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Arquivos Brasileiros de Cardiologia

Print version ISSN 0066-782X

Arq. Bras. Cardiol. vol.88 no.6 São Paulo June 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0066-782X2007000600005 

ARTIGO ORIGINAL

 

Modificação do padrão respiratório melhora o controle cardiovascular na hipertensão essencial

 

Carlos Hermano da Justa Pinheiro; Renato Antônio Ribeiro Medeiros; Denise Gonçalves Moura Pinheiro; Maria de Jesus Ferreira Marinho

Laboratório de Cardiopneumologia e Fisiologia do Exercício da Universidade de Fortaleza, Escola de Saúde Pública do Estado do Ceará - Fortaleza, CE - Brasil
Imperial College of Science Technology and Medicine - IC – London - England

Correspondência

 

 


RESUMO

FUNDAMENTO: Estudos recentes apontam os benefícios do controle da respiração na melhoria do barorreflexo, variabilidade da freqüência cardíaca e redução da pressão arterial em pacientes hipertensos.
OBJETIVO: Avaliar os efeitos do treinamento com técnica de respiração lenta na modulação dos sistemas cardiovascular e respiratório de pacientes (n=10, homens e mulheres, com 45 a 60 anos de idade) com hipertensão arterial essencial, assistidos em ambulatório.
MÉTODOS: No delineamento do estudo, cada paciente foi utilizado como controle de si mesmo, sendo a coleta de dados realizada antes e após o período de intervenção. Foram avaliados parâmetros como variabilidade da freqüência cardíaca, pressão arterial sistólica, pressão arterial diastólica, pressão arterial média, ventilometria, cirtometria torácica e análise estatística dos dados. O treinamento respiratório utilizou exercícios de baixa freqüência e foi realizado duas vezes por semana durante um mês. Cada sessão teve duração de 30 minutos.
RESULTADOS: Os resultados demonstraram redução da pressão arterial sistólica, da pressão arterial diastólica e da pressão arterial média (p < 0,05 vs controle), aumento da variabilidade da freqüência cardíaca evidenciado pelo aumento da variância dos intervalos RR e índice SDNN, redução da freqüência respiratória (p < 0,01 vs controle), aumento do volume corrente (p < 0,01 vs controle), e aumento da expansibilidade torácica apical (p < 0,01 vs controle).
CONCLUSÃO: A reeducação respiratória com a técnica de respiração lenta parece ser um bom recurso complementar para o controle tanto cardiovascular como respiratório em pacientes hipertensos.

Palavras-chave: Respiração, pressão arterial, hipertensão, exercícios respiratórios.


 

 

Introdução

A hipertensão arterial sistêmica é um dos principais fatores de risco para doença cardiovascular e constitui problema de saúde pública no Brasil, onde sua prevalência é de cerca de 22% na população sem viés de sexo1. No mundo, e de acordo com o Seven Countries Study2 , cada incremento de 10 mmHg resulta na duplicação do risco de óbito em pacientes hipertensos. Por ser um fator de risco independente para as duas principais causas de óbito no Brasil, o infarto do miocárdio e o acidente vascular cerebral3, sua prevenção primária por meio de intervenções farmacológicas e não-farmacológicas reduz a morbidade e a mortalidade resultantes da doença4,5. Dentre as terapias não-farmacológicas, as modificações do estilo de vida, como redução do peso corporal, restrição de sal na dieta, restrição do consumo de álcool e exercício físico de intensidade moderada, são indicadas como recurso no controle clínico da doença6. Nesse contexto, surgem evidências recentes de que a redução da freqüência respiratória pelo uso de dispositivos eletrônicos que interagem com o paciente, orientando-o a respirar de maneira mais lenta, diminui a pressão arterial em pacientes com hipertensão arterial de graus leve e moderado e naqueles com hipertensão resistente e sem mudanças no uso da medicação7,8.

