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Jornal Brasileiro de Psiquiatria

Print version ISSN 0047-2085

J. bras. psiquiatr. vol.59 no.2 Rio de Janeiro  2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0047-20852010000200004 

ARTIGO ORIGINAL

 

Tradução e adaptação cultural da Barratt Impulsiveness Scale (BIS-11) para aplicação em adultos brasileiros

 

Translation and cultural adaptation of Barratt Impulsiveness Scale (BIS-11) for administration in Brazilian adults

 

 

Leandro Fernandes Malloy-DinizI,II; Paulo MattosII,III; Wellington Borges LeiteI; Neander AbreuII,IV; Gabriel CoutinhoII,III; Jonas Jardim de PaulaI,II; Hermano Tavaresv; Alina Gomide VasconcelosI,II; Daniel FuentesII,V

IUniversidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Programa de Pós-Graduação em Neurociências
IILaboratórios Integrados de Neuropsicologia (Lineu)
IIIUniversidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Instituto de Psiquiatria
IVUniversidade Federal da Bahia (UFBA), Instituto de Psicologia
VUniversidade de São Paulo (USP), Instituto de Psiquiatria

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVOS: Os objetivos deste estudo foram traduzir, adaptar culturalmente e verificar a equivalência literal, semântica e idiomática da Barratt Impulsiveness Scale (BIS-11), que avalia a presença de manifestações da impulsividade tendo como base o modelo teórico proposto por Ernst Barratt.
MÉTODOS: Inicialmente, a versão original em inglês da BIS-11 foi traduzida para o português por seis pesquisadores bilíngues. Em seguida, foi realizada uma tradução reversa para o inglês por uma tradutora de origem norte-americana. As versões original, traduzida e retraduzida foram avaliadas por um comitê de juízes especialistas, os quais emitiram pareceres com as observações pertinentes, o que culminou em uma versão final traduzida da BIS-11. As versões original e traduzida foram aplicadas em duas amostras da população geral com proficiência na língua inglesa, a fim de investigar a equivalência literal, semântica e idiomática da versão traduzida por meio de análises de correlação.
CONCLUSÃO: Os resultados das análises quantitativas indicaram que a versão final do instrumento é satisfatória.

Palavras-chave: Impulsividade, psicometria, escalas, personalidade.


ABSTRACT

OBJECTIVES: The objective of this study was to translate, make transcultural adaptation and assess the semantic, idiomatic and literal equivalence of the Barratt Impulsiveness Scale (BIS-11).
METHODS:This scale assesses the presence of impulsive manifestations from the theoretical model proposed by Ernst Barratt. Firstly, the BIS-11 original version in English was translated to Portuguese by six bilingual researches. After this, was made the back-translation to English by a translator that was born in United States. Then, the three versions (original, translated and back-translated) were assessed by a specialists committee which made and analyze and comments about the process and then we reach the final translated version of BIS-11. The original and translated version of BIS-11 was applied in two samples from general population with proficiency both in English and Portuguese. This method was adopted to assess the literal, semantic e idiomatic equivalence of these versions by mean of correlation analyses.
CONCLUSION: The final results of quantitative analyses show that the final version of BIS-11 is satisfactory.

Keywords: Impulsivity, psychometry, scales, personality.


 

 

 

INTRODUÇÃO

A impulsividade é um fenótipo complexo caracterizado por diferentes padrões cognitivos e comportamentais que levam a consequências disfuncionais imediatas e em médio/longo prazo. De acordo com Moeller et al.1, a impulsividade ocorre quando: (1) há mudanças no curso da ação sem que seja feito um julgamento consciente prévio; (2) ocorrem comportamentos impensados; (3) se manifesta uma tendência a agir com menor nível de planejamento em comparação a indivíduos com mesmo nível intelectual.

Diversos são os transtornos em que as diferentes manifestações da impulsividade se apresentam de forma intensa, gerando prejuízos para a o indivíduo e aqueles que o cercam. Tanto nos transtornos do controle do impulso (jogo patológico, piromania, cleptomania, tricotilomania, oniomania) quanto em transtornos de personalidade (personalidade antissocial, personalidade borderline, personalidade explosivo intermitente) e outros descritos nos eixos I e II do DSM-IV (dependência e abuso de substâncias, transtorno afetivo bipolar, transtorno de conduta e o transtorno do déficit de atenção e hiperatividade) podem ocorrer manifestações de impulsividade1-6.

