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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234On-line version ISSN 1980-220X

Rev. esc. enferm. USP vol.43 no.3 São Paulo Sept. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342009000300002 

ARTIGO ORIGINAL

 

Vivências de aprendizagem do cuidado na formação da enfermeira*

 

Vivencias de aprendizaje del cuidado en la formación de enfermera

 

 

Luciana Spinato De BiasiI; Eva Neri Rubim PedroII

IMestre em Enfermagem. Mestre em Ciências da Saúde Humana. Docente da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões. Erechim, RS, Brasil. lucianadb@uri.com.br
IIDoutora em Educação. Professora Adjunta da Escola de Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, RS, Brasil. evaneri@terra.com.br

Correspondência

 

 


RESUMO

Estudo qualitativo, exploratório-descritivo, com o objetivo de conhecer o processo de aprendizagem do cuidado em relação às vivências dos alunos do sétimo semestre de um curso de Enfermagem no interior do Rio Grande do Sul, no período entre abril e junho de 2007. A coleta de dados foi realizada pela técnica do grupo focal, e a análise das informações, pela análise temática de conteúdo. A análise evidenciou um tema, Refletindo sobre a Formação, e três categorias: Visão da Enfermeira: o conhecimento da profissão; O processo de formação: a aprendizagem do cuidado; e Expectativas com a finalização do curso. Os resultados apontaram que a temática do cuidado permeou as vivências dos alunos, de maneira implícita e explícita, porém sem uma fundamentação teórica e filosófica consistente.

Descritores: Enfermagem. Cuidados de enfermagem. Educação em enfermagem. Ensino.


RESUMEN

Estudio cualitativo exploratorio descriptivo con el objetivo de conocer el proceso de aprendizaje del cuidado en relación a las vivencias de los alumnos del séptimo semestre de un curso de Enfermería en el interior del Rio Grande do Sul, en el periodo entre abril y junio de 2007. La colecta de datos fue realizada por la técnica del grupo focal y el análisis de las informaciones por el análisis temático de contenido que evidenció un tema y tres categorías: Reflexionando sobre la Formación. Visión de la Enfermería: el conocimiento de la profesión; El proceso de formación: el aprendizaje del cuidado y Expectativas con la finalización del curso. Los resultados apuntaron que temática del cuidado ha traspasado las vivencias de los alumnos, de manera implícita y explícita, pero, sin un basamento teórico y filosófico consistente.

Descriptores: Enfermería. Atención de enfermería. Educación en enfermería. Enseñanza.


 

 

INTRODUÇÃO

Acompanhar muitos alunos na caminhada, durante a graduação em Enfermagem tem propiciado observar que, ao ingressarem no curso, um grande número deles busca na profissão a resolução imediata dos problemas de saúde do indivíduo, ou seja, têm uma visão biologicista, tecnicista, a mesma visão que parece ser a demonstrada pela população em geral. Percebem a enfermeira(ª) como aquela que cuida do doente, tratando apenas seus problemas de doença ou de algum sofrimento, com vistas a solucioná-lo o mais breve possível, seja por meio de procedimentos, de encaminhamentos, de orientações concisas e sem comunicação adequada, entre outras situações.

Em contrapartida, muitos são os docentes em enfermagem que têm seu discurso fundamentado no cuidado, em suas diferentes dimensões, ou seja, temporais, afetivas, sociais, culturais, relacionais entre outras. A partir dessas constatações, que nossa prática tem possibilitado vivenciar, surgiu o questionamento: Que vivências os alunos têm demonstrado em relação à temática do cuidado?

Partindo do pressuposto que os alunos dos semestres finais do curso têm condições de revelar suas expectativas e vivências, em relação aos seus processos de ensino-aprendizagem do cuidado, propusemo-nos a realizar esse estudo.

Consideramos pois, o processo de formação, como sendo a relação que ocorre entre professor e aluno, quando ambos aprendem e ensinam, enriquecendo-se mutuamente, a partir de suas vivências.