Em trabalho recente, o incentivo a um padrão respiratório lento pelo aumento da expansibilidade torácica mostrou-se eficaz em reduzir a pressão arterial e a freqüência cardíaca em um caso de hipertensão arterial no pós-operatório de revascularização do miocárdio9. Evidências científicas apontam que a prática de um padrão respiratório lento melhora a sensibilidade do barorreflexo em sujeitos saudáveis10 e em hipertensos11. Assim, a modulação da respiração teria valor terapêutico no controle da hipertensão arterial. De acordo com Scheinecols.7, essa melhora está associada à modificação do padrão respiratório do paciente, que passaria a respirar com menor freqüência e com maior amplitude. No entanto, os poucos trabalhos descritos na literatura internacional relatam somente alterações agudas ou de uma única sessão no sistema respiratório, com repercussões no sistema cardiovascular. Diante desse problema, este estudo se propôs a testar os efeitos do treinamento com a técnica de respiração lenta na reeducação respiratória e na modulação do controle tanto cardiovascular como respiratório de pacientes com hipertensão arterial essencial.

 

Métodos

A pesquisa foi realizada no Laboratório de Cardiopneumologia e Fisiologia do Exercício da Universidade de Fortaleza, após aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa da instituição. Todos os sujeitos do estudo deram seu consentimento livre e esclarecido para a participação, tendo sido respeitados todos os princípios da Declaração de Helsinki de 197412, revisada em 198313.

Foram estudados 10 pacientes (5 homens e 5 mulheres, com idade entre 45 e 60 anos) com diagnóstico médico de hipertensão arterial essencial submetidos a tratamentos clínico e farmacológico (fig. 1) e atendidos no Núcleo de Assistência Médica Integrada (NAMI) da Universidade de Fortaleza. Nenhum paciente da amostra era obeso (índice de massa corporal médio de 26 ± 1,4) ou possuía outras co-morbidades associadas à hipertensão, com exceção de dislipidemia (tab. 1). O critério de inclusão na pesquisa compreendia ter diagnóstico médico de hipertensão arterial essencial e estar sob tratamento clínico. Os pacientes do estudo foram selecionados a partir de suas fichas de acompanhamento clínico; após a seleção, cujos critérios de inclusão e exclusão serão descritos adiante, foram realizadas entrevistas para coleta de dados referentes ao tipo de tratamento (clínico e farmacológico) e ao perfil epidemiológico dos sujeitos. Foram utilizadas, como critério de exclusão: causas secundárias de hipertensão arterial; insuficiência renal, cardíaca ou hepática; e pacientes que tiveram evento cardiovascular recente. Também foram excluídos casos de doença pulmonar, usuários de bebidas alcoólicas, tabagistas, usuárias de contraceptivos orais, portadores de afecções como diabetes melito, neuropatias, doenças auto-imunes, doença de Chagas, arritmias cardíacas e outras doenças que afetam o controle neuroautonômico, assim como usuários de antidepressivos, neurolépticos, antiarrítmicos e lítio.

 

 

Delineamento da pesquisa - No início do estudo, foi realizada coleta de dados a fim de mensurar os valores da pressão arterial sistólica, da pressão arterial diastólica e da variabilidade da freqüência cardíaca. As variáveis respiratórias monitoradas foram: volume corrente, freqüência respiratória, volume-minuto, e expansibilidade torácica tanto apical como basal. No final do estudo, após um mês de treinamento com técnica de respiração lenta, todas essas mensurações foram novamente realizadas para coleta final de dados e análise estatística.

Mensuração da pressão arterial e análise do equilíbrio autonômico cardíaco - A pressão arterial foi aferida, ambulatorialmente, em três momentos distintos, calculando-se a média entre as aferições. Foi utilizado, para a aferição, esfigmomanômetro do tipo aneróide devidamente calibrado e de acordo com as instruções contidas nas IV Diretrizes para Hipertensão Arterial da Sociedade Brasileira de Cardiologia14 e no Joint National Committee15.

