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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234

Rev. esc. enferm. USP vol.44 no.3 São Paulo Sept. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342010000300007 

ARTIGO ORIGINAL

 

Educação permanente em enfermagem: levantamento de necessidades e resultados esperados segundo a concepção dos trabalhadores*

 

Educación permanente en enfermage: levantamiento de las necesidades y resultados esperados según la concepción de los trabajadores

 

 

Dionize MontanhaI; Marina PeduzziII

IEnfermeira. Mestre em Enfermagem pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. Docente da Escola de Enfermagem do Centro Universitário Lusíada da Fundação Lusíada. Santos, SP, Brasil. dionize@globo.com
IIEnfermeira. Professora Associada do Departamento de Orientação Profissional da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil. marinape@usp.br

Correspondência

 

 


RESUMO

Estudam-se as atividades educativas de trabalhadores de enfermagem, com o objetivo de analisar o levantamento de necessidades e os resultados esperados, segundo a concepção dos trabalhadores. Trata-se de pesquisa qualitativa, com coleta de dados através de entrevista semiestruturada com vinte e cinco trabalhadores em um hospital de ensino no município de São Paulo, e análise temática do material empírico. Os resultados mostram que o levantamento de necessidades é realizado predominantemente com base em problemas no desempenho técnico e na aquisição de novos equipamentos; e que os resultados esperados, no curto prazo, são majoritariamente a melhora no desempenho de procedimentos e, em médio e longo prazo, ampliação da reflexão crítica do trabalho. Conclui-se que predomina a concepção de EC tanto no levantamento de necessidades como nas expectativas de resultados das ações educativas, convivendo com a concepção de EP, o que mostra uma complementaridade entre ambas as concepções de educação no trabalho.

Descritores: Educação continuada em enfermagem. Capacitação em serviço. Trabalho.


RESUMEN

Se estudian las actividades educativas de trabajadores de enfermería con el objetivo de analizar la detección de necesidades y los resultados esperados según la concepción de los trabajadores. Se trata de una investigación cualitativa con recolección de datos a través de entrevista semiestructurada con 25 trabajadores en un hospital de enseñanza del municipio de San Pablo, y análisis temático del material empírico. Los resultados muestran que la detección de necesidades es realizada predominantemente con base en problemas en el desempeño técnico y en la adquisición de nuevos equipamientos, y que los resultados esperados, en el corto plazo, son mayoritariamente la mejora del desempeño de de procedimientos y, en medio y largo plazo, la ampliación de la reflexión crítica del trabajo. Se concluye en que predomina la concepción de EC, tanto en la detección de necesidades con en las expectativas de resultados de las acciones educativas, conviviendo con la concepción de EP, lo que muestra una complementariedad entre ambas concepciones de educación en el trabajo.

Descriptores: Educación continua en enfermería. Capacitación en servicio. Trabajo.


 

 

INTRODUÇÃO

A gestão de recursos humanos tem sido reconhecida, tanto no âmbito internacional quanto nacional, como um componente crítico para assegurar a eficiência, eficácia e efetividade dos serviços de saúde(1). Nesse sentido, entende-se que, em particular, a implantação do Sistema Único de Saúde (SUS) com base na concepção de integralidade da saúde(2); trabalho em equipe e gestão participativa, permite enfatizar a educação dos trabalhadores como componente imprescindível para a construção das mudanças almejadas e da qualidade dos serviços prestados à população(3).

A temática da educação de trabalhadores de enfermagem é referida na literatura com três diferentes denominações: educação continuada (EC), educação em serviço e educação permanente (EP)(4-5) que mostram, por um lado, a ausência de consenso sobre educação no trabalho de enfermagem e, de outro, a existência de duas propostas mais consolidadas que têm um caráter complementar e não excludente, embora com marcantes diferenças conceituais - EC e EP.

A EC é tradicionalmente desenvolvida no setor saúde e de enfermagem como continuação ou extensão do modelo escolar e acadêmico; pautada, sobretudo na ciência, como fonte do conhecimento, portanto fundamentada no conhecimento técnico-científico, com ênfase em cursos e treinamentos orientados a cada categoria profissional(4-7).

