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Arquivos Brasileiros de Cardiologia

Print version ISSN 0066-782XOn-line version ISSN 1678-4170

Arq. Bras. Cardiol. vol.87 no.6 São Paulo Dec. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0066-782X2006001900011 

ARTIGO ORIGINAL

 

Hipertensão arterial na população adulta de Salvador (BA) - Brasil*

 

 

Ínes LessaI; Lucélia MagalhãesIII; Maria Jenny AraújoIV; Naomar de Almeida FilhoI; Estela AquinoII; Mônica M. C. OliveiraV

IInstituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia, PhD, Pesquisadores 1-A CNPq
IIInstituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia, PhD, Pesquisadores 2, CNPq
IIISecretaria de Saúde do Estado da Bahia, Mestre
IVEscola de Enfermagem da Universidade Federal da Bahia, Mestre
VInstituto de Matemática da Universidade Federal da Bahia

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Estimar a prevalência (Pr) da hipertensão arterial (HA) e da sua associação com outros fatores de risco cardiovascular em população fortemente miscigenada.
MÉTODOS: Estudo de corte transversal, realizado em amostra populacional de 1.439 adultos e > 20 anos, em Salvador-Brasil. Todos responderam a questionário em domicilio e tiveram medidos: pressão arterial, peso, altura, circunferência da cintura (CC), glicemia e lípidas séricas. O critério para HA foi a média da PAS > 140 e/ou PAD > 90mmHg. Foram estimadas Pr da HA com IC a 95%. As associações foram medidas pelo OR ajustado (ORaj), por análise de regressão.
RESULTADOS: A Pr total foi da HA foi 29,9%: 27,4% IC (23,9-31,2) em homens e 31,7%, IC(28,5-34,9) em mulheres. Em negros a Pr foi 31,6% para homens e 41,1% para mulheres. Em brancos foi 25,8% nos homens e 21,1% nas mulheres. A HA apresentou associação significante com idades > 40 anos, sobrepeso/obesidade [ORaj = 2,37(1,57-3,60)] para homens e 1,62(1,02—2,58) para mulheres. Nos homens a HA associou-se à escolaridade elevada e nas mulheres com a cor da pele parda e negra, com obesidade abdominal, ORaj = 2,05 IC(1,31-3,21), diabetes ORaj = 2,16 IC(1,19-3,93) e com a menopausa.
CONCLUSÃO: A HA predominou em negros de ambos os sexos, e em mulheres. Excetuando-se o sobrepeso/obesidade, as variáveis que se mantiveram independentemente associadas à HA diferiram entre os sexos. Os resultados sugerem aprofundamento do estudo da HA em negros e necessidade de intervenções educacionais contínuas e de início precoce.

Palavras-chave: Hipertensão, prevalência, raça e saúde, sobrepeso


 

 

A hipertensão arterial (HA) é a mais importante dentre as causas modificáveis de mortalidade cardiovascular precoce em todo o mundo, especialmente dos acidentes vasculares encefálicos. Com prevalências elevadas e conhecidas há várias décadas nos países industrializados, e na última década em alguns em desenvolvimento1-5, o interesse pela epidemiologia da HA mantém-se constante no decorrer do tempo. Em parte isso se deve a fatos históricos sobre a HA: elevadas freqüências do desconhecimento populacional sobre os seus níveis de pressão arterial, não adesão aos tratamentos e/ou baixas freqüências de controle entre os que se tratam6-8. Isto demonstra que, de modo geral, as estratégias usadas para promoção e proteção à saúde têm sido ineficazes para reverter hábitos e comportamentos incompatíveis com vida saudável, além da falta de acesso à atenção médica de boa qualidade.

Em revisão de abrangência mundial da prevalência da hipertensão, Kearny e cols.1 estimaram que seria de ~26% no ano 2000, similar entre os sexos, com 2/3 dos hipertensos vivendo em países em desenvolvimento. Esses autores projetaram o aumento da prevalência para ~29% em 2025, mantendo a similaridade por gênero.

