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Iheringia. Série Zoologia

Print version ISSN 0073-4721

Iheringia, Sér. Zool. vol.96 no.2 Porto Alegre June 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0073-47212006000200003 

Maturidade sexual das fêmeas de Callinectes danae (Crustacea, Decapoda, Portunidae) nos estuários dos rios Botafogo e Carrapicho, Itamaracá, PE, Brasil

 

Sexual maturity of females of Callinectes danae (Crustacea, Decapoda, Portunidae) in the estuaries of the Botafogo and Carrapicho rivers, Itamaracá, PE, Brazil

 

 

Aline do Vale BarretoI; Luciana de Matos A. Batista-LeiteII; Mônica C. A. AguiarI

ILaboratório de Carcinologia, Departamento de Oceanografia, Universidade Federal de Pernambuco, Av. Arquitetura, Cidade Universitária, 50790-540 Recife, Pernambuco, Brasil. (avb@ufpe.br; almeidaguiar@ig.com.br)
IIDepartamento de Pesca e Aqüicultura, Universidade Federal Rural de Pernambuco, R. Dom Manoel de Medeiros s/n, Dois Irmãos, 52171-900 Recife, Pernambuco, Brasil. (luciana_matos@ig.com.br)

 

 


RESUMO

Callinectes danae (Smith, 1869), siri-azul, constitui um importante recurso pesqueiro nos estuários dos rios Botafogo e Carrapicho. O objetivo do presente estudo foi estimar a maturidade sexual das fêmeas de C. danae. Os espécimes foram capturados, entre outubro de 2003 a junho de 2004, com auxílio de um barco de pesca equipado com rede de arrasto do tipo "wing-trawl" e arrastados durante 5 minutos. No laboratório, os siris foram contados, numerados, sexados, pesados e mensurados. A largura da carapaça (LC) foi medida na base do espinho lateral e a largura do abdome (LA) mensurada na altura da articulação do quinto esternito abdominal. Um total de 596 fêmeas de C. danae foram analisadas: 417 (69,97%) no rio Botafogo e 179 (30,03%) no Carrapicho; as fêmeas não-ovígeras apresentaram LC de 18,38 a 101 mm (59,14 ± 13,65 mm) e 26,70 a 83,48 mm (59,16 ± 13,77 mm), nos respectivos rios; a LC de fêmeas ovígeras foi de 57,04 a 83,30 mm (67,68 ± 6,56 mm). As médias de larguras das carapaças não apresentaram diferenças estatisticamente significativas O conhecimento da maturidade sexual das fêmeas de Callinectes danae é de grande importância para o seu manejo e conservação. O L50 gonadal foi estimado em 63,58 mm (c2 = 140,47; g.l. = 1; p < 0,01) e 61,59 mm (c2 = 90,94; g.l. = 1; p < 0,01) e o L50 morfológico foi de 57,13 mm (c2 = 484,51; g.l. = 1; p < 0,01) e 56,46 mm (c2 = 257,82; g.l. = 1; p < 0,01), nos estuários dos rios Botafogo e Carrapicho, respectivamente. Em ambos os estuários, a maturidade morfológica de fêmeas de C. danae ocorreu antes da maturidade gonadal e para garantir que esta espécie seja manejada com êxito, sugere-se que a pesca seja permitida apenas em indivíduos com largura da carapaça superior a 65 mm.

Palavras-chave: Callinectes danae, siri-azul, maturidade sexual, estuário, Pernambuco.


ABSTRACT

Callinectes danae (Smith, 1869) is an important fishery resource in the Botafogo and Carrapicho river estuaries. The aim of this study was to estimate the sexual maturity of C. danae. Specimens were captured between October 2003 and June 2004 with the aid of a fishing boat equipped with a wing-trawl and trawling took place during 5 minutes each time. In the laboratory, the crabs were counted, numbered, sexed, weighed, and measured. The carapace width (CW) was measured at the base of the lateral spine and the abdomen width (AW) was measured at the point of the articulation of the fifth abdominal esternite. A total of 596 females of C. danae were analyzed: 417 (69.97%) from Botafogo River and 179 (30.03%) from Carrapicho River; no ovigerous females had CW between 18.38 and 101 mm (59.14 ± 13.65 mm) and 26.70 and 83.48 mm (59.16 ± 13.77 mm), in the respective rivers; the CW of ovigerous females ranged from 57.04 to 83.30 mm (67.68 ± 6.56 mm). The average carapace widths were not significantly different statistically in both estuaries. The knowledge of sexual maturity of C. danae is extremely important for its management and conservation. The gonadal L50 was estimated in 63.58 mm (c2 = 140.47; df = 1; p < 0.01) and 61.59 mm (c2 = 90.94; df = 1; p < 0.01) for the estuaries of the Botafogo and Carrapicho rivers, respectively. The morphological L50 was 57.13 mm (c2 = 484.51; df = 1; p < 0.01) for the Botafogo River and 56.46 mm (c2= 257.82; df = 1; p < 0.01) for the Carrapicho River. In both estuaries, the morphological maturity of C. danae females occurred before gonadal maturity; thus, to guarantee that this species be managed successfully, fishing must only be allowed for specimens with carapace width over 65 mm.

