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Arquivos Brasileiros de Cardiologia

Print version ISSN 0066-782X

Arq. Bras. Cardiol. vol.87 no.5 São Paulo Nov. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0066-782X2006001800011 

ARTIGO ORIGINAL

 

Estudo ecocardiográfico evolutivo das alterações anátomo-funcionais do coração em obesos submetidos à cirurgia bariátrica

 

 

Luciana de Cerjat Bernardes P. Cunha; Cláudio L. Pereira da Cunha; Admar Moraes de Souza; Nelson Chiminacio Neto; Ricardo Soares Pereira; Henrique Lacerda Suplicy

Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná e Programa de Pós-Graduação em Medicina Interna da Universidade Federal do Paraná, Curitiba, PR

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Avaliar com a Dopplerecocardiografia a reversibilidade das alterações estruturais e funcionais do coração em obesos submetidos à cirurgia bariátrica.
MÉTODOS: Foram estudados 23 obesos (19 mulheres: 82,6%) com idade média de 37,9 anos. Tinham obesidade classe III ou classe II com co-morbidades. Realizaram avaliação clínica e ecocardiográfica no pré-operatório, 6 meses e 3 anos após a cirurgia.
RESULTADOS: Antes da operação o peso era de 128,7 ± 25,8 kg e a pressão arterial (PA) 142,2 ± 16,2/92,2 ± 10,4 mmHg. No pós-operatório houve redução do peso aos 6 meses (97,6 ± 18,3 Kg) e aos 3 anos (83,6 ± 13,5 Kg), e da PA aos 6 meses (128,5 ± 16,1/80,7 ± 9,9 mmHg) com resultado mantido em 3 anos. Ao ecocardiograma, antes da cirurgia havia hipertrofia da parede posterior do ventrículo esquerdo (VE) e septo interventricular, com dimensão diastólica do VE normal e padrão geométrico predominante de remodelamento concêntrico (74%). Após 6 meses, diminuíram as espessuras do septo e da parede posterior, e aumentou a dimensão diastólica do VE. Em 3 anos o padrão geométrico predominante era o normal (69%), com redução da massa de VE e do índice de massa do VE/altura² . Observou-se também melhora da função diastólica de VE, com aumento da relação E/A em 6 meses, mantendo-se em 3 anos e diminuição do tempo de relaxamento isovolumétrico do VE em 6 meses e em 3 anos. Houve melhora do Índice de Desempenho Miocárdico em 6 meses, mantendo-se em 3 anos, em 13 pacientes estudados retrospectivamente. Notou-se aumento do tempo de ejeção em 6 meses, mantendo-se em 3 anos, e discreto aumento da fração de ejeção em 3 anos, sugerindo melhora da função sistólica de VE.
CONCLUSÃO: A redução de peso obtida através da cirurgia para obesidade promove modificações estruturais e funcionais benéficas ao coração.

Palavras-chave: Obesidade, cirurgia bariátrica, ecocardiograma transtorácico, função ventricular esquerda.


 

 

A obesidade é definida como a presença de excesso de gordura corporal total1. Na prática clínica o principal parâmetro utilizado para caracterizar a obesidade é o Índice de Massa Corporal (IMC), definido pela relação entre o peso (em kg) e a altura (em m²). O IMC permite estabelecer critérios de normalidade, sobrepeso e obesidade, sendo esta subdividida em três classes2 (quadro 1): a obesidade é uma doença crônica e progressiva que predispõe ao aumento da taxa de mortalidade, como demonstrado em diversos estudos populacionais3. Sua importância torna-se ainda maior quando se observa que sua prevalência vem aumentando drasticamente, tanto em países desenvolvidos como naqueles em desenvolvimento, como o Brasil. Ela representa um fator de risco independente para doença cardiovascular, definida como a incidência de doença coronariana, morte súbita e insuficiência cardíaca congestiva4. A relação entre obesidade e doença cardiovascular é independente de níveis de pressão arterial, taxa de colesterol, tabagismo, presença de hipertrofia ventricular esquerda ou intolerância à glicose, apesar de haver uma associação importante entre excesso de peso, hipertensão arterial e hipertrofia ventricular esquerda5. A hipertensão arterial sistêmica tem incidência aproximadamente 2,9 vezes maior em obesos que em indivíduos de peso normal6.

