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Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões

Print version ISSN 0100-6991

Rev. Col. Bras. Cir. vol.37 no.4 Rio de Janeiro July/Aug. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-69912010000400007 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

É possível prever o comprimento de tendões flexores do joelho por antropometria?

 

It is possible to predict the length of knee flexor tendons by anthropometry?

 

 

Edmar Stieven FilhoI; Eduardo B. SampaioII; Mario NambaIII; João Luiz Vieira da SilvaIII; Mauro AlbanoIII; Luis Eduardo Munhoz da RochaIII; Miguel Ângelo AgulhamIV; Luiz Antonio Munhoz da CunhaV

IDoutorando do Programa de Pós-Graduação em Clínica Cirúrgica da Universidade Federal do Paraná - UFPR - BR
IIPós-Graduando de Traumatologia Esportiva da Universidade Federal do Paraná - UFPR- BR
IIIMédico da Universidade Federal do Paraná - UFPR-BR
IVProfessor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Clínica Cirúrgica da Universidade Federal do Paraná - UFPR - BR
VProfessor Titular da Disciplina de Ortopedia e Traumatologia da Universidade Federal do Paraná - UFPR-BR

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Comparar os dados de antropometria e prática esportiva com as dimensões dos tendões flexores do joelho, de forma prospectiva, a fim de criar uma regra para pré-determinar suas dimensões.
MÉTODOS: Foram coletados os dados gerais e antropométricos de 30 pacientes submetidos à reconstrução do ligamento cruzado anterior e correlacionados com os dados de comprimento e diâmetro dos tendões flexores do joelho. Os dados coletados foram: altura, peso, idade, joelho acometido, índice de massa corporal, nível esportivo, comprimento do fêmur, comprimento da tíbia, circunferência da coxa, circunferência do joelho. As correlações foram feitas pelo coeficiente de Pearson.
RESULTADOS: Houve correlação estatisticamente significante apenas com a altura e comprimento da tíbia versus comprimento do músculo semitendíneo e grácil. Pelo método da regressão linear simples as relações podem ser expressas nas seguintes equações: comprimento do semitendíneo = -2,276 + 0,177 x altura; comprimento do semitendíneo = 13,048 + 0,46 x comprimento da tíbia; comprimento do grácil = -9,413 + 0,207 x altura; comprimento do grácil = 7,036 + 0,583 x comprimento da tíbia.
CONCLUSÃO: É possível a previsão do comprimento dos tendões flexores do joelho através de equações de regressão antes do procedimento cirúrgico.

Descritores: Tendões. Joelho. Antropometria.


ABSTRACT

OBJECTIVE: To compare the anthropometric data and the sportive way of life with the hamstring tendons dimensions, prospectively, in order to create a rule to predetermine its dimensions.
METHODS: General and anthropometric data were collected from 30 patients that were submitted to anterior cruciate ligament reconstruction. These data were correlated to the diameter and length of the hamstring tendons. The data collected were: height, weight, age, knee lesion side, body mass, sportive training level, femoral length, tibia length, thigh circumference, and knee circumference. The correlation was made by Pearson coefficient.
RESULTS: Statistic significant correlation occurred only with height and tibia length versus the gracilis and semitendinous tendon length. Using linear regression the relations found could be expressed with the following formulas: semitendinous length = -2,276 + 0,177 x height; semitendinous length = 13,048 + 0,46 x tibia height; gracilis length = -9,413 + 0,207 x height; gracilis length = 7,036 + 0,583 x tibia height.
CONCLUSION: It is possible to predetermine hamstring tendons length through linear regression formulas before surgical intervention.

Key words: Tendons. Knee. Anthropometry.


 

 

INTRODUÇÃO

O ligamento cruzado anterior (LCA) é um dos mais acometido nas lesões do esporte, sendo responsável por 50% das lesões ligamentares do joelho1. A sua reconstrução é aceita como tratamento de escolha para pacientes sintomáticos, jovens e ativos2. Nos últimos 30 anos, muitas técnicas foram desenvolvidas, principalmente com uso de auto-enxertos3.

A escolha do enxerto é um passo importante na reconstrução do LCA. A utilização de enxertos biológicos com características biomecânicas similares às do LCA e com baixa morbidade no sítio doador á preferência dos cirurgiões4-5.

Os enxertos autólogos mais comumente são o de osso - terço central do ligamento patelar - osso (tendão patelar) e o dos tendões dos músculos semitendíneo e grácil (tendões flexores), sendo que o último já é o auto-enxerto mais usado nos Estados Unidos6.

As principais vantagens dos flexores sobre o ligamento patelar são a baixa morbidade no sítio doador, menor atrofia do músculo quadríceps e uma reabilitação menos dolorosa, principalmente nos primeiros meses6.