No período 1960-2000, nos Estados Unidos, houve queda da prevalência da hipertensão de 42% para 24%9, porém, entre 1999-2000 a prevalência voltou a elevar-se em cerca de 8,3%, o que equivale a um aumento preocupante de 30% no número absoluto de hipertensos na população10. Apesar do crescimento, as prevalências da HA nos Estados Unidos e no Canadá mostraram-se inferiores àquelas dos vários países europeus com os quais foram recentemente comparadas2.

Na revisão dos poucos estudos populacionais sobre HA no Brasil, as prevalências descritas são elevadas. Esses estudos concentram-se sobretudo nos estados de São Paulo e do Rio Grande do Sul11. Os grandes reflexos da HA no país aparecem: a) nas estatísticas de mortalidade, com a doença cerebrovascular ocupando a primeira causa de morte12; b) nas estatísticas de hospitalização por doenças cardiovasculares pagas pelo Sistema Único de Saúde no país (Lessa I, relatório de pesquisa, Secretaria de Vigilância em Saúde, Ministério da Saúde, 2004); c) nas elevadas taxas de hospitalização por urgências pela própria hipertensão ou suas complicações (Lessa I, relatório de pesquisa urgências/emergências, Secretaria de Saúde do Estado da Bahia, 2002), além dos demais custos sociais. Esses conhecimentos ainda não motivaram qualquer decisão governamental para execução de um estudo populacional padronizado no país, capaz de identificar divergências e prioridades regionais e servir como referência nacional. Enquanto esse conhecimento não se produz, os estudos de prevalência em localidades de outras regiões devem ser incentivados, desde quando as disparidades regionais da população brasileira são de grande magnitude, com repercussões diferentes na determinação da saúde-doença.

Neste estudo o objetivo foi estimar a prevalência da hipertensão arterial e da sua associação com outros fatores de risco cardiovascular na população fortemente miscigenada da cidade do Salvador, Nordeste do Brasil.

 

Métodos

Estudo de corte transversal, usando o banco de dados do subprojeto "Prevalência de fatores de risco cardiovascular (FRCV) e para o diabetes", Projeto Monitoramento das Doenças Cardiovasculares e do Diabetes Mellitus (MONIT), realizado em Salvador - Bahia, Brasil, em 1999 – 2000. Como base para estudos populacionais em Salvador, os setores censitários de 8 das 10 bacias hidrográficas da cidade foram agrupados em 108 "Áreas de Pesquisa", classificadas em nível socioeconômico alto, misto e baixo". O presente estudo foi realizado em 34 dessas áreas, sorteadas proporcionalmente ao número de setores de cada classe social, abrangendo 16.592 domicílios, com cerca de 229.162 habitantes, 112.290 deles com idadee > 20 anos.

