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Arquivos Brasileiros de Cardiologia

Print version ISSN 0066-782X

Arq. Bras. Cardiol. vol.94 no.2 São Paulo Feb. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0066-782X2010000200018 

ARTIGO ORIGINAL
TOMOGRAFIA/RESSONÂNCIA

 

Escore de cálcio coronariano prediz estenose e eventos na insuficiência renal crônica pré-transplante

 

 

Miguel Abraão Rosário*; José Jayme de Lima; José R. Parga; Luiz F. Ávila; Luis H. Gowdak; Pedro A. Lemos; Carlos E. Rochitte*

Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, São Paulo,SP - Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

FUNDAMENTO: A doença arterial coronariana (DAC) é a principal causa de óbito em pacientes com insuficiência renal crônica (IRC). Os exames não invasivos tradicionais para detecção de DAC e predição de eventos têm apresentado resultados insuficientes nesse grupo. A avaliação do escore de cálcio coronariano (ECC) por tomografia computadorizada tem comprovado valor prognóstico na população sem doença renal.
OBJETIVO: Avaliar a acurácia do ECC para detectar DAC obstrutiva e prever eventos cardiovasculares em candidatos a transplante renal comparada à angiografia coronariana invasiva (ACI) quantitativa.
MÉTODOS: Foram avaliados 97 pacientes com IRC e idade > 35anos. Foi considerada DAC obstrutiva a presença de estenose >50% ou >70% pela ACI. Dados descritivos, concordância, testes diagnósticos, Kaplan-Meier e análise multivariada foram utilizados.
RESULTADOS: O escore de Agatston médio foi de 580,6 ± 1.102,2; os valores mínimos e máximos foram 0 e 7.994, e mediana de 176. Apenas 14 pacientes tinham escore de cálcio de zero. Não houve diferenças entre as etnias e a maior presença de cálcio regional associou-se a maior probabilidade de estenose coronária no mesmo segmento. O escore de cálcio de Agatston apresentou boa acurácia para o diagnóstico de estenose, >50% e >70% com área sob a curva ROC de 0,75 e 0,70, respectivamente. No limiar de 400, o escore de cálcio identificou o subgrupo com maior taxa de eventos cardiovasculares em tempo médio de seguimento de 29,1±11,0 meses.
CONCLUSÃO: O ECC na avaliação de DAC apresentou boa performance diagnóstica e prognóstica para eventos cardiovasculares em pacientes com insuficiência renal crônica (IRC).

Palavras-chave: Tomografia computadorizada de emissão, escore de cálcio, doença da artéria coronariana, insuficiência renal crônica, determinação, prognóstico.


 

 

Introdução

A doença arterial coronariana (DAC) é a principal causa de óbito em pacientes com insuficiência renal crônica (IRC)1. O risco de morte por DAC nesse grupo de pacientes é maior que na população geral. Dependendo do estágio da IRC2, o risco cardiovascular pode aumentar significativamente. Nos pacientes em diálise, no estágio 5 da IRC, o risco cardiovascular é de 20 a 1.000 vezes maior que em pessoas da população geral sem doença renal, dependendo da idade da população estudada2. Entre pacientes em hemodiálise ou diálise peritoneal, a prevalência de doença coronariana é de cerca de 40%1. Nos Estados Unidos, cerca de 10% dos pacientes em diálise morrem de doença cardíaca a cada ano, sendo um consenso que pacientes com IRC devem ser considerados de alto risco para o desenvolvimento de eventos cardiovasculares, devendo submeter-se à avaliação cardiovascular frequente3. Ainda nesse grupo, o diabete melito impõe risco de mortalidade semelhante ao da DAC4.

Testes não invasivos, empregados na avaliação de DAC em pacientes com IRC, têm como objetivos identificar a presença de DAC e avaliar o risco de eventos cardiovasculares e óbito5.

