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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910On-line version ISSN 1518-8787

Rev. Saúde Pública vol.6 no.1 São Paulo Mar. 1972

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101972000100002 

ARTIGO ORIGINAL

 

Hipovitaminose "A". Níveis séricos de vitamina "A" e caroteno em populações litorâneas do Estado de São Paulo, Brasil

 

Hipovitaminosis "A": serum vitamin "A" content and cacotene level in the State of S. Paulo, Brazil, seaside populations

 

 

Maria José Roncada

Do Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da USP – Av. Dr. Arnaldo, 715 – São Paulo, SP, Brasil

 

 


RESUMO

Verificou-se que a deficiência de vitamina A em populações do Vale do Ribeira, no Estado de São Paulo, Brasil, constitui um problema de saúde pública. Além da dosagem de vitamina A e caroteno no sôro, foram utilizados os dados colhidos num levantamento nutricional realizado na cidade de Iguape, e nas vilas de Icapara e Pontal do Ribeira, em 1969, pelo Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da USP. Os resultados dos inquéritos alimentar, clínico-nutricional e bioquímico foram discutidos, concluindo-se que a hipovitaminose "A" constitui um problema de saúde pública nas localidades mencionadas.

Unitermos: Hipovitaminose A*; Vitamina A (níveis sangüineos)*; Caroteno (níveis sangüineos)*; Inquérito nutricional.


SUMMARY

It was examined populations from the Vale do Ribeira (São Paulo State) as far as vitamin A deficiency is concerned. Measurements of serum vitamin A and carotene were carried out. Data from a nutritional survey perfomed by Department of Nutrition, School of Public Health, University of São Paulo, in the city of Iguape and the villages of Icapara and Pontal do Ribeira, were used. The results of the nutritional, clinical and biochemical surveys were discussed. It was concluded that hipovitaminosis A in this area constitutes a public health problem according to the concept of the Pan-American Sanitary Organization.

Uniterms: Hipovitaminosis A*; Vitamin A (blood levels)*; Carotene (blood levels)*; Nutritional survey.


 

 

1 – INTRODUÇÃO

A hipovitaminose A é, ainda nos dias atuais, um dos graves problemas de saúde pública num grande número de países em desenvolvimento5. Isto, porque a deficiência de vitamina A ocorre principalmente em pré-escolares, estando bastante associada à deficiência proteico-calórica e podendo, nos casos mais avançados, levar à cegueira parcial ou total. É uma doença carencial, que aparece principalmente entre os grupos de população que pertencem a um baixo nível sócio-econômico, que se alimentam mal e que vivem em condições sanitárias pouco satisfatórias.

Um grande número de pesquisadores tem se dedicado ao estudo da hipovitaminose A em diferentes países. No Brasil, infelizmente, não há muita informação a respeito do problema e a maioria dos trabalhos realizados é constituída por levantamentos nutricionais gerais, em grupos populacionais de uma dada região ou de alguns grupos etários11, onde o assunto não foi tratado com muita profundidade.

Propusemo-nos a investigar se existe, no Vale do Ribeira – uma das zonas menos desenvolvidas do Estado de São Paulo – deficiência de vitamina A tão grave que possa ser encarada como problema de saúde pública. Nessa zona, a população apresenta condições especiais de vida pois, vivendo na orla marítima e fazendo da pesca seu principal meio de sustento, tem renda "per capita" das mais baixas do Estado, cujo problema "não se atém, exclusivamente, à carência de uma infra-estrutura econômica. Define-se, também, pela cristalização dos costumes tradicionalistas da população pela forma "primitiva" de organização econômica e social e pelo relativo isolamento geográfico de algumas comunidades, provocando um relativo isolamento social"15.

Para a realização do trabalho, valemo-nos dos levantamentos alimentar, clínico-nutricional e bioquímico, levados a efeito no Município de Iguape, nos meses de outubro e novembro de 1969, pelo Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da USP.