Mesmo em situações em que a impulsividade não está associada ao quadro sintomático de um transtorno, uma maior expressão desse traço fenotípico pode levar a prejuízos importantes. Por exemplo, há evidências da relação entre impulsividade e comportamento de risco no trânsito7.

O impacto e os prejuízos das diferentes manifestações da impulsividade em diversas situações do cotidiano, seja na presença de transtornos mentais ou não, justificam o investimento no desenvolvimento de medidas de avaliação, prevenção e tratamento. Tais medidas, entretanto, devem ter como base modelos teóricos consistentes e capazes de explicar as diferentes manifestações da impulsividade, inclusive em termos neurobiológicos.

Um dos modelos mais influentes na explicação do comportamento impulsivo foi proposto por Ernst Barratt. Na versão atual do modelo, a impulsividade é concebida como apresentando três componentes distintos, a saber: a) motor: a impulsividade motora está relacionada a não inibição de respostas incoerentes com o contexto; b) atencional: impulsividade relacionada à tomada de decisão rápida e c) falta de planejamento: engloba comportamentos orientados para o presente8. A escala de autorrelato desenvolvida por Barratt para avaliar essas dimensões da impulsividade é denominada Barratt Impulsiveness Scale (BIS-11), e evidências de validade foram obtidas nos estudos desenvolvidos por Patton et al.8, em uma amostra composta por 412 universitários, 248 pacientes psiquiátricos e 73 presidiários do sexo masculino. Os resultados da análise fatorial exploratória pelo método dos componentes principais e rotação oblíqua identificaram seis fatores de primeira ordem e três fatores de segunda ordem, e dois deles são semelhantes ao modelo teórico. No entanto, o terceiro fator de segunda ordem não coincide com a definição conceitual de impulsividade cognitiva. Os índices de consistência interna foram altos e variaram entre 0,79 e 0,82, considerando cada uma das amostras. Por fim, a análise de variância univariada indicou que os grupos se diferenciam quanto às medidas de impulsividade (F = 27,49; p < 0,001); os universitários apresentam escores mais baixos em relação aos pacientes psiquiátricos e aos presidiários.

Existem estudos com versões brasileiras da BIS em populações clínicas2-3 e em adolescentes do sexo masculino8. No estudo conduzido por Diemen et al.9, o índice de consistência interna da BIS11-A foi satisfatório (0,62), no entanto não se obtiveram os três fatores teóricos originais propostos. No entanto, não se encontram na literatura estudos de adaptação transcultural da BIS-11 e avaliação de suas propriedades psicométricas quando aplicadas em adultos brasileiros. Assim, os objetivos do presente estudo consistiram em: a) descrever o processo de tradução e adaptação da Barratt Impulsiveness Scale (BIS-11) para o português no contexto brasileiro e b) avaliar a consistência entre as respostas dadas a BIS-11 em sua versão original e na versão traduzida por dois grupos de jovens adultos tidos como proficientes em sua língua materna, o português, e em inglês.

 

MÉTODO

Procedimentos e participantes

O estudo foi dividido em cinco etapas e todos os participantes consentiram em disponibilizar os dados obtidos para o estudo. Na primeira etapa, a versão original da BIS-11 foi traduzida conjuntamente por um grupo de especialistas. Participaram dessa etapa seis pesquisadores bilíngues com ampla experiência clínica e em pesquisa sobre avaliação e tratamento de transtornos relacionados à impulsividade. Os especialistas apresentavam diferentes formações profissionais (um psiquiatra, quatro psicólogos e um neurologista) e eram provenientes de quatro estados diferentes do Brasil (Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia), o que contribuiu para que fossem evitados termos regionais. Todos os participantes dessa etapa apresentavam pós-graduação na área da saúde e quatro apresentavam título de doutor.

Na segunda etapa, uma tradutora juramentada de origem norte-americana, fluente em português e em inglês, fez a tradução reversa da versão obtida na primeira etapa. Na terceira etapa, o mesmo grupo de especialistas que participou da primeira etapa avaliou a equivalência literal, idiomática e semântica entre a tradução e a retrotradução. A partir do resultado dessa análise foi obtida uma versão nova da escala denominada versão síntese.

Na quarta etapa, as versões original e síntese do instrumento foram aplicadas em duas amostras bilíngues compostas por adultos recrutados a partir da rede social dos pesquisadores. A amostra bilíngue 1 foi composta por 25 (48% do sexo feminino) participantes que apresentavam fluência comprovada por certificado de proficiência no idioma inglês. Todos apresentavam ensino superior (48% incompleto e 52% completo) e idade média de 28,9 (dp = 10,3) anos.

