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Química Nova

Print version ISSN 0100-4042On-line version ISSN 1678-7064

Quím. Nova vol.20 no.spe São Paulo Dec. 1997

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-40421997000700012 

Criação e consolidação da Sociedade Brasileira de Química (SBQ)


Etelvino J. H. Bechara e Hans Viertler
Instituto de Química - Universidade de São Paulo - CP 26077 - 05599-970 - São Paulo - SP


 

 

Creation and consolidation of the Sociedade Brasileira de Química (SBQ). This article highlights the history of the formation of the Sociedade Brasileira de Química (SBQ) and its consolidation as a scientific society representative of the Brazilian community of chemists. Among other topics, we briefly comment on the origin of the SBQ from other Brazilian chemical associations; the creation of the SBQ periodicals (Química Nova , Journal of the Brazilian Chemical Society, Boletim Informativo, and Química Nova na Escola); the realization of SBQ annual meetings firstly within the Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) and thereafter (1990) in Caxambu (MG); the establishment of regional secretaries and divisions; the formation of links with the International Union of Pure and Applied Chemistry (IUPAC) and other international scientific organizations; and the affiliation of undergraduate students and Chemistry high school teachers with the SBQ.

Keywords: Brazilian Chemical Society; Brazilian Society for the Advancement of Science; chemistry in Brazil; Química Nova.

 

 

Oito de julho de 1977. Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Mesmo com o boicote das autoridades federais à Reunião, não liberando as verbas necessárias a sua realização e não licenciando funcionários federais, inclusive pesquisadores, para participarem dela, esta foi uma das mais importantes reuniões da SBPC. Artistas plásticos, atores, escritores e muitos outros intelectuais e amigos da Ciência se cotizaram, leiloaram obras e doaram bilheterias de teatros para cobrir parte das despesas da Reunião.

Na efervescência do ambiente universitário, ainda ameaçado pela truculência da ditadura militar, numa sala onde as pichações das paredes gritavam a falta de liberdade e a indignação contra as prisões arbitrárias, tortura e "desaparecimentos", nasceu então a Sociedade Brasileira de Química - SBQ, por decisão de cerca de setenta professores, estudantes e profissionais de química. O nome Sociedade Brasileira de Química não era nada original desde que, em 1922, entre as solenidades de comemoração do primeiro centenário da independência houve a fundação da Sociedade Brasileira de Química, a qual quase três décadas mais tarde, três anos após o incêndio de sua sede, se fundiu à pré-existente Associação de Química do Brasil (AQB) para originar a Associação Brasileira de Química (ABQ).

Àquela altura (1977), não suportávamos mais a falta de espaço para discussões científicas e políticas. Nos anos negros da ditadura militar, sem canal de expressão, nós químicos fomos omissos e, portanto, coniventes com todos os projetos federais de "desenvolvimento científico e tecnológico", inclusive o programa nuclear, a privatização e a massificação do ensino, a desnacionalização das indústrias, a burocratização e inchamento das agências financiadoras. Enquanto isso, físicos, bioquímicos, cientistas sociais e pesquisadores de outras áreas se entrincheiravam na denúncia das medidas totalitárias, obscurantistas e anti-universidade da ditadura. Foram quase quinze anos em que, por imobilismo e omissão da ABQ - na época, única agremiação dos químicos brasileiros - não tivemos reuniões anuais regulares, nem revista corrente, nem comissões de estudos. Os químicos brasileiros, excetuando-se professores titulares e alguns outros mais titulados, simplesmente não se conheciam. Uma pequena fração da comunidade de químicos apresentava seus trabalhos originais de pesquisa dentro da Secção de Química das Reuniões Anuais da SBPC e em simpósios da Academia Brasileira de Ciências (ABC). Tal era a falta de comunicação entre os químicos, que chegou-se a apresentar trabalhos idênticos realizados dentro de uma mesma instituição de pesquisa numa das reuniões da SBPC. Nos campi universitários, professores e alunos receiavam trocar idéias pois era sobejamente conhecida a infiltração de agentes da polícia política. Fazia apenas quatro anos que nossa querida e valorosa Ana Rosa Kucinski, dedicada pesquisadora e professora de Química Analítica do IQ-USP, havia "desaparecido". Nesta época, o cenário da Química no país se restringia a: (i) um conjunto de institutos ou departamentos de Química, onde se ensinava Química e se produziam trabalhos originais para publicação no exterior; (ii) a Associação Brasileira de Química, inoperante e sem representatividade, já sem os engenheiros químicos, que fundaram em 1975 a Associação Brasileira de Engenharia Química - ABEQ e sem os bioquímicos que, em 1967, criaram a Sociedade Brasileira de Bioquímica - SBBq); (iii) os Conselhos Regionais e Federal de Química, com membros que se perpetuavam nas seguidas quase auto-eleições, vício ainda muito comum entre muitos destes conselhos; e a Secção de Química da ABC, elitista e portanto um privilégio de poucos químicos. A filiação e atuação dos químicos de nível superior nos Conselhos e Sindicatos de Químicos sempre foram muito modestas e freqüentemente tinham apenas caráter de obrigação legal.