O ensino é um processo intencional e interpessoal que utiliza fundamentalmente a comunicação verbal e o discurso dialógico finalizado como meios para provocar, favorecer e levar ao êxito a aprendizagem em uma dada situação(1). Esta, por sua vez, ocorrerá a partir das comunicações verbais em classe, das interações vivenciadas, da relação e das ações em cada situação. Ela acontece de maneiras singulares, em diferentes alunos e em cada intervenção.

Ao tornarem-se próximas de sua formação como enfermeiras e iniciarem suas trajetórias profissionais na assistência, para que a realizem de forma humanizada e solidária, preocupando-se com os diversos aspectos que envolvem o cuidado, é importante que vislumbrem a enfermagem como uma profissão atenta e consciente dos aspectos para além da técnica, ou seja, com o contexto histórico, social, cultural e econômico da pessoa, família ou comunidade, enfocando as relações humanas baseadas na solidariedade, na sensibilidade e no respeito ao Ser Humano.

Para que a qualidade da assistência profissional seja aperfeiçoada e implementada, faz-se necessário que o aprendizado referente ao cuidado seja alvo da preocupação e reflexão tanto dos docentes quanto dos alunos.

Pensamos que se o processo de ensino-aprendizagem do cuidado está acontecendo de maneira eficaz. Os acadêmicos, já em período próximo ao término do curso, podem demonstrar uma visão mais ampla do processo de cuidar, o qual pode ser traduzido pela maneira de agir, refletir e tomar decisões.

Nesse aspecto, o processo de aprendizagem do cuidado é uma inquietação que tem nos acompanhado. Será que o discurso dos professores, ao enfocar as diferentes abordagens relacionadas ao cuidado, está sendo assimilado e vivenciado pelos discentes?

Na enfermagem, o cuidar tem sido alvo de amplas discussões, em todas as suas dimensões. A proposição é de que a enfermeira possa ver o paciente além da sua doença, respeitando sua cultura, suas crenças e valores, suas expectativas em relação à doença, enfim, que ele possa ser visto de uma forma abrangente, em sua totalidade enquanto Ser.

Percebemos, pela prática diária, que os aspectos afetivos, filosóficos, éticos e sociais do cuidado são tão importantes quanto os técnico-científicos e, mais ainda, que estão condicionados a estes. Sob esse ângulo, inferimos que, quando um profissional consegue reunir tais requisitos, conquista o respeito e a consideração do paciente e também da equipe multiprofissional com quem trabalha.

É preciso que os professores, juntamente com os alunos, identifiquem-no como um valor, explorando seus significados; que propiciem um ambiente de cuidado, aceitando mudanças, dispondo-se a aprender com os alunos, a trocar experiências, a fim de fazer emergir as potencialidades de cada um, para que possam tornar-se profissionais do cuidado conscientes, criativos e sensíveis. Assim, quando todos sentirem-se envolvidos no processo de aprendizagem do cuidado, serão todos estimulados às novas descobertas e construção de novos conhecimentos.

Por isso, no verdadeiro processo ensino-aprendizagem, quem ensina aprende e quem aprende, também ensina(2).

Na enfermagem, especificamente no ensino/aprendizagem do cuidado, faz-se necessária a atuação conjunta de professor e aluno, na busca, definição e efetivação de novas formas de ensinar, para que possa concretizar-se a ação de apreendê-lo. O termo ensinagem(b), é utilizado para indicar uma prática social complexa entre professor e aluno, englobando tanto a ação de ensinar quanto a de aprender, realizadas por ambos, na construção do conhecimento escolar, decorrente de ações desenvolvidas dentro e fora da sala de aula(3).

Pensamos que é preciso, também, realizar o processo de ensinagem no que diz respeito ao cuidado, tendo em mente que, para fazê-lo, é necessário um clima de trabalho tal, que se possa saborear o conhecimento em questão. Para que os alunos possam sentir esse sabor, o docente precisa também degustar, no seu cotidiano profissional ou na pesquisa, aquilo que deseja ensinar, no caso, tudo o que alude ao cuidado, sendo fundamental, neste processo, o envolvimento dos sujeitos, em sua totalidade.

