopsia em 59,2% dos indivíduos, insônia em 48,3% e cefaléia em 42,5%.

 

DISCUSSÃO

As principais características sociodemográficas da amostra da presente pesquisa foram semelhantes em relação a outros estudos que envolveram idosos com queixa de tontura, acompanhados em ambulatório de otoneurologia9-13 e ao perfil do idoso residente na zona urbana do Brasil verificado por Ramos et al.14.

Em relação à faixa etária, Ramos et al.14 encontraram uma população, em geral, relativamente jovem, com 58,0% dos indivíduos abaixo de 70,0 anos e média etária de 69,0 anos. Entretanto, na amostra de idosos vestibulopatas do presente estudo encontrou-se uma população mais idosa, o que concorda com o estudo de Ebel9. A média etária foi relativamente alta (73,4 anos), semelhante aos estudos de Ebel9, Gushikem10, Cavalli11 e Simoceli et al.13, que encontraram 74,3 anos, 72,0 anos, 70,5 anos e 72,3 anos, respectivamente.

A população do presente estudo caracterizou-se por maioria feminina. Estes achados são semelhantes aos encontrados por Ramos et al.14, na população de idosos da comunidade (60,0%) e também em amostras de idosos vestibulopatas em acompanhamento ambulatorial nos estudos de Ebel9 (68,3%), de Gushikem10 (67,6%) e de Medeiros12 (64,5%).

Campos15 apontou que a tontura é mais freqüente no sexo feminino, na proporção de 2:1. A associação de doenças vestibulares com disfunções hormonais e distúrbios metabólicos presentes nas mulheres e, ainda, a maior preocupação feminina em procurar orientação médica em relação aos homens, poderiam justificar esta prevalência16.

Mais da metade da amostra do atual estudo residia em família multigeracional. Estes dados também foram semelhantes aos encontrados por Ramos et al.14 na população de idosos da comunidade (59,0%). No entanto, não foram encontradas pesquisas que mostrassem o arranjo de moradia de idosos vestibulopatas para confrontar os achados da atual pesquisa.

A amostra do presente estudo apontou elevada proporção de idosos com baixos níveis educacionais, sendo que apenas 17,5% tinham escolaridade pós-elementar, semelhantes aos estudos de Ramos et al.14 e Medeiros12, em que 18,0% e 11,9% cursaram o pós-elementar, respectivamente.

O estudo populacional de Ramos et al.14 demonstrou que a maioria dos idosos (80,0%) apresentou pelo menos uma doença crônica e que a minoria destes idosos (10,0%) possuía no mínimo cinco doenças. Entretanto, encontrou-se no atual estudo, prevalência de cinco ou mais doenças crônicas, além da síndrome vestibular, em 35,8% dos pacientes. A amostra estudada foi constituída por voluntários provenientes de um ambulatório de otoneurologia, o que já poderia denotar um perfil diferente daquele visto na população de idosos da comunidade, em relação ao maior comprometimento da saúde.

As principais etiologias dos distúrbios vestibulares nos idosos do atual estudo foram de natureza metabólica e vascular, corroborando com as observações de Mangabeira Albernaz17 e Ganança et al.18 em relação aos pacientes com tontura, independente da idade. Estes dados também foram semelhantes a estudos que envolveram idosos em acompanhamento ambulatorial e com queixa de tontura9,10.

A labirintopatia metabólica, especialmente em idosos, pode surgir por distúrbios metabólicos como hiperlipidemia, hiper ou hipoglicemia, hiperinsulinismo ou insulinipenia, uremia, hiper ou hipotireoidismo, alterações hormonais ovarianas, entre outros. Também pode ser causada por erros alimentares, os quais podem ser causa de problemas labirínticos e/ou agir como fatores agravantes importantes. As desordens metabólicas são capazes de promover sintomas vestibulares, que variam desde instabilidade leve até quadros semelhantes à Doença de Ménière5,15,19,20. Bittar et al.21 afirmaram que em relação ao metabolismo da glicose, tanto a hipoglicemia como a hiperglicemia tem grande influência no ouvido interno e podem alterar seu funcionamento normal. As alterações insulinêmicas, em longo prazo, podem ser responsáveis pela aceleração do desenvolvimento de lesões ateroscleróticas nos pacientes com diabetes mellitus21, uma das mais prevalentes doenças na população idosa22.

Segundo Ganança et al.23, os principais distúrbios circulatórios que podem causar comprometimento periférico e/ou central dos sistemas auditivo e/ou vestibular são hiper ou hipotensão arterial, insuficiência cardíaca, infarto do miocárdio, arritmias, hipersensibilidade dos reflexos dos seios carotídicos, estenose aórtica e aterosclerose. As lesões auditivas e vestibulares costumam ser atribuídas aos distúrbios isquêmicos decorrentes da redução da perfusão, ao aporte diminuído de oxigênio e/ou aos obstáculos intravasculares (embolia, aterosclerose).

