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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.43 no.5 São Paulo Oct. 2009 Epub Sep 04, 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102009005000048 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Consumo de frutas e hortaliças por idosos de baixa renda na cidade de São Paulo

 

Consumo de frutas y hortalizas por ancianos de baja renta en la ciudad de São Paulo (Sureste de Brasil)

 

 

Renata Furlan ViebigI; Maria Pastor-ValeroII; Marcia ScazufcaIII, IV; Paulo Rossi MenezesI

IDepartamento de Medicina Preventiva. Faculdade de Medicina (FM). Universidade de São Paulo (USP). São Paulo, SP, Brasil
IIDepartamento de Saúde Pública da Facultad de Medicina. Universidade Miguel Hernández. Alicante, España
IIIDepartamento de Psiquiatria. FM-USP. São Paulo, SP, Brasil
IVCentro de Estudos do Hospital João Evangelista. São Paulo, SP, Brasil

Correspondência | Correspondence

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Estimar os fatores socioeconômicos e sociodemográficos associados ao consumo diário de cinco porções de frutas e hortaliças por idosos residentes em áreas de baixa renda, identificando as principais frutas e hortaliças que compõem a dieta desta população.
MÉTODOS: Estudo transversal de base populacional com 2.066 idosos (>60 anos) de baixa renda residentes na cidade de São Paulo, SP, em 2003-2005. Para a avaliação do consumo de frutas e hortaliças foi aplicado questionário de freqüência alimentar. As respostas foram transformadas em consumo diário e comparadas às recomendações da Organização Mundial da Saúde (consumo de cinco ou mais porções diárias). A relação entre consumo recomendado de frutas e hortaliças e variáveis socioeconômicas foi avaliada mediante modelos de regressão logística.
RESULTADOS: Dos participantes, 60,5% eram mulheres e 39,5% homens. Cerca de um terço dos idosos (n=723; 35,0%) não consumia diariamente nenhum tipo de fruta ou hortaliça e 19,8% relataram consumo diário de cinco ou mais porções de frutas e hortaliças. Este consumo esteve positivamente associado à renda e à escolaridade.
CONCLUSÕES: O consumo de frutas e hortaliças de idosos de baixa renda do município de São Paulo mostrou-se insuficiente em relação às recomendações da Organização Mundial da Saúde e está associado a condições socioeconômicas desfavoráveis.

Descritores: Idoso. Comportamento Alimentar. Fatores Socioeconômicos. Consumo de frutas e hortaliças.


RESUMEN

OBJETIVO: Estimar los factores socioeconómicos y sociodemográficos asociados al consumo diário de cinco porciones de frutas y hortalizas por ancianos residentes en áreas de baja renta, identificando las principales frutas y hortalizas que componen la dieta de esta población.
MÉTODOS: Estudio transversal de base poblacional con 2.066 ancianos (>60 años) de baja renta residentes en la ciudad de São Paulo, Sureste de Brasil, en 2003-2005. Para la evaluación del consumo de frutas y hortalizas fue aplicado cuestionario de frecuencia alimentaria. Las respuestas fueron transformadas en consumo diário y comparadas con las recomendaciones de la Organización Mundial de la Salud (consumo de cinco o más porciones diárias). La relación entre consumo recomendado de frutas y hortalizas y variables socioeconómicas fue evaluada mediante modelos de regresión logística.
RESULTADOS: De los participantes, 60,5% eran mujeres y 39,5% hombres. Cerca de un tercio de los ancianos (n=723; 35,0%) no consumia diariamente ningún tipo de fruta u hortaliza y 19,8% relataron consumo diário de cinco o más porciones de frutas y hortalizas. Este consumo estuvo positivamente asociado con la renta y la escolaridad.
CONCLUSIONES: El consumo de frutas y hortalizas de ancianos de baja renta del município de São Paulo se mostró insuficiente con relación a las recomendaciones de la Organización Mundial de la Salud y está asociado a condiciones socioeconómicas desfavorables.

Descriptores: Anciano. Conducta Alimentaria. Factores Socioeconómicos. Consumo de frutas y vegetales.