O ensino da Enfermagem vem sendo realizado em um ambiente social ligado ao sistema de saúde, onde as práticas pedagógicas são realizadas entre o professor, o aluno e a pessoa do paciente. Esta conformação faz com que, ao professor, seja necessário algo mais que a formação técnica e científica, incluindo também uma formação ética(4). Da mesma forma, a busca pelo saber na Enfermagem aproxima as práticas de Enfermagem e de Educação, na medida em que a Enfermeira, como educadora, utiliza o processo ensino/aprendizagem nas suas ações de cuidado, dirigidas não só ao paciente e família, mas também aos alunos, à equipe de Enfermagem e aos procedimentos técnicos(4).

Reconhecer a perspectiva do cuidado, enquanto aspecto humanizador, propiciador de vínculos entre o cuidador e o Ser cuidado, está além do abordar técnicas, teorias ou métodos. Ele assume (ou pode assumir) uma dimensão diversa daquela vislumbrada no espaço fechado da sala de aula. Ao transpor os muros do espaço universitário, há um mundo à espera da enfermeira: múltiplo, inusitado, desafiador. Esse é o momento em que se entrecruzam a teoria e o bom senso na busca de soluções, na práxis propriamente dita do ato de cuidar. Inferimos, assim, que não é unilateral, antes multifacetada.

Diante disso, este estudo teve o objetivo de conhecer o processo de aprendizagem do cuidado na percepção dos alunos do sétimo semestre do curso de graduação em Enfermagem da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões - URI - campus de Erechim, RS em relação às suas vivências.

 

MÉTODO

Realizou-se um estudo exploratório descritivo, de natureza qualitativa, que teve como sujeitos nove acadêmicos regularmente matriculados no sétimo semestre do curso de Enfermagem da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões - URI - Campus de Erechim, localizada ao Norte do Rio Grande do Sul, no período de abril a junho de 2007.

A coleta de dados ocorreu por meio da técnica do grupo focal. Esta é uma técnica sócio-qualitativa, coletiva e dinâmica e promove uma ação simultânea entre os componentes do grupo investigado, valorizando o saber dos atores sociais, reconhecendo-os como experts de sua própria realidade(5). Ao mesmo tempo em que permite ao pesquisador obter dados para seus estudos, a utilização dessa técnica garante aos pesquisados um espaço de reflexão de suas próprias concepções, de uma auto-avaliação, possibilitando, desta forma, uma provável mudança de comportamento(6) ou no nosso entendimento, uma maneira de refletir sobre as suas vivências, como no caso em estudo.

Foram realizados dois encontros com o grupo, quando desenvolvemos diferentes estratégias, como exposição de filmes e utilização de multimídia com exposição de fotografias de acadêmicos de enfermagem em diferentes situações de cuidado, a fim de estimular os sujeitos para a reflexão sobre as diversas maneiras de prestar a assistência de enfermagem e, dessa forma, conhecer a percepção dos alunos sobre o processo de ensino-aprendizagem do cuidado. Os encontros ocorreram nas dependências da universidade, com duração aproximada de uma hora e meia, sendo gravados em fita cassete para que, posteriormente pudessem ser transcritos com a maior fidedignidade.

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da referida universidade, tendo-se solicitado a autorização do coordenador do curso de Enfermagem para a entrada em campo. (Protocolo CEP nº 003/PPH/07; CAAE 0003.0.232.000-07). Os acadêmicos assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, o qual assegurou-lhes o anonimato, a confidencialidade dos dados pessoais e a utilização das informações somente para fins científicos, atendendo à resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde(7).

A fim de manter o anonimato, os sujeitos foram codificados pela letra S seguida de um algarismo numérico para diferenciá-los entre si, como por exemplo, S1 (Sujeito 1) S2 (Sujeito 2) e assim sucessivamente. Os encontros foram identificados como E1 e E2 respectivamente.

 

APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Após leituras e releituras, agrupamentos e transposição de dados agrupados por semelhanças e afinidades, evidenciamos um tema e três categorias temáticas que passamos a apresentar.