Apesar da crescente valorização da EC, as características apontadas acima põem em destaque o objetivo de adequar os profissionais de enfermagem ao trabalho na respectiva unidade, para uma atuação orientada por conhecimentos e comportamentos institucionalizados e pré-estabelecidos. De modo que a EC não se constitui como espaço de reflexão e crítica sobre as necessidades de cuidado dos usuários e das práticas que lhe correspondem, e sim como reprodução de abordagens consagradas pela racionalidade instrumental. Instrumental no sentido de ação dirigida a um dado fim estabelecido a priori e independentemente das vicissitudes da atenção à saúde no cotidiano dos serviços. Nesse sentido, a concepção de EC tende a reproduzir os valores predominantes na organização do trabalho de enfermagem, bem como do setor saúde, que se referem à fragmentação das ações, hierarquização das relações de trabalho, trabalho individualizado por profissional e paroxismo técnico-científico(8).

Estudo recente que apresenta reflexão teórica sobre os conceitos de EC, EP e educação em serviço na área de enfermagem mostra que a concepção de EC é a que guarda maior consonância com os autores e os peritos consultados na revisão(4).

No presente estudo é adotada a concepção de EP com base na abordagem denominada educação permanente em saúde (EPS), que tem origem nos debates introduzidos pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), na década de 1980(9); e foi ampliada com a implantação da atual política pública de formação e desenvolvimento de trabalhadores de saúde no país(3); e publicações recentes(10-12).

Assim, entende-se que a abordagem de EP constitui um projeto político-pedagógico com vistas à transformação das práticas de saúde e de enfermagem, na perspectiva da integralidade, do trabalho em equipe e da ampliação da cidadania e da autonomia dos sujeitos envolvidos - trabalhadores e usuários(11). Neste recorte teórico-conceitual a análise das ações educativas dos trabalhadores é realizada sob dois aspectos inter-relacionados: o levantamento de necessidades, considerando a tríade usuário, trabalhador e serviço, e os resultados esperados a partir das ações educativas de trabalhadores de enfermagem, pois toda ação educativa demanda monitoramento e apresenta uma relação recíproca, de dupla mão, com a apreensão de necessidades.

Nesse contexto, o estudo tem o objetivo de analisar o levantamento de necessidades para a implantação de atividades educativas de trabalhadores de enfermagem e os resultados esperados com a realização dessas atividades, segundo as concepções dos trabalhadores de enfermagem (enfermeiros assistenciais, enfermeiros gerentes e trabalhadores de enfermagem de nível médio).

 

REFERENCIAL TEÓRICO

A pesquisa está fundamentada no referencial teórico do processo de trabalho em saúde e enfermagem, educação permanente em saúde, educação continuada, trabalho em equipe e integralidade, principalmente com destaque para a distinção entre EC e EP.

Como se viu anteriormente a concepção de EC é majoritariamente orientada para o preparo de determinada função e melhor desempenho do trabalhador com ênfase em treinamentos, palestras e cursos, tendo em vista a evolução científica e tecnológica. Outros autores(13) apresentam uma concepção mais abrangente, no sentido de transformação da organização, numa visão crítica e responsável que acarrete como resultando a construção de conhecimentos para a organização, a profissão e a sociedade. Também é referida a mudança de atitudes e comportamentos nas áreas cognitiva, afetiva e psicomotora do ser humano, na perspectiva da transformação de sua prática(5); ou seja, a mudança e transformação do indivíduo e não das práticas sociais.

