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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.5 no.2 São Paulo Dec. 1971

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101971000200001 

ARTIGO ORIGINAL

 

Aspectos ecológicos da tripanossomose americana. II – Distribuição e dispersão local de triatomíneos em ecótopos naturais e artificiais

 

Ecological aspects of South American tripanosomiasis. II – Local distribution and dispersion of triatomids in natural and artificial ecotopes

 

 

Oswaldo Paulo ForattiniI; Octávio Alves FerreiraII; Eduardo Olavo da Rocha e SilvaII; Ernesto Xavier RabelloI; Jair L. Ferreira dos SantosI

IDo Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da USP – Av. Dr. Arnaldo, 715 – São Paulo, SP, Brasil
IIDa Diretoria de Combate a Vetores da Superintendência do Saneamento Ambiental (SUSAM) do Estado de São Paulo. – Rua Tamandaré, 649 – São Paulo, SP, Brasil

 

 


RESUMO

São apresentados os resultados de investigação destinada a estabelecer o quadro de distribuição de Triatoma sordida e Rhodnius neglectus em áreas com ecótopos naturais e artificiais. Essa distribuição revelou-se do tipo agrupado ou contagiante, dirigida uniformemente para casas e anexos por parte do primeiro, e para palmeiras por parte do segundo. Em áreas de vegetação mais densa, do tipo cerrado, a densidade é praticamente nula ou muito baixa, admitindo-se que isso deva correr por conta da competição. As modificações introduzidas pelo homem tendem a anular êsse fator, além de, as suas habitações, se transformarem em ecótopos que atraem a população de T. sordida. Êsse fato, aliado à eliminação local do T. infestans, parece explicar a tendência invasiva daquele triatomíneo. Evidenciou-se também a persistência da infecção pelo Trypanosoma cruzi em triatomíneos e vertebrados domiciliados, o que representa potencial para o incremento da transmissão.

Unitermos: Tripanossomose americana*; Triatoma sordida*; Rhodnius neglectus*; Ecologia médica (distribuição e dispersão); Triatoma infestans; Trypanosoma cruzi; Doença de Chagas (transmissão); Triatomíneos (invasão domiciliar); Valência ecológica; Ecótopos naturais e artificiais.


SUMMARY

A local distribution pattern of Triatoma sordida and Rhodnius neglectus is described after an intensive investigation on natural and artificial ecotopes. The work was carried in a region at north of the State of São Paulo, Brazil. Measures of dispersion pattern were made by the Morisita's indices showing contagious distributions to both bugs. The T. sordida population was clumped at houses and surrounding dwellings, while R. neglectus presented the same aspect but relater to palm trees. The first bug showed ubiquity patter including palms, dry trees and fences. These last two situations are not favourable for obtaining blood meals, who are much more easy obtained at human dwellings. By other side, the investigations at areas with more dense vegetation like bush, resulted in very few T. sordida and none R. neglectus, probably owing of other populations competition as predators reduvids bugs, found there with great density. So it seems logic remove that competition and triatomids remains free to increase in the residual ecotopes. From these, T. sordida is atracted to houses where the bugs may will found more available blood meals, and so the distribution pattern becomes contagious at these places characterizing the invasive aspect at these places. Beside this, the elimination of the early Triatoma infestans populations from dwellings by insecticide spraying (BHC), becomes vacant an ecological niche that seems, in this case, to be occupied by T. sordida. On the contrary, R. neglectus, specialized at palm trees, may found easily blood meals represented by birds and mammals nests and so, the contagious distribution is restricted at these ecotopes with little or even no tendence to invade houses. The persistence of Trypanosoma cruzi in the area was detected both by triatomids naturally infected found in dwellings and by positive xenodiagnosis obtained in Rattus norvegicus captured there. So, the possibility of increase of local transmission rate is emphasized.