A amostra foi estimada em 1.800 adultos com idade > 20 anos, com base em uma prevalência de hipertensão arterial de 25%, nível de confiança de 95% e erro de delineamento de 2%. Em razão da incorporação de vários outros objetivos ao estudo, e estimativa de perdas de 20% dos domicílios (imóveis não residenciais, terrenos, etc), a amostra foi ampliada para 2.500 pessoas. Com média estimada em 1,7 elegíveis por residência foi extraída amostra sistemática (intervalo=10), de 1.540 domicílios, respeitando-se nível socioeconômico e densidade populacional das áreas. Destes, excluindo-se grávidas, 1.458 foram elegíveis para o estudo. Concordaram em participar 1.258 famílias (81,7%) e as demais foram perdas por barreiras para acesso aos moradores ou por recusa da família. Foram programadas 2.476 entrevistas, havendo 72 recusas (2,9%) do elegível sorteado na residência. Em domicílio os participantes responderam a questionário pré-testado sobre FRCV, doenças cardiovasculares e diabetes, tratamento atual para hipertensão e/ou diabetes comprovados pela apresentação da medicação, embalagem ou prescrição médica e posteriormente pelos exames realizados para o estudo. Foram medidas a pressão arterial e circunferências da cintura natural. Para pressão arterial foram realizadas 6 medidas em 2 blocos diferentes de 3 medidas consecutivas cada, com intervalo aproximado de 20 minutos entre os blocos. O esfigmomanômetro foi o OMRON HEM 705 CP, eletrônico, oscilométrico, validado e recomendado pelas instituições internacionais competentes13 e selecionado pelas suas notas B, para pressão arterial sistólica e A para a pressão arterial diastólica13. Aparelhos desse tipo podem ser usados em estudos epidemiológicos14. Suas maiores vantagens são: a) facilidade de treinamento e de padronização dos entrevistadores; b) eliminação de vieses de mensuração decorrentes da visão, audição e atenção; c) impossibilidade de opção individual por dígitos terminais e d) não interferência do entrevistador na velocidade de inflação/deflação do manguito. As medidas foram efetuadas com o entrevistado sentado, pés apoiados ao chão, braço esquerdo relaxado, apoiado sobre mesa e à altura do coração, palma voltada para cima, bexiga vazia, sem ter praticado exercícios moderados ou pesados, fumado ou ingerido bebida alcoólica nos 30 minutos antecedentes às medidas. Foi usada braçadeira compatível com a circunferência do braço. Duas medidas da circunferência da cintura foram efetuadas com fita metálica inextensível sobre a pele, ajustada ao corpo, tomando como parâmetro a parte mais estreita do tronco, entre o tórax e quadris (cintura natural).

Todos os entrevistados foram encaminhados para o serviço de saúde sede da pesquisa em cada área, onde foram medidos e pesados, além de terem sangue coletado pós-jejum de 12h para dosagens bioquímicas (glicemia, colesterol, HDL, triglicérides e creatinina), realização do sumário de urina e de ECG em 12 derivações. Esses procedimentos foram efetuados pela própria equipe do projeto, de modo padronizado. Controle de qualidade das aferições antropométricas e da pressão arterial foi realizado por estimativa de médias e medidas de dispersão inter e intra-observadores, sob a responsabilidade de dois dos co-autores, além de duas nutricionistas.

Para os procedimentos compareceram 1.546 participantes (67,3% da amostra), perdendo-se 107 (6,9%) protocolos completos antes da digitação. A amostra final do MONIT incluiu 2.297 participantes, sendo 1.439 com exames complementares (excluídas 107 perdidos que realizaram exames). Esses 1.439 constituíram o grupo analisado neste estudo.

Definições e critérios de anormalidade:

Variável dependente - Hipertensão arterial, critério do VI Joint : pressão arterial sistólica > 140mmHg e/ou pressão arterial diastólica > 90 mmHg, incluindo hipertensos em tratamento atual comprovado15. Foi usada a média das cinco últimas medidas.