A primeira Diretoria da SBQ (Presidente: Simão Mathias; Secretário: Eduardo M.A. Peixoto; Tesoureiro: Etelvino J. H. Bechara), com caráter provisório, foi eleita na Assembléia de Fundação apenas com a tarefa de consolidar a nova SBQ através de um Estatuto que seria votado pelos químicos que se associassem naquele primeiro ano. É importante lembrar que esta chapa venceu uma outra formada por vários membros ativos da ABQ, já com cédulas de votação confeccionadas, o que foi visto como uma tentativa de abortar a tentativa de criação de uma nova sociedade de química. A Ata de Fundação da SBQ foi redigida no verso do cartaz daquela reunião da SBPC, que retratava Galileu Gallilei - um símbolo contra o obscurantismo - e assinada pela quase totalidade dos presentes. Em apenas um ano, a SBQ teve a adesão de 239 professores e pesquisadores e 78 estudantes de Química. Não apenas foi redigido e votado o Estatuto como também lançada a revista Química Nova e organizada a Primeira Reunião Anual da SBQ para julho de 1978. Paralelamente, e em poucos anos, estabeleceram-se as primeiras Secretarias Regionais da SBQ: Porto Alegre, Florianópolis, Maringá, Campinas, São Carlos, Ribeirão Preto, Araraquara, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Juiz de Fora, Viçosa, Salvador, Recife, Fortaleza e Brasília. Nosso dis-curso no ato de criação das Secretarias Regionais, em instituições de ensino e pesquisa de vários Estados, era constante e consistentemente o da procura de uma associação de químicos cientistas-cidadãos que praticassem uma Química inteira, catalisadora da geração e divulgação da cultura química e atuante politicamente na universidade e na sociedade. Coerentes com estes ideais, fomos uma das primeiras sociedades científicas a votar, na Assembléia Geral Ordinária de 1978, uma mo-ção pela anistia ampla, geral e irrestrita dos presos políticos e pelo reconhecimento da UNE como a única entidade representativa dos estudantes brasileiros.

A Química Nova resultou da teimosia e percepção de sua importância para a expansão da SBQ pelo Prof. Eduardo Peixoto. Auxiliado pela Sra. Dirce Campos, até hoje secretária da SBQ e testemunha de sua história, não foram medidos esforços pelo Prof. Peixoto para editar Química Nova. Páginas e mais páginas de sua autoria, com textos de Química Quântica para ensino na pós-graduação que davam corpo aos primeiros números da revista. Estes artigos de divulgação/ensino resultaram mais tarde no livro Teoria Quântica, de sua autoria. Daí, por incompreensão e/ou desconhecimento das dificuldades intrínsecas à criação de um veículo para divulgação de fatos e idéias nos planos educativo e científico, mesmo com a falta de recursos e colaboração dos colegas, a Química Nova foi maldosamente batizada de "a revista do Peixoto". Enquanto a Química Nova sofria ainda o processo de maturação, a ousadia e visionarismo do Prof. Peixoto o levaram a realizar ampla consulta junto aos sócios da SBQ sobre a necessidade e conveniência de se lançar um "journal", com artigos originais em inglês e, portanto, com chances de maior impacto e circulação internacional. A resposta foi bastante animadora (lembramo-nos do compromisso assinado por pesquisadores "seniores" de submeter trabalhos a esta revista caso viesse a ser criada), mas foi apenas em 1990 que se iniciou a publicação do Journal of the Brazilian Chemical Society (JBCS). Também foi iniciativa do Prof. Peixoto, em 1982, a edição do nosso Boletim Informativo.