 

 

No coração do obeso, a pressão de enchimento e o volume do ventrículo esquerdo (VE) aumentam, desviando para a esquerda a curva de Frank-Starling e induzindo à dilatação das câmaras. O volume da câmara dilatada aumenta também, inapropriadamente, o estresse da parede do ventrículo esquerdo e o ventrículo se adapta induzindo ao aumento dos elementos contráteis e da massa miocárdica. O produto final dessa adaptação é a hipertrofia, normalmente do tipo excêntrica7,8. O ecocardiograma é, atualmente, o método mais utilizado para o diagnóstico de hipertrofia do ventrículo esquerdo, comum na obesidade e hipertensão arterial. Baseia-se no cálculo da massa do ventrículo esquerdo, que pode ser estimada por diversas fórmulas, sendo uma das mais empregadas a de Devereux9. Também é muito utilizado o índice de massa ventricular esquerda, obtido pela divisão da massa do ventrículo esquerdo pela área da superfície corporal10, mas restrições têm sido feitas à utilização deste índice em pacientes obesos, sugerindo uma subestimação de hipertrofia por se considerar a obesidade como uma variável fisiológica de crescimento contínuo11. Para evitar esse viés, são propostos índices de massa de VE sem a inclusão do peso nas fórmulas11. A distribuição dos valores de massa do VE em relação à espessura relativa do VE permitiu a Ganau e cols.12 proporem uma classificação de geometria ventricular. A ecocardiografia tem sido aplicada também na avaliação das funções sistólica e diastólica do VE nos obesos8,13-16. O Índice de Desempenho Miocárdico (Índice de Tei)17, que avalia simultaneamente as funções sistólica e diastólica, não foi ainda utilizado no estudo dos corações de obesos.

A perda de peso pode ser obtida diminuindo-se a ingesta calórica, aumentando-se a atividade física, com uso de medicamentos e procedimentos cirúrgicos18. Entretanto, apenas aproximadamente 20% dos obesos conseguem fazer mudanças em hábitos de vida e, de maneira muito irregular. Isso faz com que os programas de perda de peso baseados somente em dieta mais atividade física sejam freqüentemente ineficazes: em torno de 90% a 95% das pessoas que perdem peso voltam a recuperá-lo ou ganham ainda mais19. Os tratamentos medicamentosos também têm eficácia bastante limitada a longo prazo, com estudos mostrando pouca perda de peso quando comparado ao placebo20. Assim, atualmente a intervenção terapêutica que oferece a mais efetiva perda de peso para obesidade severa é a cirurgia bariátrica19. O consenso para manejo da obesidade recomenda que o melhor tratamento para os pacientes com IMC > 40 kg/m2 e para os quais tenham falhado a dieta, a atividade física e as medicações para perda de peso, é o tratamento cirúrgico18.

Vários estudos comprovaram a diminuição da pressão arterial, tanto sistólica como diastólica, que acompanha a redução do peso, mostrando também melhora em parâmetros dos lipídios e glicose séricos14,21-23. Portanto, a perda de peso e sua subseqüente manutenção reduzem os fatores de risco maiores para a doença cardiovascular, o que deve favorecer para que as alterações cardíacas decorrentes da obesidade sejam parcialmente reversíveis. Neste estudo, analisa-se em ecocardiogramas evolutivos, a médio e longo prazo, o comportamento anátomo-funcional do coração após a cirurgia bariátrica.

 

Métodos

Foram selecionados 23 pacientes consecutivos do Ambulatório de Obesidade do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná, no período compreendido entre janeiro de 1999 e agosto de 2000. Havia 4 pacientes do sexo masculino e 19 do sexo feminino, com idade média de 39,7 ± 8,4 anos, variando de 26 a 56 anos.

Como critérios de inclusão foram considerados: (1) todos os pacientes obesos classe III; (2) obesos classe II com co-morbidades associadas; (3) assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido para participar no estudo; (4) concordância com a realização da cirurgia bariátrica; (5) estudo ecocardiográfico com qualidade técnica satisfatória.

Foi realizada uma avaliação clínica antes da cirurgia, com particular atenção aos dados do peso, altura e pressão arterial. As medidas de pressão arterial foram realizadas pelo método indireto com técnica palpatória e auscultatória, na posição sentada, com esfigmomanômetro aneróide devidamente calibrado. Os pacientes permaneciam em repouso por 5 a 10 minutos antes da medida da pressão e eram orientados a evitar atividade física, alimentação, fumo, ingestão de bebida alcoólica ou café por pelo menos 30 minutos antes da medida, e conversa, dor, tensão e ansiedade durante a medida.

