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Revista de Administração de Empresas

Print version ISSN 0034-7590

Rev. adm. empres. vol.20 no.3 São Paulo July/Sept. 1980

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-75901980000300011 

RESENHA BIBLIOGRÁFICA

 

 

Afrânio Mendes Catani

 

 

Brasil história: República Velha - texto e contexto.
Por Mendes Júnior, Antonio & Maranhão, Ricardo. São Paulo, Brasiliense, 1979. v. 3, 378 p. Cr$ 395,00.

Com o surgimento do Brasil história, texto e contexto, agora em seu volume três dedicado à República Velha, a editora Brasiliense dá continuidade à publicação dessa obra indispensável aos estudantes da história nacional. Os dois volumes anteriores foram dedicados à Colônia (1976) e ao Império (1977), sendo que o presente dá conta do período cronologicamente situado entre os anos de 1869 e 1922, ou seja, do final do Império ao surgimento do Tenentismo. As contestações ao regime que culminaram com a Revolução de 30 ficarão para o quarto volume (A Era de Vargas), e o quinto e último se intitulará Contemporâneo.

Mendes Jr. e Maranhão, auxiliados por mais 13 autores, escrevem 38 sintéticos capítulos da história brasileira do período, acrescidos de detalhadas cronologias, indicações bibliográficas, índices analíticos e remissões do texto. Isto faz com que a obra se constitua em eficiente instrumento didático, permitindo esclarecimentos imediatos sobre quaisquer dúvidas a respeito de nomes, datas e fatos compreendidos no espaço histórico analisado.

Acredito que o maior mérito deste volume didático, consagrado à memória do Prof. Duglas Teixeira Monteiro, concentra-se em romper com aquela visão mecanicista da história, em que os fatos sociais e políticos acabam reduzindo-se a um mero reflexo da ação empreendida por governantes e pelos heróis nacionais. Ou seja, enaltecem-se as ações isoladas e individuais em detrimento de mudanças estruturais amplas, de complexidade coletiva. A grande maioria dos livros didáticos de história adotados no primeiro e segundo graus delineia um quadro onde Solano Lopez e o povo paraguaio aparecem como uma horda de bárbaros, verdadeira excrescência humana que precisava ser purgada, segundo as palavras do escritor argentino Sar miento. Todavia, lendo o capítulo 53, A guerra do Paraguai (p. 45 64), no início da parte 13 - O império sem bases -, é possível perceber que em 1840 o regime paraguaio já promovia um desenvolvimento autônomo onde o analfabetismo havia sido erradicado e, também, se fechava à penetração de manufaturas inglesas, desen volvendo uma vasta indústria artesanal. "No quadro de miséria, dependência econômica e poder latifundiário, característico da América Latina, as potências não podiam aceitar um Estado insólito, que nacionalizava as terras e promovia o ensino obrigatório gratuito para todas as classes. Do ponto de vista dos políticos e intelectuais ar gentinos e brasileiros, educados na Europa à custa do suor e do sangue de escravos e camponeses miseráveis, o Paraguai era a barbárie. Era necessário integrá-lo à civilização, vale dizer, ao mercado mundial controlado pelas potên cias capitalistas. Consciente ou não disso, o governo brasileiro foi um dos executores dessa exigência de imperialismo. Os esforços que o povo brasileiro teve que despender nessa luta, e as inúmeras e importantes conseqüências que ela teve para a nossa história, só podem ser entendidos no quadro dessa hegemonia do capital britânico, que ao longo do século XIX presidiu à própria forma de organização das sociedades e dos Estados do continente. O Paraguai tentou ficar de fora dessa hegemonia. E foi punido com o extermínio do seu povo."

Este bem concatenado capítulo acompanha a ascensão de José Francia, o fundador da nação com poderes absolutos (era intitulado El Supremo), bem como sua política de guerra aos ricos e à Igreja, resultando num país que cultivava todas ou quase todas as culturas que se prestavam ao seio paraguaio, tornando-se auto-suficiente em seu abastecimento. Ao morrer, em 1840, não existia um só analfabeto no país, caso único em toda a América Latina. Carlos Antonio Lopez, o sucessor, dá continuidade a sua obra, instituindo o ensino superior, criando as primeiras indústrias de maior porte (fundição, fábrica de armas, pólvora, papel, tintas), instalando o telégrafo e construindo, já em 1861, duas ferrovias. Seu filho, o sucessor Francisco Solano Lopez, assume a presidência em 1862, mantendo o mesmo estilo do pai. "A ossa altura o progresso do Paraguai )á era motivo de cobiça para as grandes potências e países vizinhos. Desde 1861, sua balança de comércio apresentava grandes saídos, ao contrário dos crônicos déficits das economias dependentes e agro-exportadoras da América Latina. "Segundo o clássico trabalho de I eón Pomer, La Guerra del Paraguay, gran negocio!, em 1860 as exportações guaranis chegaram ao dobro de suas importações.

A referida visão estrutural do processo histórico, procurando interligar os acontecimentos econômicos, sociais e políticos, pode ser observada em praticamente todo o presente volume. Merecem destaque alguns dos capítulos inseridos na parte 18 - Companheiros de boné - principalmente os de número 75, 76 e 77, respectivamente Trabalho urbano e vida operária, Os socialistas brasileiros e a sócia! democracia, e Anarquistas e anarco-sindicalismo no Brasil. O mesmo pode ser dito com relação àqueles dedicados à industrialização e o intitulado Origens do proletariado industrial do Brasil (70). Acredito que nem todos os estudiosos concordem com a maneira pela qual esses capítulos foram desenvolvidos, mas eles são, juntamente com o dedicado à Guerra do Paraguai, os que contêm as análises mais argutas sobre o, período estudado. O comple mento Manifestações culturais no fim do Império e na Primeira República, bem como o capítulo Formação do Partido Comunista Brasileiro acabam decepcionando o leitor, pois são sumários demais, contendo um mínimo de interpretação, talvez em virtude de pouco espaço editorial concedido aos colaboradores.

Finalizando, Brasil história: República Velha -- texto e contexto, bem como os dois outros volumes dedicados respectivamente à Colônia e ao Império são obras de ângulo pedagógico, indispensáveis. Entretanto, em conversas com professores de história de ensino secundário oficial, percebi que os esforços de Mendes Jr. e Maranhão seriam melhor recompensados se os volumes não fossem vendidos a quase Cr$ 400,00 cada. Se o preço fosse pouco acima da metade do atual -- o que só se conseguiria com tiragens superiores a 20 mil exemplares -, pelo menos um número maior de professores poderia adquiri-lo e transmitir aos iniciantes uma visão da história brasileira que fugisse às grandiloqüências das ações individuais, bem como ao puro e simples relato minucioso dos acontecimentos - especialidade q"ue a maioria dos livros didáticos que ainda hoje se edita consagrou fartamente.

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