Na quinta etapa, uma segunda amostra bilíngue foi composta por 20 participantes que moravam, em média, há 7,05 (dp = 2,14) anos nos Estados Unidos. Os participantes dessa amostra apresentavam idade média de 38,6 (dp = 9,40) anos, sendo 50% do sexo masculino. Em relação à escolaridade, 65% apresentaram superior completo/em formação, 25%, pós-graduação e 10%, segundo grau completo. Além disso, para aperfeiçoar a compreensão dos aspectos que interferiram na correlação entre os itens das duas versões, a amostra bilíngue 2 respondeu a um questionário sobre os três itens da versão final traduzida que não apresentaram boas propriedades psicométricas (itens 4, 20 e 26) nas análises da quarta etapa. Com esse intuito, foram-lhes apresentados critérios específicos desenvolvidos para esse estudo para a avaliação da equivalência das diferentes das versões, a saber: a) equivalência literal: verificar se a tradução corresponde literalmente à versão original; b) equivalência semântica: se há equivalência com relação ao sentido da palavra traduzida, a despeito da equivalência literal; c) equivalência idiomática: verificar se há correspondência no significado de expressões coloquiais e/ou gírias em dois contextos. Os avaliadores deveriam vincular sua avaliação a uma escala Likert cujas respostas poderiam variar de 0 a 2, a saber: 0 = não equivalente; 1 = indeciso; 2 = equivalente.

O projeto de pesquisa foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em pesquisa da Universidade FUMEC. Todos os sujeitos envolvidos no estudo assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido referente à sua participação na pesquisa.

Instrumento

A BIS-11 é uma escala de autopreenchimento composta por 30 itens relacionados às manifestações da impulsividade, tendo como base o modelo teórico proposto por Ernst Barratt8,10. O probando deve analisar cada um dos itens considerando seu próprio comportamento e classificá-los de acordo com uma escala do tipo Likert de quatro pontos, a saber: 1 = raramente ou nunca; 2 = de vez em quando; 3 = com frequência; 4 = quase sempre/sempre. A pontuação da escala varia de 30 a 120 pontos, e altos escores indicam a presença de comportamentos impulsivos. Além de um escore global, a BIS-11 permite o cálculo de escores parciais referentes a três subdomínios da impulsividade, sendo eles a impulsividade motora (itens 2, 3, 4, 16, 17, 19, 21, 22, 23, 25 e 30*), atencional (itens 6, 5, 9*, 11, 20*, 24, 26, 28) e por não planejamento (itens 1*, 7*, 8*, 10*, 12*, 13*, 14, 15*, 18, 27, 29*).

Análise dos dados

A análise dos dados pode ser dividida em três fases. Inicialmente, foram realizadas estatísticas descritivas para caracterizar aspectos sociodemográficos dos participantes. Nas etapas 1 a 3 do estudo, os resultados foram obtidos a partir da comparação qualitativa das três versões, a fim de julgar a pertinência da versão retrotraduzida dos itens em comparação às versões original e traduzida. Já na fase 4, foi realizada avaliação da consistência entre as respostas dadas a BIS-11 em sua versão original e na versão final traduzida por dois grupos de adultos tidos como proficientes em língua portuguesa e em inglês. Para isso, foram calculados os coeficientes de correlação de Spearman. Supõe-se que, caso se tratassem de versões equivalentes, seriam obtidas correlações significativas de magnitude variando de moderada a alta, encontradas entre as respostas as duas versões do instrumento. No intuito de compreender a não obtenção de correlações não significativas, foi realizada análise da consistência das respostas por meio da análise de correlação item-total.

Finalmente, a avaliação realizada pela amostra bilíngue 2, quanto à pertinência da tradução dos itens originalmente apresentados na língua inglesa para o português brasileiro, foi analisada separadamente para cada item, por meio de estatísticas descritivas.

As análises quantitativas foram realizadas a partir do uso do software SPSS (Statistical Package for Social Sciences), versão 15.0.