Pesquisa realizada com base em concepções de gerentes de enfermagem(14) mostra que há unanimidade sobre a importância da EC, porém ainda é uma educação bastante fragilizada no contexto do trabalho, com o foco, como já mencionado anteriormente, em treinamentos e reciclagens desenvolvidos a partir de problemas que ocorrem no serviço, tendo em vista a satisfação da clientela e a imagem da instituição. A EC é destinada a desenvolver conhecimentos para adaptar o profissional ao ambiente de trabalho, e a oferta de atividades educativas ocorre também por ocasião da chegada de um novo equipamento, com realização de programas de treinamento(15). À medida que se centra no desempenho de cada categoria profissional em suas funções determinadas social e tecnicamente pela divisão do trabalho, acaba por acentuar a fragmentação do cuidado, das equipes e do processo de trabalho(16).

Porém, ao lado da educação no trabalho centrada em treinamentos e atualizações técnicas, algumas mudanças de maior impacto vêm sendo introduzidas na capacitação de pessoal em saúde e enfermagem, em especial, propostas que buscam aproximar educação e trabalho, concebidos, ambos, como práticas sociais. Essas propostas alinham-se à concepção de EP.

A literatura sobre o tema(6-7,9-12,16) e os documentos oficiais da política de EPS(3) permitem identificar um conjunto de características da concepção de EP: a valorização do trabalho como fonte do conhecimento; a busca de articulação dos processos educativos de trabalhadores com o cotidiano dos processos de trabalho, bem como a busca de articulação com a atenção à saúde, a gestão e o controle social; o reconhecimento de que as práticas são definidas por múltiplos fatores e dimensões; a orientação das ações educativas de trabalhadores para a integração do trabalho em equipe multiprofissional e interdisciplinar; a utilização de estratégias de ensino contextualizadas e participativas e a busca da transformação das práticas de saúde e de enfermagem, dado o reconhecimento dos limites das abordagens vigentes no atendimento integral às necessidades de saúde dos usuários e população.

Considerando a assistência ao usuário na dimensão da integralidade do cuidado, as necessidades de saúde dos usuários e o levantamento de necessidades de ações educativas de trabalhadores são o núcleo do processo educativo em saúde, e a análise e avaliação posterior são imprescindíveis para identificar o impacto produzido na prática, na qualidade do cuidado em saúde.

Apesar da mobilização das instituições de saúde na implantação de ações educativas no trabalho, os resultados são pouco animadores no que se refere à qualidade da produção dos serviços prestados em saúde(6,10).

Como referido anteriormente, desde os anos 1980, a OPAS vem trabalhando com o conceito de EPS, e tem promovido uma proposta para identificar as necessidades a partir da análise de necessidades de saúde da população, do serviço e dos trabalhadores, ou seja, os processos educativos de trabalhadores devem estar baseados nas necessidades dessa tríade para melhorar a atenção à saúde da população. Em relação aos resultados, é necessário que o trabalhador demonstre melhoria nos produtos ou nos processos de trabalho, assim como nas atitudes(9).

A EP é aprendizagem no trabalho, em que o aprender e o ensinar se incorporam ao cotidiano das organizações e ao trabalho. Está fundamentada em diferentes vertentes teóricas, dentre as quais se destacam as consagradas contribuições de Paulo Freire, em especial os conceitos de ensino problematizador e de aprendizagem significativa, na qual levam-se em consideração os conhecimentos e as experiências que as pessoas já possuem(3,11).

Com base nessa concepção de educação no trabalho, o Ministério da Saúde, através da Secretaria da Gestão do Trabalho e da Educação em Saúde, instituiu a política de educação permanente em saúde (EPS) em 2003, com a finalidade de melhorar os serviços de saúde oferecidos pela rede de atenção à saúde no país. Essa política vinha sendo construída nas instâncias denominadas Polos de Educação Permanente em cada município, porém, com a Portaria GM/MS nº 1.996(3); de agosto de 2007, passa a ser constituída por meio de Colegiados de Gestão Regional, com a participação, em especial, das Comissões Permanentes de Integração Ensino-Serviço (CIES). A composição das CIES deve contar com a participação de representantes dos serviços de saúde, instituições que atuam na formação e desenvolvimento de pessoal para o setor saúde, trabalhadores da saúde, dos movimentos sociais e conselhos de saúde na área de abrangência. São instâncias de construção coletiva. Trata-se de uma estratégia que visa contribuir para transformar e qualificar a atenção à saúde; a organização das ações e dos serviços; os processos formativos; as práticas de saúde e as práticas pedagógicas. Para tal é necessário um trabalho articulado entre o sistema de saúde e as instituições de ensino, colocando em evidência a formação e o desenvolvimento dos trabalhadores.

