TRADUÇÃO
Plotino, acerca da beleza inteligível (Enéada V, 8 [31])*
Introdução, tradução e notas de Luciana Gabriela E. C. Soares**
Introdução
Este tratado representa a maturidade filosófica de Plotino, pois, segundo Porfírio de Tyr1 , seu discípulo, ele faz parte da segunda série de escritos, composta de vinte e quatro tratados perfeitos, redigidos entre 263 e 268 d.C., ou seja, entre os seus sessenta e sessenta e cinco anos. Trata-se, segundo Porfírio, de um apogeu filosófico, porque grande parte desses tratados foram elaborados visando aprofundar temas expostos na primeira série de escritos compostos quando ele já possuía a idade de cinqüenta e oito anos2 .
Na ordem cronológica dos tratados também apresentada por Porfírio3 , o tratado Acerca da Beleza Inteligível4 é o trigésimo primeiro entre os cinqüenta e quatro que teriam sido escritos por Plotino. Dizemos teriam sido, pelo fato de que Porfírio, tendo recebido de Plotino a incumbência de colocar em ordem e corrigir os seus tratados5 , toma como critérios de organização uma divisão temática e o desejo de compor, na organização, o número perfeito nove, o que tem como resultado a distribuição dos tratados em seis livros, cada um deles com nove tratados, por esta razão chamados de Enéadas6 . Em suma, num total de seis enéadas, este tratado faz parte da quinta, que é dedicada aos temas relativos ao Intelecto7 . Por essas razões, somos levados a desconfiar de que, talvez, Porfírio tenha recortado tratados para conseguir alcançar a sua forma de edição idealizada. E é seguindo essa idéia que o filólogo e responsável por uma tradução alemã da obra completa de Plotino, no início do século passado (1930-37), HARDER8 , anuncia a tese de que o nosso tratado é uma parte de um único escrito antignóstico que teria sido dividido em quatro tratados na seguinte ordem: III, 8 [;30], V, 8 , V, 5 [32], II, 9 [33], intitulados respectivamente: Sobre a natureza, a contemplação e o Uno; Acerca da Beleza Inteligível; Sobre o fato de os inteligíveis não serem externos ao Intelecto, e sobre o Bem; Contra os Gnósticos. Estes constituiriam um único texto contínuo empenhado essencialmente em refutar o pensamento gnóstico. Ele defende essa tese do ponto de vista tanto cronológico como temático, demonstrando, ainda, através de um estudo filológico, os recortes sofridos pelo texto.9
Plotino mostra em V, 8 todo o percurso cognitivo que a atividade contemplativa da alma deve sofrer para conseguir atingir a visão do universo inteligível, descrevendo essa realidade inteligível como uma identidade de ser, pensamento e intelecto, além de essência fundadora e verdadeira da alma.
A noção da beleza (kállos) na filosofia de Plotino está intrinsecamente relacionada aos três níveis da realidade por ele distintos, ou seja, a Alma (psukhé), o Intelecto (noûs) e o Uno (hén), não se restringindo assim às disciplinas artísticas ou a um campo de expressão que possa vir a constituir uma Estética, pois ela deve ser apreendida a partir de uma visão metafísica.
Por essa razão, o estatuto da arte (tékhne) em Plotino tem um sentido essencialmente metafísico e ela é valorizada na medida em que consiste em um dos modos de reconhecimento da beleza. Pois a beleza transparece na arte porque ela provém da forma que está no intelecto do artista e não do seu fazer manual, ou seja, o artista traz à visão a beleza, quando ele possui o conhecimento intelectual da forma, e não por sua habilidade manual10 .
Em V, 8 Plotino elabora os fundamentos da natureza da beleza, desenvolvendo muitos dos temas apresentados no tratado Acerca do Belo, Enéada I, 6 [1]11 . Ainda que estes sejam tradicionalmente considerados os tratados específicos acerca da beleza, a teoria do Belo em Plotino não constitui apenas uma questão particular entre outras abordadas na sua filosofia; mas tal teoria permeia e conduz toda a sua metafísica, ao ponto de esta ser definida como uma metafísica do belo12 . Em I, 6 [1] Plotino descreve a busca da alma pela beleza, a sua ascese no reconhecimento da beleza, partindo dos objetos sensíveis, passando pelas ações virtuosas e chegando à beleza dela mesma e do inteligível.
Esse desejo amoroso da alma de unir-se à beleza inteligível é apresentada como o bem máximo que a alma pode alcançar e por isso aparece como quase idêntica ao Uno, mas essa proximidade quer apenas frisar que o caminho que leva a alma em direção ao Uno passa, necessariamente, pela sua chegada à sua verdadeira natureza ontológica, ou seja, à sua realidade inteligível, que é pura beleza. E para tanto, ela deve retornar, assim como Odisseu, para a sua verdadeira pátria a sua natureza inteligível numa viagem ao interior de si mesma.
E o tratado V, 8 é o percurso dessa viagem.
Tradução13
Capítulo 1
Já que nós afirmamos14 que quem chegou à contemplação do cosmo inteligível e15 que compreendeu a beleza do verdadeiro Intelecto16 , poderá trazer à mente o pai do Intelecto, que está para além do Intelecto17 , tentemos ver e dizer a nós mesmos, enquanto é possível falar de coisas como estas18 , como19 alguém possa20 contemplar a beleza [5] do Intelecto e daquele21 cosmo.