 

RESULTADOS

a) Análises qualitativas da tradução e retrotradução dos itens:

Os resultados referente às etapas 1 a 3 consistiram em dados qualitativos obtidos a partir da comparação das versões da tradução direta e reversa da BIS-11 pelos especialistas (Quadro 1). Dos 30 itens que compõem a escala, identificou-se a necessidade de aperfeiçoamento da tradução de três itens, a saber: itens 1, 23 e 30. As versões traduzidas do item 1 ("I plan tasks carefully"), do item 23 ("I can only think about one thing at a time") e do item 30 ("I am future oriented") foram consideradas inadequadas idiomaticamente. Isso levou à modificação da primeira versão traduzida do item 1 de "Eu planejo as coisas cuidadosamente" para "Eu planejo tarefas cuidadosamente"; do item 23 de "Eu só consigo pensar em um problema de cada vez" para "Eu só consigo pensar em uma coisa de cada vez"; e, finalmente, da tradução inicial do item 30 de "Eu me planejo para o futuro" para "Eu me preparo para o futuro". Tais modificações tiveram como intuito oferecer maior proximidade idiomática com o termo presente na versão original do instrumento. Por fim, foi elaborada a versão síntese, considerada versão final da adaptação da BIS-11 para o idioma português praticado no Brasil, composta por 30 itens, conforme apresentado na coluna 4 do Quadro 1.

b) Análise da consistência das respostas da amostra 1 aos itens das versões originais e em português da escala:

Com base nas respostas da amostra bilíngue 1, foram obtidos 30 coeficientes de correlações de Spearman a partir da associação entre os itens originais e os itens traduzidos. Onze itens (cerca de 37% do total) evidenciaram índices fortes de correlação (0,80 = < rho < 0,91), dezesseis itens (cerca de 33% do total) apresentaram correlações moderadas e significativas (0,40 = < rho < 0,80) e apenas três itens (4, 20 e 26) apresentaram correlações não significativas (p > 0,05).

Os resultados da análise item-total indicam que, dentre os três itens (4, 20 e 26) que apresentaram correlações não significativas entre as respostas às versões original e traduzida, o item 26 foi o único que apresentou correlação item-total moderada (em torno de 0,40) com os demais itens que compõem a subescala atencional. Os itens 4 e 20 apresentaram correlações muito fracas com o escore total da versão em inglês (0,05) e com o escore total da versão em português (0,32 e 0,01, respectivamente). Os demais itens do instrumento apresentaram correlação item-total moderada-alta nas versões em português e inglês. A hipótese sugerida para explicar esse fato é que os itens 4, 20 e 26 contêm gírias na versão americana (item 4 – "happy-go-lucky"; item 20 – "steady thinker"; item 26 – "extraneous thoughts") e que não apresentavam uma expressão equivalente no idioma português. Nesse sentido, para se obter uma compreensão aprimorada das dificuldades em relação aos itens 4, 20 e 26, que não apresentaram índices não significativos de correlação, optou-se por realizar nova aplicação das duas versões da escala em uma amostra com proficiência em inglês e cujos participantes residissem nos Estados Unidos por tempo superior a cinco anos.

De um total de 30 correlações de Spearman efetuadas entre os itens originais e os traduzidos, a maioria das correlações foram moderadas e significativas (0,30 < rho < 0,80). É interessante notar que os itens 20 e 26, que apresentaram correlações não significativas nas análises realizadas a partir das respostas da amostra bilíngue 1, foram significativos na amostra bilíngue 2 (0,51 para o item 4 – "happy-go-lucky"; 0,87 para o item 20 – "steady thinker" e 0,70 para o item 26 – "extraneous thoughts"). Essa constatação é uma evidência de que tais itens apresentam gírias idiomáticas, o que pode ter contribuído para o não entendimento dos participantes que possuíam um domínio avançado do idioma inglês. Diante da análise das respostas, pode-se concluir que as baixas correlações obtidas no estudo anterior relativas aos itens 4, 20 e 26 se devem à dificuldade de traduzir as expressões assinaladas acima para o idioma português. Sabe-se que determinadas palavras de um idioma podem não possuir uma tradução exata para outro idioma. Além disso, o escore total da versão americana foi correlacionado ao escore total da versão brasileira a partir dos dados obtidos nas duas amostras bilíngues. Encontrou-se um escore significativo equivalente a r = 0,93 e r = 0,91 (p < 0,001). Os índices de correlação entre os escores parciais das duas versões variaram entre 0,80 e 0,91 (p < 0,001).

c) Análise quantitativa das equivalências literal, idiomática e conceitual dos itens das duas versões:

A análise da frequência relativa das respostas dos avaliadores quanto à pertinência da tradução do item 20 em relação aos critérios de equivalência idiomática e semântica indicou que a maioria dos avaliadores (acima de 70%) considerou pertinente a tradução proposta. Em relação ao item 24, o grau de concordância para os critérios de equivalência idiomática e semântica foi de 100% e igual a 85% para a equivalência literal, o que indica que a maioria dos avaliadores concorda com a pertinência da tradução. Por fim, a análise da frequência relativa das respostas dos avaliadores para o item 26 indicou que 65% dos avaliadores consideraram equivalente a tradução para a língua portuguesa quanto aos critérios de equivalência idiomática e semântica. É interessante notar que a avaliação da equivalência literal da tradução apresentou baixos índices de concordância, sendo igual a 20% para o item 20 e a 0% para o item 26. Essa informação sugere que tais itens são compostos por expressões no idioma inglês ("steady thinker" e "extraneous thoughts") que não possuem uma equivalência direta na língua portuguesa, o que justifica os baixos coeficientes de correlação entre as respostas da versão original e na língua portuguesa na amostra bilíngue 1.

