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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol. 31 no. 2 São Paulo Apr. 1997

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101997000200015 

Estudo do consumo alimentar:
em busca de uma abordagem multidisciplinar*

Study of  food consumption: in search of a multidisciplinary approach

 

Silvana P. de Oliveira e Annie Thébaud-Mony
Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. São Paulo, SP - Brasil (S.P.O.), Institut National de la Santé et de la Recherche Médicale. Le Kremlin Bicêtre - France (A.T.M.).

 

 

Resumo
Mudanças nos hábitos alimentares têm sido observadas nas últimas décadas, em vários países, revelando a complexidade dos modelos de consumo e de seus fatores determinantes. Assim, a adoção de uma abordagem multidisciplinar e comparativa, onde os vários aspectos da alimentação (econômicos, sociais, culturais e nutricionais) possam ser avaliados, faz-se ainda mais necessária, de modo a permitir a elucidação dos mecanismos responsáveis por essas mudanças e suas conseqüências, nos diferentes contextos socioeconômicos. Foram analisadas as contribuições de várias áreas de conhecimento ao estudo da situação alimentar e discutidos os enfoques dados a esse tema no contexto dos países do Norte e do Sul e, mais especificamente, para o caso brasileiro. Propõe-se a análise do consumo alimentar a partir da noção de "sistemas alimentares", numa perspectiva histórica. Trata-se de considerar os diferentes agentes sociais (produtores, distribuidores, consumidores e o Estado), suas lógicas, suas estratégias e as relações que se estabelecem entre eles, ao longo do tempo, visando assim à compreensão do processo através do qual os hábitos alimentares se constroem e evoluem.
Consumo de alimentos. Hábitos alimentares.
Abstract
Changes in eating habits have been observed in many countries in recent decades revealing the complexity of consumption models and their determining factors. Thus it is that the adoption of a multidisciplinary and comparative approach by which the various aspects of eating habits (economic, social, cultural and nutritional) may be assessed so as to permit the elucidation of the mechanisms responsible for these changes and their consequences in different socio-economic contexts, becomes even more necessary. The contributions of the various areas of knowledge to the study of the nutritional situation are here analysed and the approach to this theme in countries of the North and the South is discussed, as is, specifically, the situation in Brazil. Finally, the analysis of the consumption of food-stuffs on the basis of the notion of "food systems", within a historical perspective, is proposed. The various social agents (producers, distributors, consumers, State), their systems of logic, their strategies and the relationships which they establish among themselves over time are taken into account in such a way as to make possible an understanding of the process by which eating habits are constructed and developed.

Food consumption. Food habits.

 

 

A ALIMENTAÇÃO VISTA SOB DIFERENTES PERSPECTIVAS

A alimentação pode ser analisada sob várias perspectivas, ao mesmo tempo independentes e complementares: a perspectiva econômica, na qual a relação entre a oferta e a demanda, o abastecimento, os preços dos alimentos e a renda das famílias são os principais componentes; a perspectiva nutricional, com enfoque nos constituintes dos alimentos, indispensáveis à saúde e ao bem-estar do indivíduo (proteínas, lipídeos, carboidratos, vitaminas, minerais e fibra), nas carências e nas relações entre dieta e doença; a perspectiva social, voltada para as associações entre a alimentação e a organização social do trabalho, a diferenciação social do consumo, os ritmos e estilos de vida; a perspectiva cultural, interessada nos gostos, hábitos, tradições culinárias, representações, práticas, preferências, repulsões, ritos e tabus, isto é, no aspecto simbólico da alimentação.

Essas perspectivas reunidas revelam a importância dos fatores econômicos, sociais, nutricionais e culturais na determinação do tipo de consumo alimentar da população.