 

MÉTODO

Considerando o objeto e o objetivo do estudo optou-se pela pesquisa qualitativa(17).

O campo do estudo foi um hospital de ensino integrado ao Sistema Único de Saúde (SUS), localizado no município de São Paulo, que tem como missão promover o ensino, a pesquisa e a extensão de serviços à população. A instituição foi escolhida por contar com um serviço de apoio educacional (SE) desde a sua inauguração, há mais de duas décadas, comprometido em manter a equipe de enfermagem com elevado nível de qualificação técnico-científica e ética. O SE conta com a participação de quatro enfermeiras, sendo uma delas gerente do serviço.

A instituição caracteriza-se como hospital geral, com aproximadamente 250 leitos, de nível médio de complexidade, conta com 1.800 trabalhadores e especificamente na área de enfermagem com 666 trabalhadores: 181 enfermeiros, 215 técnicos, 262 auxiliares de enfermagem.

Os sujeitos da pesquisa foram os gerentes de enfermagem das unidades (13 gerentes) e enfermeiros assistenciais e trabalhadores de enfermagem de nível médio de uma unidade selecionada segundo a indicação da enfermeira responsável pelo SE (12 trabalhadores), o que totalizou 25 colaboradores. Houve duas recusas, de uma gerente e de uma técnica de enfermagem.

A pesquisa foi aprovada pelos Comitês de Ética em Pesquisa da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (Ofício nº 423/2004/CEP-EEUSP) e do hospital estudado. Todos os sujeitos partícipes do estudo foram consultados e assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido.

A coleta de dados foi realizada no período de abril a junho de 2007, por meio de entrevista semi-estruturada com base em roteiro que contempla questões sobre a concepção de educação de trabalhadores de enfermagem inseridos no serviço; como são desenvolvidas as atividades no hospital; o levantamento de necessidades que dão origem às atividades, considerando os usuários, os trabalhadores, os serviços e os resultados esperados a curto, médio e longo prazo. As entrevistas foram gravadas, transcritas, conferidas e editadas, eliminando vícios de linguagem e referência a nomes próprios; tiveram a duração média de uma hora.

O processo de análise do material empírico foi realizado segundo a técnica de análise temática(17-18). Utilizando-se a técnica de impregnação, iniciou-se com leitura flutuante, seguida da leitura em profundidade de cada um dos relatos, até o domínio de cada depoimento e a construção de uma síntese de cada um. A seguir, foi feita a análise horizontal, em um primeiro momento, para cada um dos três segmentos profissionais (enfermeiros; auxiliares e técnicos de enfermagem; gerentes de enfermagem) e, por último, a leitura horizontal do conjunto dos relatos. Esse procedimento de análise permitiu estabelecer relações entre o material empírico e o referencial teórico, em especial as concepções de EC e EP apresentadas anteriormente, que fundamentaram as interpretações acerca das concepções dos trabalhadores de enfermagem sobre o objeto de estudo(17-18).

Em relação ao levantamento de necessidades para as ações educativas de trabalhadores de enfermagem, a articulação entre os depoimentos e o quadro conceitual possibilitou a construção das seguintes categorias empíricas: levantamento de necessidades com base em problemas, na supervisão de enfermagem, em espaço de troca usuário-serviço, em solicitação dos trabalhadores de nível médio e na articulação com outras áreas. Em relação aos resultados esperados a partir das atividades educativas, foram identificadas as categorias: melhora do desempenho técnico e diminuição de falhas nos procedimentos, ampliação da reflexão e crítica do trabalho, evitar vícios na execução do trabalho, ampliar a autonomia dos trabalhadores de enfermagem, uniformidade de condutas dos trabalhadores de enfermagem e definição clara das atribuições dos trabalhadores de enfermagem.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Levantamento de necessidades