Todos os pacientes foram submetidos à intervenção no Serviço de Cirurgia do Aparelho Digestivo do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná. A operação realizada em todos foi a proposta por Capella e cols.24, a qual compreende uma gastroplastia vertical com bandagem associada a derivação gastrojejunal em Y-de-Roux.

Os ecocardiogramas transtorácicos foram realizados na avaliação pré-operatória, aos 6 meses e aos 3 anos de pós-operatório, sendo utilizado para tal um ecocardiógrafo Hewlett-Packard modelo Sonos 5500, com transdutor de 2 a 4 MHz. Os registros foram realizados em fitas de vídeo, empregando equipamento profissional Super-VHS Panasonic AG-7300. A técnica de exame foi a estabelecida na literatura25-28. Os registros dos eventos ao ecocardiograma unidimensional e ao Doppler foram feitos com velocidade de 50 mm/seg.

A interpretação dos dados constou de análise qualitativa e quantitativa dos ecocardiogramas uni e bidimensional, do Doppler pulsátil e contínuo, e do mapeamento de fluxo em cores. Todos os ecocardiogramas foram realizados por um único operador, titulado na área de atuação em Ecocardiografia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia e Associação Médica Brasileira, com 23 anos de experiência no método. A variabilidade intra-observador não foi estudada.

Os traçados ecocardiográficos unidimensionais foram obtidos com direcionamento pela imagem bidimensional. Com essa técnica, foram feitas as medidas convencionais, seguindo as recomendações da Sociedade Americana de Ecocardiografia29. No cálculo da fração de ejeção do VE, os volumes sistólico e diastólico foram estimados com a fórmula de Teichholz e cols.30.

A massa de VE foi avaliada utilizando a fórmula de Devereux 9:

MVE = 0,8 [ 1,04(SV + VEd +PP)³ - (VEd)³] + 0,6

onde SV é a espessura diastólica do septo interventricular, VEd é a espessura diastólica do ventrículo esquerdo e PP é a dimensão diastólica da parede posterior do ventrículo esquerdo. O limite máximo normal da massa foi 294 g para os homens e 198 g para as mulheres31. Foram calculados dois índices de massa do ventrículo esquerdo, dividindo-se:

(1) a massa de VE pela superfície corporal32 : iMVE = MVE/SC

(2) a massa de VE pela altura ao quadrado11: iMVE = MVE/A²

A espessura relativa (ER) foi calculada pela soma das espessuras diastólicas do septo interventricular e da parede posterior, em relação à dimensão diastólica do ventrículo esquerdo12: ER = (SV+PP)/VEd

Os padrões de geometria ventricular foram definidos como 12:

1- Normal: indivíduos com iMVE e ER normais (respectivamente menores que 125 g/m² e 0,45)

2- Remodelamento Concêntrico: (que se caracteriza por) iMVE normal com ER aumentada.

3- Hipertrofia Excêntrica: iMVE aumentado com ER normal

4- Hipertrofia Concêntrica: iMVE e ER aumentados.

No estudo pelo Doppler todas as medidas foram feitas em 3 ciclos consecutivos e calculada sua média. Foram medidas as velocidades do fluxo mitral (ondas E e A, relação E/A), tempo de ejeção do VE e tempo de relaxamento isovolumétrico de VE.

Para o cálculo do Índice de Desempenho Miocárdico17 (fig. 1) foram feitos estudos retrospectivos dos registros de Doppler dos fluxos mitral e da via de saída do VE, com a devida calibração. O intervalo a era medido no registro da velocidade do fluxo mitral, desde a interrupção do fluxo em um ciclo cardíaco até o início do próximo, e envolvia a soma do tempo de contração isovolumétrica (TCI), tempo de ejeção (TE) e tempo de relaxamento isovolumétrico (TRI). O intervalo b, medido no registro da velocidade do fluxo na via de saída do VE, era igual ao tempo de ejeção. O índice de Tei era calculado como (a – b)/b, que corresponde a (ICT + IRT)/ET.

 

 

Análise estatística:

Recorreu-se à análise descritiva dos dados através de quadros e gráficos. Para a comprovação do objetivo levantado neste trabalho foram utilizados a análise da variância para dados repetidos (Repeated Measures ANOVA) e os testes paramétricos "t de Student para amostras pareadas" e o não paramétrico "Friedman" (através do software "Primer of Biostatistics"). O nível de significância (probabilidade de significância) mínimo adotado foi de 5% (0,05)33.

