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Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical

Print version ISSN 0037-8682On-line version ISSN 1678-9849

Rev. Soc. Bras. Med. Trop. vol.35 no.4 Uberaba July/Aug. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0037-86822002000400013 

ARTIGO

Escorpionismo em Belo Horizonte, MG: um estudo retrospectivo

Scorpionism in Belo Horizonte, MG: a retrospective study

 

Marcely Regina Martins Soares1, Cristiano Schetini de Azevedo1 and Mário De Maria1

 

 

Resumo Os escorpiões (Arachnida, Scorpiones), especialmente na área urbana, devido à grande densidade demográfica e possibilidade de confronto, representam risco à saúde pública. A espécie Tityus serrulatus é a mais importante, do ponto de vista médico, causando o maior número de acidentes. Objetivou-se levantar dados epidemiológicos e a ocorrência de acidentes escorpiônicos em Belo Horizonte, entre 1990 e 1997. Os dados foram obtidos no Hospital de Pronto Socorro João XXIII. Ocorreram 3265 acidentes, sendo a maioria em 1996. Aconteceram 6 acidentes fatais. Com maior incidência nos meses de janeiro, o sexo masculino, os membros superiores e a faixa etária entre 25 e 65 anos, foram os mais atingidos. Os resultados constituem importante subsídio para o controle do escorpionismo, pois delimitam as áreas mais atingidas e o perfil dos acidentados, permitindo campanhas educativas e de prevenção mais eficientes.
Palavras-chaves: Escorpionismo. Epidemiologia. Tityus serrulatus.
Escorpião amarelo.

Abstract Scorpions, especially in urban areas, due to the great demographic density and confrontation possibility, represent a risk to the public health. Tityus serrulatus is the most important species, causing the highest number of accidents. This study intended to raise epidemic data and the occurrence of scorpionism in Belo Horizonte, between 1990 and 1997. The data were gathered from the records of Hospital de Pronto Socorro João XXIII. Of the 3265 cases, most occurred in 1996, of which six were fatal accidents. With greater incidence in January, the male sex, superior members and 25-65 year-old age group were the most affected. The results constitute an important tool for the control of scorpionism, since they delimit the areas most involved and the victims' profile, enabling more efficient and durable prevention educational campaigns.
Key-words: Scorpionism. Epidemiology. Tityus serrulatus. Yellow scorpion.

 

 

Entre os problemas de saúde pública no Brasil, o escorpionismo desponta com peculiaridades próprias. Com maior destaque nas regiões climáticas mais quentes e recrudescimento nos meses onde ocorrem aumento da temperatura e da pluviosidade, os acidentes com escorpiões parecem ser bem mais freqüentes do que acusam as estatísticas oficiais, podendo assumir um perfil epidemiológico grave em determinadas áreas, sob certas circunstâncias14.

São relatados, no Brasil, casos de escorpionismo em quase todos os estados, principalmente em Minas Gerais e São Paulo, onde os escorpiões constituem problema de saúde pública. Os acidentes podem variar amplamente quanto à gravidade. Há casos de morte e de sequelas causadoras de incapacidade temporária para o trabalho e outras atividades habituais. A Família Buthidae é a maior e mais amplamente distribuída, não só no Brasil, mas em todo o mundo e, também, a mais importante do ponto de vista epidemiológico, incluindo as 25 espécies consideradas perigosas para o homem5.

No gênero Tityus Kock, 1836, as espécies representam 60% da fauna escorpiônica neotropical, podendo causar acidentes graves. É provável que todas as espécies deste gênero apresentem um veneno ativo sobre o homem, ainda que os principais acidentes se devam às espécies Tityus serrulatus Lutz & Melo, 1922, Tityus bahiensis Perty, 1834, e Tityus stigmurus Thorell, 187715 18.

T. serrulatus ocorre na Bahia, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Pará e Goiás. É de colorido amarelo claro, o que originou o seu nome popular: escorpião amarelo. Medem até 7cm de comprimento. Suas populações são formadas apenas por fêmeas, cuja reprodução se dá por partenogênese5 11 13. Alguns trabalhos consideram T. serrulatus componente de um complexo com T. stigmurus, apresentando quatro formas: confluenciata, confluenciata/maculata, unifasciata e trifaciata. Duas delas (confluenciata/maculata e trifaciata) se reproduzem sexualmente, ou seja, nesse complexo (T. serrulatus/T. stigmurus), existiriam populações sexuais e partenogenética8 9, e não somente partenogenéticas. Cada fêmea de T. serrulatus pode ter três, quatro ou mais parições e cerca de 70 filhotes durante a vida11. Adaptam-se muito bem ao ambiente urbano e, quando encontram condições próprias, proliferam muito.