 

 

INTRODUÇÃO

O rápido envelhecimento observado na população brasileira indica um atual contingente de aproximadamente 15 milhões de idosos.ª Estima-se que em 20 anos, a população de idosos possa exceder o dobro deste número, colocando o Brasil entre as cinco populações mais idosas do mundo.1,11,12 Esse envelhecimento populacional resultará em um aumento na prevalência das doenças crônicas não transmissíveis, que afetam predominantemente os indivíduos idosos.1

Em 2004 a Organização Mundial de Saúde (OMS)b propôs recomendações pautadas em mudanças de estilo de vida visando a prevenir e minimizar a prevalência mundial das doenças crônicas não transmissíveis. Uma de suas principais recomendações foi o consumo diário de cinco porções ou mais de frutas e hortaliças. O consumo aumentado desses alimentos atuaria de forma importante na redução do risco das principais doenças crônicas, especialmente devido a maior oferta de vitaminas, minerais antioxidantes e fibras alimentares.3,20

O consumo de frutas e hortaliças é em parte determinado pelas condições socioeconômicas da população. Em dois estudos recentes, a baixa renda7 familiar mostrou-se independentemente associada a práticas alimentares inadequadas, especialmente ao baixo consumo diário de frutas, legumes e verduras.9,12 Outros fatores também têm sido associados ao baixo consumo de frutas e hortaliças de idosos brasileiros, como: baixa escolaridade, inapetência, dificuldades para a aquisição e preparo dos alimentos e presença de doenças crônicas.2,6

Poucas pesquisas brasileiras têm investigado os padrões alimentares de indivíduos idosos, sendo ainda mais escassas aquelas com enfoque no consumo de frutas e hortaliças. Em um estudo de base populacional com 283 idosos de três regiões do município de São Paulo e que utilizou um questionário de freqüência alimentar observou-se aumento do consumo de frutas e hortaliças da região de menor para a de maior nível socioeconômico.14 No entanto, não foi examinada a proporção de idosos que atingiam as recomendações de cinco porções diárias de frutas e hortaliças. Em inquérito brasileiro que avaliou amostra probabilística nacional de mais de 5.000 homens e mulheres com idade maior ou igual a 18 anos, foi observado que dentre os indivíduos com 65 anos ou mais, apenas 20,6% das mulheres e 14,8% dos homens consumiam cinco ou mais porções de frutas e hortaliças ao dia.9 Contudo, tais informações foram obtidas somente com relação à freqüência do consumo, não sendo possível identificar quais frutas e hortaliças eram mais ou menos consumidas.8

O presente estudo teve por objetivo estimar os fatores socioeconômicos e sociodemográficos associados ao consumo de cinco porções de frutas e hortaliças, recomendado pela OMS, por idosos residentes em áreas de baixa renda, identificando as principais frutas e hortaliças que compõem a dieta desta população.

 

MÉTODOS

O estudo integrou a pesquisa epidemiológica de base populacional "São Paulo Ageing and Health study" (SPAH)15-17 sobre prevalência, incidência e fatores associados à demência e outros transtornos mentais em idosos de baixa renda do município de São Paulo, SP, desde 2003. Na primeira fase do SPAH foi realizado estudo transversal com idosos residentes em áreas de baixa renda da região oeste do município de São Paulo.15 Foram elegíveis todos os indivíduos com idade maior ou igual a 65 anos, que residiam nos distritos do Butantã, Rio Pequeno e Raposo Tavares, nos setores censitários mais pobres, nos quais havia favelas e/ou cobertura pelo Programa Saúde da Família, representando as regiões de menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da área do estudo. Os idosos eram entrevistados e avaliados em seus domicílios, preferencialmente em uma única visita.9 Entre os anos de 2003 e 2005 foram incluídos 2.072 participantes, dos quais 2.066 responderam ao questionário de freqüência alimentar sobre consumo de frutas e hortaliças, constituindo a amostra do presente estudo.

Questionários padronizados foram administrados por uma equipe de oito entrevistadores treinados para obter as informações sobre características sociodemográficas, socioeconômicas e sobre consumo de frutas e hortaliças.15-17 Para 89 idosos que apresentavam incapacidade física ou mental grave, informantes próximos responderam a entrevista. Detalhes sobre a avaliação de incapacidade física ou mental podem ser encontrados em outra publicação sobre o SPAH.15

Para a avaliação do consumo de frutas e hortaliças foi aplicada a seção correspondente de um Questionário de Freqüência Alimentar (QFA), semi-quantitativo, desenvolvido para obter informações sobre a dieta da população adulta geral, residente na Região Metropolitana de São Paulo.7

No QFA existem nove categorias de resposta para a freqüência de consumo de cada item alimentar da lista: nunca ou menos de uma vez por mês, uma a três vezes por mês, um vez por semana, duas a quatro vezes por semana, cinco a seis vezes por semana, uma vez por dia, uma a três vezes por dia, quatro a cinco vezes por dia, e seis ou mais vezes por dia. As categorias de freqüência de consumo do QFA são baseadas em porções padronizadas para cada alimento listado. Por exemplo, a porção-padrão para bananas é uma unidade; se o participante referir que consumiu em média três bananas por dia, será classificado na categoria "uma a três vezes por dia". No presente estudo, aplicamos a parte do QFA que representava os grupos de "verduras e legumes", com dez itens, e "frutas e sucos naturais", com 17 itens alimentares.