A população estudada pertencia a três localidades litorâneas: a cidade de Iguape e as vilas de Icapara e Pontal do Ribeira. As duas últimas comunidades foram incluídas por terem características diferentes da primeira, podendo fornecer dados interessantes à nossa pesquisa, no cotejo de resultados. Essa diferença resulta não só das características geográficas existentes mas, principalmente, da dificuldade de comunicação com Iguape, por terra ou por mar. São, por isso, chamadas "Comunidades Isoladas"15.

O levantamento cadastral executado pelo Departamento de Nutrição no mês de maio de 1969, apontou para Iguape uma população urbana de 7.269 habitantes, reunidos em 1.375 famílias.

Em Icapara vivem 485 indivíduos, formando 103 famílias, enquanto em Pontal do Ribeira apenas 306 pessoas, reunidas em 56 famílias.

Iguape se desenvolveu na época colonial e, atualmente, uma de suas fontes de renda é oriunda dos bananais cultivados na região. Em Icapara e Pontal do Ribeira as casas situam-se irregularmente; por sua localização litorânea, condiciona a atividade pesqueira como fonte de renda principal das duas comunidades, embora essa atividade seja exercida de modo muito primitivo.

 

2 – MATERIAL E MÉTODOS

Foram realizados três tipos de inquéritos em cada uma das três localidades já citadas: alimentar, clínico-nutricional e bioquímico.

O universo amostral foi a totalidade da população urbana de Iguape, de Icapara e de Pontal do Ribeira, com 8060 indivíduos, distribuídos entre 1534 famílias.

A Tabela 1 mostra o número de pessoas implicadas em cada inquérito.

2. 1 Amostragem

Foi realizado um levantamento cadastral, o que nos permitiu um conhecimento preciso e detalhado da área a ser trabalhada.

Verificamos não haver necessidade de extratificação da amostra, pois não existiam diferenças acentuadas que recomendassem tal processo.

O número médio de pessoas por residência foi 5,5.

As moradias foram numeradas e sorteadas através da tabela de números casuais de Fischer, para a composição da amostra e a ordem de visitas no inquérito alimentar. Foi previsto como proceder em casos de recusa.

A amostragem utilizada foi a casual simples, sem reposição.

Para a realização dos inquéritos clínico-nutricional e bioquímico foi feita uma sub-amostra, obtida também por sorteio.

2.2 Inquérito alimentar

O método utilizado foi o de pesagem de alimentos durante um dia em cada família, durante sete dias consecutivos, para que pudessemos atingir um número maior de famílias no mesmo período de tempo, com conseqüente incremento de informações a respeito da população.

2.3 Inquéritos clínico-nutricional e bioquímico

O inquérito alimentar precedia de um dia aos inquéritos clínico-nutricional e bioquímico, com a finalidade de pôr a descoberto as possíveis relações entre os resultados.

Os sinais procurados de deficiência de vitamina A foram: secura de cabelo, xerose conjuntival, xerose corneal, xerose cutânea (membros superiores e inferiores) e hiperqueratose folicular.

Foram colhidos sangue e urina para a realização de várias análises necessárias ao levantamento, que seriam efetuadas ou no laboratório de campo montado em Iguape, ou no laboratório central do Departamento de Nutrição, de acordo com as condições de trabalho e campo. O material que iria para a cidade de São Paulo ficou acondicionado em congelador a – 20°C.

2.4 Coleta do material

Após o exame clínico, colhia-se sangue dos indivíduos por venopunção, com seringas de 20 ml. A quantidade retirada foi cerca de 13 ml por pessoa (para menores de 5 anos, só 5 ml); desse total, 5 ml do sangue que seriam destinados às dosagens de vitamina A e caroteno eram transferidos imediatamente para frascos de plástico de 5 cm x 2 cm, com tampa plástica, contendo em seu interior cristais de EDTA (etileno-diamino-tetra-acetato disódico) como anti-coagulante. As dosagens de vitamina A e caroteno ocorriam no máximo 6 horas após a coleta.