Para a análise do equilíbrio autonômico ou equilíbrio simpático/parassimpático cardíaco, foi utilizado o método de estudo da variabilidade da freqüência cardíaca, calculada por meio da média dos intervalos RR, da variância dos intervalos RR e do método no domínio do tempo (índices SDNN e PNN50) em todas as 12 derivações eletrocardiográficas. Para a tabulação dos dados foi utilizado o software Microsoft Excel versão 2003, e para a avaliação estatística foi utilizado SPSS versão 10.

Análise da mecânica respiratória - O volume-minuto e a freqüência respiratória foram mensurados por ventilômetro da marca Wright e o volume corrente foi calculado por meio da razão volume-minuto/freqüência respiratória.

A expansibilidade torácica foi analisada por meio de cirtometria torácica tanto apical (medidas tomadas nas axilas) como basal (medidas tomadas no final do apêndice xifóide).

Protocolo de reeducação respiratória - Foi aplicado protocolo de treinamento de controle respiratório, utilizando-se, inicialmente, a prática dos padrões respiratórios diafragmático, intercostal e apical, com o objetivo de conscientizar o paciente sobre seus movimentos respiratórios. Durante a execução dessas técnicas, os pacientes foram orientados a deitar em decúbito dorsal, com os joelhos flexionados e os pés apoiados no solo, enquanto levavam as mãos às áreas do tórax relacionadas a cada tipo de respiração: diafragma, músculos intercostais e região clavicular (fig. 2). Em cada padrão respiratório, os pacientes foram orientados a sentir e a identificar o movimento da caixa torácica e sua amplitude. Em seguida, foram orientados a reduzir, gradativamente, a freqüência respiratória, à medida que também aumentavam a amplitude respiratória. Esse procedimento foi repetido 10 vezes para cada tipo de respiração.

Depois da execução das técnicas descritas, os pacientes, em postura sentada, realizaram a técnica de respiração lenta, cujo objetivo é realizar respiração mais tranqüila por meio do aumento da amplitude respiratória e da redução da freqüência respiratória durante a execução simultânea dos três padrões respiratórios descritos. A técnica foi realizada por 30 minutos diários, duas vezes por semana, durante um mês.

Análise estatística - Todos os dados foram submetidos a análise estatística descritiva e as médias inicial e final foram submetidas ao teste t de Student e à análise do p-valor. As variáveis ventilométricas e os níveis de pressão arterial foram submetidos ao teste de correlação de Pearson e à análise de regressão linear (R-square). Foram consideradas significantes as análise com p < 0,05.

 

Resultados

Não houve mudanças na medicação utilizada e no estilo de vida relatado pelos pacientes no início do estudo (dados não demonstrados). Os resultados estão apresentados a seguir.

Reeducação respiratória e pressão arterial - Na amostra de pacientes com hipertensão deste estudo foi observada redução da pressão arterial (gráfico 1). Houve redução das pressões sistólica, média e diastólica: de 135 ± 14,32 mmHg para 123 ± 14,29 mmHg (p < 0,05), de 99 ± 7,8 mmHg para 91 ± 7,5 mmHg (p < 0,05), e de 81 ± 8,75 mmHg para 74 ± 6,1 mmHg (p < 0,05), respectivamente.

 

 

Reeducação respiratória e modulação autonômica cardiovascular - Houve melhora da variabilidade da freqüência cardíaca (gráfico 2). No entanto, não foi observada alteração significativa da freqüência cardíaca em repouso (74 ± 8 bpm para 72 ± 9,1 bpm, p > 0,05) e da média dos intervalos RR (1.002 ± 3,4 ms para 1.004 ± 3,2 ms, p > 0,05). A melhora da variabilidade da freqüência cardíaca foi constatada pelo aumento da variância dos intervalos RR e índice estatístico SDNN, enquanto o índice PNN50 permaneceu inalterado.