A busca de uma abordagem sobre a alimentação, onde esses diferentes aspectos seriam analisados no seu conjunto, e que poderia ser chamada de multidisciplinar, tem sido reconhecida como indispensável por autores de várias especialidades (Garine17, 1980; Malassis e Padilla27, 1986; Fischler15, 1990; Lentz24, 1991; Calvo8, 1992; Richard44, 1992). Entretanto, esse caminho implicaria, num primeiro momento, a abertura das diversas disciplinas voltadas ao estudo da alimentação a novas formas de abordagens comuns e, em seguida, a concepção de novos quadros teóricos interpretativos e metodológicos. Calvo8 (1992) analisa a relação entre as ciências sociais e o campo da alimentação, no contexto dos países do SulI, mostrando algumas dificuldades e desafios deste tipo de abordagem.

Os antropólogos conseguiram transpor algumas barreiras, aproximando-se das ciências biológicas. Afinal, não se pode negligenciar as relações entre o homem e o seu meio, quando se fala em alimentação.

Calvo8 (1992) relata que a necessidade de se reconsiderar os pontos comuns, teóricos e metodológicos, existentes entre as ciências da natureza e as ciências sociais, funda uma nova concepção sobre a definição de "fatos alimentares" enquanto "fatos sociais totais".

Na definição de uma antropologia alimentar para os franceses, Garine17 (1980) assinala que se a alimentação é um "fato social total", sua análise implicaria uma abordagem a mais ampla possível e ele convida especialistas das ciências humanas (historiadores, sociólogos, economistas, lingüistas e psicólogos) e das ciências biológicas (médicos e nutricionistas) a trabalharem juntos.

Mas, se a necessidade de uma abordagem multidisciplinar para a compreensão da situação alimentar é consenso entre as várias áreas de conhecimento, um método que consiga dar conta deste fenômeno de maneira tão abrangente ainda está para ser desenvolvido. Além disso, no contexto atual, deve-se enfatisar o caráter dinâmico e diversificado dos modelos de consumo, enfim, a maneira como eles se constroem e evoluem ao longo do tempo.

O livro "L'Homnivore" constitui um bom exemplo neste sentido. Segundo seu autor, Fischler15 (1990), "o homem biológico e o homem social, a fisiologia e o imaginário estão estreitamente, misteriosamente envolvidos no ato alimentar". Assim, ele propõe um estudo do onívoro (eterno e moderno), de sua percepção e da evolução de suas representações, numa perspectiva histórica.

A contribuição de Fischler15 se estabelece, principalmente, no que se refere ao caráter evolutivo do onívoro. A questão da mudança, pouco tratada pelos antropólogos e sociólogos em geral, segundo sua própria crítica, aparece em sua obra como um dos pontos mais importantes no estudo da alimentação de hoje.

Se for ampliado este campo, a partir da análise dos fatores que determinam o tipo de alimentação e sua evolução, que procedimento utilizar? Como estudar o consumo alimentar considerando, por um lado, suas relações com os sistemas de produção e de distribuição e, por outro, os valores, as representações e as necessidades da população, sem reduzi-lo a explicações puramente econômicas, sociais, culturais ou nutricionais? É possível reunir essas quatro perspectivas? Que método adotar em função dos instrumentos disponíveis?

A noção de "sistemas alimentares" foi colocada em evidência pelo UNRISD (United Nations Research Institute for Social Development) como uma resposta à necessidade de se analisar a alimentação em função dos processos de produção e de consumo, assim como de todas as etapas intermediárias, no contexto da sociedade num sentido mais amplo (Garcia16, 1985; Chonchol13, 1987). O Programa do UNRISD, denominado "Sistemas Alimentares e Sociedade" (SAS), foi aplicado em vários países da Ásia, África e América Latina, visando à segurança alimentar (UNRISD49, 1983).

Segundo Garcia16 (1985), esse Programa propôs a adoção de uma abordagem sistêmica, a partir da qual poderia ser melhor observada a ligação entre os fatos em torno da alimentação. Para esse mesmo Programa, a explicação da situação alimentar não pode ser reduzida a análise da taxa de produção ou a outros indicadores econômicos. Ela deve ser buscada nos problemas estruturais do sistema econômico, nas relações sociais e nas políticas adotadas que podem ter uma influência direta sobre a alimentação.