No que se refere ao levantamento de necessidades, os depoimentos do conjunto dos trabalhadores de enfermagem mostram, corroborando com a literatura(14-15); o predomínio de atividades educativas realizadas a partir dos problemas identificados nas unidades, sobretudo nos procedimentos técnicos de enfermagem e também mediante a introdução de novos equipamentos. Isso reforça o destaque para a dimensão técnica do trabalho pautado no conhecimento técnico-científico, em consonância com a concepção de EC apontada como majoritária entre os enfermeiros(4).

Esse resultado é condizente com as escassas referências sobre levantamento de necessidades de ações educativas de trabalhadores, que abordam a identificação de necessidades como ação isolada e em contraposição a uma prática educativa com base na reflexão sobre o cotidiano do trabalho que diz respeito não apenas à dimensão técnica, mas também à dimensão comunicativa e de articulação das ações de cuidado(15).

Por outro lado, os resultados permitem observar que há outras fontes a partir das quais são levantadas necessidades. Nos relatos dos enfermeiros assistenciais e gerentes, a ação de supervisão, que se entende como inerente ao processo de trabalho do enfermeiro é referida como fonte para detectar necessidades que demandam ações educativas para os trabalhadores de nível médio. Contudo, a supervisão é apresentada com destaque na dimensão de controle, também observada em outros estudos(19-20); o que reforça a identificação de necessidades com base no reconhecimento de falhas, cumprimento de tarefas e fiscalização do trabalho.

Apenas um enfermeiro refere uma concepção de supervisão no sentido de fazer junto, que expressa uma abordagem educativa dessa ação. Assim, a concepção dos enfermeiros assistenciais entrevistados sobre supervisão compõe o controle e o fazer junto, o que pode ser entendido pela sua proximidade com os trabalhadores de nível médio a quem eles supervisionam. Esse resultado corrobora o apresentado em outro estudo(20); que aponta, na ação de supervisão em enfermagem, as dimensões educativas e de controle executadas em conjunto. Contudo, entre os gerentes de enfermagem, a concepção de supervisão é eminentemente relacionada ao controle do processo de trabalho, o que corresponde à ênfase do trabalho gerencial de enfermagem no controle e organização dos processos.

Os relatos mostram outra abordagem na identificação de necessidades que expressa uma aproximação com o usuário, pois se refere a um espaço de troca serviço-usuário, por intermédio de uma reunião com os pais e/ou acompanhantes. Essa reunião é um espaço importante para ouvir o usuário, sendo enfatizada no depoimento dos enfermeiros assistenciais e trabalhadores de nível médio. Vale destacar que, entre os gerentes, essa reunião é referida em apenas três depoimentos. A escuta e o diálogo profissional de enfermagem-usuário, por sua vez, remetem a concepção de EP, na qual o centro do processo educativo de trabalhadores são as necessidades de saúde dos usuários e a finalidade é a transformação das práticas de saúde e de enfermagem na perspectiva da integralidade(3,7,9-10).

O levantamento de necessidades para ação educativa também pode ser gerado a partir da solicitação do trabalhador diante de dificuldades na execução do cuidado. Essa abordagem foi percebida em cinco depoimentos de gerentes e em dois relatos de trabalhadores de nível médio. Portanto, se, por um lado, as ações educativas ocorrem com base nos problemas e falhas, o que aponta para a concepção de EC, por outro, os trabalhadores referem necessidades educativas relacionadas à execução do cuidado com foco no usuário, o que remete ao conceito de EP, no qual a educação dos trabalhadores deve partir de necessidades dos usuários, dos trabalhadores e do serviço(9).