2.5 Método de laboratório

Escolhemos para as dosagens e método de CARR-PRICE9, por ser o que melhor se adaptava às nossas condições de trabalho de campo e, também, por ser o método utilizado pelo Interdepartmental Committee on Nutrition for National Development (ICNND) apresentando, portanto, a vantagem da comparabilidade.

 

3 – RESULTADOS

3.1 Inquérito alimentar

Apuramos apenas os dados referentes às famílias dos indivíduos nos quais fizemos as dosagens séricas de vitamina A e caroteno.

Como a adequação da dieta das três populações mostrou ser insuficiente no que diz respeito à vitamina A, procuramos saber quais as proporções de vitamina A pré-formada, de b - caroteno e de outros carotenóides que forneciam a atividade total da vitamina A encontrada8.

3.2 Inquérito bioquímico

Para facilidade de confronto de resultados, preferimos a classificação adotada pelo ICNND9, que é a seguinte:

 

 

Os resultados encontram-se nas Tabelas 5, 6, 7 e 8 e nas Figuras 1, 2, 3, 4 e 5.

3.3 Inquérito Clínico-Nutricional

Das 56 pessoas que apresentaram xerose ocular, apenas uma mostrou sinais de xerose corneal, enquanto as outras 55 apenas xerose conjuntival.

Nos 343 indivíduos examinados clínica e bioquimicamente, dois apresentaram mancha de Bitot. Por contingências alheias à nossa vontade, só pudemos realizar a prova bioquímica em um deles, uma criança de 3 anos, que apresentou nível sérico de vitamina A classificado como "baixo" e de caroteno como "deficiente".

 

4 – DISCUSSÃO

Analisando os dados resultantes do inquérito alimentar, constatamos que, de modo geral, a população das três localidades teve uma ingestão "per capita" adequada no que se refere ao número de calorias, ao total proteico e também no que diz respeito à porcentagem de proteínas de origem animal da dieta (Tabela 2). Este último fato resulta do consumo de peixe altamente satisfatório, principalmente pelos habitantes de Icapara e Pontal do Ribeira. Nestes dois povoados, entretanto, o consumo de gorduras foi baixo (Tabela 2). Este é um assunto que deve ser levado em consideração, de vez que, quando a dieta é baixa em gordura, o caroteno é fracamente absorvido.

ROELS et al (1958) 14 mostraram que meninos em Ruanda-Urundi (África Central) excretaram nas fezes mais que 95% dos carotenóides componentes dos alimentos ingeridos, devido ao baixo conteúdo de gordura da dieta. Após terem adicionado 18 g de óleo de oliva à dieta, a excreção de carotenóides caiu para 55%, significando que houve um aumento de absorção da pró-vitamina.

Extremamente baixa foi a adequação diária "per capita" no teor de vitamina A (Tabela 3) nas três comunidades, principalmente em Icapara e Pontal do Ribeira (cerca de 10%), onde a ingestão (aproximadamente 130 mg) é comparável à de certas populações da Colombia e Nordeste do Brasil12. A ingestão de vitamina A per capita" da população de Iguape, um pouco mais elevada (497 mg), se assemelha mais à ingestão de populações da Venezuela e Paraguai12.

Parece que a explicação mais plausível para a baixa adequação anteriormente apontada reside no fato de quase não ocorrer a ingestão de fontes de vitamina A pré-formada (alimentos de origem animal) em virtude do preço mais elevado desses alimentos e do baixo poder aquisitivo dos indivíduos, principalmente os que habitam Icapara e Pontal do Ribeira.

O inquérito alimentar mostrou ser baixa (em Iguape) ou quase inexistente (nas outras duas localidades) a ingestão média diária, "per capita", de leite, ovos e fígado de vaca.