 

DISCUSSÃO

Conforme destacado por Mattos et al.11, a sistemática das traduções de instrumentos para línguas e culturas diferentes tem sido bastante debatida. O processo deve ser minucioso, envolvendo não apenas a tradução por especialistas, mas a análise da equivalência conceitual/semântica, a análise específica de itens e a consistência entre a versão original e a versão adaptada. É de crucial importância a adoção de cuidados linguísticos, na medida em que determinados termos podem ter diferentes abrangências, especificidades e conotações, inerentes a cada idioma ou cultura. Assim, a equivalência literal na tradução de um instrumento pode ser insuficiente para a manutenção de seu objetivo quando usado em uma nova cultura. Tal fato pode ser observado no presente estudo com relação aos itens 4, 20 e 26 da escala. Esses itens, embora não tenham apresentado boas propriedades psicométricas relativas à tradução literal, mostraram-se equivalentes em termos idiomáticos e semânticos quando analisados por juízes com elevada proficiência em inglês e português. A importância de se buscar equivalência entre a versão em língua estrangeira e o português tem sido cada vez mais reconhecida, crescendo o número de estudos que, em diferentes campos, buscam o desenvolvimento de instrumentos considerando essa preocupação11-15.

O presente trabalho apresenta uma adaptação brasileira de um dos instrumentos mais utilizados na literatura para avaliação da impulsividade. A BIS-11 tem se mostrado útil na caracterização dos diferentes tipos de impulsividade medidos pelo modelo de Barratt e tem sido traduzida para diversos idiomas desde sua primeira publicação há 50 anos16. Ela tem se mostrado útil na identificação de diferentes padrões de impulsividade em diversas patologias, como o transtorno do déficit de atenção e hiperatividade3, o transtorno afetivo bipolar17, a esquizofrenia18, o transtorno por uso de substância19, o jogo patológico3, entre outras. Além disso, tem sido bastante útil em estudos em neurobiologia da impulsividade20, bem como em estudos sobre outros construtos neuropsicológicos relacionados à impulsividade, tais como funções executivas21, atenção22 e sensibilidade ao reforço23. Deve ser salientado ainda que o modelo proposto por Barratt apresenta importante relação com outros modelos em neurociências sobre impulsividade2-3 e sobre aspectos anatomofuncionais dos circuitos pré-frontais, como no modelo proposto por Fuster24. A despeito das diferenças culturais relacionadas a conceitos relativos aos diferentes tipos de impulsividade, o modelo de Barratt e a BIS-11 têm sido adaptados com sucesso para diferentes culturas, evidenciando sua validade transcultural. Dada a importância do modelo proposto por Barratt e da BIS-11 para estudos sobre a impulsividade, considera-se que o desenvolvimento de uma versão brasileira da escala é de fundamental importância para a prática clínica e para a realização de estudos sobre o tema.

Deve ser salientado que o presente trabalho apresenta a adaptação da versão 11 da Barratt Impulsiveness Scale, sendo necessária a realização de estudos sobre validade de critério e de construto, sobre a estrutura fatorial da escala adaptada e também sobre o desempenho de um grupo normativo de brasileiros de diferentes estados para avaliação de possíveis diferenças regionais no desempenho da escala. Tais estudos, em andamento, possibilitarão o uso adequado da escala na clínica e na pesquisa em nosso contexto.

 

AGRADECIMENTOS

Este projeto recebeu apoio financeiro da FAPEMIG (SHA-APQ-00741-09); Secretaria de Estado Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (MG) – Emenda Parlamentar 654/2008; Deputado Lafaiete Andrada.

 

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Endereço para correspondência:
Leandro Fernandes Malloy-Diniz
Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas – Departamento de Psicologia
Avenida Presidente Antônio Carlos, 6627, Pampulha
31270-901 – Belo Horizonte, MG
E-mail: malloy.diniz@gmail.com

Recebido em 26/4/2010
Aprovado em 11/5/2010