Keywords: Callinectes danae, blue crab, sexual maturity, estuary, Pernambuco.


 

 

Callinectes danae Smith, 1869, conhecido como siri-azul, siri-açú ou siri-tinga, é um braquiúro pertencente à família Portunidae. Distribui-se no Atlântico Ocidental Bermudas, Flórida, Golfo do México, Antilhas, Colômbia, Venezuela, Brasil (Pará, Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul) e Argentina. Ocorre desde águas salobras até hipersalinas; em manguezais e estuários, praias arenosas e mar aberto, da zona entremarés até 75 metros de profundidade (COELHO & RAMOS-PORTO, 1992; MELO, 1996; VIANA et al., 2003). Em diversas publicações (PEREIRA-BARROS & TRAVASSOS, 1972; PEREIRA-BARROS, 1980; PITA et al., 1985; BRANCO & MASUNARI, 2000), há relatos que a maioria das fêmeas ovígeras de C. danae migram para o mar aberto, ficando longe dos machos nesse período. A predominância dos machos ocorre apenas na época de acasalamento. Essa migração para desova e eclosão das larvas tem sido associada com a necessidade de águas mais salinas para o desenvolvimento embrionário.

A ontogenia em crustáceos é marcada por mudanças morfológicas causadas pelo crescimento diferenciado de certos tagmas. O aparecimento dos caracteres secundários surge com a passagem da fase juvenil para a adulta (HARTNOLL, 1978), podendo ter ou não sincronia com a maturidade gonadal (fisiológica) (SASTRY, 1983). A maturidade sexual de C. danae tem sido estudada por diversos autores (PEREIRA-BARROS, 1980; PITA et al., 1985; BRANCO & THIVES, 1991; MEDEIROS & OSHIRO, 1992; COSTA & NEGREIROS-FRANSOZO, 1998; BRANCO & MASUNARI, 2000). As mudanças morfológicas causadas pelo início da maturidade, nos portunídeos, foram observadas por CHOY (1988) e EL-HAMID (1988). Nas fêmeas de Callinectes ornatus Ordway, 1863, as mudanças nas dimensões dos quelípodos anunciam o aparecimento das gônadas, o que é seguido pelas mudanças no desenvolvimento abdominal, com desenvolvimento paralelo dos ovários (HAEFNER, 1990).

Em crustáceos, a relação alométrica entre o tamanho do corpo e vários órgãos tem sido utilizada para estimar o tamanho na maturidade, assumindo que os caracteres sexuais secundários aparecem e crescem a diferentes taxas nas fases imatura e madura. A fase transicional em braquiúros envolve mudanças morfométricas e morfológicas que podem ser detectadas pela inflexão ou descontinuidade em séries de relações curvilíneas ou lineares de análise bivariada (HAEFNER, 1990). Nas fêmeas de caranguejo, o critério morfológico (largura do abdome) é a medida mais freqüentemente usada para detectar o início da maturidade sexual (HARTNOLL, 1974; PINHEIRO & FRANSOZO, 1993). Entretanto, para averiguar o tamanho da maturidade sexual, outros critérios precisam ser empregados, porque a maturidade morfométrica nem sempre pode corresponder à maturidade funcional (WENNER et al., 1974; OH & HARTNOLL, 1999).

O critério gonadal (maturidade fisiológica) é também um indicador potencial do tamanho da maturidade, e tem sido associado com mudanças alométricas (KNUDSEN, 1960; HARTNOLL, 1974, 1982; HAEFNER, 1990). Então, o uso de mais do que um método para determinar o tamanho da maturidade parece ser apropriado, particularmente se estes métodos são utilizados para estipular o tamanho mínimo legal de espécies explotadas comercialmente (HAEFNER, 1990; ALUNNO-BRUSCIA & SAINTE-MARIE, 1998; OVERTON & MACINTOSH, 2002; LEME, 2005).