Em Belo Horizonte, cidade considerada como construída sobre solo escorpionífero2, a ocorrência de T. serrulatus e os acidentes por eles provocados representam uma situação preocupante. A ocorrência tem sido relacionada a fatores inerentes ao solo, como áreas de pedreiras, barrancos, marmorarias e também a construções antigas, serrarias e olarias1.

O objetivo deste trabalho é relatar a ocorrência de acidentes escorpiônicos em Belo Horizonte, Minas Gerais, no período de 1990 a 1997, relacionando-os com alguns dados epidemiológicos.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Os dados referentes aos acidentes escorpiônicos, entre 1990 e 1997, foram obtidos junto ao Centro de Toxicologia do Hospital de Pronto Socorro João XXIII, único hospital que possui e administra o soro antiescorpiônico em Belo Horizonte. Foram analisadas fichas preenchidas na hora de entrada dos pacientes, contendo dados como sexo, idade e local da ferroada.

Os escorpiões capturados foram identificados por técnicos no Centro de Vigilância Sanitária e por médicos do HPS João XXIII, sempre que eram levados pelas vítimas.

 

RESULTADOS

A distribuição e a freqüência dos acidentes, por ano, estão indicados na Tabela 1. A distribuição e a frequência dos acidentes, por mês e estação (seca-fria e chuvosa-quente), estão indicados na Tabela 2.

 

 

 

 

Um total de 3265 acidentes escorpiônicos ocorreu em Belo Horizonte entre 1990 e 1997, em decorrência de ferroadas do escorpião amarelo T. serrulatus. A distribuição dos acidentes escorpiônicos, por faixa etária dos acidentados, está indicada na Tabela 3. A freqüência e distribuição dos acidentes, de acordo com o sexo dos acidentados, estão indicadas na Tabela 4. A Tabela 5 indica o local das ferroadas, mostrando sua distribuição anual e a freqüência de ocorrência.

 

 

 

 

 

 

Em 1991, ocorreu a morte de um indivíduo do sexo masculino, na faixa etária de 1-4 anos, e de um indivíduo do sexo feminino, na faixa etária de 5-14 anos. O ano onde ocorreu o maior número de mortes foi 1994, com 4 óbitos de indivíduos do sexo masculino, sendo 2 mortes na faixa etária de 5-14 anos, 1 morte na faixa etária de 25-34 anos e uma morte em faixa etária não identificada.

 

DISCUSSÃO

De 1990 a 1997 ocorreram 3.265 acidentes em todo o Município de Belo Horizonte. Todos os acidentes foram causados por escorpiões amarelos (T. serrulatus). Esta espécie, embora primitivamente habitante do cerrado e de campos abertos, tornou-se bem adaptada à vida domiciliar urbana, possivelmente em decorrência da rápida e desorganizada colonização pelo homem das regiões originalmente ocupadas pelo aracnídeo. Além disso, esses animais adaptaram-se facilmente às condições oferecidas pelas moradias humanas, com grandes possibilidades de abrigos, como lixo, entulhos, pilhas de tijolos e telhas, e uma alimentação farta, com baratas e outros insetos3 7. A falta de competidores e de predadores, como macacos, quatis, seriemas, sapos e rãs, também permite a rápida proliferação de escorpiões, uma vez que esses dois fatores contribuem decisivamente para o controle populacional das espécies.

O ano que apresentou a maior freqüência de ocorrências foi 1996, com 544 acidentes, representando 16,8% dos casos. Nesse ano, o efeito climático El niño provocou mais chuvas e aumento da umidade, condições necessárias para uma boa sobrevivência dos escorpiões. Logo em seguida, o ano de 1995, com 521 acidentes, o que correspondeu a 16,1% dos casos. Em 1990, tivemos um menor número de acidentes, com 191 ocorrências, o correspondente a 5,9% dos casos.

O maior número de acidentes ocorreu em janeiro, com 349 (10,7%), seguido pelo mês de dezembro, com 340 (10,5%) acidentes. Os meses de abril e maio apresentaram os menores números de casos (200 em abril e 198 em maio), contribuindo com 6,2% e 6,1% dos casos, respectivamente. Os acidentes foram mais freqüentes nos meses quentes e chuvosos (55%), no período de outubro a março, atingindo o seu pico em janeiro, do que nos meses secos e frios (45%). Esses dados corroboram os encontrados por outros autores4 6 7 10.