Então, tome como exemplo, se quiser, duas pedras22 que se encontram em estado bruto uma ao lado da outra, uma sem proporção e desprovida de arte e a outra já transformada pelo domínio da arte na estátua de um deus ou ainda de um homem, de um deus como uma Graça ou uma Musa e de um homem [10], não qualquer um, mas aquele que a arte criou23 escolhendo todas as belas qualidades24 .
Aquela pedra que atingiu a beleza de uma forma devida à arte, aparecerá bela não em relação ao seu ser pedra pois seria igualmente bela também a outra mas pela forma que a arte25 infundiu.
Portanto, a matéria não tinha esta forma, mas esta estava [15] em quem a pensava26 já antes de atingir a pedra; estava no artífice, não enquanto é dotado de olhos e mãos, mas porque participava da arte.
Porém esta beleza27 estava muito melhor na arte28 : na verdade, não é aquela beleza que está na arte que atingiu a pedra, mas aquela beleza <;da arte>29 permanece em si; ao contrário, atingiu a pedra30 uma outra beleza proveniente daquela <;da arte> [20] e inferior a ela. E nem esta beleza permanecia pura na pedra31 , nem como queria32 , mas na medida em que a pedra cedeu à arte33 .
Mas se a arte cria conforme34 isto que é e possui
Na verdade, quanto mais a beleza se estende indo em direção à matéria, tanto mais sem vigor é em relação àquela que permanece no uno
Mas se alguém despreza as artes porque estas produzem imitando a natureza, antes de tudo precisa ser dito que também as coisas da natureza imitam outras coisas40 . Em seguida, é preciso saber que não imitam simplesmente isto que se vê, mas se elevam [35] aos princípios racionais das quais a natureza <;deriva>. Além disso, é preciso saber também que as artes produzem muitas coisas delas mesmas41 e completam isto que carece de alguma coisa porque as artes possuem a beleza.
Assim também Fídias42 produziu Zeus, sem referência a nada de sensível43 , mas colhendo <;do intelecto> como seria se Zeus quisesse aparecer a nós visivelmente44 [40].
Capítulo 2
Mas deixemos de lado as artes. Ao invés disto, consideremos as obras que, como se diz45 , são imitadas pela arte, aquelas que nascem e são ditas belas por natureza, tanto as criaturas racionais, quanto todas as criaturas desprovidas de razão46 , quanto, sobretudo, todas dentre elas que são bem acabadas, pois aquele que as plasmou e as forjou, dominou a matéria e deu a forma que queria47 [5].
Então, o que é a beleza nestas coisas? Pois certamente não é o sangue e o fluxo menstrual48 . Mas também a cor destas é diversa <;do belo>49 , e a figura destas ou é nada ou é alguma coisa de informe como isto que circunda alguma coisa de simples [como a matéria]50 .
De onde então irradiou a beleza de Helena, objeto de disputa; ou de quantas entre as mulheres que são semelhantes em beleza a Afrodite? [10] E conseqüentemente, de onde irradiou a beleza da própria Afrodite, ou se existe, <;a beleza> de um homem completamente belo, ou a de um deus, dentre aqueles que chegam à nossa visão ou também daqueles que não vêm à visão mas que têm em si uma beleza que poderia ter sido vista?
Não é talvez esta beleza por toda parte uma forma, que atinge isto que é gerado partindo daquilo que o produziu, tal como se dizia nas artes [15] nas quais a forma vai das artes aos objetos produzidos? E que coisa, então? Por um lado, são belas as obras e o princípio racional que governa a matéria; por outro, o princípio racional que não está na51 matéria mas naquele que cria, este <;princípio>, primeiro e imaterial, não é beleza?
Mas se o bloco de pedra fosse belo enquanto fosse massa, seria necessário que o princípio racional que o produziu [20] não fosse belo, porque não era massa. Mas se a forma é a mesma num objeto pequeno ou grande, e se igualmente move e dispõe a alma de quem olha, com a própria força, a beleza não deve ser atribuída à extensão da massa.
É prova também isto: enquanto a beleza permanece externa52 não a vemos ainda, quando finalmente é interna [25] à alma tem efeito sobre nós. Na verdade, apenas a forma entra através dos olhos53 : senão como poderia entrar através de <;uma abertura>54 tão pequena? Mas a forma traz consigo também a grandeza, não aquela grande enquanto massa, mas aquela que é grande pela forma.
Além disso, é necessário que isto que produz seja ou feio ou indiferente ou belo. Então, sendo feio, não poderia produzir o oposto, e, sendo indiferente, por que deveria produzir o belo ao invés do [30] feio?
Mas certo, também a natureza que produz coisas tão belas é bela muito antes <;dos seus produtos>, todavia nós que não estamos habituados a ver nada das coisas internas nem as conhecemos, seguimos o exterior ignorando que é o interior que move. Como se alguém, vendo a própria imagem, não reconhecendo de onde <;esta> vem, a seguisse55 .
Além disso, [35] tanto a beleza nos estudos como a beleza nos hábitos, ou ainda, em geral, a beleza nas almas, revela que isto que é seguido é outro e <;que> a beleza não está na grandeza. E certamente, na verdade, há mais beleza quando tu vês a sabedoria56 em alguém e ficas admirado não olhando para o rosto este poderia ser na verdade feio mas [40] deixando de lado todo o aspecto exterior, tu segues a sua beleza interior57 .