Variáveis independentes - sobrepeso foi definido pelo índice de massa corpórea, IMC (peso/altura2) e > 25Kg/m2 e < 30Kg/m2 e obesidade > 30Kg/m2 de superfície corporal; obesidade central (OC), definida pelos pontos de corte da circunferência da cintura (CC) >88cm para homens e >84cm para mulheres, estimados para a própria população16; hipercolesterolemia = colesterol sérico > 240mg/dl, método enzimático Trinder; HDL-colesterol baixo = HDL-c < 40mg/dl, método Labtest; hipertrigliceridemia = triglicérides > 200mg/dl, método Soloni modificado; LDL-colesterol elevado = LDL e > 160mg/dl, calculado pela equação de Friedwalder para triglicérides abaixo de 400mg/dl; Diabetes mellitus = glicemia de jejum > 126mg/dl (método enzimático Trinder) ou abaixo desse valor para pessoas em tratamento atual e comprovado de DM; tabagismo = fumante atual, qualquer número de cigarro/dia; consumo excessivo de álcool = consumo em finais de semana com embriaguez freqüente e/ou consumo diário com ou sem embriaguez; atividade física: ativos = indivíduos que referiram prática diária e sistemática de pelo menos uma atividade moderada (ex: passar ferro, varrer, lavar carro, trabalhar andando sem carregar objetos pesados), ou atividade pesada no trabalho (ex: trabalhar andando, subindo e descendo escadas ou ladeiras, carregando peso ou erguendo peso; lavagem manual de roupa; fazer faxina; cuidar de crianças ou inválidos; trabalhar na construção civil) e pelo menos 3 horas semanais de uma ou mais das seguintes atividades no lazer: caminhar, dançar, nadar, pedalar, correr ou outra atividade física esportiva, inclusive treinamento para competições. Os demais foram considerados sedentários. Raça/etnia foi auto–definida pela cor da pele, em branca, parda /mulata, preta/negra, amarela e indígena, conforme oficialmente usado nos censos demográficos no país. Aqueles que optaram por outra cor da pele foram reclassificados nos três estratos básicos (Exemplos: clara, clarinha, morena clara = branca; caboclo, canela, escurinho, sarará, cabo-verde = pardos; escuro, preto= negro). A escolaridade foi estratificada em baixa (analfabetos + escolarizados até a 4ª série)- média (da 5ª série do 1º grau até a 3ª série incompleta do 2º grau) e alta (e > 2º grau completo, ou seja, > 11 anos completos de escola). Para classe social foi adotado o critério da Associação Brasileira de Pesquisa de Mercado (ABPEME), condensada em três grupos: alta (A1 +A2+B1), média (B2+C) e baixa (D+E).

Análise - Para o grupo total, estratificado por gênero, e para variáveis independentes foram calculadas as taxas de prevalência da hipertensão, Intervalos de Confiança (IC) 95% e medidas de associação. Excluindo-se as idades que entraram em todas as etapas do ajustamento, os Odds-ratios (OR) da análise univariada, com p-valor <0,10, quando indicado, foram ajustados (ORaj) para variáveis modificadoras de efeito pela regressão logística múltipla, procedimento stepwise - backward, retendo-se no modelo final aquelas com p-valor <0,05. A análise foi realizada pelo "STATA, versão 7.0". O estudo é exploratório, sem hipótese pré-determinada.

O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética Médica do Conselho Regional de Medicina do Estado da Bahia e todos os participantes assinaram Termo de Consentimento pós-informado.

 

Resultados

Dos 1.439 participantes analisados 830 (57,7%) eram mulheres e 609 (42,3%) eram homens. As médias de idade foram de 41,9±14,6 anos de idade para mulheres e de 40,3 ± 14,1 para os homens (t = 2,08, p>0,05). Na tabela 1 encontram-se as características do grupo total, observando-se freqüências de 46,4% de pardos e 27,9% de negros; baixa e média escolaridade foram 47,2% e 49,5%, respectivamente, e poucos tinham escolaridade elevada. A classe social baixa concentrou 59,3% dos participantes e a alta somente 6,2%. Destacaram-se elevadas freqüências de participantes sedentários, com sobrepeso ou obesidade, obesidade central e lípidas séricas anormais, exceto a hipertrigliceridemia, observada em 13,3%. Pela regressão múltipla observa-se ORaj estatisticamente significantes para associações entre hipertensão e idade, cor da pele parda e negra, sobrepeso, obesidade central, diabetes e colesterol total (tab. 1).