Em pacientes com IRC e alto risco para DAC, a prevalência de DAC e a incidência de eventos adversos cardiovasculares maiores (EACM) são altos. Portanto, para melhorar o prognóstico é necessária a procura constante por DAC, através dos melhores métodos diagnósticos disponíveis. O serviço especializado em IRC do InCor recentemente identificou que DAC significante e complicações cardiovasculares não estão relacionados com a maioria dos fatores de risco clássicos neste grupo específico de pacientes com IRC. Os autores concluem que pacientes com diabete, doença arterial periférica e infarto prévio estão sob alto risco de DAC, EACM ou ambos, e, portanto, devem ser encaminhados para procedimento diagnóstico invasivo6. Com relação a estratégias de avaliação da DAC nesses pacientes e sua relação com o prognóstico, De Lima e cols.7 publicaram dados conclusivos indicando que o estudo para avaliação da DAC com maior poder prognóstico foi a angiografia coronariana invasiva (ACI), quando comparada a testes não invasivos (medicina nuclear e ecocardiografia de estresse)7. Isso abriu a possibilidade para a investigação dos novos métodos de diagnóstico não invasivos, que ainda não haviam sido avaliados nesse grupo de pacientes com IRC e vinham demonstrando boa performance em pacientes com DAC na população geral. Entre esses novos métodos estão: ressonância magnética cardiovascular e a tomografia computadorizada de múltiplas colunas de detectores (TCMD), com avaliação da calcificação coronariana (escore de cálcio coronariano - ECC) e detecção da estenose coronariana (angiografia coronária por tomografia).

Um dos mais importantes motivos para avaliar a presença de DAC é o uso dessa informação como dado prognóstico, podendo assim ter uma estimativa dos riscos individuais de eventos cardiovasculares e ajustar as medidas terapêuticas e preventivas de forma adequada ao risco de determinado paciente. Enquanto a ACI demonstrou ser um exame prognóstico poderoso7, as novas técnicas de TCMD não foram ainda testadas extensamente em pacientes com IRC pré-transplante.

Assim, nossa hipótese foi de que o uso da TCMD possa ser útil no diagnóstico de DAC significativa e na estimação prognóstica nos pacientes com IRC candidatos a transplante renal. Nosso objetivo foi investigar se a calcificação coronária detectada pela TCMD é capaz de predizer a presença de estenose coronária e eventos cardiovasculares em pacientes com IRC.

 

Métodos

Foram incluídos 97 pacientes com IRC em programa de hemodiálise, indicados para serem submetidos a transplante renal, e com indicação clínica de ACI. A indicação clínica de ACI foi baseada no fato de os pacientes pertencerem ao grupo de alto risco para DAC ou por meio de sintomas e/ou exames não invasivos prévios que levassem a suspeita de DAC. Os pacientes considerados como de alto risco foram aqueles com ao menos um dos seguintes critérios:

1) idade >50 anos;

2) diabete melito;

3) história ou evidência clínica de doença cardiovascular8. O recrutamento foi realizado pelo ambulatório especializado em IRC do Serviço de Hipertensão do Instituto do Coração da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Nesse serviço, o manejo dos pacientes de alto risco ou com suspeita de DAC inclui a ACI devido à sua melhor performance prognóstica7. A TCMD com contraste iodado não iônico foi realizada após exclusão de contraindicação ao estudo e consentimento livre e esclarecido assinado. Este projeto foi aprovado pela comissão de ética e pesquisa do InCor e HCFMUSP (CAPEPesq, número 0195/04) e obteve suporte financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP, processo número 2004-08363-6). Os critérios de inclusão foram: homens ou mulheres; com 35 anos de idade ou mais; com IRC; em programa de diálise e candidatos a transplante renal; com indicação clínica de ACI e com intervalo máximo com a TCMD de um ano (realizada no máximo até um ano antes da inclusão ou com ACI planejada para os próximos meses). Os critérios de exclusão foram: alergia conhecida a meio de contraste iodado; fibrilação atrial, taquiarritmia ou bloqueio atrioventricular avançado; evidência de insuficiência cardíaca sintomática grave (NYHA classe III/IV); estenose aórtica conhecida; cirurgia cardíaca prévia; stent coronário; intolerância ou contraindicação a beta-bloqueadores conhecida, como doença pulmonar broncoespástica.

Neste estudo, foi considerada DAC significativa a presença de pelo menos uma estenose >50% por paciente, em ramo coronário principal e diâmetro luminal maior que 1,5mm, identificada pela ACI. Foram também analisadas secundariamente as estenoses >70%, assim como a análise segmentar nesses dois limiares.