É importante ressaltar que determinadas vestibulopatias encontradas nos idosos deste estudo também poderiam ser classificadas como de origem vascular, pela possibilidade de comprometimento do fluxo sangüíneo no sistema vestibular periférico e/ou central, como por exemplo, o Diabetes Mellitus e as Hiperlipidemias, classificadas neste estudo como de origem metabólica, a VPPB e a Insuficiência Vértebro-Basilar, o que tornaria as vestibulopatias vasculares as de maior prevalência nesta faixa etária.

Destacou-se, também no presente estudo, a alta prevalência das doenças do sistema osteomuscular e tecido conjuntivo, maior que as encontradas por Ebel9 e Gushikem10 38,3% e 41,2%, respectivamente. São citadas diversas alterações do envelhecimento no sistema osteoarticular, como osteopenia fisiológica, envelhecimento cartilaginoso, sarcopenia e diminuição da velocidade da condução nervosa. Dores e disfunções do sistema músculo-esquelético constituem a mais freqüente queixa no idoso, já que muitas das doenças reumatológicas têm maior incidência com o avançar da idade, tais como, osteoporose, osteoartrite, polimialgia reumática, entre outras24.

O resultado do exame vestibular do presente estudo concordou com os encontrados por Caovilla et al.25, em que 88,7% corresponderam às síndromes vestibulares periféricas, 11,0% às síndromes centrais e 0,3% às síndromes mistas. Whitney et al.26 encontraram 79,0% de síndromes vestibulares periféricas, 7,0% centrais e 14,0% multissensoriais, em 43 pacientes com disfunção vestibular e idade entre 14 a 88 anos.

Ganança et al.27 e Sloane e Baloh28 relataram que a VPPB é a afecção vestibular mais comum nos idosos. Este dado diferiu do presente estudo, pois a afecção mais prevalente foi a labirintopatia metabólica. A hipótese diagnóstica de doença vestibular de origem metabólica foi considerada quando o paciente apresentou alterações relacionadas ao metabolismo de carboidratos e/ou lipídeos, alteração de ácido úrico ou dos níveis hormonais relacionados à tireóide e ao pâncreas, na ausência de outros quadros clínicos vestibulares. Por ter sido um diagnóstico de exclusão, ou seja, após descartar-se outras vestibulopatias e como os distúrbios metabólicos são muito comuns em idosos, os quadros idiopáticos podem ter sido considerados inadequadamente como de origem metabólica.

As vestibulopatias menos comuns nos idosos do presente estudo foram Ototoxicose, Doença Imunomediada, Neurite Vestibular, Migrânea Vestibular, Schawannoma Vestibular, Trauma Labiríntico e Síndrome Cervical. Estes achados não diferiram daqueles encontrados por Caovilla et al.25, que realizaram um estudo retrospectivo de mil pacientes novos consecutivos em clínica privada, com idade entre 21 a 80 anos, com hipótese diagnóstica de vestibulopatia à história clínica e ao exame otoneurológico.

Apesar da pequena prevalência da síndrome cervical, é importante destacar que os mecanismos fisiopatológicos osteoarticulares da coluna cervical superior como osteófitos e instabilidade atlanto-occipital; e ainda, a inflamação ou irritação das raízes cervicais ou das facetas articulares podem provocar tontura devido à alteração proprioceptiva cervical29.

A prevalência do número de afecções vestibulares no atual estudo foi de 45,0% para uma doença e de 55,0% para duas ou mais doenças, sendo semelhante aos achados de Simoceli et al.13, que encontraram 49,0% dos idosos com um único fator etiológico e 51,0% com dois ou mais fatores etiológicos do desequilíbrio dos idosos, mostrando o maior acometimento do sistema vestibular nesta faixa etária.

No atual estudo, a grande maioria dos idosos fazia uso de algum medicamento, sendo que os usuários de cinco ou mais medicamentos corresponderam a 36,7% e a média encontrada foi de 3,86 medicamentos por paciente, semelhante ao que ocorreu com os idosos avaliados por Gushikem10. Os valores encontrados no presente estudo foram superiores àqueles encontrados por Garcia30, que verificou que 72,0% dos idosos residentes na comunidade urbana utilizavam algum medicamento, com média de 2,05 medicamentos por paciente. Isto provavelmente foi verificado pelo maior comprometimento de saúde dos idosos vestibulopatas, necessitando conseqüentemente de maior número de medicamentos.

Os medicamentos mais utilizados pelos idosos do atual estudo foram para o sistema cardiovascular, trato alimentar e metabólico, sistema sangüíneo e sistema nervoso. Para Garcia30, os usuários de cinco ou mais medicamentos corresponderam a 11,2% dos pacientes. O grupo de medicamentos mais usados foi o das drogas do sistema cardiovascular, seguido por medicamento do trato alimentar e metabolismo, sistema nervoso e sistema sangüíneo. Não foram encontradas na literatura científica pertinente pesquisas que relatassem os tipos de medicamentos mais utilizados por idosos vestibulopatias.