Chonchol13 (1987) afirma que a vantagem da análise, através do conceito de "sistemas alimentares", é que ela reúne as condições dos diferentes produtores e consumidores, passando por toda a cadeia de intermediários ligados à indústria e ao comércio. Esta abordagem, segundo o citado autor, permite a definição de estratégias apropriadas visando à solução do problema alimentar, uma vez que aquelas de natureza puramente produtivista tendem sempre ao fracasso. Trata-se, portanto, de considerar todos os determinantes do consumo alimentar, a partir das relações estabelecidas entre os diferentes agentes sociais participantes da cadeia alimentar: produtores, distribuidores e consumidores. Desta forma, as especificidades locais, inclusive culturais, também seriam levadas em conta no estudo dessas relações e na definição de estratégias no campo da alimentação.

Malassis26 (1973) e Malassis e Padilla27 (1986) definem o "modelo de consumo agro-industrial" como o tipo de alimentação dominante atualmente. Esses autores privilegiam o estudo da cadeia agro-alimentar para a explicação da formação e da evolução desse modelo, no contexto dos países desenvolvidos e em desenvolvimento. Malassis26 (1973) situa-se na linha dos trabalhos realizados pelos nutricionistas e especialistas da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), porém com um enfoque mais global, referindo-se aos modelos de produção e de consumo e às relações entre eles. Malassis e Padilla27 (1986) continuam a explorar o campo de estudo da economia agro-alimentar, como um conjunto de atividades que concorrem para a alimentação, num quadro de formação econômica e social determinada, isto é, na economia de mercado.

Lambert23 (1987) adotou o conceito elaborado por Malassis26, com o objetivo de verificar as principais diferenças quanto às práticas e regimes alimentares dos franceses. Apesar do trabalho de Lambert23 se situar numa perspectiva que leva em consideração a evolução dos determinantes socioeconômicos, esse autor se limita à descrição dos principais modelos de consumo alimentar no contexto francês. Entre os fatores analisados, destaca-se a evolução das necessidades, dos gostos e dos limites relacionados à renda e ao tempo disponível das famílias, assim como à oferta dos alimentos.

Esse tipo de abordagem, que estuda o consumo alimentar a partir de seus determinantes, considerando os aspectos de ordem econômica, social, nutricional e cultural, permite compreender as evoluções no sentido do modelo dominante e, ao mesmo tempo, suas variações e adaptações.

A história também faz parte das áreas de conhecimento, interessadas em aprofundar a análise do consumo alimentar, em função do contexto socioeconômico ou dos fatores que determinam sua evolução.

Segundo Sachs45 (1988), é principalmente nos historiadores franceses da "Ecole des Annales" que se encontram exemplos de interdisciplinaridade, onde as transformações estruturais, observadas num longo período, são explicadas pelo confronto dos fatores econômicos, sociais, culturais e políticos.

Mas, enfim, qual teria sido a contribuição da história para os estudos da alimentação?

Braudel6 (1961) convida os historiadores a escreverem a história da alimentação, na perspectiva da longa duração. Os trabalhos resultantes foram, no entanto, criticados por Aymard1 (1975), na medida em que eram extremamente descritivos e pareciam hesitar entre as várias solicitações. Segundo esse autor, as principais vias abertas pelos historiadores foram as da psicossociologia, da macroeconomia e da análise do valor nutritivo das alimentações antigas. Ele conclui que a história da alimentação deveria reunir-se à demografia e à história da produção agrícola.

Importante contribuição da história para o estudo da alimentação pode ser encontrada na obra de Braudel7 (1979), concebida, segundo ele, "à margem da teoria, de todas as teorias, sob o signo da observação concreta e da história comparada", no tempo e no espaço. O autor espera captar toda a complexidade e a heterogeneidade da vida quotidiana pré-industrial, da qual a alimentação também faz parte do século XV ao XVIII.

Os trabalhos de Malassis26 (1973) e Malassis e Padilla27 (1986) aproximam-se da perspectiva histórica global de Braudel7, introduzindo a questão da mudança e da evolução dos hábitos alimentares e de seus determinantes, no contexto de vários países. Entretanto, o aspecto econômico ainda é preponderante nos primeiros autores.