Dos 97 pacientes disponíveis para o estudo, 63 (65,0%) eram do sexo masculino e 34 (35,0%) do sexo feminino, com idade média ± desvio padrão de 56,7±7,4 (tabela 1). A idade mínima foi de 35 anos e a máxima de 76 anos.

A prevalência dos fatores de risco tradicionais para DAC foi a seguinte: hipertensão arterial sistêmica - 87 (89,6%); diabete melito - 37 (38,1%); dislipidemia - 33 (34,0%); arteriopatia 33 (34,0%); angina - 28 (28,9%); tabagismo atual - 20 (20,6%); antecedentes familiares de DAC - 18 (18,6%); acidente vascular cerebral (AVC) - 12 (12,4%); insuficiência cardíaca congestiva (ICC) - 8 (8,2%); infarto agudo do miocárdio (IAM) - 7 (7,2%). Cabe ressaltar que os pacientes que tiveram alguns sintomas ou angina eram todos estáveis e os sintomas foram posteriores a indicação de coronariografia invasiva. Não foram incluídos pacientes com indicação de coronariografia para investigação de dor torácica de início recente (e potencialmente instáveis). Assim, todos os pacientes incluídos no protocolo eram assintomáticos no momento da inclusão.

Os dados antropométricos da nossa amostra e a frequência cardíaca durante a aquisição do exame de tomografia estão detalhados na tabela 1. A média do tempo de diálise foi de 40,2±42,1 meses, com mediana de 26,5 meses, mínimo de 2 meses e máximo de 240 meses.

Protocolo de aquisição das imagens pela TCMD

Os exames de TCMD foram realizados em aparelhos de 16 e 64 colunas de detectores (Aquilion16™ e Aquilion64- ToshibaMedical Systems Corporation, Otawara, Japão) no Instituto do Coração (InCor - HCFMUSP).

Os pacientes foram orientados quanto aos detalhes do exame e posicionados na mesa da TCMD em posição de decúbito dorsal, deslocados para direita, mantendo o coração no centro do foco de raios-X. Todos os pacientes receberam monitorização eletrocardiográfica para sincronização com a aquisição da imagem e seguimento da frequência cardíaca durante o exame. Os braços do paciente foram posicionados acima da cabeça e com os cabos do ECG passando por fora do campo de escaneamento.

A frequência cardíaca (FC) dos pacientes durante a realização do exame foi de 61,1 ± 6,9 bpm. Os pacientes com frequência cardíaca acima de 70bpm na chegada à tomografia receberam beta-bloqueador endovenoso, metoprolol, na dose necessária para atingir a FC alvo de 60 bpm ou até a dose máxima de 15 mg, pois estes participaram de um protocolo com aquisição de angiotomografia de coronárias associado. As frequências cardíacas foram sempre medidas durante pausa respiratória.

Protocolo da TCMD - aquisição das imagens

Inicialmente, obtínhamos a chamada imagem localizatória. Uma janela de varredura era, então, visualmente estabelecida com base nessa primeira imagem, com cobertura desde a bifurcação da traqueia (carina) até a completa inclusão da silhueta cardíaca. Esse planejamento foi usado para a aquisição do escore de cálcio.

O escore de cálcio foi então obtido através de aquisição prospectiva e sincronizada ao traçado de ECG. As imagens foram adquiridas com espessura de corte de 3,0 mm e campo de visão de 200 a 220 mm, para obtenção de imagens axiais do tórax cobrindo toda a área cardíaca, permitindo a visualização das artérias coronárias e da eventual calcificação em topografia das mesmas. As imagens foram adquiridas em momento diastólico definido de acordo com a frequência cardíaca do paciente. A aquisição do escore de cálcio necessitou de pausa inspiratória média de cerca de 15 s, de acordo com o protocolo já validado9. Os parâmetros de aquisição do escore de cálcio foram: velocidade de rotação do tubo de 0.75 s, colimação dos detectores 4 por 3.0 mm, voltagem do tubo de 120 kV, e corrente do tubo de 300 mA.

Aquisição da angiografia coronária invasiva

As angiografias coronárias foram realizadas de acordo com as técnicas já consagradas e padronizadas na rotina do serviço de hemodinâmica do Instituto do Coração (InCor) HC-FMUSP10 e com indicação clínica independente do protocolo de pesquisa.