Para contabilizar quantos idosos atingiam as recomendações da OMSb para ingestão de frutas e hortaliças, foram selecionadas as respostas de cada indivíduo que indicavam a ingestão diária de cada alimento, correspondendo às seguintes categorias de freqüência: uma vez, duas a três, quatro a cinco e seis ou mais vezes ao dia. Realizou-se a somatória de todas as respostas do QFA referentes a cada item alimentar para cada indivíduo, sendo encontrado, desta forma, o número de porções diárias de frutas, hortaliças e frutas e hortaliças (combinadas) consumidos por idoso. Assim, a somatória do consumo total diário de frutas e de hortaliças resultou em uma variável contínua, equivalente ao número total de porções diárias de hortaliças e frutas (combinadas) consumidas pelos idosos. Essa variável contínua final foi categorizada em: "consumo não diário de frutas e hortaliças", "consumo diário de frutas e hortaliças" e "consumo recomendado de frutas e hortaliças" (cinco ou mais porções/dia).

As análises estatísticas foram realizadas com o software Stata 9.0. Primeiramente, as características socioeconômicas e demográficas foram analisadas de maneira descritiva, utilizando-se medidas de tendência central e distribuições percentuais. As características analisadas incluíram sexo, faixa etária (65-69, 70-74, 75-79, 80 anos de idade ou mais), anos de residência da cidade de São Paulo, escolaridade (alfabetização e anos de estudo) e renda mensal per capita (em salários mínimos à época do estudo).

A intensidade das associações entre características socioeconômicas e sociodemográficas e consumo diário adequado de frutas e hortaliças foi estimada por odds ratios (OR), com intervalos com 95% de confiança (IC 95%), utilizando-se modelos de regressão logística ajustados por idade e gênero. A significância estatística foi avaliada com testes de Wald. Para variáveis categóricas ordenadas foi utilizado o teste de tendência linear. Em seguida, foram construídos modelos de regressão logística multivariada para identificar as associações independentes. Se uma ou mais variáveis estavam associadas com p> 0,15, aquela que tivesse o maior valor de p era retirada do modelo. Um novo modelo era estimado e a significância das variáveis reexaminada. Esse processo iterativo continuava até que só as variáveis com um valor de p< 0,15 permanecessem no modelo. O efeito dos potenciais fatores de confusão foi examinado incluindo-se cada variável seqüencialmente nos modelos de regressão logística multivariada e observando-se se os OR estimados variavam em mais de 10%.13

O estudo foi aprovado pela Comissão de Ética para Análise de Projetos de Pesquisa da Diretoria Clínica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (Processo Nº 0361/07). Os participantes assinaram termo de consentimento livre e esclarecido e o consentimento dos participantes com déficit cognitivo foi fornecido pelos informantes.

 

RESULTADOS

A Tabela 1 apresenta as características sociodemográficas dos participantes. Do total de 2.066 participantes na amostra, a maioria (1.250; 60,5%) era do sexo feminino; 370 (45,3%) homens e 518 (41,4%) mulheres encontravam-se na faixa etária de 65 a 69 anos. Apenas 97 (11,9%) homens e 99 (7,9%) mulheres haviam possuíam mais de quatro anos de estudo. A renda mensal per capita mediana dos participantes foi de R$ 346,67 e 8% relataram não possuir nenhuma fonte de renda individual. Quatrocentos e cinqüenta e dois (55,4%) homens e 585 (47,2%) mulheres residiam em São Paulo há pelo menos 40 anos.

A Tabela 2 mostra o consumo das diferentes frutas e hortaliças segundo as categorias de freqüência do QFA utilizado.