A carcinofauna do Canal de Santa Cruz e áreas adjacentes tem sido investigada por diversos autores, merecendo destaque os trabalhos de SOARES (1979), RAMOS-PORTO (1980), COELHO & SANTOS (1990), COELHO (2000), SANTOS & COELHO (2001), MOURA & COELHO (2002, 2004) e MOURA et al. (2002), que abordam estudos taxonômicos, biológicos e ecológicos. Esta pesquisa é uma contribuição pioneira no que se refere à maturidade sexual das fêmeas do siri-azul, para o estado de Pernambuco.

A captura dirigida aos siris na região Nordeste do Brasil ocorre de forma bastante artesanal, utilizando-se embarcações não-motorizadas e com aparelhos de pesca dos tipos puçá, rede-de-arrasto e rede-de-espera. Na pesca motorizada, os siris são capturados como fauna acompanhante, principalmente, na pesca do camarão (COELHO & SANTOS, 2004). Os siris do gênero Callinectes são um dos recursos que tem ampla aceitação no mercado regional do Nordeste. A espécie, em função disso, é muito explorada na pesca artesanal em vários locais, constituindo-se num importante produto para a economia da região. Torna-se necessária e urgente a realização de estudos científicos desta natureza, a fim de fundamentar a criação de portarias que regulamentem a pesca na referida região.

No Brasil, a captura de Callinectes é uma das atividades mais antigas de extrativismo e muitas comunidades tradicionais ainda sobrevivem dessa prática. A Portaria nº N-024 de 26 de julho de 1983 (IBAMA, 1983) regulamenta a exploração das espécies C. danae e Callinectes sapidus Rathbun, 1896 em águas territoriais brasileiras, proibindo em qualquer época do ano a captura, a industrialização e a comercialização de fêmeas ovígeras e de indivíduos de ambos os sexos com largura da carapaça inferior a 12 cm.

A presente pesquisa se propõe a estimar a maturidade morfológica e gonadal das fêmeas de C. danae nos estuários dos rios Botafogo e Carrapicho, Itamaracá, Pernambuco.

 

MATERIAL E MÉTODOS

O Canal de Santa Cruz (Fig.1) está situado no sistema estuarino de Itamaracá, entre 7º40'- 7º50'S e 34º50'- 34º54'W, nos municípios de Itapissuma, Itamaracá e Goiana, litoral norte do Estado de Pernambuco, Brasil. Comunica-se com o mar ao norte, pela Barra de Catuama e ao sul pela Barra Sul ou Orange. Este estudo foi realizado no segmento norte deste canal que apresenta largura e batimetria variada, diversos bancos de areia que afloram na baixamar e vales submersos em forma de V, onde a profundidade máxima atinge 20 metros, próximo à desembocadura do rio Carrapicho. Este e o Botafogo, juntamente com Catuama e Congo, são os principais rios da região. A contínua movimentação das águas através das barras norte e sul, proporciona uma periódica renovação do ecossistema, impossibilitando o aparecimento de áreas poluídas (MACÊDO et al., 2000).

 

 

As fêmeas de C. danae foram capturadas nos estuários dos rios Carrapicho e Botafogo, entre 7º39, 334' S - 34º51, 987' W a 7º43, 002' S - 34º53, 577' W, de outubro de 2003 a junho de 2004, com auxílio de um barco de pesca, equipado com rede do tipo "wing-trawl" (13 mm de malha de panagem; 5 mm no saco), em seis coletas durante 5 minutos de arrasto. Após cada coleta, os indivíduos foram separados das demais espécies e acondicionados em sacos plásticos, etiquetados e mantidos em freezer até o processamento dos dados. No laboratório, os siris foram identificados segundo WILLIAMS (1984), contados, numerados, sexados, pesados em balança de precisão (0,01 g) e a largura da carapaça (LC) medida na base do espinho lateral e a largura do abdome (LA) mensurada na altura da articulação do quinto esternito abdominal com auxílio de um paquímetro de aço (0,02 mm).

Os estágios de maturidade morfológica das fêmeas jovens e adultas de C. danae foram diferenciados pelo formato e aderência do abdome aos esternitos torácicos, sendo triangular e selado nos indivíduos jovens e semicircular e não-selado nos adultos.