Nos anos seguintes a sua fundação, nas gestões presididas pelo Prof. Simão Mathias (1979-1980), Prof. Ricardo de Carvalho Ferreira (1980-1981) e Prof. Fernando Galembeck (1981-1982 e 1982-1984), a SBQ cresceu vigorosamente. É curioso notar que uma das tarefas dos diretores e conselheiros da SBQ nas primeiras reuniões anuais era a de apresentar os pesquisadores uns aos outros. Em julho de 1984 já éramos 1367 Sócios Efetivos e 844 Sócios Colaboradores. Nos extensos programas de debates, simpósios, cursos, conferências, sessões de comunicações, finalmente os químicos brasileiros se conheceram, estabeleceram colaborações em projetos de pesquisa, promoveram intercâmbio de estudantes. A Química Nova, apesar da circulação inicial irregular, em virtude de dificuldades financeiras, se consolidou como órgão de divulgação da produção científica brasileira. Semanas de Química e Encontros Nacionais de Estudantes de Química (ENEQUIs) organizados pelos Centros e Diretórios Acadêmicos, receberam apoio material e assessoria técnico-científica da SBQ. Foram realizadas, sob o patrocínio e/ou apoio da SBQ, inúmeras reuniões específicas de pesquisadores das várias sub-áreas ou especialidades da Química: Fotoquímica, Análise de Resíduos de Pesticidas, Ensino de Química, Síntese Orgânica, Química Inorgânica, Química Ambiental e Química Analítica. Em 1982, cumpriu-se outra meta da SBQ que era a aglutinação de professores de química do Segundo Grau: foi realizado o Primeiro Encontro Nacional de Ensino de Química. A propósito, foi a partir de um questionamento da SBQ ao CFQ, numa das mesas redondas da Primeira Reunião de Química do Nordeste (Natal, RN), que este Conselho viria a aprovar mais tarde o registro de professores licenciados em química no quadro de profissionais de química dos Conselhos Regionais.

O elenco de pesquisadores/professores/estudantes/profissionais que atuou nos primórdios da construção da SBQ é, feliz e sintomaticamente, bastante grande. Secretários e representantes regionais da SBPC, alguns colegas do Instituto Adolfo Lutz, SESI, CETESB, IPT, IPEN, NPPN, INPE, etc., e alguns professores da rede pública de ensino no segundo grau, têm papel destacado na história de nossa Sociedade. Seria impossível nomeá-los a todos. Não é exagerado ou demagógico afirmar-se que a SBQ não surgiu de uma coincidência de fatos aleatórios favoráveis mas sim da vontade, determinação e trabalho de muitos químicos, de Manaus/Belém a Porto Alegre, do Rio a Brasília. A seriedade e eficiência da SBQ logo conquistaram o reconhecimento e o apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo - FAPESP, Financiadora de Estudos e Projetos - FINEP e Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES. A Secção de Química das Reuniões Anuais da SBPC passou a ser organizada pelos químicos associados à SBQ e a constituir as nossas Reuniões Anuais. Vários Encontros Regionais foram realizados: Sul, Nordeste, Rio de Janeiro, São Paulo. A divulgação dos trabalhos originais dos docentes universitários e pesquisadores de instituições isoladas, das áreas básica e aplicada de Química, passou a ocorrer majoritariamente nas reuniões da SBQ, dentro das Reuniões Anuais da SBPC.