Tema: Refletindo sobre a formação

Este tema evidenciou a compreensão dos acadêmicos do sétimo semestre sobre a profissão de enfermeira; além disso, salienta como foi para os sujeitos do estudo a aprendizagem do cuidado durante o processo de formação, suas vivências e as suas expectativas, relacionadas à proximidade do término do curso.

Categoria 1 - Visão da Enfermeira: o conhecimento da profissão

Embora atualmente já tenham construído um novo entendimento da profissão, quando questionados sobre o que pensavam a respeito da enfermagem, ao ingressar na vida acadêmica, e como a vêem hoje, relataram:

Entrei aqui sabendo muito pouco do que era a enfermagem, nem tinha noção. Eu descobri que, além de toda essa parte teórica, você teria então este seu lado voltado ao prestar o atendimento ao paciente, mas ao mesmo tempo em que você presta o atendimento você está tendo noção, você tem que ter um entendimento do porquê que você está fazendo isso (S5; E1).

[...] e além disso [assistência] a parte administrativa (S7; E1).

Foi gratificante observar as mudanças no entendimento dos alunos quanto à sua profissão, ao longo da trajetória acadêmica. Vermos que a sua compreensão a esse respeito ultrapassa o desenvolvimento da técnica, de um procedimento. Numa perspectiva diferente de quando iniciaram o curso, os alunos deixam transparecer em suas falas, que as atribuições da enfermeira, além de não se resumirem em técnicas, ultrapassam o cuidado direto ao paciente, abrangendo também as atividades relacionadas à administração e gerenciamento dos serviços da enfermagem.

Essa parte do gerenciar, do lidar com o pessoal [...] quando eu entrei nem tinha noção, nem imaginava que por trás dos técnicos tem um enfermeiro e nem imaginava que esse enfermeiro, que era o curso que eu estava optando por fazer, ia ter que lidar com essa equipe de técnicos. E não só com os técnicos mas com um ambiente bem mais amplo, os outros profissionais (S5; E1).

Tais falas demonstram, além do entendimento dos alunos acerca do serviço e do cuidado de enfermagem, a ampliação do que julgavam como cuidado. Um amadurecimento esperado durante o percurso de formação e que faz emergir aquilo que os objetivos do curso preconizam.

A percepção de que o cuidado ao paciente não se resume aos procedimentos técnicos, aos conhecimentos científicos e tampouco às atitudes comportamentais, já que englobam também as funções administrativas e de gerenciamento, realizadas pela enfermeira, revelam que é no decorrer de sua formação que o acadêmico visualiza as atribuições da enfermeira como cuidadora. A temática do cuidado apareceu de tal forma na sua formação que presenciamos uma mudança considerável na sua maneira de ver, compreender, atuar e refletir sobre a enfermagem. A apropriação gradativa dos conteúdos já trabalhados, proporciona aos acadêmicos uma visão ampliada da enfermagem e das atribuições da enfermeira. Porém, não se pode inferir que a temática do cuidado seja visualizada pelos alunos como um eixo norteador e integrador de disciplinas, que seja possível identificar a transversalidade da mesma, no decorrer de toda a formação. Sabemos da complexidade em que se constitui um processo educativo e das singularidades e individualidades dos docentes e administradores do ensino, tais que, possam impedir ou mesmo interferir no andamento de uma formação profissional condizente.

Categoria 2 - O Processo de Formação: a aprendizagem do cuidado

Ao refletirmos sobre a aprendizagem do cuidado na enfermagem não podemos descartar as experiências que os alunos compartilham no decorrer deste processo. A realidade vivenciada pelos acadêmicos nas aulas teórico-práticas em laboratórios, hospitais, unidades básicas de saúde, creches e outros locais onde eles possam efetuar os ensinamentos, permite a visão do inesperado, do novo, que muitas vezes desencadeia a insegurança que permeia as novas vivências.

Como educadoras, temos a consciência de que o aluno não deixa a universidade totalmente capacitado e apto para o ingresso no mercado de trabalho, ao contrário, entendemos que ele continua no seu processo de construção de saberes e, somente com a prática profissional e a atualização constante, poderá construir um conhecimento necessário para administrar um cuidado efetivo e de qualidade.