O consumo de peixes foi bastante elevado, em razão da posição litorânea das três comunidades e da atividade pesqueira desempenhada por grande parte da população de Icapara e Pontal do Ribeira. As espécies mais utilizadas na alimentação são: manjuba (período local de entre-safra de outubro a março), tainha e robalo. A manjuba é consumida geralmente assada ou frita e, via de regra, sem ser eviscerada, devido ao seu pequeno porte. Talvez esse fato concorra para que haja uma ingestão apreciável de vitamina A pré-formada. Como não existem trabalhos sobre a composição de alimentos tais como são consumidos na região trabalhada, não pudemos verificar a validade dessa hipótese. Urge, portanto, analisar os produtos comestíveis de toda a zona estudada, principalmente os peixes.

Com relação à ingestão de alimentos ricos em caroteno, verificamos não haver na região o hábito de consumir, com freqüência, verduras e frutas. Não é costume da população cultivar hortas ou plantar árvores frutíferas, principalmente nas duas vilas de pescadores. A par disso, existe entre a população uma série enorme de tabús alimentares relacionados com frutas, que dificultam ainda mais a utilização dessas fontes de caroteno.

Há, portanto, necessidade de se desenvolverem no local programas de Educação Alimentar, que despertem o interesse da população pelo problema, ensinando a ela o valor nutritivo dos alimentos e encorajando-a a produzir e consumir com mais freqüência fontes de caroteno e vitamina A. Através de programa conjunto entre as Secretarias da Educação, da Saúde e da Agricultura, deveria haver cursos de Educação Alimentar para multiplicadores, tais como professores primários e secundários e pessoal auxiliar do Centro de Saúde e Casa da Agricultura.

Os resultados do inquérito clínico (Tabela 9) apresentam um número elevado de casos de xerose cutanea (212 casos: 61,8 %) que atinge, proporcionalmente, um número maior de "deficientes" e "baixos" (81,9%) do que de "aceitáveis" e "altos" (57,4%). Muitos podem ser os agentes etiológicos dessa xerose, além da deficiência de vitamina A. Entre eles, poderemos citar o que parece ser talvez o mais incriminador: o vento. As três comunidades situam-se à beira mar, e o vento, nesse trecho do litoral, é uma constante diária.

A secura de cabelo, que pode ser causada por vários fatores, entre eles a hipovitaminose A, foi encontrada em 10,5% das pessoas examinadas. Mas, é bastante provável que o vento seja também o fator mais responsável por esse sinal.

É interessante notar que, mesmo havendo uma adequação mínima (10%) na ingestão de vitamina A, não foi encontrado nenhum caso de xeroftalmia nem de queratomalácia.

Os casos de xerose ocular que surgiram (16,3%) foram em sua maioria encontrados em adultos (o que tem uma importância relativa menor do que quando encontrados em crianças), principalmente entre os que tinham nível sérico de vitamina A classificado como "aceitável" e "alto" e muitos deles eram pescadores, sugerindo talvez que seja mais uma irritação da conjuntiva causada pelas condições de trabalho, do que propriamente um sinal de deficiência de vitamina A.

A hiperqueratose folicular foi encontrada em 43,4% das pessoas examinadas. Um número maior de indivíduos apresentaram-na mais nos membros superiores do que nos inferiores, (Tabela 11) distribuição esta inversa da encontrada por GANDRA (1954) 3, na cidade de São Paulo.

Por outro lado a xerose cutânea (Tabela 10) manifestou-se mais nos membros inferiores que nos superiores. Nesse aspecto, nossos dados concordam com as observações do autor acima referido.

Ao interpretar os resultados encontrados no inquérito clínico temos que levar em consideração muitos fatores que podem influenciar os níveis de vitamina A e caroteno, que são entre outros, a ingestão dietética, reservas orgânicas, absorção intestinal, etc. Só assim poderemos explicar os níveis ocasionalmente altos encontrados em indivíduos com sinais clínicos característicos de deficiência de vitamina A e vice-versa.

Para se exprimir os resultados de um inquérito bioquímico, usualmente se utiliza o valor médio encontrado na população.

Assim, por exemplo, ROELS et al. (1958) 13 pesquisando a deficiência de vitamina A em Ruanda-Urundi (África Central), encontraram um valor médio para vitamina A de 56,5 mg/100 ml ± 15,6 para mulheres e para os homens 55,9 mg/100 ml ± 20,5. Estes mesmos indivíduos (166), que ao exame clínico apresentavam olhos normais, tinham nível sérico de caroteno de 102 mg/100 ml (mulheres) e 85,9 mg/100 ml (homens).