Uniterms: Trypanosomiasis, South American*; Triatoma sordida*; Rhodnius neglectus*; Triatoma infestans; Trypanosoma cruzi; Medical Ecology; (distribution and dispersion); Chagas Disease (transmission) ; triatomids (house infestation); Ecological valence; Ecotopes (natural and artificial).


 

 

INTRODUÇÃO

Os conhecimentos atualmente disponíveis sobre os hábitos de Triatominae, ressentem-se geralmente da falta de elementos que permitam idéia mais detalhada do comportamento dessas populações.

O assunto reveste-se de apreciável interesse, face à possibilidade de algumas espécies tenderem a se adaptar ao ambiente artificial do homem. Entre elas destaca-se, em nosso meio, o Triatoma sordida, o qual tem sido objeto de várias observações, mas cuja importância epidemiológica parece estar crescendo na época atual. Analisando a evolução da campanha antitriatomínica no Estado de São Paulo, Brasil, levada a efeito pelo então Serviço de Erradicação da Malária e Profilaxia da Doença de Chagas (SEMPDC) pode-se observar a sensível queda populacional do Triatoma infestans nos domicílios. O mesmo porém não se pôde obter com aquele triatomíneo, o qual juntamente com o Panstrongylus megistus, não tem respondido de maneira satisfatória aos métodos de controle empregados (ROCHA E SILVA et al.,2 1969).

Embora sem acentuadas modificações nos seus índices de infecção, tem-se verificado a aproximação, cada vez maior, desses hemípteros, às moradias. No caso particular do T. sordida, o rendimento em números globais, das capturas levadas a efeito nesses ambientes pelo supracitado Serviço, tem mostrado sensível aumento (Figura 1). É verdade que tais informações podem estar sujeitas a várias interpretações, como sejam, intensificação das pesquisas, melhor treinamento do pessoal empregado e adoção de técnicas mais apuradas. Seja como fôr, trata-se de fenômeno que está chamando a atenção e requer que a importância epidemiológica, das assim chamadas espécies semidomésticas, seja devidamente esclarecida.

O fato de o Triatoma sordida ser considerado como inseto em vias de adaptação às habitações humanas, deve-se à circunstância de ter sido encontrado, com freqüência, em ecótopos silvestres (BARRETTO 1, 1966). Surge, pois, o problema de saber se as formas, silvestre e domiciliada, são ou não monotípicas. Em outras palavras, se se trata de populações diferentes ou de uma só que, partindo do ambiente extradomiciliar, tende a invadir as casas e aí se colonizar. Na realidade, tudo leva a crer que, no caso particular deste "barbeiro", a segunda hipótese seria a mais aceitável, o que significaria em encará-lo como espécie eminentemente eurítopa.

Com o objetivo de esclarecer essas questões, propusemo-nos a realizar série de observações sobre a distribuição e mecanismos de dispersão de triatomíneos silvestres. Tais informações, a nosso ver, seriam de capital importância pois elas possibilitariam descrever condições populacionais desses insetos. Com efeito, as mudanças posteriormente observadas no quadro da dispersão, revelariam as possíveis alterações do tamanho populacional, sugerindo a existência de fenômenos como, competição, poder invasivo, fatores de mortalidade, e outros.

Apresentamos os primeiros resultados obtidos, na tentativa do estabelecimento de um quadro básico de distribuição a ser posteriormente utilizado no estudo da dispersão.

 

REGIÃO ESTUDADA

A área utilizada para estas observações corresponde à localidade conhecida como Bairro João Pedro, no município de Guaíra, situado na região Norte do Estado de São Paulo (Figura 2). Encontra-se, aproximadamente, a 20°18' de latitude sul e 48°18' de longitude oeste, distando cerca de 15 km da sede e 39 km da vizinha cidade de Barretos.