Seguimento dos eventos cardiovasculares

Os dados de seguimento foram obtidos de pelo menos uma das três fontes:

1) consulta de rotina no ambulatório especializado,

2) telefonema para o paciente ou parente questionando sobre o estado de saúde do paciente ou

3) revisão do prontuário do paciente.

No nosso protocolo, foram considerados como eventos cardiovasculares: morte cardíaca (definida por dois cardiologistas em consenso após revisão dos dados disponíveis); infarto agudo do miocárdio (elevação enzimática 3x o valor normal, associada a quadro agudo de dor torácica e/ou alteração do ECG compatível com isquemia miocárdica); acidente vascular cerebral (diagnóstico clínico ou por método de imagem); doença vascular periférica grave ou gangrena (isquemia de membros grave que levou a procedimento cirúrgico associado); angina instável (dor torácica típica, alteração de ECG compatível com isquemia miocárdica em pacientes com probabilidade no mínimo intermediária de DAC); insuficiência cardíaca congestiva (diagnóstico clínico e ecocardiograma indicando redução da fração de ejeção do VE); e edema agudo de pulmão (diagnóstico clínico e radiografia do tórax evidenciando edema pulmonar intersticial).

Análise de dados

Análise do escore de cálcio

Escores de cálcio total, segundo o método descrito por Agatston e cols.9, foram obtidos para cada paciente (figura 1) em workstation Vitrea™2, versão 3,5 - Vital Images Inc, Plymouth, MN, EUA. Na análise das imagens de escore de cálcio, utilizamos duas medidas: a do escore de Agatston9 e a do volume de cálcio. O escore de Agatston tem sido o mais utilizado na literatura e mantém relação com doença coronária e mesmo com DAC obstrutiva quando em níveis muito elevados (percentil acima de 75% ou 90%).

 

 

Angiografia coronária quantitativa ou QCA

Um observador experiente na técnica de QCA e que não participou da análise da TCMD, também de forma cega e independente, analisou todas as ACI aplicando a técnica da QCA (Coronary Analysis Angiographic System - CASS II, Pie Medical Imaging BV ™, Maastricht, The Netherlands)11-14.

Assim sendo, o diâmetro de cada estenose visualmente tida como pelo menos intermediária (> 50%) foi objetivamente designado em valores porcentuais relativos ao chamado "diâmetro de referência" (diâmetro do segmento do mesmo vaso que se encontrava livre de doença e se localizava em posição imediatamente proximal à lesão), sendo determinado em duas direções ortogonais, com a média entre eles estabelecendo a gravidade final da estenose.

Todas as lesões com diâmetro de referência > 1,5 mm foram incluídas na análise comparativa deste estudo. Caso o mesmo segmento da artéria principal ou ramo de primeira ordem possuíssem mais de uma estenose significativa, apenas a estenose mais grave era comparada à sua correspondente pela TCMD10,15,16.

Análise estatística

As variáveis descritivas foram expressas como médias e um desvio-padrão e medianas, se apropriado. Por ter apresentado uma curva de distribuição assimétrica, os níveis de calcificação arterial coronariana foram expressos por suas medianas, percentis e valores extremos.

A fim de estabelecermos as medidas de acurácia diagnóstica da TCMD, lançamos mão de uma clássica tabela 2x2.

O teste exato de Fisher foi utilizado para calcular as medidas de acurácia diagnóstica da TCMD, comparada à QCA, no que diz respeito à identificação de estenoses coronarianas com diâmetros > 50% e > 70%. Para comparação dos diferentes escores de cálcio coronariano obtidos pela TCMD nos respectivos territórios, utilizamos o teste de Mann-Whitney.

Ainda foram utilizadas curvas de Kaplan-Meier para a análise de taxa de eventos no tempo em diversos subgrupos. Todas as análises realizadas no programa estatístico Stata™/SE 8 (StataCorp LP, College Station, TX).