A articulação dos trabalhos das diferentes áreas é relacionada ao processo de levantamento de necessidades educativas de trabalhadores apenas no depoimento das gerentes, que fazem referência à Comissão de Controle de Infecção Hospitalar e, em um único relato, também à área de farmácia. Esse resultado mostra que o planejamento das atividades educativas de trabalhadores de enfermagem está centrado na especificidade da própria enfermagem o que reforça o trabalho individualizado por categoria, em detrimento do trabalho multiprofissional e interdisciplinar(7,16). Considerando a concepção de EP adotada no estudo, que pressupõe a multiprofissionalidade e a interdisciplinaridade do trabalho em saúde e enfermagem e , portanto, a necessidade de articulação e integração dos processos de trabalho e dos respectivos trabalhadores, entende-se que também as atividades educativas dos agentes deveriam contemplar, além das especificidades, a perspectiva do trabalho em equipe e do trabalho coletivo.

Resultados esperados

O conjunto dos relatos dos trabalhadores de enfermagem quanto aos resultados esperados em decorrência das atividades educativas mostra que predomina a expectativa de melhorar a qualidade de assistência, embora se observem diferentes sentidos para isso, em especial, no que se refere aos resultados a curto prazo e a médio e longo prazo.

Em curto prazo, os depoimentos permitem observar um consenso no sentido da melhoria do desempenho técnico, ou seja, diminuir a ocorrência de falhas nos procedimentos técnicos. Também referem a necessidade de capacitação sobre o saber técnico-científico que fundamenta os procedimentos de enfermagem. Esta abordagem remete à concepção de EC, visto que enfatiza a valorização da ciência como fonte do conhecimento e a primazia do conhecimento sobre a prática. Contudo, à medida que o trabalhador domina o conteúdo do seu trabalho, amplia a sua esfera de autonomia criando espaço para que possa discutir, argumentar, reinvidicar e interferir nas decisões do processo de trabalho(21).

No que se refere aos resultados esperados em médio e longo prazo, os entrevistados consideram questões relacionadas à comunicação e à interação, bem como a ampliação da reflexão crítica dos trabalhadores de enfermagem sobre a assistência, ou seja, que o trabalhador consiga articular teoria/prática, que desenvolva a consciência sobre o trabalho e, assim, se apresente melhor preparado para assistir e cuidar dos usuários, o que acarreta reflexo na melhora da qualidade de assistência.

Este resultado, por sua vez, condiz com a concepção de EP que se fundamenta no conceito do ensino problematizador e aprendizagem significativa, na qual o processo ensino-aprendizagem ocorre a partir da realidade vivenciada pelos atores envolvidos com base nos problemas encontrados e experiências vividas por eles a partir das inquietações, questionamentos, a busca por mudança(6,10-12).

Os resultados a médio e longo prazo também condizem com a EP, visto que esta concepção volta-se à transformação das práticas a partir da reflexão crítica, em espaços coletivos, com base na problematização da realidade do dia-a-dia de trabalho e nas necessidades de ações educativas. Segundo essa concepção, os trabalhadores devem ser atores das cenas de formação e trabalho, produto e produtores das cenas em ato e, a partir delas, do abalo causado no ser sujeito de cada um, modificarem e transformarem a prática na direção das necessidades de saúde da população, pautados na integralidade e no trabalho em equipe(11).

Para os gerentes e enfermeiros assistenciais, a mudança de comportamento não necessariamente será em médio ou longo prazo, pois as propostas de sensibilização do trabalhador às necessidades de cuidado de enfermagem podem produzir resultados em curto prazo, no sentido da mudança de comportamento. Nessa direção, os depoimentos apontam como exemplo o método canguru, implantado na instituição, que apresentou resposta rápida por parte dos trabalhadores que vivenciaram a ação educativa, apesar de representar uma expressiva mudança no processo de cuidar. Segundo os relatos, o conhecimento adquirido foi colocado em prática imediatamente após o término da ação, por ter proporcionado a referida sensibilização no trabalhador quanto às necessidades e cuidado de enfermagem do usuário.