 

Resultados

1- Dados demográficos:

Houve diminuição significativa do peso tanto em 6 meses (24,2%) quanto em 3 anos (35,0%) de seguimento. Simultaneamente diminuíram também o IMC e a superfície corporal. A pressão arterial sistólica e a pressão arterial diastólica diminuíram em 6 meses (9,6% e 12,5%, respectivamente) de avaliação, mantendo-se aproximadamente nos mesmos níveis em 3 anos (tab. 1).

2- Dados ecocardiográficos:

2.1 Ecocardiograma unidimensional:

A análise do ecocardiograma unidimensional demonstrou diminuição da espessura de septo ventricular (12,4%) e da parede posterior de VE (14,8%) em 6 meses de avaliação com resultados mantidos em 3 anos. Antes da cirurgia, essas estruturas mostravam valores médios aumentados, que se normalizaram após (tab. 2).

A dimensão diastólica de VE tinha uma média normal no estudo basal, e observou-se discreto aumento em 6 meses de avaliação (8,2%), mantendo-se em 3 anos. O encurtamento sistólico percentual de VE era normal no exame pré-operatório e não mudou nas avaliações subseqüentes. A fração de ejeção também era normal no ecocardiograma basal, não se observando alteração em 6 meses de avaliação, mas houve discreto aumento (4,8%) em 3 anos em relação ao estudo inicial (tab. 2).

A massa ventricular esquerda estava aumentada em 7 pacientes (30%); não se alterou em 6 meses de avaliação, mas apresentou diminuição de 9,2% em 3 anos. O índice de massa do VE corrigido para superfície corpórea (iMVE/SC) não apresentou variação nos três anos de observação. Por outro lado, o índice de massa do VE dividido pela altura ao quadrado (iMVE/A²), que não variou em 6 meses de avaliação, mostrou diminuição de 9,5% em 3 anos (tab. 2).

A espessura relativa do ventrículo esquerdo estava aumentada em 17 pacientes (74%) antes da cirurgia (tab. 3). Na evolução pós-operatória, passou a ser notada em 11 pacientes (48%), e em apenas 5 (22%) após 3 anos.

O padrão geométrico ventricular predominante prévio à cirurgia bariátrica era o de remodelamento concêntrico, observado em 17 casos (74%), passando a ser normal na maioria dos pacientes em 3 anos (16 casos = 70%) (tab. 3).

2.2 Dopplerecocardiograma:

A relação E/A tinha um valor médio de 1,29 no exame basal. Quatro pacientes tinham valores inferiores a 1,0, indicativo de relaxamento anormal do ventrículo esquerdo. Observou-se aumento na relação E/A de 11,9% em 6 meses de avaliação e nessa ocasião apenas um paciente manteve-se com valor inferior a 1,0; entre 6 meses e 3 anos não houve alteração (tab. 4);

Observou-se diminuição de 9,0% na medida do tempo de relaxamento isovolumétrico em 6 meses de avaliação, de 25,0% em 3 anos e de 17,6% entre 6 meses e 3 anos (tab. 4);

Observou-se aumento de 8,7% na medida do tempo de ejeção em 6 meses de avaliação, e entre 6 meses e 3 anos não houve alteração (tab. 4);

O Índice de Desempenho Miocárdico foi estudado em apenas 13 pacientes, que tiveram os dados localizados retrospectivamente. Seu valor médio basal era 0,59; observou-se diminuição de 23,4% em 6 meses de avaliação e de 21,8% em 3 anos (tab. 4).

 

Discussão

A obesidade representa um dos principais fatores de risco cardiovascular, com alarmante progressão na sua prevalência. Além de ser considerada um fator de risco independente4, traz consigo freqüentes associações que incrementam sobremaneira esse risco, entre elas a hipertensão arterial sistêmica, o diabetes, as dislipidemias e a apnéia obstrutiva do sono, aumentando ainda mais a probabilidade de se instalarem alterações cardíacas estruturais e funcionais que podem levar à insuficiência cardíaca, doença coronariana e morte súbita34,35.

