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Química Nova

Print version ISSN 0100-4042

Quím. Nova vol.26 no.4 São Paulo July/Aug. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-40422003000400030 

CARTA AO EDITOR

 

Tio Tungstênio - memórias de uma infância química

 

 

Roberto de Barros Faria

Departamento de Química Inorgânica, Instituto de Química, Universidade Federal do Rio de Janeiro, CP 68563, 21945-970 Rio de Janeiro - RJ, e-mail: faria@iq.ufrj.br

 

 

Ilmo. Sr. Editor,

Após muitos anos ministrando a disciplina de Química Geral, sempre busquei motivar ao máximo meus alunos. Esta certamente é uma preocupação constante de todos nós, professores de química de nível superior, tanto em relação aos alunos que escolheram a química como carreira como para aqueles que fazem outros cursos mas têm a química como matéria obrigatória. No caso dos professores do segundo grau, a responsabilidade é ainda maior pois a escolha de uma carreira ligada à química poderá sofrer influências decisivas a esta altura da formação dos nossos jovens. Assim, foi com grande satisfação que, por indicação de um aluno de pós-graduação, li o livro "Tio Tungstênio - Memórias de uma infância química", de Oliver Sacks, do qual não havia ouvido falar até então e cujo conteúdo considero muito motivador para todo jovem que esteja cursando Química Geral no nível superior ou Química no segundo grau, onde é obrigatória.

Minha empolgação com o conteúdo deste livro tem me levado a um comportamento inconveniente, de tanto que eu o tenho recomendado aos meus parentes (na maioria químicos) e professores universitários com os quais convivo. Assim, cheguei a conclusão de que uma melhor maneira de compartilhar a alegria de ter lido este livro é divulgar minhas impressões sobre o mesmo com a comunidade química brasileira através da resenha abaixo. Nesta resenha faço uma descrição do conteúdo do livro e procuro chamar a atenção para as qualidades do texto que eu recomendo a todos aqueles interessados em química, sejam professores ou não.

 

Resenha

Tio Tungstênio - Memórias de uma infância química

Oliver Sacks, Companhia das Letras: São Paulo, 2002, ISBN 85-359-0270-8 , 334 pp.
Título Original da obra: "Uncle Tungsten: Memories of a Chemical Boyhood"
Tradução de Laura Teixeira Motta

Obra do neurologista Oliver Sacks, trata de uma viagem às primeiras descobertas de um inquieto cientista nato. Contendo fotos e ilustrações ao início de cada um dos seus 12 capítulos, além de uma Tabela Periódica em página dupla e índice remissivo, o livro é uma autobiografia que descreve as experiências e observações do autor realizadas desde quando ainda muito jovem até a sua adolescência, durante o período da Segunda Grande Guerra.

Filho de família numerosa e tendo como pais um casal de médicos, Sacks teve a liberdade e até mesmo foi estimulado a montar, ele mesmo, um laboratório em casa. Morador de Londres, teve acesso a diversos materiais disponibilizados por seus tios, que eram industriais, e pelas lojas de produtos químicos a varejo. Desta forma, Sacks realizou experiências que poucos dos profissionais da química de hoje em dia tiveram a oportunidade de realizar e outras que são comuns nos laboratórios de ensino, de hoje em dia. Mais do que isto, arguto ao extremo, sua mente inquisidora fazia-o perseguir, com fervor, muitas das questões mais fundamentais da química, deslumbrando-se o tempo todo ao perceber os grandes feitos de cientistas tais como Davy, Boyle, Bohr, Mendeleiev, Rutherford, o casal Curie, Moseley, Cannizzaro, Faraday, Dalton, Priestley, Bunsen, Kirchhoff, Kelvin e outros.

Sua forma leve de escrever faz do livro uma leitura fácil e agradável, embora repleta de conceitos fundamentais para o entendimento do mundo que nos cerca, em especial o da química. Seus capítulos sobre tabela periódica e radioatividade são absolutamente magistrais e dignos de figurar em qualquer livro de química de nível secundário ou universitário. Poucos erros são encontrados, podendo ter sido originados quando da tradução como, por exemplo, na página 207, onde o H2S é chamado de híbrido de enxofre e, na página 118, onde descreve a formação de CO2 pelo aquecimento de gesso com HCl. Não há, porém, qualquer erro conceitual e o desenrolar histórico de muitos dos grandes acontecimentos científicos é enriquecedor, mesmo para aqueles com ampla cultura química.

"Tio Tungstênio" traz de volta o romantismo da química e das grandes descobertas. Romantismo que foi definitivamente perdido quando da explosão da primeira bomba atômica sobre o Japão e que levou o autor a concluir: "A física atômica ou nuclear (...) nunca mais poderia avançar com a mesma inocência e despreocupação da época de Rutherford e dos Curie". A partir de então, e cada vez mais, sempre que ocorre um acidente ecológico, muito se tem falado contra a Química e pouco se tem conseguido fazer para reduzir este estigma pejorativo já bastante arraigado na população. "Tio Tungstênio" vem preencher, de forma significativa, esta lacuna através de um relato absolutamente impressionante de uma infância química prazerosa em meio aos gases, metais, compostos fedorentos e explosões. Desta forma, não é difícil prever que esta obra venha a ser utilizada como texto suplementar no ensino de química, em todos os níveis, formando cidadãos mais conscientes da importância das ciências para o desenvolvimento social e econômico.