Considerando que o processo de trabalho em enfermagem seja, prioritariamente, orientado pelas necessidades de cuidado de enfermagem dos usuários, entende-se que as possíveis mudanças no modo de executar o trabalho possam ser potencializadas, à medida que o comportamento esperado esteja relacionado ao objeto de intervenção. Os depoimentos dos enfermeiros assistenciais e trabalhadores de nível médio relacionam os resultados de melhora da qualidade de assistência à maior e melhor qualificação do trabalhador, pois esta permite orientações mais pertinentes aos usuários e o fortalecimento da continuidade do cuidado fora da instituição.

No que se refere às mudanças no trabalho, decorrentes das ações educativas de trabalhadores, vale destacar, como apontado anteriormente, a necessidade de distinguir a referência à transformação das práticas e à transformação dos comportamentos. Pois a primeira diz respeito ao trabalho como ação social, ou seja, ao modo como são apreendidas as necessidades de cuidado dos usuários e as repostas oferecidas pelos trabalhadores e pelo serviço, e a segunda refere-se às mudanças individuas de atitudes dos trabalhadores. Entende-se que esta é uma questão relevante para o presente objeto de estudo, à medida que permite maior clareza no reconhecimento das concepções de EP e EC.

Segundo enfermeiros e gerentes de enfermagem, as atividades educativas devem ser contínuas, pois o caráter permanente dessas ações é estratégico para que o trabalhador não crie vícios na execução do seu trabalho. Embora os depoentes não apresentem este aspecto da tematização em torno dos resultados esperados relacionada à EP, entende-se que os vícios referidos expressam o risco de automatização e fragmentação das ações de cuidado que pode e deve ser evitados com base na reflexão sobre a prática, ou seja, a problematização em torno das necessidades dos usuários e do sentido do trabalho.

Os auxiliares e técnicos de enfermagem relacionam os resultados esperados das ações educativas à necessidade de acompanhamento do trabalho realizado, ou seja, de supervisão, de forma a ampliar a sua autonomia profissional. Acompanhamento esse que não deve ser de caráter punitivo, mas sim ter um sentido educativo.

Todo trabalhador em saúde e enfermagem tem certo grau de autonomia no trabalho, uma vez que não é possível definir por completo a ação de cuidado antes de sua execução, o que coloca a necessidade de julgamento e tomada de decisão técnica na realização da intervenção(21). Pôde-se inferir que no trabalho do pessoal de nível médio de enfermagem a autonomia mostra-se restrita pela ausência de apropriação de um saber técnico que fundamente as tomadas de decisão, visto que a autonomia diz respeito ao julgamento e à tomada de decisão técnica.

Outra abordagem feita pelos gerentes, auxiliares e técnicos de enfermagem trata da uniformidade de condutas, visto que as ações educativas devem permitir estabelecer alguma uniformidade na assistência de enfermagem entre todos os trabalhadores da unidade e em todos os períodos.

A definição clara das atribuições de cada categoria que compõe o trabalho de enfermagem também é referida pelos trabalhadores de nível médio como resultados esperados a partir das ações educativas. Isso pode ser entendido como reflexo da divisão do trabalho existente na enfermagem que, mediante a crescente incorporação tecnológica e complexidade do trabalho em saúde e enfermagem, ocorrida nas últimas três décadas, torna imprecisas as atribuições de cada categoria, causando inclusive conflitos e estresse entre os trabalhadores. A definição das atribuições dos trabalhadores de enfermagem também está relacionada com a percepção de uma certa artificialidade que se estabeleceu na distinção entre auxiliares e técnicos de enfermagem, pois estudos mostram que se trata de duas categorias profissionais distintas que executam trabalhos equivalentes(21).

É possível identificar, também, no depoimento de trabalhadores de nível médio, que a sua adesão às mudanças ocorre mais facilmente quando o trabalhador está inserido no processo de decisão, de modo que é importante desenvolver um trabalho mais articulado na equipe, de forma que os trabalhadores de nível médio, que são os executores majoritários do cuidado de enfermagem, sejam partícipes das decisões sobre a assistência e cuidado ao usuário.