Reeducação respiratória e mecânica respiratória - Foram observadas alterações do padrão respiratório após o período de treinamento (gráfico 3). Os pacientes hipertensos demonstraram redução da freqüência respiratória de repouso (de 14,60 ± 1,6 incursões respiratórias por minuto [irpm] para 10,10 ± 1,1 irpm, p < 0,01). Não foram observadas alterações significativas do volume-minuto, o que foi atribuído ao aumento compensatório do volume corrente (de 419,75 ± 60,93 ml para 560,30 ± 60,76 ml, p < 0,01). O aumento do volume corrente foi atribuído ao aumento da expansibilidade torácica apical (de 1,9 ± 0,56 cm para 2,33 ± 0,49 cm, p < 0,01), enquanto a expansibilidade basal permaneceu inalterada (gráfico 3). Também foi constatada correlação negativa moderada (coeficiente de Pearson, -0,5; p < 0,05) entre o volume corrente e os níveis de pressão arterial sistólica e de pressão arterial média na amostra estudada (não demonstrada), representada pela análise de regressão linear (gráfico 4).

 

Discussão

O presente estudo teve como objetivo avaliar a eficiência de um programa de treinamento com a técnica de respiração lenta no controle cardiovascular e da pressão arterial em uma amostra de pacientes com hipertensão arterial essencial. Foi demonstrado que a reeducação do padrão respiratório pode melhorar o controle cardiorrespiratório e reduzir a pressão arterial em hipertensos. Os dados deste estudo estão em concordância com os dos estudos de Joseph e cols.11, Kaushik e cols.16, Bernardi e cols.17 e Goso e cols.18. Esses estudos avaliaram os efeitos de uma única sessão de exercício com a técnica de respiração lenta em sujeitos saudáveis, hipertensos e com insuficiência cardíaca e demonstraram os benefícios que a modulação voluntária da respiração pode promover no controle cardiovascular e na redução da pressão arterial.

Os autores deste estudo decidiram avaliar o impacto de um programa de reeducação respiratória com a técnica de respiração lenta ao longo de um mês em pacientes com hipertensão arterial. Os autores acreditavam que a prática regular desses exercícios respiratórios poderia exercer algum efeito psicofisiológico com o objetivo de modificar o padrão respiratório em repouso. Embora com amostra de poucos pacientes, por causa da grande quantidade de critérios de exclusão adotados no estudo, a estatística dos dados foi determinante. Em futuros estudos, é preciso que sejam avaliados mais pacientes, se possível com amostra probabilística para análise da eficiência e do impacto desse tipo de intervenção na população.

O controle da pressão arterial é considerado a melhor estratégia para diminuir o impacto das doenças cardiovasculares em pacientes com hipertensão arterial, o que pode ser feito por meio de campanhas de prevenção, tratamento dos fatores de risco, diagnóstico precoce e tratamento efetivo da doença19. Algumas evidências científicas sugerem que alterações do controle respiratório também podem ser consideradas fator de risco associado ao estilo de vida em pacientes com hipertensão arterial20.

Distúrbios respiratórios como fator de risco para hipertensão arterial - A relação entre anormalidades respiratórias e hipertensão arterial ganhou destaque na comunidade científica pelos relatos de aumento da prevalência de doenças cardiovasculares em indivíduos com distúrbios respiratórios do sono21. O mecanismo pelo qual os distúrbios respiratórios do sono exercem influência sobre a pressão arterial e a hipertensão ainda não está claro22. No entanto, Ehlenz e cols.23 demonstraram alterações da regulação da pressão arterial em pacientes hipertensos quando comparados a indivíduos saudáveis. Estudos experimentais com animais também demonstraram que a apnéia obstrutiva do sono, um dos principais distúrbios respiratórios relacionados ao sono, possui forte associação com mudanças da pressão arterial tanto sistêmica como pulmonar24. Segundo Brooks e cols.25, essas mudanças do controle da pressão arterial ocorreriam durante o sono e durante o período diurno, indicando, desse modo, papel causal dos distúrbios respiratórios do sono no desenvolvimento e na manutenção da hipertensão arterial. Além disso, estudos epidemiológicos demonstram grande prevalência de distúrbios respiratórios do sono em pacientes hipertensos26,27 e que cerca de 50% a 80% dos pacientes com essas alterações são hipertensos20. Nesse contexto, a relação causal dos distúrbios respiratórios poderia se tornar confusa ou se perder ao se considerar a idade, a prevalência de obesidade, o tabagismo e o etilismo em pacientes hipertensos. No entanto, Grote e cols.20, em estudo clínico transversal e controlado com 1.190 pacientes, demonstraram que os distúrbios respiratórios do sono são fatores de risco para hipertensão arterial e são independentes de índice de massa corporal, idade, tabagismo, etilismo, níveis de colesterol e pressões parciais de oxigênio e dióxido de carbono. Assim, os dados científicos demonstram a existência de relação de causa e manutenção da hipertensão arterial por alterações do controle respiratório.