Malassis28 (1988) discute a maneira como a história da agricultura e da alimentação poderiam ser integradas à história geral. Segundo esse autor, a análise dos "sistemas agro-alimentares", considerando a produção e o consumo e suas relações com a economia global, poderia fornecer bom esquema para a interpretação da história da agricultura. Assim, o autor propõe a utilização do trabalho dos historiadores para a construção de uma interpretação histórica dos fenômenos alimentares.

Malassis29 (1994) retoma a noção de "sistemas agro-alimentares" que, segundo ele, seria capaz de englobar um maior número de variáveis explicativas para a compreensão da realidade alimentar, numa perspectiva histórica e geográfica.

O próprio conceito de "sistemas alimentares", definido pelo UNRISD, integra a dimensão temporal como um componente essencial, capaz de revelar a transição de uma estrutura a outra e a maneira como essa transição se produz (Garcia16, 1985).

A partir do final do século XIX, os hábitos alimentares evoluem num ritmo diferente daquele descrito por Braudel7 para a época pré-industrial. As mudanças se produzem mais rapidamente e os fatores que as determinam se intensificam e se tornam cada vez mais complexos. As trocas comerciais, culturais e tecnológicas entre os países aumentam consideravelmente, mostrando a importância de estudos comparativos para a compreensão das transformações no consumo alimentar, em diferentes contextos socioeconômicos.

A evolução das necessidades alimentares, dos modelos de consumo e dos estilos de vida, seja nos países do Norte, seja nos do Sul, tem suscitado também o interesse pela abordagem nutricional ou de saúde pública. Assim, associados aos conceitos de "transição demográfica" e de "transição epidemiológica", fala-se em "transição nutricional", relacionando-a às transformações sociais, econômicas, demográficas e ligadas à saúde, observadas ao longo deste século (Popkin41, 42, 1993, 1994).

O problema alimentar deixa de ser apenas circunscrito aos países do Sul e associado ao problema de acesso aos alimentos. Trata-se de questionar o tipo de alimentação das sociedades industrializadas e a sua relação com o aumento da incidência de várias doenças.

 

A ALIMENTAÇÃO: FATOR DE DIFERENCIAÇÃO ENTRE OS PAÍSES DO NORTE E DO SUL?

O consumo alimentar se transforma normalmente num objeto ligado ao problema da fome e da desnutrição, quando se trata dos países do Sul, onde as condições socioeconômicas de grande parte da população não permitem o acesso a uma alimentação satisfatória.

Embora as evoluções dos hábitos alimentares possam ser distintas em cada contexto socioeconômico, é correto tratá-las de maneira diferenciada?

Segundo Calvo8 (1992), é comum pensar-se, em termos de alimentação, para os países do Norte, e, em termos de nutrição, para os países do Sul. Assim, no primeiro caso, o campo de análise é concebido em várias dimensões e definido como um conjunto de elementos em interação (biológico, psicológico, histórico, social, econômico e cultural), enquanto que, no segundo, a interpretação se restringe à dimensão nutricional, traduzida pelas necessidades fisiológicas.

Richard44 (1992) critica os trabalhos que reduzem o problema alimentar, nos países do Sul, a um problema de produção ou de abastecimento e o consumo a um processo de ocidentalização, ou ainda a uma função dependente de maneira linear da renda. O autor sustenta a idéia de integrar as variáveis de ordem política, sociológica e cultural, na análise econômica do consumo alimentar dos países do Sul, isto é, de incorporar a noção de "fato social total" ao esquema econômico. Da mesma forma, segundo ele, outras disciplinas deveriam considerar os aspectos econômicos nos seus métodos de análise.

Estudos sobre as mudanças dos hábitos alimentares nos países do Sul têm se referido às transformações estruturais verificadas nas últimas décadas, como o desenvolvimento dos sistemas de produção e de distribuição, o fenômeno da urbanização e suas conseqüências para a população. No caso da África, há os trabalhos de Chonchol13 (1987), Sautier e O'Deye46 (1989), Hugon e col.22 (1991); na América Latina, Green19 (1986), Chonchol13 (1987), Bataillon e Panabière2 (1990), Green e Santos20 (1993), Douzant-Rosenfeld e Grandjean14 (1995).