Uma das desvantagens dos tendões flexores é a incapacidade de prever seu tamanho no pré-operatório. As dimensões do tendão patelar podem ser controladas pelo cirurgião, pois ele pode trabalhar essas medidas na retirada sob visão direta. Isso não é praticável para tendões flexores. O cirurgião só terá noção de suas dimensões após a retirada. Quando o tamanho do enxerto não é compatível com a necessidade cirúrgica é preciso realizar a retirada de outro enxerto, aumentando o tempo cirúrgico e a morbidade da operação7-10.

Saber previamente as dimensões dos tendões flexores evitaria alterações inesperadas e desagradáveis no transoperatório10.

Existem apenas três trabalhos na literatura que tentam relacionar as dimensões do enxerto de tendões flexores com dados antropométricos, dados gerais como idade e sexo e pratica de atividade física8-10, porém os dados ainda são controversos e de difícil adequação a prática diária. Além disso, todos esses estudos são retrospectivos baseando-se em dados de prontuário e de ligações telefônicas.

O objetivo deste trabalho é comparar os dados de antropometria e prática esportiva com as dimensões dos tendões flexores, de forma prospectiva, a fim de criar uma regra para pré-determinar suas dimensões.

 

MÉTODOS

Foram incluídos no estudo os pacientes submetidos à reconstrução do ligamento cruzado anterior no período de outubro de 2006 a março de 2007 no total de 30 pacientes. As operações foram realizadas no Centro de Traumatologia Esportiva e Artroscopia (Ctea), na cidade de Curitiba.

Todos os 30 pacientes eram portadores de instabilidade anterior crônica, unilateral, associada ou não à lesões meniscais e/ou condrais, cuja principal queixa era o falseio. O diagnóstico foi feito com base na queixa, no exame físico e na avaliação por imagem.

Foi preenchido formulário dos pacientes com os seguintes itens: altura, peso, idade, joelho acometido, índice de massa corporal (IMC), nível esportivo (sedentário, menos que três vezes por semana, três vezes por semana ou mais, profissional), comprimento do fêmur (do grande trocânter ao epicôndilo lateral), comprimento da tíbia (da tuberosidade anterior ao maléolo medial), circunferência da coxa 10 cm superior a patela, circunferência do joelho na altura da patela.

Foram medidos os comprimentos dos enxertos com régua milimetrada. O diâmetro foi medido através de régua com orifícios pré-perfurados. Os orifícios eram de cinco a 12 milímetros, variando de um em um milímetro. Os tendões foram passados através do orifício de forma quádrupla, ou seja, o tendão do grácil e do semitendíneo, eram colocados lado a lado (duplo) e depois dobrados ao meio (quádruplo).

Os enxertos foram retirados através de acesso oblíquo de cinco centímetros, com início quatro centímetros distal à linha articular da tíbia e dois centímetros medial à tuberosidade anterior. Os enxertos foram dissecados e desinseridos da sua inserção tibial. Na porção proximal foram retirados através de extrator específico (stripper) junto com toda sua porção miotendínea. Todos os procedimentos foram realizados pela mesma equipe.

Para a correlação dos dados utilizaram-se médias, desvios-padrão, variação (máximos e mínimos), intervalos de confiança paras as variáveis, coeficiente de correlação de Pearson com p-valor e intervalos de confianças associados.

Foram feitas correlações do comprimento e do diâmetro dos tendões do grácil e do semitendíneo com: idade, altura, peso, IMC, comprimento do fêmur e da tíbia, circunferência da coxa e joelho. A partir destes dados verificou-se se os dados apresentavam correlação estatística significativa.

 

RESULTADOS

Dos 30 pacientes, 28 eram do sexo masculino e dois feminino. Sobre a frequência da prática de esportiva, 11 se exercitavam menos que três vezes por semana, 16 por três vezes ou mais e quatro em nível profissional. Quanto ao lado acometido 25 do joelho direito e 11 do esquerdo.

Das 30 operações, uma apresentou problema técnico na retirada do enxerto sendo excluída do trabalho. O número total de pacientes analisados foi de 29.

Os dados de idade, altura, peso, IMC, comprimento dos enxertos, comprimento do enxerto do fêmur e tíbia, circunferência da coxa e joelho estão na tabela 1.

Utilizando o método de correlação de Pearson, procurou-se a relação entre o comprimento do semitendíneo e os dados aferidos. Os únicos dados que puderam ser relacionado com valores estatisticamente significante foram a altura e comprimento da tíbia (Tabela2).

A correlação de Pearson, também foi usada para analisar as relações entre o comprimento do grácil e dos dados aferidos. Semelhante ao encontrado com o comprimento do semitendíneo, houve correlação estatisticamente significante apenas com a altura e comprimento da tíbia (Tabela 3).