HIGH (1969) 6 em 49 pré-escolares de Beaufort County (South Carolina) mostrou uma média de vitamina A de 25,9 mg/100 ml e para caroteno, 119,3 mg/100 ml.

GRAVESEN (1967)4 encontrou em homens dinamarqueses normais um valor médio de vitamina A de 60,4 mg/100 ml e de caroteno 59,6 mg/100 ml e em mulheres 49,9 mg/100 ml (vitamina A) e 71,6 mg/100 ml (caroteno).

No Brasil, como já tivemos ocasião de comentar, pouco existe a respeito do assunto.

Um inquérito nutricional realizado em 1963 pelo ICNND10 em 6 estados do Nordeste brasileiro apontou que, a nível bioquímico, havia uma deficiência em vitamina A maior do que em outro nutriente nas 2.122 pessoas examinadas. O nível sérico de vitamina A em pessoas com menos de 15 anos de idade foi de aproximadamente 20,7 mg/100 ml., enquanto o de caroteno foi cerca de 65 mg/100 ml. Para maiores de 15 anos, 25 mg/100 ml e 76 mg/100 ml como valores médios de vitamina A e caroteno, respectivamente.

BATISTA (1969) 1 afirma existirem muitos pontos de discordância entre os autores que trataram do problema da vitamina A no Nordeste, talvez pela divergência dos métodos adotados e também pela falta de tabela regional de valor nutritivo dos alimentos.

Se considerarmos também os valores médios para exprimir o resultado de nossas dosagens, veremos, por exemplo, que a população de Iguape apresenta um valor médio de vitamina A de 56,8 mg/100 ml, valor esse classificado como "alto" (L.C. de 1,4 – 112,2). Fôssemos concluir com a média geral da população, diríamos que aí não ocorre deficiência de vitamina A. Outro exemplo, é a média encontrada para Pontal do Ribeira: 36,0 mg/100 ml (L.C. de 0 – 76,6), que seria considerada "aceitável".

Entretanto, examinando-se os limites de confiança (L.C.) dessas médias, vamos verificar que são muito amplos, significando que a média do universo poderia ser um valor que iria desde o nível considerado como "deficiente" até o "alto", devido a grande variabilidade dos resultados de cada indivíduo.

Por isso é que é feita a classificação das dosagens, tanto de vitamina A como de caroteno, em quatro categorias: deficientes, baixos, aceitáveis e altos.

Separamos então cada uma das categorias e calculamos para cada uma delas a média e seu respetcivo L.C. (Tabelas 7 e 8).

Ao fazermos a interpretação dos níveis séricos de vitamina A em populações, devemos lembrar das diferenças existentes entre idade e sexo. Em geral, os homens têm níveis séricos de vitamina A maiores que as mulheres e as crianças menores do que os adultos. Os níveis séricos de caroteno, entretanto, são mais elevados nas mulheres adultas que nos homens.

Isto, também, foi observado neste trabalho.

É ainda interessante notar que não encontramos nenhum indivíduo com valor de caroteno considerado "alto"; resulta dos classificados como "aceitável" apareceram em ordem decrescente em Iguape, Icapara e Pontal do Ribeira (Tabela 6).

Isto mostra que, principalmente nas duas últimas localidades, é pequena a ingestão de alimentos que são fontes de caroteno, o que, aliás, está de acordo com o observado no inquérito alimentar.

Nossas dosagens de vitamina A mostraram maior número de indivíduos nas classes "aceitável" e "alto" e apontaram um menor número de valores nos níveis "deficiente" e "baixo" (Tabela 5); ao passo que as dosagens de caroteno, como já citamos, apresentaram resultados exatamente inversos: um grande número de indivíduos classificados como "deficientes" e "baixos", um número pequeno de pessoas na classe "aceitável" e a classe "alto" sem nenhum representante (Tabela 6).