Modulação voluntária da respiração e redução da pressão arterial - Em pacientes com hipertensão arterial essencial, essas mudanças da pressão arterial correlacionam-se com a mudança do padrão respiratório, conforme evidenciado neste estudo por meio da correlação estatística e da regressão linear. De acordo com Joseph e cols.11, a redução da pressão arterial durante a execução de padrão respiratório lento, mais precisamente abaixo de 10 irpm, estaria associada a melhora da sensibilidade do barorreflexo, o que indica alteração do equilíbrio autonômico resultante de redução absoluta ou relativa da atividade simpática ou aumento do tônus parassimpático. Uma das dificuldades enfrentadas neste estudo refere-se à não mensuração do barorreflexo, pois esse método demanda custos elevados e laboratório equipado para tal. No entanto, a análise da variabilidade da freqüência cardíaca é um método com significante valor clínico e bem caracterizado na literatura, tendo a vantagem de possibilitar avaliação não-invasiva e seletiva da função autonômica28 . Na amostra de pacientes deste estudo, observou-se que, paralelamente à redução da pressão arterial, também houve melhora da variabilidade da freqüência cardíaca. Isso sugere que a melhora decorre do efeito da modulação respiratória no sistema nervoso autônomo. Bernardi e cols.17 estudaram o efeito de uma sessão com técnica de respiração lenta em sujeitos saudáveis e pacientes com hipertensão, em que se observou melhora da sensibilidade do barorreflexo com conseqüente redução da pressão arterial e da freqüência cardíaca. Neste estudo, não houve modificação da freqüência cardíaca, o que se opõe aos efeitos cronotrópicos agudos citados na literatura17 e observados previamente pelos autores deste estudo em um paciente com infarto agudo do miocárdio e hipertensão arterial9. Isso pode ter ocorrido pela falta de métodos mais apurados para detectar as alterações cronotrópicas. Em estudos futuros, seria recomendável a utilização de registro eletrocardiográfico mais longo por Holter para melhor análise dessas alterações da freqüência cardíaca e de monitorização ambulatorial da pressão arterial (MAPA) para se analisar a magnitude do efeito anti-hipertensivo proporcionado por essa técnica respiratória.

Desequilíbrio autonômico na hipertensão arterial e respiração - O sistema nervoso autônomo desempenha papel fundamental no controle da pressão arterial e da freqüência cardíaca, sendo importante fator fisiopatológico no desenvolvimento da hipertensão arterial29. A existência de hiperatividade simpática tem sido freqüentemente associada à hipertensão arterial, em que a sensibilidade do controle baroceptor está prejudicada, comprometendo a função autonômica30. Esse estado de hiperexcitação com aumento das descargas simpáticas é bem caracterizado na literatura, que também demonstra os benefícios de sessões de relaxamento mental associado ou não a exercícios respiratórios em pacientes com hipertensão arterial16. Na hipertensão arterial essencial, a hiperatividade simpática não se restringe apenas à vasoconstrição arteriolar, mas o estado excitatório é distribuído de maneira generalizada por outros órgãos e sistemas, além de ativar o quimiorreflexo, importante mecanismo de regulação da respiração31. Pacientes hipertensos geralmente apresentam sinais de hiperventilação em repouso, sugerindo que as anormalidades cardiovasculares e respiratórias podem estar relacionadas a padrão excitatório comum do sistema nervoso autônomo, o qual poderia ser modulado pela adoção de padrão respiratório mais lento11. Nesse contexto, o padrão hiperexcitatório generalizado poderia explicar os sinais de hiperventilação observados em pacientes com hipertensão arterial essencial11, e sendo a respiração passível de controle voluntário a prática de determinado padrão respiratório, em longo prazo, também poderia induzir modificações do controle cardiovascular.