As tentativas de mudanças em hábitos alimentares e o tratamento medicamentoso da obesidade infelizmente não têm sido muito contributivos, notadamente nos casos mais avançados. A eficácia dos tratamentos deixa a desejar e os efeitos colaterais são freqüentes, com distúrbios psíquicos comuns, diarréia, acometimento hepático, alterações hormonais e inclusive manifestações cardiovasculares, como hipertensão arterial sistêmica, taquicardia, hipertensão pulmonar e valvopatias18,36,37.

Assim, atualmente a intervenção que oferece a mais efetiva perda de peso para a obesidade severa é a cirurgia bariátrica19. No presente estudo, todos os pacientes operados tiveram significativa redução do peso, com melhora da qualidade de vida e nítido benefício para a saúde como um todo. Esses benefícios se mantiveram ao longo dos 3 anos, confirmando dados da literatura38.

Considerando-se a classificação da pressão arterial para adultos (idade > 18 anos) do The Seventh Report of the Joint National Committee on Prevention, Detection, Evaluation and Treatment of High Blood Pressure6, que define como hipertensão arterial as cifras iguais ou superiores a 140x90 mmHg, havia entre os 23 pacientes deste grupo, 19 com hipertensão arterial (82,6%) antes do tratamento, enquanto que após a intervenção cirúrgica apenas 8 (34,8%) a apresentavam. Confirma-se, portanto, a relevante participação da redução do peso no controle da pressão arterial.

Diante da freqüente associação entre obesidade e hipertensão arterial, muitos aspectos fisiopatológicos dessas doenças acabam se confundindo. As alterações associadas mais diretamente com a obesidade, principalmente a resistência à leptina, redução do fator natriurético atrial, natriurese pressórica anormal e retenção de sódio, conduzem ao aumento do volume intravascular e do débito cardíaco, com conseqüente hipertrofia excêntrica do ventrículo esquerdo. Por outro lado, outras modificações como os estímulos ao sistema nervoso simpático e ao sistema renina-angiotensina, aumento da concentração intracelular do cálcio e a resistência à insulina, determinam aumento da resistência periférica e elevação da pressão arterial, causando hipertrofia concêntrica do ventrículo esquerdo. Na freqüente situação do paciente hipertenso obeso, comumente estas alterações fisiopatológicas se mesclam e resultam em adaptações cardíacas estruturais dimórficas, caracterizadas por hipertrofia ventricular esquerda excêntrica-concêntrica39.

Nos ecocardiogramas da população estudada, observou-se que a massa ventricular esquerda (não corrigida para superfície corporal ou altura) estava aumentada em 7 pacientes (30%), indicando hipertrofia ventricular esquerda segundo esse critério (normal até 198 g para mulheres e 294 g para homens)31. Por outro lado, ficou evidenciado um aumento significativo das espessuras diastólicas da parede posterior do ventrículo esquerdo e do septo ventricular, notando-se entre os 23 exames pré-operatórios, 16 paredes posteriores (69%) e 15 septos ventriculares (65%) hipertrofiados (> 11 mm). As cavidades ventriculares esquerdas não foram significativamente dilatadas, havendo apenas um paciente com dimensão diastólica de 57 mm (normal até 56 mm). A espessura relativa do VE era aumentada em 17 pacientes (74%) antes da cirurgia e o padrão geométrico de remodelamento concêntrico era o predominante (74%). Essas alterações estruturais do ventrículo esquerdo indicam modificações da geometria ventricular nesta população, possivelmente relacionadas à obesidade e à elevada associação com hipertensão arterial. Apesar da noção clássica de predomínio da hipertrofia excêntrica na obesidade, Mensah e cols.40 referem que o padrão predominante entre os obesos de sua população era também o de remodelamento concêntrico.

Após o tratamento cirúrgico da obesidade, com significativa redução do peso e diminuição associada da pressão arterial, notou-se acentuada redução das espessuras diastólicas do septo ventricular (p = 0,003) e da parede posterior do ventrículo esquerdo (p < 0,0001). Houve também diminuição da massa ventricular esquerda e do índice da massa ventricular esquerda – peso/A² (p < 0,05) após três anos de evolução pós-operatória. O emprego do índice MVE/SC não demonstrou variação da massa, pois a redução da MVE fica mascarada pela diminuição da superfície corporal. Salienta-se então a melhor aplicação nos obesos dos índices de MVE que utilizam apenas a altura em sua fórmula, ratificando achados prévios11,41. Este estudo contribui também para validar a fórmula proposta em nosso meio por Rosa e cols.11, de aplicação mais simples que a indicada previamente por De Simone41, que utilizava a altura elevada à potência de 2,7.