Se ao invés não te comove58 ainda, ao ponto de definir bela uma tal pessoa59 , olhando para o teu próprio interior tampouco te alegrará de ti mesmo como belo. De maneira que em vão tu buscarias a beleza estando em tal condição; pois a buscarás no feio e no impuro; por isso os discursos sobre tais <;argumentos> não são para todos60 .
Mas se [45] tu também viste a ti mesmo belo, recorda-te.
Capítulo 3
Então existe também na natureza um princípio racional61 modelo da beleza corpórea, mas o princípio62 que está na alma é mais belo do que o que está na natureza e deste provém o princípio racional que está na natureza63 . Certamente, o princípio que está na alma nobre é muito fúlgido e já supera64 em beleza65 . De fato, adornando a alma e fornecendo luz, proveniente de uma luz maior que é primeiramente [5] beleza, estando este <;princípio> na alma, a faz deduzir qual é o princípio antes dele que não nasce nem é outro, mas está em si mesmo. Por isso, não é nem mesmo um princípio racional, mas o criador do primeiro princípio racional da beleza, que está na matéria da alma66 .
Mas este é o Intelecto, aquele que é sempre intelecto e não que é algumas vezes Intelecto67 , porque não adquire nada para si mesmo. [10] Qual imagem então alguém poderia colher dele? Pois toda imagem será proveniente <;de alguma coisa> de inferior68 .
Mas certamente é preciso que a imagem nasça do Intelecto de modo que não seja colhida através de uma imagem, é como tomar um pedaço de ouro como exemplo69 de todo ouro, e se o pedaço pego não fosse puro, seria preciso purificá-lo ou com ações ou com palavras, demonstrando que tudo isto não é ouro [15], mas apenas esta parte aqui na massa70 .
Assim também neste caso, é preciso partir do intelecto que está em nós depois que foi purificado, ou se quiseres, dos deuses, considerando qual seja o intelecto neles. Já que todos os deuses são belos e veneráveis e a beleza deles é excepcional71 . Mas que coisa é aquilo pelo qual são tais? O intelecto, e o fato de que o intelecto neles é mais ativo [20], a ponto de ser visto.
Não certamente porque os seus corpos são belos. Pois que, para aqueles que têm um corpo, isto não significa para eles que são deuses, mas também estes são deuses segundo o intelecto. E certamente são belos enquanto deuses. Certamente não é que algumas vezes são sábios72 e outras vezes não usam de sabedoria, mas sempre são sábios no intelecto73 impassível, constante e puro [25] e sabem tudo e conhecem não as coisas humanas, mas as próprias coisas divinas e todas as coisas que o intelecto vê.
Entre os deuses, aqueles que estão no céu74 já que têm disponibilidade contemplam sempre, como de longe, as coisas que estão naquele outro75 levantando as próprias cabeças76 . Aqueles deuses77 que, ao contrário, estão naquele outro céu78 , quantos têm morada junto a este céu e neste céu79 , habitando [30] em todo o céu de lá pois tudo ali é céu80 , a terra é céu, o mar, os animais, as plantas, os homens, cada coisa daquele céu é celestial os deuses que estão neste céu, não desdenhando dos homens81 nem de nada daquelas coisas de lá, porque se encontram lá no alto, percorrem [35] toda a região e o espaço82 repousando83
Capítulo 4
pois que ali está o viver facilmente84 , pois a verdade é para eles geradora, nutriz, ser e nutrição e vêem todas as coisas, não aquelas às quais pertence o vir a ser85 mas aquelas às quais pertence o ser86 e vêem a si mesmos nos outros: pois todas as coisas são transparentes e nada é obscuro nem resistente à luz, mas tudo é manifesto a tudo [5] até o íntimo87 e assim todas as coisas são manifestas a todas as coisas até o interior; já que a luz é manifesta88 à luz. Pois cada coisa tem todas as coisas nela mesma e, por outro lado89 , vê todas as coisas no outro, de modo que todas as coisas estão em toda parte e tudo é tudo e cada coisa é tudo90 , e o esplendor é infinito.
Na verdade, cada uma destas coisas é grande, pois que também o pequeno é grande91 : mesmo o sol ali é todos os astros e, por outro lado, cada um destes é sol e todas as coisas. [10] E em cada um é proeminente um traço particular92 , mas manifesta também todas as coisas93 . E também o movimento é puro; pois isto que move não o turba no seu proceder, como se fosse diferente dele94 ; também a imobilidade95 não é perturbada porque não é misturada ao que não é imóvel.96 E o belo é belo porque não está no <;não> belo.
E cada um não avança como [15] numa terra estrangeira, mas para cada um o lugar em que está97 e isto que é são o mesmo, e o lugar de onde vem vai com ele que procede como em direção ao alto, e não é que ele é uma coisa e o seu lugar um outro. Pois o substrato98 é Intelecto e ele mesmo é Intelecto99 . Como se alguém pensasse que, neste céu visível, que é luminoso, esta luz que vem dele [20] são os astros100 .