A variabilidade da freqüência cardíaca está reduzida em pacientes hipertensos se comparados a indivíduos normotensos. No método de análise no domínio do tempo, os índices PNN50 e SDNN estão reduzidos, refletindo diminuição do tônus vagal (parassimpático) e aumento do tônus simpático, respectivamente32. No presente estudo, observou-se melhora da variabilidade da freqüência cardíaca pelo aumento da variância dos intervalos RR e o índice SDNN, enquanto o índice PNN50 não sofreu alteração significativa (p > 0,05). Isso sugere que a reeducação respiratória com a técnica de respiração lenta melhorou a função autonômica não por aumento do tônus parassimpático, mas sim pela diminuição da atividade simpática. Os dados deste estudo ratificamos dados dos estudos de Josephecols.11 e de Bernardi e cols.17, que também observaram melhora da variabilidade da freqüência cardíaca.

Segundo Kaushik e cols.16, o estado de hiperexcitação por aumento de descargas simpáticas pode ser modulado por sessões de relaxamento e exercícios de respiração, de forma associada ou isolada. Entretanto, segundo esses autores, os exercícios respiratórios e o relaxamento modulariam o sistema nervoso autônomo por diferentes mecanismos que ainda precisam ser mais bem caracterizados. No presente estudo, não se pode descartar a hipótese de que os exercícios respiratórios tenham proporcionado algum grau de relaxamento nos pacientes. Entretanto, pela existência de correlação estatística negativa e significante (p < 0,05) entre o volume corrente e a pressão arterial, acredita-se que a modulação da mecânica respiratória tenha papel-chave nesse efeito anti-hipertensivo.

Integração do controle cardiovascular e benefícios da reeducação respiratória - Os sistemas cardiovascular e respiratório mantêm estreita relação em seus mecanismos de controle neural, cuja fisiologia não é objetivo da discussão desteartigo. No entanto, vale salientar que, nesse mecanismo de controle tanto cardiovascular como respiratório, o núcleo do tracto solitário possui papel-chave, uma vez que recebe aferência de baroceptores localizados no coração e nos vasos sanguíneos, quimioceptores e receptores de estiramento no pulmão33. Dessa maneira, o barorreflexo, o quimiorreflexo e o reflexo de Hering-Breur parecem ter vias neuroanatômicas comuns, o que pode embasar biologicamente os efeitos da modulação da respiração no controle cardiovascular e a redução da pressão arterial.

Diante dessas evidências, os achados deste estudo poderiam ser explicados de várias maneiras. Durante a execução de um padrão respiratório lento, o volume corrente aumenta para compensar a redução da freqüência respiratória e manter a ventilação-minuto34,35, o que pode ser responsável pelas mudanças autonômicas por meio da redução da atividade simpática ou da ativação do reflexo de Hering-Breuer18. De acordo com Bernardi e cols.17, essa melhora do barorreflexo dependeria somente da redução da freqüência respiratória e não do controle da respiração; desse modo, uma freqüênciade 6 irpm melhora o barorreflexo, o mesmo não ocorrendo com freqüência similar à taxa de respiração espontânea, como 15 irpm, de forma controlada. Para Joseph e cols.11, as mudanças de amplitude respiratória, isto é, de expansibilidade torácica, podem aumentar as flutuações dos intervalos RR, melhorar a eficiência do barorreflexo e reduzir a pressão arterial. Por outro lado, o aumento do volume corrente e a ativação do reflexo de Hering-Breuer, que reduz a sensibilidade do quimiorreflexo, poderiam realçar a eficiência do barorreflexo e reduzir a pressão arterial e a atividade simpática36.