Para a análise do estágio de desenvolvimento gonadal, todas as fêmeas tiveram as respectivas carapaças removidas na região dorsal. Os ovários foram analisados macroscopicamente, anotando-se seus estágios de desenvolvimento, baseando-se na coloração, forma e tamanho em relação ao hepatopâncreas e cavidade torácica (COSTA & NEGREIROS-FRANSOZO, 1998).

Seguindo os padrões descritos para outros braquiúros por vários autores (HAEFNER, 1976; JOHNSON, 1980; CHOY, 1988; ABELLÓ, 1989 a, b) e conforme COSTA & NEGREIROS-FRANSOZO (1998), foram estabelecidos para C. danae cinco estágios de maturação, de acordo com a morfologia e desenvolvimento das gônadas: imaturo (IM), ovários indiferenciados e translúcidos; rudimentar (RU), ovários ainda não-desenvolvidos, com aspecto de um filamento delgado esbranquiçado a róseo; em desenvolvimento (ED), que caracteriza o início da maturação, sendo os ovários pequenos, de coloração rosa-claro a laranja-claro; intermediário (I), coloração alaranjada, ocupando aproximadamente a metade da cavidade cefalotorácica, e avançado (AV), com coloração laranja brilhante a vermelha, mais granulado que o estágio anterior e preenchendo a maior parte da cavidade torácica.

Para estimar o tamanho em que 50% da população de fêmeas atinge a primeira maturidade sexual (L50), foram considerados dois grupos: jovens (estágios imaturos e rudimentares) e adultos (estágios em desenvolvimento, intermediário e avançado), conforme BARRETO et al. (2003). Uma vez que 94% das fêmeas que se encontravam no estágio em desenvolvimento apresentavam abdome semicircular e não-selado (morfologicamente maduros), elas foram incluídas como adultas. O método utilizado para estimar o L50 consiste em se relacionar as freqüências relativas de indivíduos adultos por classe de comprimento. O tamanho mínimo da primeira maturidade morfológica foi obtido pelo programa computacional Mature I (SOMERTON, 1980), conforme os trabalhos de PINHEIRO & FRANSOZO (1998), TAPELLA et al. (2002) e BENETTI & NEGREIROS-FRANSOZO (2003), com base na relação entre a largura da carapaça e do abdome. Na estimativa do L50 morfológico e gonadal, utilizou-se a equação da curva logística do programa Statistica, versão 6.0 (STATSOFT, 2001) e foi aplicado o Teste de Verossemelhança "Likelihood", com a = 0,05. Para verificar possíveis diferenças nas médias de largura da carapaça entre as fêmeas dos estuários dos rios Botafogo e Carrapicho, foi utilizado o Teste t de Student, a = 0,05.

 

RESULTADOS

Um total de 596 fêmeas de C. danae foram analisadas, sendo 417 (69,97%) capturadas no rio Botafogo e 179 (30,03%) no rio Carrapicho. As populações de fêmeas não-ovígeras apresentaram tamanho médio de 59,14 ± 13,65 mm e 59,16 ± 13,77 mm (Tab. I). Todavia, estas médias não apresentaram diferenças significativas. Foram coletadas 31 fêmeas ovígeras em ambos os estuários, com largura da carapaça média de 67,68 ± 6,56 mm, mínima de 57,04 mm e máxima de 83,30 mm. Os dados de fêmeas ovígeras não foram apresentados na tabela I, porque no rio Botafogo foi capturado apenas um indivíduo.

 

 

A maturidade gonadal nos estuários dos rios Botafogo e Carrapicho foi estimada com um L50 de 63,58 mm (c2 = 140,47; g.l. = 1; p < 0,01) e 61,59 mm (c2 = 90,94; g.l. = 1; p < 0,01), respectivamente (Figs. 2, 3). O L50 da maturidade morfológica, entretanto, foi de 57,13 mm (c2 = 484,51; g.l. = 1; p < 0,01) para o rio Botafogo e 56,46 mm (c2 = 257,82; g.l. = 1; p < 0,01) para o rio Carrapicho (Figs. 4, 5).

 

 

 

 

 

 

 

 

No rio Botafogo, verificou-se que 246 (58,99% do total) indivíduos capturados apresentavam largura da carapaça inferior ao L50 de 63,58 mm, enquanto no rio Carrapicho, apenas 83 (46,37% do total) indivíduos estavam com largura da carapaça discretamente abaixo do L50 de 61,59 mm.