Entendemos a aprendizagem do cuidado, aquela na qual se desenvolvem ações de saúde adequadas e compatíveis com e para o homem na sua totalidade, onde as práticas de saúde não estejam desvinculadas do cotidiano das pessoas adoecidas.

A busca por diferentes momentos de aprendizado como no aprofundamento dos conteúdos ou nas práticas voluntárias que alguns desenvolvem durante a trajetória acadêmica, diante da percepção da necessidade de adquirirem maior conhecimento, habilidade e experiência, demonstram, ao nosso ver, o empenho em preparar-se para as exigências do mercado de trabalho. O interesse, compromisso e esforço pessoal para qualificar seu aprendizado é a manifestação de um comprometimento que, de certa forma, reflete a importância dada, pelos acadêmicos, ao processo de cuidar.

Observamos ainda, nos depoimentos anteriores, que esse é um aspecto em que o professor desempenha papel fundamental, no sentido de promover a reflexão sobre o que está sendo observado durante a realização das aulas teórico-práticas, e sobre o que os acadêmicos percebem na conduta da enfermeira, quando da efetivação do seu trabalho. A partir do observado, cabe ao professor a promoção de uma discussão em que o aluno exercite a sua capacidade de crítica e desenvolva uma argumentação para as situações encontradas, sejam elas positivas ou negativas. Essas situações encontradas na prática, nos contextos de atuação da profissional, são momentos oportunos para uma aprendizagem, em que se possa desenvolver, junto aos alunos, conforme o preconizado pelas Diretrizes Curriculares Nacionais para os Cursos de Graduação em Enfermagem, Resolução CNE/CES nº 03/2001(8), oportunidades reais para a formação de um profissional crítico, reflexivo, humanista, com competência técnica, ética, política, social, ecológica e educativa, conforme também o PPC(9).

A capacidade de exercitar uma reflexão crítica sobre o que presencia, lê, observa e atua, demonstra um desenvolvimento do aluno, que se evidencia ainda mais quando ele consegue vislumbrar, discutir e apontar possíveis caminhos ou soluções para transformar ou melhorar uma realidade.

Além de mostrar ao aluno como se cuida, o docente deve envolver-se com ele na prática cooperativa, por meio do exemplo, do diálogo e da sua prática(10). Dessa forma, entendemos que o professor estará cumprindo com seu papel de formador, no processo da aprendizagem e das experiências do cuidado.

Categoria 3 - Expectativas com a finalização do curso

Emergiram, nessa categoria temática, os sentimentos e as expectativas dos acadêmicos com a finalização do curso, a ansiedade frente às responsabilidades da nova etapa que se aproxima e também a dualidade em não sentirem-se aptos para ingressar no mercado de trabalho ao mesmo tempo em que sentem-se preparados para as novas atribuições, conforme constatado nas falas:

A gente se sente despreparado mas a gente também se sente apto porque tudo é novo pra nós agora, mas saindo da faculdade é mais uma etapa e então só tem a acrescer. E essa sensação que a gente tem, de Meu Deus, eu acho que não sei nada, eu acho que não tô preparado, isso é uma expectativa que todo mundo tem (S9; E1).

Os estudantes apresentam, como já refletido anteriormente, a insegurança por estarem concluindo sua vida acadêmica e direcionando-se à incerteza da vida profissional. O cuidador, como professor, tem duas tarefas fundamentais: Ampliar o mundo do aluno e trabalhar cooperativamente com ele em sua luta rumo à competência nesse mundo. Como prioridade ainda maior, ele precisa cultivar o ideal ético do aluno(10). A ampliação do mundo do aluno é percebida quando o docente desenvolve os projetos de pesquisa e extensão proporcionando aos acadêmicos a possibilidade de inserção, como auxiliares de pesquisa ou bolsistas voluntários, remunerados ou não, nos referidos projetos, no sentido de oportunizar aos mesmos, um conhecimento que ultrapasse os muros da universidade. Além disso, ao incentivar a participação nas atividades extracurriculares como cursos, congressos e similares, na Enfermagem ou áreas afins, assim como à iniciação científica, programas de extensão, ou nas monitorias de estágios, o professor está cooperando com o crescimento profissional do aluno, conforme preconiza o CNE, nas Diretrizes Curriculares para os Cursos de Enfermagem(8).