A análise da evolução do consumo alimentar nos países do Sul, entretanto, pode levar aos conceitos de "mimetismo", "globalização", "ocidentalização", "dualismo" e outros, que em geral simplificam o fenômeno. Estudos comparativos entre países têm contribuído para uma melhor compreensão das mudanças observadas em diferentes contextos socioeconômicos, mostrando, por um lado, a tendência à homogeneização e, por outro, a diversificação dos hábitos alimentares (Oliveira39, 1995).

 

ANÁLISE DA ALIMENTAÇÃO NO BRASIL: QUAL PERSPECTIVA ADOTAR?

No Brasil, desde os anos trinta, com as publicações de Josué de Castro, o debate sobre a alimentação está centrado no problema da fome e da desnutrição e em seus determinantes socioeconômicos. Esse autor contribuiu muito para a compreensão desse fenômeno, de raízes tão profundas no Brasil, e de sua intensificação no contexto do "subdesenvolvimento", numa perspectiva biológica, social, geográfica, ecológica e política.

Canesqui12 (1988) relata vários estudos antropológicos, realizados no Brasil dos anos 40 aos anos 60, com o objetivo de elucidar as práticas, os conceitos, os tabus e o saber sobre a produção e o consumo alimentar dos diferentes grupos sociais, no meio urbano e rural, com ênfase no aspecto cultural.

A partir de meados da década de 70, as pesquisas nas áreas de ciências sociais e da nutrição ganham importância e incentivo. Grupos multidisciplinares são constituídos no Brasil, a fim de estudar os determinantes socioeconômicos da desnutrição e elaborar políticas alimentares e nutricionais, destinadas à população de baixa renda (Campino9, 1983; Campino10, 1985).

Segundo Canesqui12 (1988), nessa fase, retoma-se a problemática das condições de vida e de saúde das camadas trabalhadoras e, no campo da antropologia, a explicação dos hábitos alimentares a partir da relação natureza/sociedade, revelando as práticas e as representações da população de baixa renda.

Na década de 80, os trabalhos se referem à "fome moderna" (Linhart25, 1980) ou à relação entre o desenvolvimento econômico e a desnutrição (Campino9, 1983; Müller37, 1983; Müller38, 1986; Hakim e Solimano21, 1986; Goldenberg18, 1988; Bessis4, 1991).

Nos estudos que associam a nutrição e o desenvolvimento econômico, no caso do Brasil, Müller37 (1983) desenvolve duas idéias principais. A primeira leva em conta a compreensão das relações dinâmicas entre as necessidades, a produção e o consumo alimentar socialmente determinados, sob a influência do modelo de desenvolvimento capitalista. A segunda assinala as profundas mudanças ocorridas no País, a partir dos anos 60, nas esferas de produção, distribuição e consumo de alimentos, com a formação do complexo agro-industrial.

Num outro artigo, Müller38 (1986) propõe o estudo da alimentação no Brasil, considerando todos os elementos do complexo alimentar, não somente em termos tecnológicos e funcionais, mas também levando-se em conta a diversidade dos agentes sociais e de suas relações socioeconômicas, assim como os modelos de consumo prevalecentes em determinadas regiões. Como solução aos problemas de disponibilidade e de acesso aos alimentos, o referido autor defende a idéia da formação de um complexo alimentar nacional que vise à segurança alimentar, isto é, suficiente, estável, autônomo, sustentável e capaz de atender à população carente.

A mudança no padrão alimentar é colocada por Müller37, 38, sobretudo como conseqüência das políticas que favoreceram a opção pelo modelo de desenvolvimento econômico do tipo capitalista oligopolista, levando à reprodução dos padrões de produção e de consumo característicos dos países do Norte. Sua análise aproxima-se dos trabalhos de Malassis26, 27 e da proposta do UNRISD, no que se refere aos "sistemas alimentares", porém esses parecem dar mais ênfase à diversidade alimentar da população do que ao fenômeno de uniformização dos modelos de consumo.