A amostra do presente estudo diferiu dos achados populacionais no que se refere à ocorrência de quedas. Campbell et al.31, Tinetti et al.32 e Perracini e Ramos33 mostraram prevalência de quedas no último ano em torno de 30,0 a 35,0% da população idosa da comunidade, enquanto que os idosos vestibulopatas do atual estudo apresentaram prevalência maior (53,3%), semelhante ao estudo de Medeiros12 em que a prevalência foi de 59,2%.

Quedas recorrentes ocorreram em 29,2% no presente estudo, diferindo do estudo realizado por Perracini e Ramos33 na região metropolitana de São Paulo, em que se obteve prevalência de 11,0%.

A tontura de origem vestibular pode ser um fator desencadeante de quedas e quedas recorrentes, pois segundo Herdman et al.34, as disfunções vestibulares limitam o controle postural incluindo a estabilidade e o alinhamento corporal. Estes autores verificaram maior número de quedas em pacientes com disfunção vestibular bilateral entre 65 a 74 anos, com diferença estatisticamente significante quando comparados aos idosos da comunidade, da mesma faixa etária.

Em relação à tontura, houve predomínio da associação do tipo rotatória e não rotatória nos pacientes do presente estudo, diferindo do achado de Caovilla et al.25 em que a tontura rotatória foi predominante.

Os idosos vestibulopatas do atual estudo apresentaram tontura de longa duração, corroborando com o estudo de Medeiros12, em que 77,6% relataram o sintoma há mais de um ano. Sloane e Baloh28 encontraram tempo médio de duração da tontura de 36,2 meses, demonstrando a cronicidade da tontura na população idosa, e também, a dificuldade de compensação vestibular completa nesta faixa etária.

Os sintomas desencadeantes de tontura mais relatados no presente estudo foram virar a cabeça, manter a cabeça em posição específica, levantar da posição deitada, andar e ansiedade, semelhantes aos encontrados por Tinetti et al.4, cujas posições ou atividades relatadas mais citadas foram levantar da posição deitada, virar a cabeça, virar o corpo, levantar da posição sentada e a ansiedade. Estes movimentos e/ou posição da cabeça são muito estimulantes para o sistema vestibular e freqüentemente provocam vertigem e outras tonturas como nos casos de VPPB, tão prevalente nos pacientes idosos.

Diferente das atividades motoras funcionais, desencadeantes de tontura e relacionadas à movimentação cefálica e ao controle do equilíbrio, a ansiedade é uma manifestação psíquica. Os sintomas psíquicos podem ser determinados pela insegurança psíquica secundária à insegurança física gerada pelo distúrbio do equilíbrio35.

A prevalência de sintomas associados foi muito maior na população idosa do presente estudo, quando comparados ao estudo de Caovilla et al.25, em que a prevalência de sintomas associados em pacientes vestibulopatas em geral foi 24,9% para zumbido, 20,2% para hipoacusia, 18,3% para cefaléia, 14,1% para depressão, 12,6% para distúrbio da memória, 12,6% para hipersensibilidade a sons, 12,5% para náuseas, 10,3% para ansiedade, 10,1% para sensação de desmaio iminente, 10,1% para sensação de pressão/ plenitude aural, 9,5% para sentimento de medo, 7,7% para sudorese/ palidez/ taquicardia e 5,1% para vômitos. Entretanto, os dados do atual estudo concordaram com os de Gushikem10, que encontrou associação da tontura com zumbido em 79,4%, hipoacusia em 55,9%, sensibilidade a sons intensos em 47,1%, distúrbios neurovegetativos em 55,9% e síncope em 8,8% dos casos, também em idosos vestibulopatas. Estes achados corroboram com o fato de que idosos vestibulopatas tendem a apresentar acometimento concomitante mais comum de outros sistemas relacionados à função vestibular, entre eles, o auditivo.

 

CONCLUSÕES

A amostra de idosos com disfunção vestibular crônica avaliada neste estudo foi representada por maioria feminina e média etária elevada, com doenças associadas ao quadro vestibular e polifarmacoterapia. As doenças mais freqüentes associadas ao quadro vestibular foram as circulatórias, endócrinas nutricionais e metabólicas e osteomusculares. Os medicamentos mais utilizados foram os cardiovasculares e otoneurológicos. As vestibulopatias e a topografia mais freqüentes foram, respectivamente, labirintopatia metabólica e vascular e síndrome periférica deficitária unilateral. A tontura foi caracterizada como uma condição crônica de longa duração. A associação de duas vestibulopatias foi comum. A associação entre tontura rotatória e não-rotatória foi freqüente. A ocorrência de quedas e outros sintomas foi prevalente nesta população.

 

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Endereço para correspondência:
Fernando F. Ganança
Rua dos Otonis 700 Vila Clementino
045025-002 São Paulo SP
Tel/Fax: (0xx11) 5083-4654
E-mail: otoneuro@unifesp.epm.br

Este artigo foi submetido no SGP (Sistema de Gestão de Publicações) da RBORL em 25 de setembro de 2005.
Artigo aceito em 8 de junho de 2006.

 

 

Disciplina de Otoneurologia da UNIFESP - EPM.
Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), processo número 03/10119-3.