A região caracteriza-se por apresentar relevo ondulado, cortado por vários cursos de água pertencentes ao sistema hidrográfico do Rio Grande. Situa-se entre os vales dos rios Pardo e Sapucaí Mirim, afluentes daquele. A altitude média local varia ao redor de 500 m acima do nível do mar. A vegetação é predominantemente constituída por cerrados e conjuntos arbustivos resultantes da alteração da primitiva cobertura florestal. A atividade agrícola local inclui o cultivo de cereais e de algodão, mas grande parte da área é utilizada para pastagens. Nestas, observa-se a presença de árvores e palmeiras isoladas sendo freqüente, entre as primeiras, espécimens sêcos, erectos ou derrubados.

O Bairro João Pedro é bem representativo da paisagem regional. Pode-se observar a parte aberta, formada por terrenos aproveitados para a agricultura e pastagens, ao lado da vegetação do tipo cerrado. Os primeiros ocupam a maior área, mas não são totalmente aproveitados estando, em boa parte, mal conservados. De qualquer maneira, neles predomina a vegetação rasteira e arbustiva, entremeada de número apreciável de palmeiras e árvores, várias delas mortas, verificando-se a presença dos restos, secos, ainda erectos ou derrubados (Figuras 3, 4, 5, 6).

Quanto ao cerrado, é formado por conjunto de vegetação mais ou menos espessa onde também predominam arbustos mas, na qual participam em maior número os indivíduos arbóreos de porte médio (Figuras 7 e 8). O terreno é atravessado por dois cursos de água denominados Córregos do Coelho e João Pedro, ambos afluentes do rio Pardo. Todo o bairro inclui cerca de 50 edifícios que são utilizados para moradia da população local. No levantamento levado a efeito em julho de 1968 pelo SEMPDC, contou-se o total de 52 dessas habitações, sendo 36 de barro, 12 de tijolos revestidos, 2 de tijolos não revestidos e 2 de madeira ou outro material. Vê-se pois, que predominam as construções de barro, construídas principalmente com a utilização de troncos partidos de palmeiras e de cobertura, freqüentemente feita por telhas de cerâmica (Figuras 4, 9 e 10). Como regra geral, o estado dessas casas é precário, o que as transforma em bons abrigos para triatomíneos. Do mesmo modo, existe número considerável de anexos para armazenamento de produtos agrícolas e abrigo de animais domésticos. No supracitado censo foram assinaladas 140 dessas construções, cujas condições são semelhantes às das que servem para os homens, sendo porém mais freqüentes as coberturas de palha (Figura 11). As atividades dos habitantes são as inerentes à pequena lavoura e ao pastoreio.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Com a finalidade de proceder ao levantamento dos focos de triatomíneos, foram escolhidas seis áreas, sendo três na parte aberta e três na parte correspondente ao cerrado.

Em cada uma das primeiras procedeu-se à escolha de uma casa para centro da área, a partir da qual, delimitaram-se cinco faixas concêntricas, até o raio máximo de 600 m. Dessa maneira, os limites distais de cada uma dessas unidades, corresponderam ao seguinte:

 

 

As três áreas abertas, cada uma com o conjunto dessas cinco unidades, foram designadas pela sigla A. Quanto às correspondentes ao cerrado, rotuladas com a sigla C, procedeu-se à escolha de três, quadrangulares, de 100 m de lado, totalizando pois, 10.000 m2 cada uma, e localizadas dentro dessa vegetação. O mapa da Figura 12 fornece idéia da situação de todas.

A pesquisa compreendeu o exame e levantamento de todos os possíveis ecótopos. No período de junho de 1969 a março de 1970, nas unidades das áreas A, foram pesquisados todas as casas e respectivos anexos representados por galinheiros, chiqueiros, paiós, montes de lenha, madeira, telhas e tijolos, e outros. Quanto aos biótopos naturais mereceram atenção, palmeiras, árvores secas em pé, ninhos de animais, troncos sêcos derrubados, e também, apesar de artificiais, todos os mourões de cêrca delimitando os vários recintos e pastagens. Em todos os casos, o exame foi feito de maneira a levar ao desbastamento manual dos ecótopos. Assim é que, procedeu-se à derrubada das palmeiras para rebuscar a copa, à retirada de casca sêca das árvores e mourões, e à remoção de toceiras e terra para por a descoberto os possíveis ninhos de animais. No caso de cercas próximas às residências, dos anexos e das próprias habitações, êsse procedimento foi levado até onde êle não comprometesse a conservação das construções. Quando ocorria essa possibilidade, lançava-se mão do uso de substância insetífuga, representado pela piriza. Quanto às áreas C, o desbaste foi empregado de arrastão, em tôda a superfície delimitada (Figuras 13, 14, 15, 16, 17 e 18).