Estudos comparativos, realizados por Bertrand3 (1985), Bonin5 (1993) e Oliveira39 (1995) destacam as mudanças dos hábitos alimentares na França e no Brasil, considerando o sistema agro-industrial, e revelam a diversidade dos modelos de consumo desses países, em função dos fatores históricos, sociais, econômicos, políticos e culturais.

Discutindo os aspectos da produção e da distribuição de alimentos no Brasil, Simon48 (1986/87) aponta como fundamental a análise das relações complexas entre a produção agrícola, a indústria alimentar, a comercialização e o consumo, e destaca a dominação das indústrias e dos agentes comerciais sobre os demais pólos da cadeia agro-alimentar.

Mas, de uma maneira geral, o debate sobre a situação alimentar no Brasil se confunde com o do abastecimento, limitando-se a dois aspectos: um se refere à produção (Melo32, 1983; Peliano e col.40, 1985; Rezende43, 1986; Melo33, 1989) e outro à questão nutricional, ou seja, à associação entre a fome e/ou desnutrição e a má distribuição de renda (Campino10, 1985; Campino11, 1986; Moledo34, 1992; Silva47, 1993; Viglio e Troccoli50, 1993).

Como então integrar nesta abordagem, puramente econômica, outros elementos capazes de diagnosticar a situação alimentar, a partir da evolução dos hábitos e das necessidades alimentares da população brasileira?

Maluf30 (1990), buscando um enfoque mais abrangente, apresenta as várias dimensões envolvidas na problemática do abastecimento alimentar no Brasil, ressaltando as modificações no padrão alimentar, decorrentes do desenvolvimento do setor agro-industrial e do fenômeno da alimentação fora de casa, pouco consideradas na análise tradicional.

Maluf31 (1991) considera que, nem o enfoque econômico, nem o enfoque nutricional, são suficientes para explicar o problema alimentar no contexto brasileiro. O que é preciso, segundo esse autor, é retomar a questão alimentar enquanto questão central em articulação com as análises e as políticas relativas às suas dimensões econômicas, sociais, de saúde, etc. Ele sugere que a noção de "segurança alimentar" poderia contribuir para a construção de uma abordagem sistêmica da alimentação. Desta forma, o autor busca uma análise global, que articule os diferentes fatores ligados à alimentação, o que poderia vir a ser um instrumento útil na definição de políticas visando à satisfação das necessidades da população. Esta dimensão, ao mesmo tempo teórica e prática, coincide com a proposta por Campino9 e Müller37, 38.

No que se refere à noção de "segurança alimentar", ela tem sido fundamentalmente relacionada à questão da oferta no caso brasileiro e, sendo assim, o conceito de "sistemas alimentares" parece ser mais abrangente, desde que as estratégias dos consumidores, enquanto agente social, também sejam analisadas.

Trabalhos recentes de Mondini e Monteiro35 (1994), Monteiro e col.36 (1995) apontam para o fenômeno da "transição nutricional" no Brasil, revelando a complexidade da situação alimentar no País e a necessidade de estudos aprofundados sobre a evolução dos hábitos alimentares, seus fatores determinantes e suas conseqüências na saúde pública.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Cada vez mais o problema alimentar é de ordem mundial. Os modelos de consumo de hoje são marcados pela desigualdade, indo desde a insuficiência até o desperdício, gerando novos desequilíbrios nutricionais, ao lado das formas tradicionais de desnutrição.

Atualmente, o consumo alimentar não pode ser explicado apenas pela lógica da produção ou pela lógica das necessidades nutricionais. O tema se torna cada vez mais complexo, exigindo estudos sobre as relações que se estabelecem entre os vários membros que compõem a cadeia alimentar: produtores agrícolas, industriais, comerciantes e consumidores, além do papel do Estado no centro da contradição entre o sistema produtivo e a saúde pública. Seu estudo requer ainda a análise do conjunto de fatores que tem determinado as mudanças e a diversificação dos hábitos alimentares, ao longo do tempo, segundo as especificidades de cada país ou região.