De 1990 a 1997, a faixa etária que mais se acidentou foi a de 25 a 65 anos (faixa etária utilizada nas fichas preenchidas no Hospital João XXIII), com 1.707 (53,4%) casos. Esse resultado pode ser devido à uma maior amplitude dessa faixa etária (40 anos) em relação às outras. A tentativa de se representar as diferentes fases de desenvolvimento do ser humano (recém nascido, bebê, criança, adolescente, adulto e idoso) talvez explique tal divisão. A faixa etária menos atingida foi a dos menores de 1 ano, com 4 (0,1%) casos apenas. Nesse mesmo período, o maior número de acidentes ocorreu com pessoas do sexo masculino, perfazendo um total de 1.751(55,2%) casos, enquanto que indivíduos do sexo feminino foram registrados 1.418 (44,8%) acidentes. Dados semelhantes foram encontrados num estudo de acidentes escorpiônicos na Grande São Paulo e Municípios próximos, entre os anos de 1989 e 199017. Isso pode estar relacionado com o tipo de profissão exercida pelos homens. Estão mais sujeitos a serem ferroados os que trabalham em serrarias ou depósitos de madeira, os que lidam com tijolos em construções, os que trabalham com remoção de terra, olarias, pedreiras ou marmorarias2.

Foram registrados, durante o presente trabalho, 1.281 (48,4%) acidentes atingindo os membros superiores, 1.062 (40,1%) atingindo os membros inferiores, 57 (2,2%) atingindo a região da cabeça e 29 (1,1%) atingindo várias partes do corpo ao mesmo tempo - múltiplas. Os escorpiões são animais de hábitos noturnos, passando o dia escondidos em locais escuros, podendo ser confundidos com o ambiente ou parecer mortos, aumentando o risco de uma pessoa ser ferroada. O manuseio de materiais de construção ou entulhos, em residências ou em outros ambientes, aliado à limpeza doméstica provavelmente contribuiu para que esses resultados fossem encontrados. Estudos similares corroboram esses resultados10 15.

Ocorreram óbitos em 1991 e 1994, com predominância do sexo masculino e faixa etária de 5-14 anos. Adultos são vítimas mais freqüentes de ferroadas de escorpiões, mas a morbidade é maior entre as crianças e idosos16. Sabe-se que vários fatores influenciam na gravidade dos acidentes causados por escorpiões, dentre eles, a espécie, o tamanho do escorpião, a quantidade de peçonha inoculada, a região do corpo atingida, a idade e sensibilidade da vítima ao veneno do animal. Crianças abaixo de sete anos e pessoas idosas constituem grupo de risco, uma vez que o sistema imune está em formação ou debilitado. Mas adultos sadios não estão imunes a ferroadas de escorpiões, sendo conhecidos muitos casos fatais12.

De 1990 a 1997, ocorreram óbitos em 0,2% dos casos de acidentes escorpiônicos. Um estudo realizado no início da década de 40, apurou 145 óbitos em 2.449 acidentes (5,9% dos casos) causados por T. serrulatus, em Belo Horizonte10. Esses dados mostram que, apesar do grande número de acidentes, as mortes têm sido raras e que os tratamentos médicos, quando necessários, têm sido eficazes.

Os resultados obtidos constituem importante ferramenta no subsídio à campanhas educativas, com vistas ao controle preventivo desses animais. Em Belo Horizonte, a ação simultânea no controle de locais onde há aparecimento de escorpiões é realizada em algumas etapas: captura, mapeamento e campanha educativa da população, numa ação preventiva. Para isso, é distribuída uma cartilha contendo orientações sobre cuidados que devem ser tomados dentro e fora do imóvel para prevenir o aparecimento desses artrópodes. Este controle deve ser realizado ao longo do ano, devendo ser mais intenso nos períodos que antecedem, ou mesmo durante, as épocas mais chuvosas.

O problema é basicamente sócio-cultural e econômico, e os programas de controle, propostos pelo Departamento de Controle de Zoonoses de Belo Horizonte, deverão ser aplicados continuamente, ano após ano, e só apresentarão resultados positivos quando a população apresentar mudanças comportamentais que se refletirão na diminuição dos índices de acidentes e infestação. Para isso, poderiam ser realizadas palestras em escolas, visando o esclarecimento e a conscientização das crianças e principalmente dos professores sobre acidentes, biologia dos escorpiões, e de como proceder em caso de ferroadas, e também, palestras para profissionais, com o intuito de ampliar os conhecimentos na identificação correta dos espécimes capturados.

 

AGRADECIMENTOS

Ao Grupo de Vigilância Epidemiológica da Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte, ao Departamento de Controle de Zoonoses do Distrito Sanitário de Venda Nova, especialmente à Francisco José Reis dos Santos, e ao Centro de Toxicologia do Hospital de Pronto Socorro João XXIII, pelo fornecimento dos dados. Ao Professor Dr. Pedro Marcos Linardi, pelas sugestões dadas ao manuscrito.

 

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1. Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG.
Endereço para correspondência: Drª Marcely Regina Martins Soares. Laboratório de Aracnologia/Deptº de Zoologia/ICB/UFMG. Av. Antônio Carlos 6627, Pampulha, 31270-907 Belo Horizonte, MG, Brasil.
Tel: 55 31 3499-2916; fax: 55 31 3499-2899.
E-mail: aracnologia_ufmg@yahoo.com.br
Recebido para publicação em 4/9/2001.

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