Em relação à presença do Trypanosoma cruzi na região, procurou-se avaliá-la através do exame dos triatomíneos coletados e da realização do xenodiagnóstico nos vertebrados domésticos e domiciliados. Entre os primeiros foram escolhidos os cães e gatos e, no que concerne aos segundos, a atenção foi focalizada em roedores encontrados no domicílio e anexos. Como rotina, todos os resultados positivos foram submetidos à comprovação mediante inoculação em camundongos.

 

RESULTADOS

Áreas abertas (A) – Nas várias unidades, das áreas A1, A2 e A3, foram evidenciados como principais focos triatomínicos, os ecótopos naturais representados por palmeiras "macauba" (Acrocomia sclerocarpa) e "bacurí" (Scheelea phalerata), e por árvores secas, tanto erectas como derrubadas (Figuras 19, 20, 21 e 22). Além disso, foi constatada a presença desses insetos em mourões de cerca, mesmo à apreciável distância das habitações. Quanto aos ecótopos artificiais, tanto as habitações humanas como as dependências revelaram a presença de triatomíneos.

A área A1 teve, como centro, a casa que, no reconhecimento geográfico previamente feito pelo SEMPDC, recebeu o número 21C. Dentro dela foram englobadas as de número 1, 2, 3, 4, 16, 20, 22, 23 e 24A. Da mesma forma, as áreas A2 e A3, corresponderam às casas 26C e 33, respectivamente, englobando os edifícios 17, 26 e 26G para a primeira, e de 27 a 32 para a segunda. Algumas das cercas examinadas localizavam-se nos arredores dos domicílios, motivo pelo qual, foram consideradas como participando dos anexos. A mesma atitude foi adotada para ecótopos rotulados como "outros", que estivessem em situação idêntica. Os resultados dos exames para Triatoma sordida e Rhodnius negtectus acham-se representados nas Figuras 23, 24 e 25. Pode-se observar a positividade obtida nas coletas globais desses insetos, com aspectos da distribuição que sugerem maior valência ecológica para o primeiro do que para o segundo. As Tabelas 1, 2 e 3 resumem os resultados quantitativos obtidos nas três áreas.

A distribuição observada ensejou a oportunidade de medir o tipo de dispersão, ou seja, se ao acaso, se uniforme ou regular e se agrupada ou contagiante. Para tanto foi utilizado o índice de dispersão de Morisita (apud SOUTHWOOD3, 1966), segundo a seguinte fórmula:

 

 

onde:

a = número de unidades

ni = número de exemplares na i-ésima unidade

N = número total de exemplares

As propriedades de I d são tais que, o seu valor é igual à unidade quando os indivíduos são distribuídos ao acaso, menor do que 1,0 quando a distribuição é uniforme, e maior do que 1,0 quando é agrupada.