No que tange à atuação da SBQ no plano internacional, ini-cialmente lembramos que, por razões históricas, a ABQ é que tinha a representação exclusiva dos químicos brasileiros em sociedades internacionais como a Federação Latino-Americana de Química (FLAQ) e a International Union of Pure and Applied Chemistry (IUPAC) e, por isso, pouco pôde ser feito nessa direção. Nos anos oitenta, teve destaque apenas a inclusão da SBQ entre as sociedades científicas européias co-editoras do Journal of Chemical Research e a eleição do Prof. Simão Mathias como membro ("chairman") da Comissão de nove sociedades científicas, sob iniciativa da American Chemical Society, para discussão da conveniência de fundação de uma nova Sociedade Internacional de Química. Várias tentativas de contatos mais próximos com órgãos internacionais foram feitas: IUPAC (visita do Dr. G. Ourisson, Secretário Geral da IUPAC, em 1981), a Gesellschaft Deutscher Chemiker (participação do Dr. Wolfgang Fritsche na 4a. Reunião Anual da SBQ, em julho de 1981), universidades da África Portuguesa (participação das Doutoras Fung Dai Kin e Manuela Faria da Universidade de Maputo, em nossa 5a. Reunião Anual, em 1982), e Sociedade Chilena de Química -SCQ (reunião do secretário geral da SBQ com a Diretoria da SCQ em Concepción, 1983)., O Secretário Geral da SBQ representou o Brasil no XV Congresso Latino-Americano de Química (San Juan de Puerto Rico) em 1982, por indicação da ABQ; compôs a Comissão Organizadora do XVI Congresso da FLAQ (Rio de Janeiro) junto com representantes da ABQ, ABEQ e SBBq em 1984; e atuou como observador no Encontro de Presidentes de Sociedades de Química realizado durante reunião da IUPAC em New Orleans (USA) em 1987 e, quatro anos mais tarde, representou a SBQ no Encontro de Presidentes da IUPAC em Lund (Suécia), quando divulgou um trabalho sobre o uso de mercúrio na mineração de ouro na bacia amazônica. Mais tarde, os presidentes da SBQ dos biênios 1984-1986 e 1986-1988 assinaram protocolos de cooperação com a Sociedade Portuguesa de Química e a Société Française de Chemie. Em várias ocasiões, considerando que (i) a SBQ era a sociedade nacional que congregava a quase totalidade dos pesquisadores produtivos de Química e exercia ininterruptamente a liderança através de reuniões anuais, edição de revista trimestral e boletim informativo bimestral, (ii) as anuidades das sociedades internacionais eram pagas pelo CNPq/Ministério das Relações Exteriores e (iii) cada uma das sociedades, SBQ e ABQ, além da ABEQ e ABIQUIM (Associação Brasileira de Indústrias Químicas) tinha seu próprio espaço de atuação, foi proposta a criação de uma Federação Brasileira de Sociedades de Química, sob o guarda-chuva da ABC ou SBPC. O intuito era criar um canal de representação dos químicos brasileiros na esfera internacional e de discussão e encaminhamento de soluções dos grandes temas de Química que convergem o interesse das Universidades/Institutos/Indústrias/Sociedades Civis. Esta proposta de criação da Federação, bem como aquela de fusão com a ABQ, sempre permeou, sem sucesso, as gestões das diretorias da SBQ até o presente. Ambas as propostas sempre receberam forte resistência dos químicos associados à SBQ nas assembléias ordinárias anuais, em virtude do forte caráter corporativista, conservadorismo e baixo prestígio da ABQ junto à academia. Mais tarde, em 1988, sob exigência da IUPAC, foi constituído o Comitê Brasileiro para Assuntos de Química (CBAQ) constituído pela SBQ, ABQ, ABEQ e ABIQUIM para representar a comunidade de químicos brasileiros junto àquela organização.

Outro dilema sempre presente em nossos Encontros e Reuniões da SBQ na década dos oitenta foi o da conveniência ou não de se realizar reuniões anuais fora da reunião da SBPC. Argumentava-se que os programas das reuniões da SBQ se tornavam excessivamente extensos e que a hipertrofia dos programas da SBPC, causada por nossa sociedade, a de Genética e a de Física, era um sério problema para o bom aproveitamento de nossas reuniões. Além disso, dada a complexidade de organização da reunião da SBPC (horários, cronograma, espaços, recursos audiovisuais etc.), nossa liberdade na elaboração dos programas era bastante tolhida. Os contra-argumentos, entretanto, eram muito fortes e arrebanhavam a simpatia de grande fração dos sócios da SBQ. Os custos de reunirmo-nos com a SBPC eram muito baixos e, cientificamente, eram indubitáveis os ganhos numa reunião pluridisciplinar como a da SBPC. Os químicos teriam chances de interação com cientistas de outras áreas e seriam beneficiados pela oferta de vários cursos de interesse específico ou interdisciplinar. Politicamente, sempre nos pareceu fundamental e acertado prestigiarmos a SBPC, a qual, junto à Igreja, OAB, ABI e outras instituições, teve papel destacado na defesa das liberdades civis, inclusive a de se fazer ciência de alta qualidade e descomprometida com o dirigismo e imediatismo político. Segundo dados da SBPC, a SBQ chegou a deter o mais alto índice de apresentação de trabalhos inscritos e promover o maior congresso de cientistas e especialistas dentro das reuniões anuais da SBPC. Tínhamos a preocupação de organizar mesas redondas e conferências sobre temas multidisciplinares e atuais. Nossos programas de reunião sempre foram elaborados de forma muito democrática (opinavam secretários regionais, diretores e conselheiros) e viabilizávamos ampla participação de pesquisadores e pós-graduandos nas reuniões anuais através da concessão de cerca de duzentos auxílios de viagem, oriundos de verbas concedidas pelo CNPq, FAPESP e CAPES. Em contrapartida, a SBQ formou quadros que posteriormente viriam a integrar comissões, coordenações e grupos de trabalhos das agências financiadoras do ensino e da pesquisa. É importante, entretanto, frisar. que ao longo do trabalho desenvolvido em conjunto com as agências sempre foi mantida nossa liberdade de crítica e atuação independente. Assim, na 4 Reunião Anual, em Salvador (1981) conseguimos, após intensas discussões, derrotar o programa do CNPq de implantação do Instituto de Pesquisas Químicas (IPQ), elaborado de forma autoritária e contrária aos interesses de manutenção e crescimento da pesquisa química nas universidades. Posteriormente, também foram contundentes nossas críticas ao PRONAQ (Programa Nacional de Apoio à Química), uma versão um pouco melhorada do IPQ e também abortado posteriormente. O PADCT (Programa de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico), com seu sub-programa de Química e Engenharia Química, brilhantemente engendrado pelo Prof. Fernando Galembeck viria em seguida. Este sub-programa contemplava não só apoio direto aos grupos de pesquisa emergentes e consolidados, como criava, pela primeira vez, recursos novos para melhoria do ensino de graduação, ao contrário do sub-programa de Biotecnologia, por exemplo, que não só atendia apenas grupos de pesquisa como ainda elegia temas específicos (e consequentemente grupos "elegible") para apoio. O PADCT também encontrou inicialmente forte resistência da comunidade científica, inclusive a dos químicos, porque (i) não estava claro, na ocasião, se os recursos nacionais do PADCT eram de fato novos, adicionais aos do Fundo Nacional para o Desenvolvimento da Ciência e Tecnologia (FNDCT) que sustentavam inclusive os programas do CNPq e FINEP, e (ii) foram excluídas áreas do conhecimento importantes como a Bioquímica Básica e a Física que julgávamos também estratégicas para um desenvolvimento científico e tecnológico harmônico e lucrativo. Posteriormente constatamos que, não fora o PADCT, a pesquisa química ruiria junto com outras áreas de pesquisa nas universidades federais, à mingua pelos cortes radicais e contingências nos auxílios à pesquisa do CNPq e FINEP.