Quanto ao cultivo do ideal ético do aluno, o docente tem grande responsabilidade, no momento em que, além de ser professor, torna-se modelo a ser seguido, pois muitas são as circunstâncias em que o aluno vê no mestre, o profissional que gostaria (ou não) de se tornar. Além de seguir uma conduta ética responsável, ele também deverá salientar, tanto nas aulas teóricas como nas práticas, a importância de preceitos como respeito, sigilo, comprometimento e responsabilidade no atendimento do Ser que será cuidado.

Sabemos, no entanto, que muitas vezes, nós, professores, podemos não alcançar nossos objetivos em razão de várias situações ou fatores que também envolvem e contribuem para o desenvolvimento do nosso fazer e ser professor. Portanto, repensar nosso compromisso com a formação de alunos nos remete a um olhar sobre a nossa práxis.

É importante que consigamos vislumbrar que nossa responsabilidade não se limita à formação de enfermeiras para suprir as demandas do mercado, mas que tenhamos em mente que nossa atuação é substancialmente importante para a formação de enfermeiras que se preocupem em transformar as realidades encontradas em seus campos de trabalho, se desumanos ou injustos forem.

 

CONCLUSÕES

Ao término do estudo é possível visualizar que a temática do cuidado ao longo do processo de formação nesse curso, apareceu nas vivências e experiências relatadas pelos alunos, tanto de maneira implícita como explícita.

Sabemos também que ainda há muito para ser feito, para podermos alcançar a excelência em termos do processo de ensino-aprendizagem do cuidado, mas temos consciência de que não foi sempre assim, pois durante muito tempo a enfermagem apresentou-se como uma profissão caritativa e intensamente ligada às questões técnicas e procedimentais.

O esforço em mudar este perfil e tornar o exercício do cuidado uma constante em todos os serviços, não é unitário, mas uma prática que vem, ainda que timidamente, mudando paradigmas e possibilitando uma assistência onde se consiga incluir os aspectos humanísticos no fazer cotidiano da Enfermagem.

A percepção que as pessoas de modo geral têm a respeito da Enfermagem, somente será modificada com o empenho das enfermeiras em desenvolver um trabalho de boa qualidade, tanto no sentido técnico-científico como no humanístico-comportamental.

Os acadêmicos nos surpreenderam com suas falas, pois demonstraram que, apesar de suas angústias e incertezas frente à formação, se dizem preparados para desenvolver uma atenção voltada a um cuidado comprometido e responsável, que abranja todas as dimensões do ser humano.

A insegurança e a apreensão devido à proximidade do término e início de uma nova etapa de suas vidas é uma constante. Entretanto, sabemos que durante essa trajetória, muitos foram os desafios, tanto dos docentes quanto deles próprios para a aquisição das ferramentas necessárias para desenvolver as atribuições pelas quais serão responsáveis.

Sabemos também que há as particularidades e características de cada um dos alunos, assim como de cada um dos docentes e administradores do ensino, que influenciam e contribuem para a visualização da profissão, podendo ser essa tanto positiva quanto negativa.

Os achados da investigação nos levam a inferir que, no curso de Enfermagem da URI - Campus de Erechim há indicações que apontam que o mesmo vem procurando desempenhar o seu papel, porém sabemos que muito ainda precisa ser refletido e debatido quando se fala em formação profissional. Há muito por fazer para que possamos chegar a excelência na qualidade do ensino que ofertamos. O objeto de nosso estudo denota a importância que damos e o comprometimento que temos em oferecer à comunidade um curso onde o acadêmico possa encontrar mais que o ensino de um conjunto de matérias relacionadas às práticas de saúde. Almejamos um curso onde os professores estejam empenhados em formar alunos comprometidos, críticos, reflexivos, capazes de exercer transformações para uma enfermagem diferenciada, voltada ao conhecimento técnico e científico, mas principalmente, interessada no cuidado integral ao ser humano.