Claro está que, para a aplicação prática deste índice, torna-se necessário que as unidades amostrais tenham o mesmo número de ecótopos. Contudo, deve-se considerar que a densidade de insetos nesses focos varia necessariamente. Por conseguinte, se ao em vez do estabelecimento das faixas concêntricas, tivesse sido obedecido o critério supracitado, os resultados poderiam sofrer as conseqüências da variabilidade, de acordo com a divisão adotada. Com o objetivo de evitar tais possíveis influências sobre os resultados, optou-se pela padronização do número de biótopos por unidade. Isso foi feito porém, sem pretender exatamente o mesmo significado que se emprega para coeficientes em demografia. Em outras palavras, procurou-se estimar quantos triatomíneos haveria em cada unidade, no caso de que todas elas tivessem o mesmo número de ecótopos. Essa quantidade hipotética de espécimens de Triatoma sordida e Rhodnius neglectus foi estabelecida tomando como padrão um dos números inteiros mais próximo da média desses focos por unidade ou, essa mesma, no caso de haver sensível afastamento dos dois valores. Com essa base e, a partir da densidade triatomíneos/ecótopos, obteve-se o "número padronizado" desses insetos para cada unidade. De posse desse valor, calculou-se o índice Id. Como, em virtude da padronização, foram obtidos alguns números fracionários de hemípteros, procedeu-se também ao arredondamento desses valores, obtendo-se em conseqüência, o que se denominou índice arredondado Ir. As Tabelas de 4 a 9 apresentam esses dados para as várias unidades das três áreas, Al, A2 e A3 e relativos às duas espécies de triatomíneos.

Como resultado, todos os índices apresentaram valor maior do que 1,0 indicando, pois, distribuição do tipo agrupada ou contagiante. Na Tabela 10, são apresentados esses valores, indicando também as unidades "preferidas" pelos triatomíneos, ou sejam, as duas, por ordem decrescente, que mostraram maior número padronizado desses insetos. Em cada uma delas são revelados os ecótopos preferidos, constituídos por casas e anexos para o T. sordida e por palmeiras para o R. neglectus.

Ainda nestas áreas abertas, convém registrar alguns encontros, os quais, por seu caráter esporádico, não foram descritos nos parágrafos anteriores. Trata-se do achado de Triatoma infestans, representado por 5 ninfas e 2 adultos em tronco seco de palmeira macaúba, dentro da unidade 5 da área A3. Assinalou-se, também, a presença de 4 ninfas de Psammolestes tertius em copa de palmeira, da mesma espécie, dentro da unidade 4 da área Al, onde estavam presentes também representantes de R. neglectus.

Areas do cerrado (C) – Com os resultados obtidos na investigação das áreas abertas (A), procedeu-se à pesquisa na vegetação do cerrado. Realizada em superfícies de 10.000 m 2, a atenção foi focalizada sobre possíveis focos representados por árvores secas, palmeiras, ninhos em árvores e locas de animais no solo, além de alguns mourões de cêrca. Foram assim pesquisados os seguintes ecótopos:

 

 

Os resultados foram muito pobres e limitados a apenas dois. Um deles representado por uma ninfa de Triatama sordida, encontrada em árvore seca da área C1.

O outro constituído também por exemplar de ninfa, da mesma espécie, coletado na área C3, em ninho de ave Anumbius annumbi, vulgarmente conhecido como "João Gravêto" e situado a altura equivalente a cerca de 35 m a 40 m acima do solo. Tais achados, òbviamente não permitiram maiores cálculos sobre o possível aspecto de distribuição nessas áreas.

Presença do Trypanosoma cruzi – Em relação ao exame dos triatomíneos coletados, foram encontrados 206 exemplares positivos, distribuídos da seguinte maneira:

 

 

Quanto aos xenodiagnósticos, levados a efeito em vertebrados domésticos e domiciliados, os resultados foram os seguintes:

 

 

Deve-se assinalar que, para efeito desta pesquisa, consideramos como domiciliados, mesmo exemplares de vertebrados supostamente silvestres, mas capturados no ambiente dos domicílios humanos e anexos.

 

COMENTÁRIOS

Os resultados apresentados permitem o conhecimento de quadro satisfatório a respeito da distribuição local de Triatoma sordida e Rhodnius neglectus. Esses triatomíneos possuem a capacidade de habitar ecótopos em áreas abertas (A), ou seja, aquelas que resultaram da ação modificadora do homem sobre o ambiente natural. A escassez com que se apresentaram nas áreas de cerrado (C) levam à suposição de que, nesse ambiente, a sobrevivência da população deva ser problemática. E isso, pelo menos em relação ao primeiro daqueles triatomíneos, uma vez que o segundo nem siquer foi alí encontrado. Durante as investigações nessas áreas C, foi obtido apreciável número de reduvídeos predadores. Isso faz supor que a população triatomínica existente sofreria as conseqüências, entre possíveis outras, desse predatismo, resultando daí a sua baixa densidade.