Pelo método da regressão linear simples foi demonstrada a relação entre a altura e comprimento da tíbia com o comprimento do semitendíneo e comprimento do grácil, que podem ser expressas pelas equações da regressão linear simples:

· Comprimento do semitendíneo = -2,276 + 0,177 x altura;

· Comprimento do semitendíneo = 13,048 + 0,46 x comprimento da tíbia;

· Comprimento do grácil = -9,413 + 0,207 x altura;

· Comprimento do grácil = 7,036 + 0,583 x comprimento da tíbia;

Essas relações também podem ser expressas em gráficos de regressão linear (Figura 1).

 

 

O diâmetro dos tendões variou de 5 a 10 mm, com média de 7,6±2,4 mm. Não houve correlação estatisticamente significativa (p<0,05) entre o diâmetro e as medidas de altura (p=0,22), peso (p=0,55), idade (p=0,34), IMC (p=0,66), nível esportivo (p=0,73), comprimento do fêmur (p=0,42), comprimento da tíbia (p=0,2), circunferência da coxa (p=0,53), circunferência do joelho (p=0,32).

 

DISCUSSÃO

O comprimento do enxerto pode sofrer variação conforme a técnica utilizada para sua retirada8. É importante que ela seja bem descrita para que permita futuras comparações. Neste trabalho o tendão foi desinserido da sua inserção e retirado toda sua porção miotendínea na região proximal, podendo-se dizer que este era o comprimento máximo do tendão.

Na literatura existe apenas um trabalho que avalia o comprimento do grácil e semitendíneo e os relaciona com dados antropométricos8. Nele, Schwartzberg et al.9 encontrou forte relação entre o comprimento da perna e o dos tendões flexores e fraca relação com a altura. Ele não encontrou relação entre as medidas de idade e peso com comprimento e diâmetro dos tendões flexores em concordância com o presente trabalho.

Outra ferramenta para determinar o comprimento dos tendões flexores é a tomografia computadorizada tridimensional. Através do desenho ósseo anatômico e sabendo a origem e inserção dos tendões pode-se predizer seu comprimento11. As desvantagens seriam a adição de um exame de alto custo no planejamento operatório e a radiação emitida pelo exame no paciente.

Não foi encontrada relação do diâmetro dos tendões flexores com nenhum dado aferido, em concordância com o estudo de Schwartzberg et al.9. Já Ma et al.10 e Tuman et al.8 encontraram relação anatômica entre altura e gênero com o diâmetro dos tendões flexores. O diâmetro sofre muitas alterações no preparo do tendão, pela forma como ele é limpo e suturado. O uso de fio espesso no preparo do tendão pode mudar sua medida de diâmetro. Essa medida também não é tão precisa como a do comprimento, pois a medida do comprimento é linear milimetrada. Já a aferição do diâmetro se dá normalmente por orifício circular de passagem de seis a 12 milímetros com aumento de um em um milímetro, o que significa que o crescimento de um milímetro no diâmetro é proporcional ao aumento de m2 em toda circunferência do enxerto, já que ele é cilíndrico. Isso significa que muitos enxertos classificados como sete podem na verdade ser qualquer coisa entre 6,1 e sete. O uso de instrumentos especialmente desenhados para esta aferição ou a medida do peso do enxerto pode ajudar em trabalhos futuros8.

Apesar de não evidenciado na literatuta8-10, acredita-se que a atividade física pode ser responsável pelo aumento da espessura do tendão. Essa impressão acompanha os cirurgiões de trauma esportivo, porém com a imprecisão da aferição do diâmetro do enxerto e com a dificuldade de caracterizar qual o nível de atividade que faria diferença, ou ainda o tipo de atividade (resistência, explosão, aeróbico, anaeróbico), encontrar essa relação pode se tornar uma tarefa complicada, caso ela exista.

Em conclusão, é possível a previsão do comprimento dos tendões flexores do joelho através de equações de regressão antes do procedimento cirúrgico.

 

REFERÊNCIAS

1. Bollen S. Ligament injuries of the knee-limping forward? Br J Sports Med. 1998; 32(1):82-4.         [ Links ]

2. Cohen M, Abdalla R, Ejnisman B, Filard M, Amaro J. Estudo comparativo no tratamento das lesões do ligamento cruzado anterior no esporte. Rev Bras Ortop. 1997; 32(35):337-41.         [ Links ]

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9. Schwartzberg R, Burkhart B, Lariviere C. Prediction of hamstring tendon autograft diameter and length for anterior cruciate ligament reconstruction. Am J Orthop (Belle Mead NJ). 2008; 37(3):157-9.         [ Links ]

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Endereço para correspondência:
Edmar Stieven Filho
E-mail: filho2000@uol.com.br

Recebido em 15/06/2009
Aceito para publicação em 14/08/2009
Conflito de interesse: nenhum
Fonte de financiamento: nenhuma

 

 

Trabalho realizado pelo Grupo de Traumatologia Esportiva e Artroscopia da Universidade Federal do Paraná - UFPR, Curitiba, PR, Brasil.

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