 

Resultados

A nossa amostra de pacientes com IRC apresentou escore de Agatston médio de 580,6 ± 1.102,2. Os valores mínimos e máximos foram 0 e 7.994. Dos 97 pacientes com escore de cálcio analisados, apenas 14 pacientes não tinham nenhuma calcificação coronariana detectável, isto é, escore de cálcio de zero. São apresentados também na tabela 2 os valores de escore e volume total para toda a árvore coronária e para cada território coronariano específico, com suas médias, desvios padrões, mediana, valores mínimos e máximos em cada categoria. Os valores dos percentis para idade e sexo encontram-se na tabela 3. Os valores médios dos percentis para idade, sexo e etnia, baseado no estudo MESA (Multiethnic Study of Atherosclerosis) são referidos como MESA, na tabela 3.

 

 

A distribuição do ECC é significativamente assimétrica, sendo assim, relatamos a mediana do escore total de Agatston e a sua distribuição por percentis (tabela 3).

Com relação à etnia dos pacientes, não houve diferença significativa dos ECCs médios entre os grupos étnicos: brancos (698,5±1.309, mediana 205, n=64); negros (389,0±761,80, mediana 158, n=10); orientais (728,1±1045, mediana 272,5, n=8); pardos ou mestiços (217,3±350,0, mediana 37, n=22); com p = 0,36 pelo teste não paramétrico de Kruskal-Wallis.

Escore de cálcio versus estenose coronariana

Comparamos o grau de calcificação entre os pacientes com ou sem coronariopatia obstrutiva significativa (estenose >70%). Pelo cateterismo demonstrou-se que o escore de Agatston é significativamente maior no grupo com DAC significativa no cateterismo, pelo teste de Wilcoxon (tabela 2). O tempo decorrido entre a realização da TCMD e da ACI foi em média de 99,03 dias com desvio padrão de 87,65 dias e mediana de 79 dias. O intervalo mínimo foi de 2 dias e o máximo de 380 dias, sendo apenas 2 casos acima de um ano e 16 casos com intervalo superior a seis meses.

Avaliamos o percentual de pacientes com estenose coronária > 50% e > 70% pela ACI nos diversos extratos de ECC. Observamos um crescimento progressivo, linear e significativo entre o percentual de pacientes com DAC e o grau de calcificação coronária (figura 2). Os pacientes com estenose pela ACI >50% foram 55/97 (57%) e os pacientes com estenose >70% foram 25/97(26%).

 

 

Na análise da calcificação coronariana versus a ACI, observamos que para estenoses > 50% e > 70%, o limiar de 400 de escore de Agatston se associou estatisticamente a maior proporção de pacientes com estenoses significantes (p < 0,001, pelo qui-quadrado, figura 2).

A análise regional do escore de cálcio também revelou as mesmas diferenças observadas para o escore global, exceto no TCE. Assim, os escores regionais foram significativamente maiores em segmentos com estenoses > 50% e 70% quando comparados com aqueles segmentos sem estenoses.

A acurácia do escore de cálcio para diagnosticar a estenose coronária também foi avaliada pelo uso do percentil do estudo MESA no limiar do percentil 75, e é demonstrada na tabela 4.

Dos 14 pacientes com escore e cálcio zero: quatro (28%) apresentaram estenose >50% na ACI e apenas dois (14%) estenose > 70%. Utilizando o escore de cálcio de forma binária, igual a zero ou maior que zero, para predizer a estenose coronariana, obtivemos na nossa amostra um valor preditivo negativo de 71% para estenose >50% e 86% para estenose >70%.

Escore de cálcio - capacidade preditiva da estenose coronariana

Investigamos, usando regressão logística e construindo curvas ROC (receiver-operating characteristics), se o escore de cálcio consegue prever a presença de estenose coronariana na ACI.

Avaliamos a acurácia do escore de cálcio pela análise da curva ROC tanto para o limiar de estenose de 50% (área sob a curva de 0,75) como de 70% (área sob a curva de 0,70), definidos pela ACI (figura 3, painel A para o limiar de 50% e B para o limiar de 70%).

Baseado na regressão logística e nas curvas ROC acima, podemos afirmar que o escore de cálcio consegue prever a presença de uma estenose coronariana >50% pela ACI, no melhor limiar de 186,53, com acurácia de 66%, sensibilidade 65%, especificidade 66%, valor preditivo positivo 72%, e valor preditivo negativo 60% (p=0,01).