A prevalência total da HA foi de 29,9%, sendo 31,7%, IC 95% (28,5 – 34,9) em mulheres e 27,4%, IC (23,9 – 31,2) em homens. As figuras 1 e 2 e tabelas 2 e 3 apresentam as análises estratificadas por sexo. As prevalências mostraram-se crescentes com a idade em ambos os sexos, já elevadas abaixo dos 50 anos e excepcionalmente elevadas a partir dessa idade (fig. 1). As discrepâncias das prevalências entre etnias e entre homens e mulheres para classe social e escolaridade são observados na figura 2 e tabela 2. A prevalência de hipertensão em mulheres tanto decresceu linearmente da baixa para alta escolaridade quanto da baixa para a alta classe social. O padrão masculino foi inverso, crescente dos brancos para os negros, e mais elevado na alta escolaridade, sem tendência marcante. As prevalências de hipertensão foram elevadas para todas as variáveis analisadas, sendo mais baixa para o tabagismo em ambos os sexos. Prevalências de hipertensão acima de 50% foram detectadas em pessoas com diabetes e com obesidade, em ambos os sexos, e na presença de obesidade central e da menopausa em mulheres. Não houve diferença das médias de idade entre brancos e negros de ambos os sexos (p>0,05). As razões de proporções (RP) mostram semelhança das prevalências para a maioria das variáveis em ambos os sexos, sendo estatisticamente significante para mulheres no grupo 40-49 anos e para LDL elevado, sendo a alta escolaridade fator protetor neste sexo.

 

 

Na tabela 3 observam-se OR brutos estatisticamente significantes em todos os grupos etários, baixa escolaridade, sedentarismo, sobrepeso, obesidade central, diabetes, colesterol, LDL e triglicérides elevadas. Para mulheres a associação da HA com a cor da pele foi significante para pardas e negras e para menopausadas e não significante por classe social. Associações estatisticamente significantes no sexo masculino foram detectadas para alta e baixa escolaridade, classe social elevada e consumo de álcool em excesso. Na análise multivariada, mantiveram-se associados à HA entre as mulheres: todos os grupos etários a partir dos 40 anos, cor da pele parda e negra, sobrepeso, obesidade central, diabetes, e menopausa. Para os homens mantiveram-se associados: idade a partir dos 40 anos, classe social elevada e sobrepeso. Para as demais variáveis as associações detectadas na análise univariada perderam a significância estatística na multivariada.

 

Discussão

Nesse estudo foi pretensão apresentar uma análise abordando o maior número possível de fatores de risco cardiovascular. As perdas de domicílios ficaram aquém do previsto e a dos elegíveis da amostra original foi menor do que 3%. A perda mais importante foi parcial, representada por participantes que responderam ao questionário, tiveram medidas a pressão arterial e circunferência da cintura, mas não compareceram para realização dos exames. Pela semelhança das características demográficas dos que completaram todo o protocolo (exceto os 107 extraviados) com as documentadas no censo de 2000 em Salvador, preferimos analisar aqueles com protocolos completos. A amostra total seria isenta de críticas, porém restrita a poucos fatores de risco. Perdas semelhantes ou superiores às nossas são observadas na literatura. Ocorrem, sobretudo, em estudos baseados em entrevista domiciliar, com referência para realização de exames em outra data e local. São exemplos os recentes estudos de Wolf-Mayer e cols.2, Cooper e cols.17 e Victor e cols.18. Outros autores analisam os que comparecem para exames, mas omitem às taxas de perdas.

A medida da pressão arterial por aparelhos eletrônicos foi recomendada para estudos epidemiológicos nas Américas, por consenso de grupo de trabalho que incluiu diversos participantes dos "Joints"14. Uma vez validados e convenientemente aprovados, substituem o aparelho de coluna de mercúrio, especialmente onde estes sofrem restrições e são mais adequados do que os aneróides que são mais propensos a erros14. Os aparelhos eletrônicos são amplamente usados e recomendados por Cooper e cols.19 para inquéritos populacionais.

Os pontos de corte da circunferência da cintura internacionalmente recomendados são polêmicos20, e não se adaptam a muitas populações, inclusive à de Salvador. Após análises preliminares, optamos pelo uso de critério obtido da própria população estudada16. Esses critérios aproximam-se dos recentemente propostos para países sul-americanos, de 80cm para mulheres e 90cm para homens21.

Consideramos que os resultados não impedem a extrapolação da informação para pessoas dos níveis sociais predominantes no estudo. A amostra respeitou a proporcionalidade dos estratos sociais das áreas incluídas, com falha na cobertura do estrato social mais elevado.