As relações que se estabelecem entre a produção e o consumo não são apenas determinadas por fatores de ordem econômica. Fatores sociais, culturais, nutricionais, que revelam as várias dimensões em torno das necessidades dos consumidores, suas formas de adaptação e de apropriação do modelo dominante, suas formas de resistência, a adoção de novos hábitos associada à prevalência de práticas tradicionais, assim como suas representações e estratégias face à oferta, também deveriam ser considerados na avaliação do consumo alimentar.

Para o diagnóstico da situação alimentar e a conseqüente atuação nesta área, faz-se necessária a adoção de métodos de análise capazes de apreender os vários fatores determinantes do consumo e de sua evolução, de natureza econômica, social, cultural, política e nutricional, assim como a interação entre eles.

Várias são as formas de abordagens propostas neste sentido, sendo algumas delas apresentadas no presente artigo. Destaca-se a análise a partir do conceito de "sistemas alimentares", que visa a conhecer as lógicas, as estratégias dos vários agentes sociais em todas as etapas da cadeia agro-alimentar e as relações que se estabelecem entre eles, associada à perspectiva histórica, que busca revelar o processo através do qual os hábitos alimentares se formam e se modificam, num dado contexto e período, e seus fatores determinantes.

Estudos comparativos poderiam igualmente contribuir para uma melhor compreensão dos mecanismos responsáveis pela situação alimentar, considerando os diferentes contextos socioeconômicos e suas especificidades.

No caso do Brasil, também têm-se observado mudanças no padrão alimentar com o surgimento de novos desequilíbrios nutricionais, além da prevalência das formas tradicionais de desnutrição, demonstrando a complexidade da situação alimentar e a necessidade de estudos sobre o impacto dessas mudanças na saúde pública, para as diferentes camadas da população.

Ainda, a maioria dos trabalhos no Brasil privilegiam a produção ou o abastecimento, e poucos são os dados disponíveis sobre o consumo alimentar. Portanto, é indispensável a realização de inquéritos sistemáticos, envolvendo a observação direta dos vários agentes sociais, tendo o consumidor como objeto central da cadeia agro-alimentar. Questões sobre o consumo, as mudanças, as percepções, as representações, os gostos e as práticas, enfim, as estratégias alimentares poderiam revelar os vários aspectos relacionados à alimentação para os diferentes grupos socioeconômicos. Além disso, do ponto de vista da oferta, poderiam ser analisadas as estratégias da produção e da distribuição e sua repercussão junto aos consumidores, assim como o papel das políticas no fenômeno de substituições alimentares e na introdução de novos hábitos de consumo.

A busca da análise multisdisciplinar torna-se, portanto, ainda mais necessária para a interpretação da evolução dos hábitos alimentares, apesar das dificuldades metodológicas, sobretudo para compreender os fatores implicados e, em seguida, definir estratégias e mecanismos de ação nesta área fundamental que envolve a alimentação e a saúde pública.

 

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I O termo "países do Sul" engloba os países da América Latina e da África, também denominados "países em desenvolvimento" ou "Terceiro Mundo". Os chamados "países desenvolvidos" (Europa, Estados Unidos) recebem, neste texto, a denominação de "países ocidentais" ou "países do Norte".

* Baseado na tese de doutorado: "Mode de consommation agro-industriel: homogénéisation ou diversification des habitudes alimentares? Approche comparative franco-brésilienne. Etude de cas dans la ville de São Paulo", apresentada à Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales (EHESS), Paris, França, 1995. Trabalho subvencionado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientítico e Tecnológico/CNPq. Processo 200496/89-1.

Correspondência para / Correspondence to: Silvana P. de Oliveira - Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. Av. Dr. Arnaldo, 715 - 01246-904 São Paulo, SP - Brasil.
Edição subvencionada pela FAPESP. Processo 96/5999-9.
Recebida em 5.2.1996. Reapresentado em 24.7.1996. Aprovado em 15.8.1996.