As hortaliças mais consumidas diariamente pelos idosos foram tomate (21,0%), alface (14,4%) e cenoura (8,8%). As demais hortaliças não atingiram consumo diário em mais que 2% da população estudada. As frutas mais consumidas foram banana (41,0%), laranja e mexerica (30,4%). Maçã, pêra, mamão e suco de laranja foram consumidos por 8% dos participantes. As demais frutas não atingiram consumo diário em mais que 3,7% da amostra (Tabela 2). Proporções elevadas de idosos relataram que nunca consumiam hortaliças como: acelga (89,6%); agrião (78,1%); abóbora (77,5%); brócolis/couve-flor (66,4%); e repolho (63,5%). No caso das frutas, dos 17 itens contidos no QFA, 11 nunca eram consumidos por mais de 75% dos idosos: caju (98,0%); acerola (96,9%); abacate (94,5%); morango (94,4%); pêssego/figo (93,0%); abacaxi (87,0%); uvas (83,5%); e melão/melancia (82,0%). Foram observadas diferenças significativas entre os sexos em relação à ingestão dos seguintes itens com maior consumo entre mulheres: alface (p<0,001), laranja/mexerica (p<0,001), legumes em geral (p<0,001), cenoura (p<0,001), maçã/pêra (p=0,03) e alho e cebola (p=0,005).

Idosos que relataram consumir cinco ou mais porções de frutas e hortaliças ao dia somaram 19,8% (IC 95%: 18,1;21,5). Outros 45,2% apresentaram consumo diário de frutas e hortaliças, porém não atingiram as recomendações quantitativas desses alimentos, e 35% não consumiam diariamente frutas ou verduras. As oito frutas e hortaliças mais consumidas foram: tomate, alface, cenoura, banana, laranja/mexerica, maçã/pêra (Tabela 2), e representaram 82% da ingestão de frutas e hortaliças dos participantes que atingiam as recomendações diárias da OMS.b

A Tabela 3 mostra as associações brutas e ajustadas entre as variáveis socioeconômicas e sociodemográficas e o consumo recomendado de frutas e hortaliças. Na análise multivariada, o consumo recomendado de frutas e hortaliças mostrou-se independentemente associado ao nível de escolaridade e renda per capita. O consumo recomendado de frutas e hortaliças aumentou significativamente segundo a faixa de escolaridade. A associação de consumo recomendado de frutas e hortaliças com faixas de renda dos participantes também foi estatisticamente significativa, embora sem tendência linear clara.

 

DISCUSSÃO

No presente estudo, um quinto dos participantes consumiam diariamente as porções recomendadas pela OMS,b enquanto outros 35% não consumiam diariamente nenhum tipo de fruta ou hortaliça. O consumo de frutas e hortaliças aumentava significativamente conforme o nível de escolaridade e a renda per capita dos indivíduos. Porém, embora exista grande oferta e diversidade de frutas e hortaliças no Brasil, encontramos uma limitada variabilidade de consumo dentre as pessoas que atingiram as recomendações da OMS.

Investigações realizadas no Brasil mostraram que o gênero, o poder aquisitivo e a escolaridade/informação são determinantes para a alimentação equilibrada nestas populações.2,6,9,10,14 Jaime & Monteiro9 (2005) investigaram o consumo de frutas e hortaliças em amostra probabilística nacional composta por 5.000 indivíduos, incluindo idosos. Esses autores utilizaram questões curtas para obter informações sobre a freqüência de ingestão desses alimentos e encontraram resultados semelhantes aos do presente estudo, com 20,6% das mulheres atingindo as recomendações da OMS, mas somente 14,8% dos homens.9 Idosos foram os que mais consumiam frutas e hortaliças conforme as recomendações da OMS e foi observada uma clara associação positiva entre escolaridade e consumo de frutas e hortaliças.9 Estudo recente com amostra de adultos do município de São Paulo, que também avaliou o consumo de frutas e hortaliças por meio de perguntas curtas, aplicadas em entrevistas telefônicas, mostrou resultados consistentes em relação à associação entre escolaridade e consumo destes alimentos para ambos os sexos.6

No presente trabalho, o consumo inadequado de frutas e hortaliças associou-se fortemente à baixa escolaridade e menores faixas de renda dos idosos. Segundo Jaime et al8 (2007), as estimativas são de que o consumo de frutas e hortaliças no Brasil corresponda a menos da metade das recomendações nutricionais, principalmente em famílias de baixa renda. Um estudo realizado com dados da Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas da Universidade de São Paulo em 1998/1999 sobre as aquisições de alimentos e bebidas para consumo familiar durante um mês mostrou que a participação de frutas e hortaliças no total de calorias adquirido pelas famílias aumenta com o incremento da renda familiar e com a diminuição do preço das frutas e hortaliças.4