A predominância da hipertensão em mulheres concorda com resultados de outros seis antigos estudos nacionais — dois deles também na Bahia, dois no Rio Grande do Sul, e dois no Rio de Janeiro11,22. Nos demais estudos brasileiros os homens apresentaram prevalências mais elevadas11. Esse resultado contrapõe-se à maioria das informações de outros países, com relatos de prevalências mais elevadas no sexo masculino2. Estados Unidos e Canadá têm prevalências de HA semelhantes, em torno dos 30,4% para homens e 24,8% para mulheres, enquanto em 6 países europeus a variação ficou entre 44,8% e 60,2% nos homens e 30,6% a 50,3% nas mulheres, em faixas etárias 35-74 anos2. Contudo, existem também contradições de gênero nos Estados Unidos, com registro do predomínio da hipertensão em mulheres10.

Os aproximados 28% de hipertensão observados em homens e 32% em mulheres situam-se entre alguns dos valores descritos em outras localidades brasileiras com características étnico-raciais e socioculturais diferentes11 e de vários países, inclusive os Latinos3-5,23,24.

As várias etnias componentes da formação racial brasileira não permitem critério sem tendenciosidade para classificação racial. O IBGE adota para os censos demográficos a "auto-definição da cor da pele". Esse critério, mesmo que não ideal, vem sendo usado em estudos epidemiológicos e foi recentemente validado no Rio de Janeiro (Brasil), apresentando kappa >80%25.

Nos dados analisados, a distribuição da cor da pele/etnia da amostra não difere da apresentada no último censo demográfico para a população de Salvador. Assim, por auto-definição da cor da pele, ajustada por idade e demais co-variáveis de exposição analisadas, a prevalência da hipertensão nas mulheres mostrou gradiente crescente, das brancas em direção às negras, com OR estatisticamente significantes para pardas e negras. Excetuando-se Araraquara, SP26, maiores prevalências entre negros foram relatadas em todos os estudos brasileiros que incluíram raça27, porém, em Salvador as razões de prevalências entre negros e brancos foram menores do que em outras localidades do Brasil11, refletindo a forte miscigenação racial da população.

Entre 35 e 64 anos, na população negra americana e na jamaicana, as prevalências de HA, ajustadas por idade, também foram registradas como mais elevadas em mulheres do que em homens (44,8% vs. 43,1% e 31,8% vs. 23,4%, respectivamente), mas foram baixas e semelhantes entre homens e mulheres nigerianos (13,9% vs. 13,1%), vivendo em zonas rurais do seu próprio país17. Nesse mesmo estudo, todas as prevalências observadas em populações de origem européia foram mais elevadas em homens e em todos os países foram superiores às dos negros americanos, enquanto a elevada prevalência em mulheres negras americanas foi semelhante à das espanholas e superada apenas pela observadas nas alemãs17. Ressalvando-se que as idades analisadas em Salvador foram de maior amplitude do que a do estudo referido e que não tenham sido padronizadas em relação à idade das americanas, a prevalência observada nas mulheres negras assemelha-se à das negras americanas.

Análise da prevalência e do tratamento da hipertensão em negros americanos, estratificados por nível socioeconômico muito baixo, baixo e moderadamente baixo, mostrou que a hipertensão é altamente prevalente nos três grupos, associadas somente com a idade, nível de educação e IMC, mas destacando-se a obesidade no nível mais baixo28. A divergência intra-racial desfavorável aos negros no grupo de mais baixa classe social é ressaltada pelo autor do referido estudo. Em todos os estudos brasileiros a hipertensão predomina em estratos de baixa escolaridade11, considerada parâmetro de classe social baixa. Contudo, nesse estudo isso só ocorreu com as mulheres, com claro declínio linear da baixa para a alta escolaridade, e da baixa para a média e alta classe social, embora os OR tenham perdido a significância estatística após os ajustamentos. O inverso ocorreu no sexo masculino, diferindo do relatado em estudos nacionais27 . Disparidades dos fatores de risco entre raças/etnias e entre gênero são comuns nos Estados Unidos29.