Aqui101 então uma parte não nasce102 de uma outra103 e cada coisa é apenas uma parte, lá104 , ao contrário, cada coisa deriva105 sempre do todo106 e é ao mesmo tempo uma única coisa e todo107 . Na verdade, <;cada coisa> aparece como uma parte, mas o todo é observado por quem é agudo de vista, como se alguém se tornasse108 , em relação à vista, tal qual se dizia [25] ser Linceu, que via também as coisas de dentro da terra; já que o mito alude aos olhos que vêem lá no alto.
Não há cansaço nem saciedade de contemplação lá no alto, de modo a existir um final para quem contempla; nem há um vazio109 para este, de modo que, chegando à plenitude e ao fim, esteja satisfeito. Nem há uma coisa e uma outra, de modo que as coisas [30] de um não sejam apreciadas por um outro entre aqueles de lá110 ; e as coisas de lá são inexauríveis. Mas há a insaciabilidade pelo fato de que a plenitude111 não faz desprezar aquele que a produziu112 . De fato, quem vê, vê mais, e observando a si mesmo infinito e as coisas visíveis, segue a própria natureza. E a vida não comporta cansaço para ninguém quando ela é pura: de resto, isto que vive do modo melhor [35], por que deveria cansar-se?
A vida lá é sapiência113 , sapiência114 não adquirida com raciocínios, porque era sempre toda inteira e carente de nada, de modo que tenha necessidade de busca; e o ser mesmo é sapiência, mas não existe <;antes> somente o ser e, em seguida, o ser sapiente115 . Por isso nenhuma <;sapiência> é maior e a ciência em si [40] aqui se senta ao lado do Intelecto pelo fato de que se mostram juntos, como dizem, referindo-se a uma imagem, aquela da Justiça que se senta ao lado de Zeus116 . Pois todas as coisas deste tipo lá são como imagens117 vistas por si mesmas, de maneira que seja espetáculo de espectadores118 extremamente felizes119 .
Alguém poderia ver a grandeza e a potência da sapiência pelo fato de ela ter nela mesma os seres [45] e os ter produzido e de todas as coisas derivarem dela. Ela mesma é os seres, eles nasceram com ela, e ambos são uma única coisa, e o ser lá é sapiência.
Mas nós não chegamos até a compreensão disto porque consideramos que também as ciências são teoremas e uma reunião de premissas120 ; mas isto não vale nem mesmo nas ciências daqui121 . [50] Se alguém ainda sobre isto discute, é preciso, neste momento, deixar de lado esta discussão. Mas sobre a ciência de lá também Platão, observando-a, declara que não é outra em outro122 mas como isto é possível, ele deixou a nós buscar e descobrir, se dizemos que somos dignos do nome que temos , então provavelmente é melhor [55] começar deste ponto.
Capítulo 5
Uma sapiência cria todas as coisas que são geradas, seja as coisas produzidas pela arte seja as coisas naturais, e a sapiência governa a criação por toda parte123 . Mas, então, se alguém produzisse segundo a sapiência mesma, sejam desta mesma natureza as artes124 . Mas o artífice de novo remonta a uma sapiência natural, segundo a qual foi gerado, não mais uma sapiência composta [5] de teoremas125 , mas toda uma só coisa126 ; não aquela sapiência composta de muitos <;elementos> em uma unidade127 , mas, ao contrário, uma sapiência que se resolve128 em uma multiplicidade a partir da unidade. Se alguém então colocar esta sapiência como primeira, é suficiente; de fato, não é mais proveniente de outro nem <;está> em outro129 .
Se, ao invés, disserem que o princípio racional está na natureza mas que a natureza é a origem130 dele, [10] perguntaremos de onde a natureza o recebe e se não vem daquela <;realidade superior>131 como de uma realidade diversa da natureza. Se este princípio provém dela mesma132 , nos deteremos133 .
Se, ao contrário, eles chegarem a falar do Intelecto, então é preciso ver se o Intelecto gerou a sapiência; e se o admitirem, de onde ele a recebe? E se vem de si mesmo, é impossível, a menos que o Intelecto mesmo seja sapiência. Porque de fato a sapiência verdadeira é ser e o verdadeiro ser é sapiência [15] e também o ser adquire valor da sapiência e enquanto adquire valor da sapiência é verdadeiro ser134 .
Portanto também todos aqueles seres que não têm sapiência, pelo fato de terem sido gerados como seres mediante uma sapiência135 , mas <;também> não têm neles mesmos sapiência, não são seres verdadeiros136 . [20] Por conseguinte, não é preciso acreditar que lá os deuses e os seres <;que estão> lá137 os quais são absolutamente felizes vêem os princípios das proposições, mas <;ao contrário> cada uma das coisas já ditas lá138 é uma bela imagem139 , como aquelas que alguém imaginava estar na alma do homem sapiente140 , imagens não desenhadas, mas reais141 . Por isso, os antigos diziam que as idéias são realidades e seres142 . [25]
Capítulo 6
Parece-me que também os sapientes dos egípcios, compreendendo ou através de uma ciência exata ou através de um conhecimento inato aquelas coisas que eles queriam ilustrar por meio da sapiência, usavam não os caracteres do alfabeto que acompanham as palavras e as proposições, as quais nem mesmo <;são capazes de> imitar sons e pronúncias de princípios, mas desenhando imagens [5] e entalhando uma imagem particular para cada coisa nos templos, mostravam a ausência de desenvolvimento discursivo destas imagens. Pois que, de fato, cada imagem é seja uma certa ciência, seja sapiência, seja substrato, seja algo de reunido143 , e não pensamento discursivo nem deliberação144 .