Desde que a vitamina A se armazena nos tecidos por longo tempo, podemos pensar ou na ingestão de alimentos fontes da vitamina A, no passado, ou na rápida conversão dos carotenóides ingeridos no presente em vitamina A.

Analisando as Figuras 1, 2, 3 e 4, notamos ainda que as populações de Icapara e Pontal do Ribeira encontram-se em situação pior quando comparadas à de Iguape. É conhecido5 que em muitos países em desenvolvimento os alimentos de origem animal contribuem com taxas muito pequenas (0 – 20%) para a quantidade total de vitamina A na dieta, enquanto nos Estados Unidos e em países da Europa pode subir até 40%.

Procuramos saber qual a origem da vitamina A da dieta das três comunidades e constatamos que 31 a 34% era proveniente de alimentos de origem animal (Tabela 4).

Portanto, apesar da adequação média "per capita" ser baixa, o fornecimento da vitamina A pré-formada numa proporção maior que 30%, seja talvez outro responsável pelos altos valores de vitamina A encontrados no sangue.

Ainda com relação à interpretação dos resultados dos dados bioquímicos, podemos dizer que há um problema de saúde pública relacionado com a vitamina A quando, 15% ou mais dos indivíduos de uma população apresentam níveis séricos de vitamina A inferiores a 20 mg/100 ml e/ou 5% ou mais têm valores séricos menores que 10 mg/100 ml12 (Figura 5).

Consultando a Tabela 5, podemos ver que 18,6% de indivíduos de Icapara têm níveis séricos de vitamina A inferiores a 20 mg/100 ml; 16,4% de pessoas de Pontal do Ribeira também o possuem e só 3,9% das de Iguape estão aqui enquadradas Entretanto, nesta última localidade, 6,4% dos indivíduos apresentam menos de 10 mg de vitamina A/100 ml; 10,5% em Icapara e 10,9% em Pontal também são classificados como "deficientes" estando, possivelmente, com suas reservas hepáticas quase esgotadas. Esses indivíduos poderão, por isso, vir a ser possíveis casos clínicos, principalmente quando surgirem condições adversas, como diminuição na ingestão de alimentos fontes de vitamina A, ocasionada por um motivo qualquer como, por exemplo, a ocorrência de variações estacionais. Ainda mais: Pontal do Ribeira e Icapara têm um número de pessoas que apresentam níveis séricos de vitamina A tidos como "aceitável", maior do que "alto", o que indica que muitos desses indivíduos estão com valores no limiar de "baixo" podendo, essa mudança, ser precipitada a qualquer momento (Tabela 5).

Portanto, verificamos que em Iguape, Icapara e Pontal do Ribeira, existe uma deficiência de vitamina A em moldes tais a constituir problema de saúde pública (Figura 5), devendo, portanto, merecer atenção por parte das autoridades competentes .

 

CONCLUSÃO

Pelo exposto, concluímos que:

1 – Em Iguape, Icapara e Pontal do Ribeira existe um problema de saúde pública relacionado com a deficiência de caroteno e vitamina A, segundo critério da OPAS.

2 – Deve haver a implantação de um programa de educação alimentar nas zonas com prevalência de hipovitaminose A, estimulando a população a consumir alimentos ricos em caroteno (frutas e verduras), por serem mais acessíveis e, também, aqueles que contém a vitamina A pré-formada (alimentos de origem animal).

3 – É de grande importância estimular-se a determinação da composição de alimentos regionais, principalmente aqueles que constituem boas fontes de vitamina A.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido para publicação em 13-5-1971
Aprovado para publicação em 7-1-1972
Resumo do trabalho apresentado à Comissão Julgadora do Concurso de Mestrado em Nutrição em Saúde Pública. Realizado como parte dos programas do Departamento de Nutrição, em virtude do sub-convênio celebrado entre a Faculdade de Saúde Pública da USP e o Serviço do Vale do Ribeira, então órgão do Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE)

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