A SBQ só logrou um salto de qualidade em sua atuação e organização na década dos noventa. Primeiro, com a realização da 13a Reunião Anual da SBQ em maio de 1990 em Caxambu e, portanto, pela primeira vez, fora do âmbito da SBPC. Segundo, com a informatização de sua Secretaria Geral a partir de 1992, nos mandatos do Secretário Prof. Romeu Cardozo Rocha-Filho, que permitiu à SBQ optimizar a prestação de serviços aos sócios, a implantar as Divisões de sub-áreas da sociedade, e a consolidar e ampliar a publicação de periódicos - a Química Nova, o JBCS, a recém-criada Química Nova na Escola e o Boletim Informativo. Esta fase mais moderna da SBQ será abordada por outros artigos neste número especial da Química Nova.

Uma das mais sérias autocríticas que nós químicos fazíamos nos anos setenta era relativa a nossa dificuldade de atuar politicamente e organizados. Constatava-se o isolamento de muitos pesquisadores produtivos e renomados dentro de seus laboratórios; não se percebendo neles uma preocupação e compromisso com seu próprio Departamento ou Instituto. Verificava-se mesmo uma inexplicável alienação frente aos problemas do Estado, para os quais tínhamos disposição (ao nível individual, apenas) e competência para solucioná-los. Este comportamento, de certa forma, também se reproduzia dentro da SBQ. Havia forte dependência da comunidade da tutela das lideranças, mesmo na elaboração dos programas de reunião anual, e a diretoria da SBQ recebia o pesado encargo de, freqüentemente, pensar e decidir sozinha por toda a comunidade. Foram inúmeras as tentativas, sem respostas, de chamar os químicos a opinarem sobre problemas pertinentes à SBQ ou à Química no país. Foi muito timidamente que, aos poucos, começamos a conquistar alguns espaços junto às sociedades científicas, agências financiadoras, indústrias e sociedade civil. Mas é sintomático, por exemplo, que até hoje não tivemos um químico presidente da SBPC ou membro do Conselho Deliberativo do CNPq, ou, como apontado em um de nossos últimos boletins informativos, que estivéssemos ausentes da discussão pública da má qualidade da água utilizada em hemodiálise em Caruaru (PE) da qual resultaram vários óbitos. Tampouco temos sido competentes em interagir com a indústria química, um dos objetivos centrais de nossa sociedade, ou em divulgar uma imagem mais positiva da química junto à população. Estes são alguns dos desafios que temos adiante para chegarmos à estatura das sociedades de química irmãs do hemisfério norte. Certamente, com o fenômeno da globalização, os objetivos e estratégias de ação da SBQ terão de ser repensados e redefinidos. O que não se pode perder de vista é o caráter da SBQ como uma sociedade não-governamental com toda uma dimensão científica, cultural e política.

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