Em seguida, um simulacro nasce daquela sapiência que é algo de reunido, um simulacro que se desenvolve [10] já em outro e que exprime a si mesmo em uma exposição discursiva e revela as causas através das quais as coisas são assim; de modo que, sendo tão belo isto que veio à existência, se alguém soubesse admirar, diria que admira a sapiência, a maneira pela qual ela, não possuindo as causas do ser por meio das quais as coisas são assim, fornece as causas às coisas criadas em conformidade a ela145 .
Para concluir, isto que é belo deste modo e [15] que através de uma investigação146 revela com dificuldade ou de modo nenhum a razão pela qual é necessariamente assim, se alguém quisesse descobri-la existe, assim, antes da investigação e do raciocínio. Como (consideremos na verdade isto que digo sobre um grande exemplo, o qual se adaptará também a todos os outros casos)
Capítulo 7
este universo já que estamos de acordo147 que a sua existência e a sua natureza derivam de outro148 , devemos, por acaso, crer que o seu criador planeja em si mesmo a terra e estabelece que necessariamente ela esteja no meio deste universo e, em seguida, que a água esteja sobre a terra; enfim as outras coisas em ordem até o céu e ainda <;devemos por acaso crer que ele planeja> todos os animais viventes e [5] cada um destes com as formas tantas quantas149 são agora, e com as suas vísceras internas e as partes externas, e depois, tendo assim disposto cada coisa nele mesmo, ele finalmente mete mãos à obra? Mas um tal planejamento é impossível pois de onde lhe veio este <;plano>150 se <;ele> nunca viu ainda nada? nem seria possível <;para ele> executar, servindo-se de outra coisa, como [10] agora os artesãos151 que produzem utilizando mãos e instrumentos; já que, tanto as mãos quanto os pés <;são criados> sucessivamente.
Assim resta apenas que todas as coisas estão em outro152 e que, pois que nada está no meio153 a causa da vizinhança no ser daquele outro154 , <;a criação> aparece repentinamente como uma imagem e como uma aparência daquele155 , seja espontaneamente, seja com a ajuda de uma alma156 [15] pois não faz diferença no momento presente ou de uma alma particular. Mas na realidade todas estas coisas vêm de lá e lá estão no modo mais belo; pois que as coisas daqui e não aquelas de lá são misturadas157 .
Ainda que todas as coisas sejam mantidas pelas formas do princípio ao fim, primeiramente a matéria é mantida pelas formas dos elementos e, em seguida, se acrescentam outras formas sobre as formas [20] e depois, ainda outras158 ; por isso é até mesmo difícil encontrar a matéria escondida sob muitas formas. Pois que também esta <;matéria> é uma forma última159 , tudo160 é forma e todas as coisas são formas, já que o modelo era forma; além disso <;o universo inteligível> criava sem ruído porque isto que cria é tudo, seja ser161 seja forma162 . Por esta razão a criação é também sem fadiga. [25] E a criação era do todo, porque o criador é todas as coisas.
Portanto não havia nenhuma coisa que fizesse obstáculo e, na verdade, nem mesmo agora, ainda que as coisas se tenham tornado obstáculo umas às outras163 ; mas não são obstáculos à criação, nem mesmo agora; pois que ela permanece <;a mesma>, sempre toda inteira.
E me parece também que, se nós fôssemos modelos, ao mesmo tempo ser e forma164 , e a forma que cria aqui fosse o nosso ser, a nossa atividade criadora dominaria [30] sem cansaço165 . Todavia, ainda que homem, <;ele> cria uma forma de si, tendo se tornado outro do que é166 , já que abandonou o ser o todo167 , tendo agora se tornado homem. Cessando de ser homem, como diz168 <;Platão>, se move no alto e governa todo o cosmo169 ; pois voltando a pertencer ao todo cria tudo170 . [35]
Mas para voltar ao nosso discurso: tu podes dizer a causa pela qual a terra está no centro, e por que é redonda e por que a órbita terrestre é assim; lá no alto, ao contrário, não foi decidido assim porque era necessário171 fazer deste modo, mas pelo fato de que <;as coisas de lá> são assim como são, por esta razão também as coisas deste mundo <;estão bem dispostas>. Como se a conclusão172 viesse antes do silogismo causal [40] e não seguisse as premissas173 ; pois <;as coisas de lá> não derivam de uma sucessão de proposições nem de um projeto, mas vêm antes da conseqüência e do projeto; já que todas estas coisas são posteriores, seja o raciocínio, seja a demonstração, seja a convicção.
Porque há um princípio174 , todas estas coisas seguem imediatamente175 e deste modo; e com razão se diz não buscar causas de um princípio [45], sobretudo de um tal princípio perfeito que coincide com o fim; mas este que é princípio e fim, é ao mesmo tempo o todo e sem nenhuma falta.