Da mesma forma, o escore de cálcio consegue prever a presença de uma estenose coronariana >70% pela ACI, no melhor limiar de 1.330,72, com acurácia de 65%, sensibilidade 64%, especificidade 65%, valor preditivo positivo 39%, e valor preditivo negativo 84% (p=0,01).

Os limiares acima também foram aqueles que apresentaram os melhores valores preditivos negativos possíveis, podendo assim responder a questão de qual nível de escore de cálcio pode prever ausência de estenose significativa.

Escore de cálcio versus eventos cardiovasculares

O tempo médio de seguimento para avaliação de eventos na nossa população foi de 29,1±11,0 meses, com mediana de 31 meses e seguimento mínimo de 3 meses e máximo de 43 meses. Os eventos observados e suas frequências absolutas foram: infarto agudo do miocárdio (oito), acidente vascular cerebral (cinco), doença vascular periférica grave ou grangrena (quatro), angina instável (duas), morte súbita (duas), insuficiência cardíaca congestiva (uma) e edema agudo de pulmão (um). O total de eventos foi de 23. Dos 97 pacientes, 23 casos apresentaram eventos, perfazendo 23,7% da nossa amostra. Não apresentaram eventos 71 pacientes e houve perda de seguimento em três casos.

Com relação à predição de eventos que o ECC pudesse ter nesta população, observamos que o percentil do estudo MESA dessa população não foi preditivo significativamente de eventos, tanto no limiar de 75% como no limiar de 90%.

Ainda na análise de eventos, testamos o escore de cálcio como preditor de eventos em vários limiares de corte: 0 (presença ou ausência), 10, 100 e 400. O limiar de escore de cálcio de 400 mostrou curvas de Kaplan-Meier com taxa de eventos significativamente diferentes, mostrada na figura 4.

 

 

Discussão

Este foi o primeiro trabalho a demonstrar que a TCMD fornece informações prognósticas nos pacientes com IRC, candidatos a transplante renal.

O ECC apresentou correlação com a presença de estenose e boa performance diagnóstica com relação à ACI para detecção de estenose, e mostrou poder prognóstico para o nível de corte de 400 de escore Agatston na nossa população.

Observaram-se escores médios bastante elevados. Escores acima de 300 ou 400 são relatados na literatura em pacientes sem IRC como sendo associados à alta probabilidade de DAC obstrutiva e ao alto risco de eventos cardiovasculares17,18. Nos pacientes com IRC dialítica, é relatada uma magnitude 2,5 vezes maior de calcificação coronariana19-22, muito embora essa calcificação aumentada tenha sido relacionada mais aos fatores de risco tradicionais para DAC aumentados nessa população, do que a fatores relacionados à função renal ou à diálise23. É descrita uma calcificação vascular relacionada à diálise, chamada arteriopatia urêmica, caracterizada por calcificação difusa da camada média de artérias de pequeno a médio diâmetro e arteríolas, com proliferação intimal e trombose, que pode causar úlceras e necrose de pele. O quanto esse mecanismo pode influenciar na calcificação das artérias coronárias nesse grupo de pacientes não está completamente esclarecido24.

Embora tenha sido observada em pacientes da população geral uma correlação apenas parcial entre a calcificação e a obstrução coronária18, houve uma correlação e acurácia diagnósticas boas entre o escore de cálcio e a estenose coronária pela TCMD e pela ACI no grupo de pacientes com IRC. O percentil de 75% do estudo MESA mostrou sensibilidade de 82% e 84% para detecção de DAC com lesão obstrutiva > 50% e 70%, respectivamente. Esse resultado nos parece extremamente encorajador do uso dessa técnica simples, com baixa radiação e sem uso de contraste. Esses níveis de sensibilidade não são habitualmente atingidos, nem mesmo por exames com estresse farmacológico, como a cintilografia e o ecocardiograma. Em um estudo do nosso grupo, utilizando a ressonância magnética cardiovascular com estresse com dipiridamol e a cintilografia, obtivemos sensibilidade de 84% e 66%, respectivamente, nesse grupo de pacientes25. Não obstante, tanto a ressonância como os outros métodos de estresse são exames mais complexos, demorados, dispendiosos, e com maior risco para o paciente que o escore de cálcio.