Por outro lado, as modificações ambientais levadas a efeito pelo homem resultaram, como foi dito, nas áreas A. Nestas foram conservados ecótopos viáveis, representados principalmente, pelas árvores secas e palmeiras. Além da construção de outros, artificiais, constituídos pelas casas e anexos. Assim sendo, as possíveis populações competidoras, por não se terem adaptado, deixaram de existir, redundando no aumento da densidade de triatomíneos.

A aplicação do índice de Morisita indicou que a distribuição desses insetos é alí, do tipo agrupado, também chamado contagiante. Isso significa que os indivíduos ocorrem de maneira bem mais irregular do que na distribuição ao acaso. O menor valor observado foi de 1,88 para Rhodnius neglectus em A2, e o maior foi de 3,44, também para o mesmo hemíptero em A1. Embora a padronização possa ter introduzido algum vício nessas medidas, é forçoso admitir que os valores apresentados na Tabela 10 são de tal ordem, a não deixar dúvidas quanto à predileção dos dois triatomíneos por determinadas unidades. E, assim sendo, é de se salientar que tais preferências foram acentuadamente uniformes. A julgar pelos dados obtidos, não há como negar a escolha, por parte de T. sordida, das casas e anexos, e das palmeiras por parte de R. neglectus. A quase estrita presença deste último nesses ecótopos, leva-nos a admitir sua pequena valência ecológica, contrastando com a bem mais ampla que deve ser atribuída ao primeiro.

O histórico da região, representada pelo Bairro João Pedro, assinala a presença do Triatoma infestans. Os dados apresentados a seguir, levantados através das inspecções do SEMPDC em casas e anexos, mostram o número de exemplares triatomínicos coletados em anos anteriores.

 

 

As atuais investigações, realizadas entre 1969 e 1970, confirmaram a ausência daquele "barbeiro" das casas e anexos, tendo sido encontrado apenas em um foco extradomiciliar representado por um tronco sêco de palmeira. Por outro lado, revelaram o acentuado incremento do T. sordida, cujas capturas em casas e anexos chegaram a apresentar valores consideráveis, como pode ser apreciado pelas Tabelas 1, 2 e 3. Tudo leva à suposição de que a ausência do T. infestans, em virtude dos sucessivos expurgos realizados, deixou nicho ecológico vago, a ser ocupado por substituto que, neste caso, seria o T. sordida. Evidentemente, não podemos julgar do poder competitivo e do grau de competição entre as duas populações. No entanto, êsse último triatomíneo parece ser dotado de qualidades suficientes para ser bem sucedido na luta pela sobrevivência. Com efeito, o encontro de ninfas isoladas em ecótopos como, mourões de cerca e debaixo de cascas de árvores sêcas, constitui fato que leva a várias suposições. Uma delas, sem dúvida, seria a de grande resistência ao jejum, uma vez que em tais situações, a probabilidade de obter repasto sangüíneo encontra-se muito reduzida. E, com efeito, observações em andamento em nosso laboratório, estão mostrando resistências que, até o momento, chegam a mais de 190 dias sem alimentação ( JUAREZ, 1971 1). Ora, isso explicaria tais achados em focos naturais e, por outro lado, a inegável atração que deva exercer o ambiente humano, representado pelas casas e anexos, com sua maior facilidade para o exercício da hematofagia. Daí, pois, a tendência invasiva do Triatoma sordida em relação a tais ambientes.