Em dois depoimentos dos gerentes aparece a melhora da qualidade de maneira circular, como um elo entre usuário, trabalhadores e serviço. A ação educativa de trabalhadores deve refletir melhora da qualidade na tríade usuário-trabalhador-serviço, visto que a capacitação do trabalhador está relacionada à melhora da assistência do usuário que, por sua vez, pode refletir na qualidade dos serviços prestados à população. Vale destacar que a circularidade na tríade usuários, trabalhadores de enfermagem e serviços prestados expressa uma concepção dinâmica e dialética, no sentido da mútua influência entre os elementos que compõem o fenômeno estudado no presente estudo: o levantamento de necessidades e os resultados esperados com base na educação permanente em enfermagem.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

No que se refere ao levantamento de necessidades educacionais de trabalhadores de enfermagem, os resultados mostram que o foco está nas falhas identificadas e nos problemas mais frequentes, o que se desdobra em ações educativas voltadas para os procedimentos técnicos de enfermagem que remete à reiteração do modelo de cuidado e de atenção à saúde hegemônico, biomédico e à concepção também dominante de EC. Embora, minoritariamente, também outras fontes sejam utilizadas no planejamento das atividades educativas.

As concepções sobre resultados esperados a partir das ações educativas de trabalhadores, no curto prazo, também assinalam na mesma direção, da melhoria na qualidade do desempenho técnico e diminuição de falhas nos procedimentos, reiterando a valorização da ciência como fonte do conhecimento, a primazia da dimensão técnica do trabalho e a concepção de EC.

Contudo, no médio e longo prazo, as expectativas de resultados deslocam-se para a ampliação da reflexão crítica do trabalho, bem como da interação profissional /usuário e a articulação teoria/prática, numa evidente concepção de educação no trabalho orientada pela EP.

As concepções sobre resultados esperados também apontam, embora com menor destaque, para outros aspectos relacionados a evitar vícios na execução do trabalho, uniformizar condutas e definir de forma mais clara as atribuições dos diferentes trabalhadores de enfermagem.

Nos resultados deste estudo também é notória a necessidade de supervisão de caráter educativo e a necessidade de ampliação da autonomia profissional, ambas em especial referidas aos trabalhadores de enfermagem de nível médio.

Ressalta-se que essa pesquisa é um recorte no contexto em que se insere a educação permanente em enfermagem e, portanto, apresenta limitações na abrangência de seus resultados. Mas traz avanços no conhecimento sobre o tema de estudo - ações educativas de trabalhadores de enfermagem, em particular relacionados a dois aspectos apresentadas a seguir, como síntese, à guisa de conclusão.

As evidências empíricas do estudo deixam à mostra uma contradição - entre o investimento cotidiano no levantamento de necessidades e na expectativa de resultados técnicos, orientados eminentemente pela racionalidade instrumental, e no horizonte estratégico, a expectativa de promoção da reflexão crítica e de ampliação da autonomia dos trabalhadores de enfermagem como sujeitos sociais e cidadãos. O que leva a perguntar se é possível investir num horizonte emancipatório com base em um cotidiano restrito à reiteração do paroxismo técnico-científico.

Os resultados também atestam o predomínio de ações educativas de trabalhadores de enfermagem orientadas pela concepção de EC, convivendo com a identificação, por parte desses mesmos trabalhadores de enfermagem, enfermeiros, auxiliares, técnicos e gerentes, da necessidade e possibilidade de atividades educativas com novos formatos, conteúdos e sentidos, na perspectiva da EP. O que traz uma primeira resposta a indagação acima, corroborando com o entendimento de que a EC e EP podem ser complementares e que a distinção clara entre ambas permite o reconhecimento do espaço que devem ocupar na gestão do trabalho.

 

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Correspondência:
Dionize Montanha
Rua Paulo Bueno, 2 - Apto. 91- Ponta da Praia
CEP 110030-395 - Santos, SP, Brasil

Recebido: 27/05/2008
Aprovado: 20/08/2009

 

 

* Extraído da dissertação "Análise das atividades educativas de trabalhadores de enfermagem em um hospital de ensino: público participante, levantamento de necessidades e resultados esperado", Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo, 2008.