As maturidades morfológicas e gonadais das fêmeas de C. danae são assincrônicas e, para garantir o sucesso do manejo desta espécie, sugere-se que a pesca tenha acesso apenas aos indivíduos de uma faixa de largura da carapaça superior a 65 mm nos estuários dos rios Botafogo e Carrapicho.

 

DISCUSSÃO

As fêmeas de C. danae apresentaram cinco estágios gonadais, corroborando os dados obtidos por COSTA & NEGREIROS-FRANSOZO (1998).

Segundo CAMPBELL & FIELDER (1986), o tamanho com o qual os caranguejos atingem a maturidade sexual e o tempo em que uma fêmea alcança a muda puberal são aspectos importantes na biologia reprodutiva e o conhecimento desse aspecto tem implicações no controle de populações exploradas comercialmente. PITA et al., (1985), trabalhando no complexo Baía-Estuário de Santos (SP), verificaram que as fêmeas de C. danae atingiram a maturidade sexual aos 55 mm. BRANCO & THIVES (1991) encontraram no manguezal do Itacorubi (SC) fêmeas sexualmente maduras com 88,80 mm de largura da carapaça. BRANCO & MASUNARI (2000) constataram que, na Lagoa da Conceição, Florianópolis (SC), o tamanho da largura da primeira maturação sexual de fêmeas era de 84,00 mm e recomendaram que este deve ser o tamanho limite para pesca. MEDEIROS & OSHIRO (1992), estudando exemplares da Baía de Sepetiba (RJ), registraram um L50 de 64 mm. No presente estudo, verificou-se que as fêmeas de C. danae atingiram a maturidade sexual com menor tamanho, 63,58 mm (estuário do rio Botafogo) e 61,59 mm (estuário do rio Carrapicho), do que os encontrados nas regiões Sul e Sudeste do Brasil. O tamanho oficial estabelecido pela portaria nº N-024 de 26 de julho de 1983 (IBAMA, 1983), entretanto, encontra-se acima dos valores estimados para a maturidade sexual, sendo provavelmente necessária a revisão desta portaria, estabelecendo-se o tamanho limite para pesca embasado, também, em trabalhos mais recentes.

A média da largura da carapaça da população de fêmeas de C. danae capturadas no rio Botafogo foi inferior ao valor estimado do L50. Todavia, as fêmeas do rio Carrapicho apresentaram maturidade sexual um pouco acima da média populacional. É importante frisar que, na área em estudo, a pesca dos siris efetuadas com rede do tipo "wing-trawl" (13 mm de malha de panagem; 5 mm no saco) incidiu na população de indivíduos ainda não sexualmente maduros e naquelas que atingiram a maturidade recentemente.

As fêmeas ovígeras encontradas neste estudo apresentaram a média de largura da carapaça corroborando o L50 estimado para a população. O tamanho mínimo (57,04 mm) e máximo (83,30 mm) de largura da carapaça das fêmeas ovígeras encontradas foram inferiores aos obtidos por BRANCO & AVILAR (1992) na Lagoa da Conceição, SC, onde estas foram representadas com LC mínima de 75 mm e máxima de 110 mm. Esta diferença nos padrões reprodutivos pode variar de acordo com as condições fisiológicas das fêmeas, sazonalidade, latitude e condições ambientais (JENSEN, 1958; VALENTI et al., 1989).

O aparecimento dos caracteres secundários ocorre com a passagem da fase jovem para a adulta (HARTNOLL, 1978), podendo ter ou não sincronia com a maturidade gonadal. Este fato foi confirmado, pois tanto no rio Carrapicho como no rio Botafogo a maturidade morfológica ocorreu antes da maturidade gonadal, uma vez que as espermatecas (estruturas responsáveis pelo armazenamento de espermatóforos) já estavam bem desenvolvidas em alguns indivíduos fisiologicamente imaturos, indicando um provável acasalamento. Segundo HARTNOLL (1969), as fêmeas de portunídeos normalmente acasalam logo após a muda da puberdade, ou seja, quando ainda estão em pós-muda recente.

Agradecimentos. À Dra. Rosângela Lessa e sua equipe, do Departamento de Pesca da Universidade Federal Rural de Pernambuco, por disponibilizar o material bentônico proveniente do Projeto Instituto do Milênio "Recos".

 

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Recebido em abril de 2005. Aceito em janeiro de 2006.