Capítulo 8
Quem, então, não dirá belo isto que é belo primeiramente e como inteiro, e por toda parte como inteiro, a fim de que não existam partes que sejam inferiores por lhes faltar beleza? Decerto não é belo isto que não é belo como176 inteiro, mas que possui uma parte bela ou nem mesmo nada de belo. Ou se não é belo aquele, que outro poderia sê-lo? De fato, isto que existe antes dele177 nem mesmo deseja ser belo; [5] na verdade, isto que primeiramente se apresenta à contemplação sendo forma e espetáculo do Intelecto, este é também objeto de amor para quem o vê178 . Por isso também Platão179 , querendo indicar isto em referência a algo de mais compreensível para nós, representa o Demiurgo que está satisfeito com a obra acabada, querendo mostrar com isto como é amável [10] a beleza do modelo e da Idéia.
Quando, na verdade, alguém admira um todo criado em conformidade a um modelo, nutre admiração por aquele em conformidade ao qual foi feito. Se, ao invés, ignora isto que experimenta180 , tal fato não deve <;nos> causar nenhuma maravilha; já que também os amantes e, em geral, aqueles que admiram a beleza daqui, ignoram que esta beleza existe por causa da beleza inteligível. E efetivamente existe exatamente por causa daquela.
<;Platão>181 esclarece de modo apropriado que <;a expressão> ficou satisfeito182 se refere ao modelo [15] com a seguinte frase, pois ele diz: se satisfez e quis torná-la ainda mais semelhante ao modelo183 , mostrando qual seja a beleza do modelo, afirmando que isto que nasce dele é também este belo enquanto imagem daquele; [20] pois que se aquele <;modelo inteligível> não fosse isto que é belo sobre todas as outras coisas, de uma beleza desarmante184 , que coisa seria mais belo do que este mundo visível? Por isso aqueles que desprezam este mundo185 não o fazem justamente, senão talvez pelo fato de que <;este> não é o mundo inteligível.
Capítulo 9
Compreendamos portanto este universo, permanecendo cada uma das partes isto que é, sem misturar-se, todas as coisas juntas em uma186 , por quanto é possível, de modo que, quando se mostra uma coisa qualquer como, por exemplo, a esfera externa do céu, siga imediatamente também a imaginação do sol e junto <;a esta> a dos outros astros, e se veja quer a terra, [5] quer o mar, quer todas as criaturas vivas, como se efetivamente se pudesse ver todas as coisas numa esfera transparente.
Tenhas então na alma uma luminosa imagem187 de uma esfera que tem todas as coisas nela mesma, seja aquelas que se movem, seja aquelas em repouso ou ainda, algumas que se movem, outras que estão paradas188 .
Conservando esta imagem, acolhe uma outra [10] em ti mesmo eliminando a massa. Elimina também os lugares e a imagem da matéria que está em ti, e não busque conceber uma outra esfera diferente da primeira porque é menor na massa; mas invocando o Deus189 , que criou aquela da qual tu tens a imagem, roga a ele que venha.
E ele chegaria trazendo o seu universo com todos os deuses que estão nele, [15] sendo um e todos e sendo cada um todos, enquanto estão juntos em um e são distintos nas potências, mas são todos um por aquela única potência múltipla. Ou melhor, o único <;deus> é todos; na verdade ele não fica diminuído se todos nascem com aquela natureza190 . Mas os deuses estão todos juntos e cada um é por outro lado191 distinto, numa posição sem separação, pois não há nenhuma forma sensível192 [20] senão estariam, na verdade, um em um lugar, um em um outro lugar qualquer, e cada um não seria tudo em si mesmo nem cada um deles tem partes diversas que pertençam a outros antes que a si mesmo, nem cada um é como uma potência que foi fragmentada e que é grande tanto quanto as partes medidas. Este <;universo> é, ao contrário, potência universal que vai193 ao infinito, [25] potente ao infinito. E aquele <;deus único> é tão grande que também as suas partes são infinitas. Pois é, talvez, possível dizer que uma coisa qualquer se encontre em um lugar no qual aquele, o deus único194 , não tenha já chegado antes?
Então também este universo daqui é grande e também são grandes todas as potências que nele estão juntas, mas seria maior e nem mesmo seria possível dizer quão grande, se não o acompanhasse uma potência corpórea [30] <;que é> de pouco valor.
Certamente alguém poderia definir como grandes as potências do fogo e dos outros corpos; mas por inexperiência da verdadeira potência195 <;e porque aquelas potências> aparentam queimar, destruir, oprimir e servir à geração das criaturas viventes. Mas estas coisas destroem porque, por sua vez, <;estas> são destruídas e ajudam a gerar [35] porque, por sua vez196 , estas são geradas.
Ao contrário, a potência de lá tem somente o ser e somente o ser belo. Pois em que coisa consiste o belo privado do ser? E em que coisa consiste a essência197 privada do ser belo? Já que, na falta do belo, falta também a essência198 .
Por isso tanto o ser é desejável porque é o mesmo [40] que o belo, quanto o belo é amavél porque é o ser. Mas por que é preciso buscar qual dos dois é causa do outro, se a natureza é una?
Esta falsa essência199 <;daqui> tem necessidade de um simulacro de belo adquirido do exterior, seja para aparecer bela, seja, em geral, para ser bela, e é bela tanto quanto participa da beleza que é segundo a forma [45] e, recebendo-a, quanto mais a recebe, mais é perfeita. De fato, a essência é ainda mais essência na medida em que é bela.