A aprendizagem do cuidado não é algo que possa ser imposta, e sim conquistada, uma vez que a conduta e as atitudes do docente são, na prática, a própria efetivação do ensino do cuidado. Assim, faz-se necessário que todo o corpo docente esteja comprometido com esse ideal, pois os esforços individuais somarão resultados que poderão ser observados pela comunidade assistida.

O estudo não esgotou a temática, pelo contrário, esperamos que apenas tenha despertado para outras investigações necessárias. Algumas questões ainda suscitam dúvidas: O que percebem os docentes sobre a sua atuação e compromisso social como formadores de profissionais enfermeiras? Como os egressos desse curso estão sendo percebidos pelo mercado de trabalho? O que dizem os pacientes cuidados por esses profissionais? Essas são algumas inquietações que ainda persistem e que podem ser desenvolvidas, na intenção de compreendermos o papel dos formadores e a necessidade de construção e aperfeiçoamento dos docentes, gestores, e administradores, em prol de um ensino de qualidade.

 

REFERÊNCIAS

1. Altet M. As competências do professor profissional: entre conhecimentos, esquemas de ação e adaptação, saber analisar. In: Perrenoud P, Paquay L, Altet M, Charlier E. Formando Professores Profissionais: Quais Estratégias? Quais Competências? Porto Alegre: Artmed; 2001. p. 23-35.         [ Links ]

2. Freire P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra; 2006.         [ Links ]

3. Anastasiou LGC, Alves LP. Processos de ensinagem na universidade: pressupostos para as estratégias de trabalho em aula. 3ª ed. Joinvile: Univille; 2004.         [ Links ]

4. Pinhel I, Kurcgant P. Reflexões sobre competência docente no ensino de enfermagem. Rev Esc Enferm USP. 2007;41 (4):711-6.         [ Links ]

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6. Ressel LB, Gualda DMR, Gonzalez RMB. Grupo focal como uma estratégia para coletar dados de pesquisa em enfermagem. Int J Qual Meth [periódico na Internet]. 2002 [citado 2006 jun. 20];1(2). Disponível em: http://www.ualberta.ca/~ijqm.         [ Links ]

7. Conselho Nacional de Saúde. Resolução n. 196, de 10 de outubro de 1996. Dispõe sobre diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos. Bioética. 1996;4(2 Supl):15-25.         [ Links ]

8. Brasil. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação. Diretrizes Curriculares Nacionais dos Cursos de Graduação em Enfermagem, Medicina e Nutrição [legislação na Internet]. Brasília; 2001 [citado 2006 out. 14]. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/sesu/arquivo         [ Links ]

9. Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões. Pró-Reitoria de Ensino. Projeto Pedagógico do Curso de Graduação em Enfermagem. Erechim; 2006.         [ Links ]

10. Noddings N. O cuidado: uma abordagem feminina à ética e à educação moral. São Leopoldo: Unisinos; 2003.         [ Links ]

 

 

Correspondência:
Luciana Spinato De Biasi
Rua Rui Barbosa, 118 / 71 - Centro
CEP 99700-000 - Erechim, RS, Brasil

Recebido: 14/04/2008
Aprovado: 08/10/2008

 

 

* Extraído da dissertação "A Transversalidade (In)Visível da Temática do Cuidado na Formação da Enfermeira", Escola de Enfermagem, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2008.
(a) Neste estudo será utilizada a palavra enfermeira/s em referência ao profissional graduado em enfermagem, independentemente do seu sexo, pois trata-se de um grupo profissional onde há predominância do sexo feminino e também por ser o mais usual na literatura específica da enfermagem.
(b) Expressão empregada para designar uma situação de ensino da qual necessariamente decorra a aprendizagem, tendo como condição fundamental para o enfrentamento do conhecimento, a parceria entre professor e alunos, necessária à formação do aluno durante a graduação(3).

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