A utilização do escore de cálcio absoluto rendeu valores de sensibilidade menores do que aquele atingido pelo percentil 75%. Assim, concluímos que o uso do percentil 75% do estudo MESA foi mais acurado para a detecção de DAC que o escore de cálcio em número absoluto. A melhor acurácia do escore de cálcio absoluto para detecção de estenose >50% na ACI foi de 186. Esses valores limiares apresentaram o melhor valor preditivo negativo possível nessa amostra, e dessa forma, nossos dados indicam que um escore de cálcio <186 ou abaixo do percentil 75% pode afastar a suspeita de estenose coronariana significativa com probabilidade próxima a 90% nesse grupo de pacientes.

Assim, a utilidade do escore de cálcio parece ser ainda mais significativa no grupo de pacientes com IRC. Essa correlação se mostrou verdadeira tanto para o escore de Agatston global como regional. Podemos ainda lembrar que, em pacientes com alto grau de calcificação, a angiotomografia de coronárias pode ser limitada na avaliação da redução luminal, muito embora técnicas especiais e observadores experientes possam tornar essa avaliação útil clinicamente26.

Os dados da literatura têm indicado o escore de cálcio muito mais como preditor de eventos cardiovasculares do que da estenose coronária em pacientes da população geral17. O estudo MESA recentemente confirmou esse dado nas várias etnias27, reforçando o papel prognóstico do escore de cálcio. No nosso estudo, a correlação do cálcio com eventos nos pacientes com IRC mostrou-se significativa para o nível de 400 de escore de Agatston, sugerindo que este possa ser usado como um limiar de predição prognóstica. Assim, nossos dados sugerem que, no grupo de pacientes com IRC, o escore de cálcio tem valor preditivo não só para eventos como também para a detecção de estenose coronária, diferentemente da população geral. Nesse aspecto, uma limitação deste estudo foi a presença de sete pacientes com infarto miocárdico prévio, o que pode ter elevado o poder diagnóstico do teste nessa população. Porém, em análise de sensibilidade, excluindo-se esses pacientes, não houve alteração significativa na performance diagnóstica do escore de cálcio no nosso grupo.

Por outro lado, nosso estudo utilizou uma metodologia avançada, recentemente descrita para a segmentação da árvore coronariana e análise estatística28, que representa uma evolução no método científico nesse campo e foi utilizada por nós em estudo multicêntrico de grande impacto29.

Algumas importantes implicações de uso clínico podem ser derivadas dos nossos resultados em associação com os dados da literatura e do nosso grupo.

Tendo em vista o alto índice de ACI na qual o resultado é ausência de DAC ou DAC não obstrutiva (aproximadamente 40%)30, associado às características de excelente perfil de segurança do escore de cálcio, seu baixo custo e a boa sensibilidade demonstrada pelos nossos resultados nos pacientes com IRC, sugere-se que este possa ser um instrumento com uma boa relação custo-efetividade na detecção de DAC. A avaliação da relação custo-efetividade não foi objetivo deste trabalho, sendo que esse dado precisa ser investigado por trabalhos futuros, diretamente voltados para essa análise.

 

Conclusão

Podemos afirmar que o escore de cálcio pela tomografia computadorizada apresentou boa capacidade diagnóstica para predizer estenose coronariana (percentil 75 ou 186 no valor absoluto), e prognóstica na predição de eventos cardiovasculares (no valor absoluto de 400) em pacientes com insuficiência renal.

Potencial Conflito de Interesses

Declaro não haver conflito de interesses pertinentes.

Fontes de Financiamento

O presente estudo foi financiado pela FAPESP e Fundação Zerbini.

Vinculação Acadêmica

Este artigo é parte de tese de doutorado de Miguel Abraão Rosário pelo Instituto do Coração (Incor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

 

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Correspondência:
Carlos E. Rochitte
Instituto do Coração - InCor
Setor de Ressonância Magnética Cardiovascular
Av. Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, 44 - Andar AB - Cerqueira César
05403-000 - São Paulo, SP - Brasil
E-mail: rochitte@incor.usp.br

Artigo recebido em 10/06/08; revisado recebido em 19/02/09; aceito em 27/03/09.

 

 

* Ambos os autores contribuíram igualmente para este manuscrito