Capítulo 10
Por isso também Zeus, ainda que seja o mais velho dos outros deuses, que ele mesmo guia, primeiro avança200 em direção à contemplação deste universo e o seguem os outros deuses e os demônios e as almas que são capazes201 de ver estas coisas. E o mundo inteligível aparece a eles de um lugar invisível e, elevando-se [5] no alto sobre eles, ilumina tudo e os enche de esplendor, e cega, como se fosse o sol202 , aqueles que estão embaixo203 , e estes se voltam não sendo capazes de vê-lo204.
Na verdade, alguns suportam a sua luz e olham; outros ficam turbados, quanto mais longe dele estão205 . Mas aqueles que são capazes de ver, quando olham, todos voltam o olhar para ele206 [10] e em direção a isso que lhe pertence207 .
Porém cada um não recebe sempre o mesmo espetáculo, mas um <;homem> olhando fixo, vê resplandecer a fonte e a natureza do justo208 e um outro fica saciado com o espetáculo da sabedoria, mas não aquela que os homens têm neles, quando a possuem; já que esta <;daqui> imita aquela <;de lá> de uma certa maneira. [15]
Mas a natureza do belo escorrendo sobre todos, por toda a extensão, por assim dizer, daquele <;universo>, é vista por último por aqueles que já tiveram muitas visões claras: os deuses, singularmente e todos juntos, as almas que vêem todas as coisas lá e que nascem de todas as coisas, de modo que também as almas contêm todas as coisas do início ao fim. E estão lá [20] pela parte da natureza delas que está lá, mas muitas vezes também estão lá completamente209 , quando não são divididas210 .
Então Zeus vendo estas coisas211 e também aquele entre nós que é seu companheiro de amor212 no final213 vê dominar214 sobre tudo a beleza inteira, pois ele participa da beleza de lá.
De fato, a beleza ilumina215 todas as coisas e sacia aqueles que estão lá, [25] ao ponto que também esses se tornam belos, como muitas vezes os homens subindo sobre lugares elevados, no momento em que a terra de lá216 adquire uma cor dourada, são inundados por aquela cor tornado-se semelhantes à terra sobre a qual caminham. Mas lá a cor que floresce é beleza, ou ainda, tudo é cor e [30] beleza em profundidade. Pois o belo não é alguma coisa de diverso, como se fosse um simples florescimento em superfície217 .
Mas aqueles que não vêem o todo crêem somente na impressão externa; ao contrário, àqueles que estão, por assim dizer, totalmente embriagados e saciados de néctar, já que a beleza penetrou toda a alma218 , é consentido ser não apenas espectadores219 , porque não existe mais uma coisa externa220 [35] e uma outra, aquela que olha221 , por sua vez externa; mas isto que vê com a vista aguda possui em si mesmo isto que é visto; todavia, mesmo o possuindo, muitas vezes ignora que o possui e olha como se o objeto fosse exterior, já que olha como se isto fosse uma coisa visível e porque quer vê-lo como tal222 .
Tudo isto que alguém olha como se fosse visível, olha do exterior223 . Mas é preciso agora transferir <;o objeto visível> em si mesmo e olhar para ele como se fosse uma unidade224 e vê-lo como [40] si mesmo, como se alguém possuído por um deus, inspirado por Febo ou por uma Musa gerasse em si mesmo a visão do deus225 , se tivesse a força de olhar um deus em si mesmo226 .
Capítulo 11
Além disso, quem entre nós, ao contrário, é incapaz de ver a si mesmo, quando possuído daquele Deus227 , traz à visão o objeto visível228 , leva para o exterior a si mesmo e olha uma imagem de si embelezada; ao contrário, deixando a imagem ainda que seja bela e chegando à unidade consigo mesmo, e não se separando mais, é um e tudo ao mesmo tempo, junto ao Deus [5] que está presente em silêncio e está com ele na medida em que pode e quer229 .
Mas se voltasse atrás, em direção à dualidade230 , permanecendo puro estaria imediatamente próximo dele, de modo que está presente junto a ele de novo naquele modo, se novamente se voltasse em direção a ele231 .
No voltar-se <;ao deus> há este ganho: [10] no início, percebe a si mesmo até o momento em que é diverso do deus; mas correndo para o seu próprio interior232 tem tudo, e, deixando para trás a percepção, por medo de ser diverso dele, é uno com o ser de lá.
E, supondo que deseje vê-lo como se fosse outro, faz a si mesmo externo. É necessário que ele, enquanto está aprendendo, permaneça na primeira impressão que há do deus e durante a busca distinga233 acuradamente, compreendendo com qual realidade se encontra; assim, [15] aprendendo234 com certeza que se encontra com a máxima felicidade, é necessário que, de agora em diante, se abandone ao seu íntimo e que se torne, de agora em diante, ao invés de um sujeito que vê, objeto de visão de um outro que olha,235 resplandecendo com aqueles pensamentos que chegam dali.
Como, então, alguém estará no belo sem vê-lo236 ? Por outro lado, vendo o belo como outro, não está ainda no belo237 , mas, depois de se ter tornado belo, [20] está deste modo absolutamente no belo.
Se, portanto, a visão é disto que está fora, não deve existir visão, ou deve existir de modo que seja idêntica ao objeto visto. Mas esta visão é como uma compreensão e uma consciência de si, quando se atenta a não se distanciar de si pelo desejo de perceber mais238 .