Quanto ao Rhodnius neglectus, o aspecto é um tanto diferente. Limitando-se a habitar a copa de palmeiras, ali encontra alimento com maior facilidade, uma vez que, via de regra, tais ecótopos são utilizados para abrigo de aves e mamíferos silvestres. É de se admitir pois, que tenha menor tendência para invadir ecótopos artificiais, embora o faça, desde que as condições de proximidade sejam favoráveis. É o que demonstra o achado desse triatomíneo, embora esporádico, em alguns anexos.

Finalmente, não se pode deixar de assinalar a permanência do Trypanosoma cruzi no ambiente humano. E não apenas em triatomíneos, mas também infectando vertebrados que foram representados, no caso particular desta pesquisa, por um exemplar de Rattus norvegicus. Tal encontro encerra o significado da persistência da transmissão e da probabilidade da re-instalação da infecção nos animais domésticos e mesmo nos habitantes humanos.

 

CONCLUSÕES

Face aos resultados obtidos, pode-se concluir:

1 – O ambiente extradomiciliar representado pela vegetação densa do cerrado, não é favorável ao aumento populacional de Triatoma sordida e Rhodnius neglectus. Provavelmente, devido à competição que sôbre elas exercem outras populações, principalmente as de predadores.

2 – As modificações desses ambientes em áreas abertas, enseja a diminuição ou o desaparecimento dessa competição. Em conseqüência, as duas espécies triatomínicas encontram, nos ecótopos remanescentes, oportunidade para aumento populacional.

3 – A população de Triatoma sordida mostra-se ubiquista, ou seja, dotada de valência ecológica apreciável que lhe permite habitar variedade de ecótopos.

4 – Certos ecótopos, comumente habitados pelo Triatoma sordida, não oferecem oportunidades freqüentes para alimentação. É o caso dos troncos de árvores secas e dos mourões de cerca distanciados das habitações. Em vista disso, o estabelecimento de casas e anexos, pelo homem, representa fonte de atração para essas populações triatomínicas.

5 – Por sua vez, a limitação de Rhodnius neglectus em ecótopos representados pelas copas de palmeiras, tem sua explicação na maior facilidade que os triatomíneos ali encontram para sugar sangue. E isso porque tais biótopos oferecem bom abrigo para vertebrados, principalmente aves, roedores e marsupiais.

6 – A distribuição observada ensejou a medida da dispersão através do índice de Morosita. Corroborando as duas conclusões imediatamente anteriores, essa distribuição revelou-se agrupada para ambos hemípteros, sendo em relação às casas e anexos para T. sordida e às palmeiras para R. neglectus.

7 – A eliminação da população domiciliada de T. infestans pode resultar na vaga de um nicho ecológico, a ser ocupado por outra que, neste caso, parece estar sendo a de T. sordida.

8 – Nestas investigações pôde-se registrar a persistência da infecção de animais domiciliados pelo Trypanosoma cruzi. A permanência do protozoário no ambiente humano torna lícita a suposição de possível restabelecimento, ou mesmo incremento, da transmissão.

 

AGRADECIMETO

Ao Dr. Cory T. de Carvalho, a cujo cargo esteve a identificação dos espécimens de mamíferos capturados.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. BARRETTO, M. P. – Aspectos da epidemiologia da tripanossomose americana, infecção com focos naturais, com especial referência à região nordeste do Estado de São Paulo. Ribeirão Preto. 1966. (Tese – Faculdade de Farmácia e Odontologia).        [ Links ]

2. ROCHA E SILVA, E. O. da et al. – Suspensão do rociado no combate ao Triatoma infestans em áreas do Estado de São Paulo, Brasil. Rev. Saúde públ., S. Paulo, 3:173-81, 1969.        [ Links ]

3. SOUTHWOOD, T. R. E. – Ecological methods. London, Methuen, 1966.        [ Links ]

 

 

Recebido para publicação em 29-6-1971
Trabalho realizado com o auxílio do U.S. Army Research Office for South America (Convênios DAHC 19-69-G-0013 e DAHC 19-70-G-0021)

 

 

1 JUAREZ, E. – Comunicação pessoal, 1971.