Tanto a redução do peso como da pressão arterial poderiam propiciar uma diminuição da cavidade esquerda, mas o que se notou foi principalmente uma queda das espessuras das paredes, achado mais relevante que o leve aumento das dimensões, o que permitiu mesmo assim uma redução da massa ventricular esquerda, no longo prazo. Atribui-se essa modificação à associação obesidade-hipertensão, prevalente na amostra, com padrões diversos no pré-operatório, e que, uma vez corrigida, permitiu rearranjos variados na geometria ventricular, mas, de qualquer forma, permitindo uma redução de quase 10% da massa ventricular esquerda.

Notou-se amplo benefício em todos os parâmetros da função diastólica na população global do estudo, com aumento da onda E, redução da onda A, aumento da relação E/A e encurtamento do tempo de relaxamento isovolumétrico do VE. O benefício da função diastólica conseqüente à redução do peso tem sido repetidamente documentado por diversos autores16,42-45. O volume do átrio esquerdo, outra variável que tem se relacionado com a função diastólica do VE, não foi estudado nesta amostra. Todavia, a dimensão do átrio esquerdo ao ecocardiograma unidimensional não revelou variação significativa após o tratamento da obesidade.

Em relação à função sistólica, geralmente há menor variação dependente da obesidade. Todos os pacientes desta pesquisa tinham índices sistólicos normais antes da intervenção. A variação do encurtamento sistólico percentual do ventrículo esquerdo não mostrou qualquer mudança significativa. No reestudo feito com 6 meses, não se observou variação significativa na fração de ejeção, porém houve discreta melhora em 3 anos. Apesar de ser composto pelos mesmos dados que participam na fórmula da fração de ejeção, os componentes do encurtamento percentual são valores menores, que ficam mais agrupados e com conseqüente dificuldade de terem demonstrada como significativa a diferença entre eles. O tempo de ejeção é uma medida derivada do Doppler e demonstrou ter uma correlação inversa com o peso: à medida que baixou o peso, notou-se aumento do tempo de ejeção, indicativo de melhora da função sistólica. Apesar destas modificações favoráveis em relação à função sistólica, deve haver cautela na valorização dos dados, visto que a função contrátil já era normal no estudo basal.

O Índice do Desempenho Miocárdico foi descrito em 1995, por Chuwa Tei, com o intuito de desenvolver um parâmetro que aferisse simultaneamente dados da função sistólica e diastólica17. Inúmeros trabalhos, sobre as mais variadas doenças, têm confirmado a aplicabilidade do índice, notadamente com implicações prognósticas17,46-54. No levantamento bibliográfico não foi encontrado qualquer trabalho que abordasse o comportamento do Índice de Desempenho Miocárdico na obesidade. Retrospectivamente, foram obtidos os exames de 13 pacientes, visto que em 10 houve problemas no armazenamento das imagens de 3 anos antes. Mas, apesar do menor número de pacientes, pôde-se verificar um comportamento do Índice de Desempenho Miocárdico compatível com o observado nos demais parâmetros desta pesquisa: a redução dos valores deste índice após a perda de peso coincide com a melhora das funções diastólica e sistólica, previamente descritas.

Como limitações nesta pesquisa citamos o número reduzido de pacientes, a dificuldade de utilizar outros métodos de avaliar a função sistólica e diastólica (estudo do fluxo das veias pulmonares, índices derivados do Doppler Tecidual e volume do átrio esquerdo) e a análise retrospectiva, com a perda de pacientes, na apreciação do Índice de Desempenho Miocárdico.

Concluindo, pacientes obesos mórbidos, após a gastroplastia, apresentam redução da pressão arterial e modificações estruturais benéficas ao coração, com redução da hipertrofia ventricular esquerda, traduzida pela diminuição da espessura relativa do ventrículo esquerdo, da massa do VE e do índice de massa do VE (MVE/altura²). Apresentam também melhora da função diastólica e aparente benefício da função sistólica, avaliadas em separado ou conjuntamente através do Índice de Desempenho Miocárdico.

Potencial Conflito de Interesses

Declaro não haver conflitos de interesses pertinentes.

 

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Correspondência:
Cláudio L. Pereira da Cunha
R. Olavo Bilac,181
80440-040 – Curitiba, PR
E-mail: cpcunha@cardiol.br

Recebido em 19/01/06; revisado recebido em 07/04/06; aceito em 01/06/06.