Análise dos dados sobre a aquisição de gêneros alimentícios obtidos na POF 2002/2003c mostrou que as famílias com renda mensal até R$ 400,00 destinavam apenas 3,6% dos gastos com alimentação para a aquisição de frutas e 3,3% para a aquisição de verduras e legumes.10 Em contrapartida, as famílias com renda mensal maior que R$ 4.000,00 destinavam 23,5% dos gastos com alimentação para a aquisição de frutas e 12,7% para a compra de verduras e legumes.10 A baixa escolaridade também pode influenciar o consumo e a pequena variabilidade de frutas e hortaliças pela adoção de hábitos alimentares inadequados e pela maior freqüência de problemas relacionados à idade (dificuldades de locomoção, problemas de mastigação e deglutição, doenças como depressão e demência).2,4,14,16 Essa influência do nível de escolaridade talvez explique, pelo menos em parte, a pequena variabilidade no consumo das frutas, pois dentre as menos consumidas estão itens de elevado custo no estado de São Paulo,d como morango, figo, pêssego e uva. Todavia, algumas frutas com custo mais baixo, como limão, abacate, melancia e melão foram pouco consumidas pelos idosos. No caso das hortaliças, observamos padrão similar, com algumas hortaliças de baixo custo e de fácil acesso à compra como repolho, chuchu, pepino e acelga sendo pouco consumidas pelos participantes do estudo.

Mensurar o consumo de frutas e hortaliças em populações não é uma tarefa simples e não existe consenso na literatura quanto ao melhor método para isso.5,7,13,18-20 Nosso estudo empregou um QFA para avaliar o consumo de frutas e hortaliças e os resultados foram consistentes com os obtidos em investigações brasileiras que utilizaram perguntas curtas.6,9 Assim, acreditamos que o uso do QFA no presente trabalho não influenciou a avaliação do nível de consumo de frutas e hortaliças e permitiu identificar mais precisamente os alimentos consumidos. Um aspecto positivo do presente estudo é o fato de que para os 89 participantes que não puderam responder aos questionários devido à incapacidade mental grave, a informação sobre consumo de frutas e hortaliças foi obtida com seus informantes, aumentando a representatividade da amostra quanto ao estado de saúde dos participantes.

Os resultados do presente trabalho devem ser generalizados com cautela para outras populações de idosos no País, pois há áreas onde o acesso a esse tipo de alimentos é mais restrito e a renda per capita menor. Porém, acreditamos que os idosos de baixa renda nas demais áreas de baixa renda de outros centros urbanos do Brasil não apresentem situação melhor que a aqui observada em relação ao consumo diário de frutas e hortaliças.

Concluindo, o consumo de frutas e hortaliças por idosos de baixa renda mostrou-se muito aquém das recomendações atuais da OMS.b Esta inadequação associou-se com condições socioeconômicas desfavoráveis (baixa escolaridade e baixo poder aquisitivo), mesmo em um grupo populacional relativamente homogêneo. As frutas e hortaliças mais consumidas diariamente estão de acordo com os itens alimentares mais consumidos pela população do estado de São Paulo, mas a variedade no consumo destes alimentos é limitada. Políticas públicas e programas de promoção da saúde devem incorporar formas de incrementar o consumo desses alimentos pela população de idosos do País.

 

AGRADECIMENTO

Aos assistentes de pesquisa do São Paulo Ageing and Health Study pelo trabalho de campo e preparação dos bancos de dados.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência | Correspondence:
Renata Furlan Viebig
R. Dr. Eudoro Lemos de Oliveira, 117
02022-030 São Paulo, SP, Brasil
E-mail: refurlan@terra.com.br

Recebido: 7/4/2008
Revisado: 13/2/2009
Aprovado: 27/2/2009
Pesquisa financiada pela Wellcome Trust (Proc. Nº GR066133MA).
Menezes PR e Scazufca M foram apoiados pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq; bolsa produtividade).

 

 

a Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo 2000: Brasil. Brasília; 2000[citado 2007 jan 01]. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/censo2000
b World Health Organization. Global Strategy on diet, physical activity and health. Fifty seventy word health assembly. Geneva; 2004[citado em 2007 nov 01]. Disponível em: http://www.who.int/dietphysicalactivity/en/
c Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa de orçamentos familiares 2002-2003: análise da disponibilidade domiciliar de alimentos e estado nutricional no Brasil. Rio de Janeiro; 2004.
d Instituto de Economia Agrícola. Preços médios mensais no varejo. São Paulo; 2007[citado 2007 dez 01]. Disponível em: http://www.iea.sp.gov.br/out/banco/menu.php