Esses resultados também poderiam ser explicados pela diminuição do quimiorreflexo, cujo aumento é bem conhecido por elevar a atividade simpática e a pressão arterial37. Para Bernardi e cols.17, o treinamento com a técnica de respiração lenta melhorou a saturação de oxigênio e a regulação do quimiorreflexo hipoxêmico, com melhora da capacidade de exercício em pacientes com doença cardiovascular. Embora não tenham sido mensuradas as trocas gasosas na amostra deste estudo, o aumento do volume corrente atribuído ao aumento da expansibilidade torácica pode ter proporcionado melhor oxigenação nesses pacientes. Outros estudos devem atentar para esse parâmetro metabólico por meio de análise do volume máximo de oxigênio (VO2) e do volume de dióxido de carbono (VCO2). No entanto, os dados deste estudo demonstraram que a redução da freqüência respiratória não induz hiperventilação nesses pacientes após a técnica, uma vez que o volume-minuto não sofre alteração e o volume corrente sofre aumento compensatório. Esses dados também foram confirmados no estudo realizado por Joseph e cols.11, em que a prática da técnica de respiração lenta não alterou o volume-minuto e a taxa de dióxido de carbono exalado (CO2 et). Pelo fato de o CO2 manter-se dentro de valores de repouso, a técnica de respiração lenta é bem tolerada pelos pacientes.

A manipulação do padrão respiratório parece ser um recurso bem razoável, uma vez que seria utilizado estímulo voluntário para se induzir mudanças reflexas no sistema cardiovascular. A existência de bases neuroanatômicas comuns na modulação do controle tanto cardiovascular como respiratório é considerada a base biológica dessa intervenção. No entanto, o mecanismo exato de tal integração deve ser mais bem caracterizado em futuros estudos. A técnica de respiração lenta não é um método novo. Sua prática é bastante antiga no mundo oriental, em práticas do ioga38. Por causa dos benefícios proporcionados pelo ioga a pacientes com doenças cardiovasculares, seus componentes (alongamento, relaxamento e técnicas de respiração) ganharam o interesse da comunidade científica39 . Alguns estudos demonstram a melhora do controle cardiorrespiratório em pacientes hipertensos e praticantes de ioga que utilizam uma técnica conhecida por Pranayama Bramari, a qual envolve padrões respiratórios lentos, enquanto as práticas que envolvem exercícios respiratórios de alta freqüência apresentam efeitos antagônicos40.

Limitações e considerações finais - No presente estudo, foi utilizada uma amostra de pacientes com hipertensão arterial bem controlada. Uma próxima etapa seria analisar a reprodutibilidade desses achados em pacientes com graus mais elevados de hipertensão arterial com ou sem prevalência de outras co-morbidades.

Os autores concluíram, com base nos presentes achados, que a correção das anormalidades do controle respiratório em pacientes hipertensos melhoraria o controle tanto cardiovascular como respiratório, atuando como um recurso complementar aos tratamentos clínico e farmacológico da hipertensão arterial. A técnica de respiração lenta é um método simples, sem contra-indicações e cujo custo-benefício é bastante válido para a melhoria do balanço autonômico, para o controle respiratório e para a redução da pressão arterial em pacientes com hipertensão arterial essencial. No entanto, há necessidade de novos estudos com casuísticas maiores e amostras probabilísticas para se avaliar o impacto dessa intervenção em uma população maior de pacientes com hipertensão arterial.

Potencial Conflito de Interesses

Declaro não haver conflitos de interesses pertinentes.

 

Referências

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Correspondência:
Carlos Hermano da Justa Pinheiro
Avenida Jaguaré, 249/124
05346-000 - São Paulo, SP - Brasil
E-mail:fisiologia_carlos@yahoo.com.br

Artigo recebido em 03/09/06; revisado recebido em 08/11/06; aceito em 14/12/06.