Uma importante contribuição dos estudos epidemiológicos sobre hipertensão arterial é a demonstração de que ela ocorre paralelamente a outros fatores metabólicos30. Isso já foi observado em estudo sobre simultaneidade de fatores de risco cardiovascular em Salvador31 e são comuns em estudos sobre síndrome metabólica32. Neste estudo as associações da hipertensão com outros fatores de risco cardiovascular ocorreram com sedentarismo, obesidade ou sobrepeso, obesidade central, diabetes ou hiperglicemia, e com as dislipidemias, embora em vários deles a significância estatística não se tenha mantido no modelo final da análise. Nem sempre houve concordância entre homens e mulheres quanto aos fatores que se mantiveram associados à HA, apesar da mesma procedência social. As dislipidemias agravam a hipertensão e fazem parte da epidemiologia das complicações cardiovasculares da HA, mas não entram no seu elenco dos fatores de risco.

No sexo feminino e em concordância com a literatura, foram comprovadas associações positivas e significantes da HA com etnia negra, diabetes, sobrepeso, obesidade central e menopausa, e com idades a partir dos 40 anos e etnia parda.

Dentre os contrastes observados no sexo masculino em relação à literatura encontram-se maiores prevalências de hipertensão na alta escolaridade (estatisticamente significante) e no elevado estrato social (não significante). Essas características sociais são comuns nos grupos mais elitizados, que são os brancos. No entanto, classe social e escolaridade elevadas foram pouco representadas na amostra, demonstrado pelo pequeno número de participantes incluídos nestas duas categorias de análise, com amplos IC das respectivas prevalências. Por outro lado, 11,7% dos homens negros e 10,6% dos brancos tinham idade > 60 anos (p<0,05) e as médias de idade de brancos e negros foram semelhantes (p>0,05). Conseqüentemente, não há elementos para afirmar viés de sobrevivência favorável aos homens brancos. Neste sexo seriam esperadas associações significantes entre a HA e etnia negra, obesidade central e diabetes, mas não foram detectadas. Apenas sobrepeso/obesidade destacou-se entre as associações esperadas. Estressores sociais, especialmente violência na região de moradia, comum em bairros mais pobres, não foram abordados nesse estudo, mas podem ser um importante determinante social associado à HA em Salvador, tendo em vista as características da população estudada.

Menopausa e idade elevada constituem-se fatores de risco biológicos associados à hipertensão e a outros fatores de risco cardiovascular, como obesidade central e dislipidemias e é comum em todos os estudos epidemiológicos que analisam essas variáveis. É possível haver interação com a obesidade central, que é comum em mulheres com a elevação da idade. As interações não foram analisadas em razão de não se tratar de estudo com hipótese a ser testada.

Os resultados confirmam a importância da hipertensão na população, inclui-se entre os poucos estudos nacionais com predomínio de mulheres hipertensas, mostraram elevada prevalência em negros, especialmente nas mulheres e sugerem: necessidade de aprofundamento da investigação em negros, revisão das estratégias oficiais para detecção, tratamento e controle da hipertensão e intervenções educacionais maciças, adequadamente elaboradas e contínuas, além de início em idades precoces.

Potencial Conflito de Interesses

Declaro não haver conflitos de interesses pertinentes.

 

Referências

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Correspondência:
Ínes Lessa
Rua Barachisio Lisboa, 3 - Parque Lucaia
40295-120 – Salvador, BA
E-mail: ilessa@cardiol.br

Artigo recebido em 11/07/05; revisado recebido em 09/03/06; aceito em 09/05/06

 

 

* Trabalho financiado pela Fundação Nacional de Saúde, atual Secretaria de Vigilância em Saúde, MS, Processo nº.25100.004122/98-91 e pelo CNPq, Processo nº. 473610/03-5.
Instituto de Saúde Coletiva, Universidade Federal da Bahia - Salvador, BA

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