Mas é preciso considerar também isto: que as percepções dos males [25] produzem impressões mais fortes mas conhecimentos mais fracos, uma vez que <;estes> são distanciados pelo golpe destas239 .
De fato, uma doença produz mais distúrbio; ao contrário, a saúde com a sua silenciosa presença fornece maior compreensão de si mesma já que está junto de nós como algo de familiar e se une a nós. Ao contrário, a doença é algo de estrangeiro240 e que não nos é familiar, por este motivo evidente, ou seja, porque aparece completamente diversa de nós. [30] Então, em relação às coisas que nos pertencem241 , nós não temos percepção242 ; mas, sendo assim, somos perfeitamente compreensíveis a nós mesmos, uma vez que fizemos do conhecimento de nós e de nós mesmos uma única coisa.
Portanto também ali, quando conhecemos no máximo grau, <;isto é,> segundo o Intelecto, parece que ignoramos, porque esperamos a experiência da sensação que diz não ter visto; pois não tem visto, nem [35] nunca poderia ver coisas daquela natureza. Então a sensação é isto que duvida, mas aquele que vê é outro243 ; senão, se duvidasse também aquele que vê verdadeiramente, ele não poderia crer nem mesmo ser si mesmo; na verdade, ele não pode absolutamente levar a si mesmo para o exterior e olhar-se com os olhos do corpo, como se fosse um objeto sensível. [40]
Capítulo 12
Mas foi dito de que modo pode fazer isto como outro, e de que modo pode fazê-lo como si mesmo. E então quando viu, seja enquanto outro, seja enquanto permanece si mesmo, que coisa nos conta?
Conta244 ter visto um deus que dá à luz uma bela prole e que, na verdade, gera toda ela em si mesmo245 e que tem em si o fruto do parto desprovido de dor246 .
De fato, deleitado por aqueles que gerava e regozijado [5] pelos filhos, retém247 tudo em si, alegrando-se do esplendor dele e dos filhos. Mas ele, não obstante <;seus filhos> sejam belos e mais belos aqueles que permaneceram em seu interior, <;um> único entre os outros filhos, o jovem Zeus, aparece no exterior. Dele, ainda que seja o último248 filho249 , é possível ver como uma imagem daquele pai250 , [10] quanto é grande aquele pai e os irmãos que permaneceram nele. Mas ele diz que não foi em vão para longe do pai: pois é necessário que exista um universo diferente daquele, um universo que nasceu belo enquanto imagem do belo; nem na verdade é lícito que não exista uma imagem bela do belo e do ser. Decerto, a imagem imita o modelo em tudo. Possui, na verdade, [15] seja a vida e isto que pertence ao ser enquanto imitação, seja o ser bela enquanto vem dali. Mas possui também a eternidade daquele251 enquanto imagem; senão o modelo terá algumas vezes uma imagem, outras vezes não, não sendo a imagem uma criação da arte. Mas cada imagem por natureza existe enquanto perdura o modelo.
Por isso não estão certos aqueles que destroem <;o universo sensível> se o <;universo> inteligível perdura, [20] e o geram252 , como se o criador tivesse deliberado criá-lo, visto que não querem compreender qual seja a natureza de uma tal criação, nem sabem que até o momento em que aquele253 esplende, as outras coisas nunca podem esvair, mas, a partir do momento em que este existe, também estas coisas existem254 . Mas <;o universo inteligível> sempre foi e será255 . De fato, dada a necessidade de querer explicar, é preciso usar estas palavras256 . [25]
Capítulo 13
O deus257 então que está acorrentado para permanecer do mesmo modo e que cedeu ao filho258 a guia deste todo259 pois para ele, não estaria conforme à sua condição abandonar o governo de lá e perseguir um governo mais recente e posterior a ele, como se estivesse saciado de coisas belas, tendo deixado estas coisas, colocou seu pai260 na natureza261 que lhe é própria e se estende até ele [5] em direção ao alto.
Mas, por outro lado, estabeleceu que as coisas que começam do filho262 devam existir depois dele263 , de modo a vir a ser entre os dois264 , por causa da alteridade produzida pelo corte em direção ao alto e pelo vínculo que o retém distante disto que vem depois dele em direção ao baixo, estando entre um pai melhor e um filho pior.
[10] Mas já que seu pai era grande demais para ser segundo a beleza265 , ele primariamente266 era belo, ainda que seja bela também a alma: mas é mais belo também do que esta, já que a alma tem um rastro dele e por isso é bela por natureza, mas é mais bela quando contempla em direção ao alto. Se, então, a alma do todo, ou [15] para falar de modo mais claro, Afrodite267 mesma é bela, como pode ser aquele outro deus268 ? Se de fato a alma tivesse uma beleza por si mesma, quão grande poderia ser aquela <;beleza de lá>? Se, ao contrário, provém de um outro, de quem a alma recebe a beleza, seja aquela adquirida do exterior, seja aquela inata ao seu ser?269
Pois, quando também nós mesmos somos belos, o somos pelo nosso próprio ser270 . Ao contrário, somos feios quando passamos a uma outra natureza; [20] e somos belos quando conhecemos nós mesmos, mas feios quando ignoramos a nós mesmos271 . Então, o belo está lá e vem de lá. São, então, suficientes as coisas que foram ditas para conduzir a uma clara compreensão da região inteligível272 , ou é necessário percorrer de novo um outro caminho, no modo seguinte?273
