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Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia

Print version ISSN 0100-7203

Rev. Bras. Ginecol. Obstet. vol.23 no.8 Rio de Janeiro Sept. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-72032001000800006 

Trabalhos Originais

Associação entre o Uso de Abortifacientes e Defeitos Congênitos

 

Association of the Use of Abortifacient Drugs with Congenital Malformations

 

Lilia Maria de Azevedo Moreira1, Alba Lima Dias2, Hilda Beatriz da Silva Ribeiro2, Clarissa Lima Falcão1, Tony Davinson Felício1, Carla Stringuetti1 e Maria das Dores Ferreira Santos2

 

 

RESUMO

Objetivo: verificar a associação entre o uso de abortivos durante o primeiro trimestre de gestação e a ocorrência de defeitos congênitos em recém-nascidos (RN).
Métodos: estudo caso-controle com amostra de 800 nativivos, em maternidade pública de Salvador, Bahia, pelo período de um ano. Eram selecionados os seis primeiros nascimentos ocorridos em um só dia, sendo feitas consultas aos prontuários para verificação do registro de defeitos congênitos. Nos casos positivos eram observados os bebês afetados e realizada entrevista com as puérperas para o levantamento de antecedentes gestacionais e genéticos, utilizando questionário como instrumento de coleta de dados. Posteriormente os dados eram inseridos em programa de computador Epi-Info 5.0 para análise estatística.
Resultados: as puérperas estudadas foram predominantemente de classe socioeconômica baixa (74,8%), sem escolaridade ou apenas 1º grau (61,1%). A taxa geral de defeitos congênitos foi de 4,7%. Entre as puérperas, 16% relataram a ingestão de substâncias abortivas no primeiro trimestre de gestação e 10,9% destas tiveram filhos com malformações. Nas crianças em que as mães não utilizaram abortivos essa incidência foi 3,6%. Os principais agentes usados como abortifacientes foram os chás medicinais e o misoprostol (Cytotec). O alumã (Vermonia baiensis Tol) e o espinho cheiroso (Kanthoxilum shifolium Lam) foram as plantas mais utilizadas inadequadamente, pois não apresentam propriedades abortivas, justificando assim a sua ineficácia.
Conclusão: o presente estudo evidencia que tentativas de abortamento são práticas muito usuais em populações de baixa renda. Revela ainda que o uso de abortivos provoca um percentual significativo de malformações congênitas em bebês nativivos.

PALAVRAS-CHAVE: Abortamento. Malformações congênitas. Misoprostol. Chás medicinais.

 

 

Introdução

O aborto é um método muito antigo de controle de natalidade, praticado em todas as civilizações. Embora seja reconhecido em diversos países, é proibido em quase toda a América Latina, o que não impede a sua prática no Brasil, com número próximo a meio milhão por ano, dos quais apenas 5% são permitidos pela lei1. Entretanto é difícil reconhecer a real incidência desta prática. Estimativas feitas com dados do INAMPS sobre abortos incompletos e com estatísticas de clínicas particulares no Sul e Nordeste brasileiros mostram que a prática do aborto apresentou um extraordinário aumento, de menos de 1 milhão em 1970 para quase três milhões em 19852. Entre os recursos abortifacientes mais comumente utilizados estão os chás e infusões de plantas medicinais, além do misoprostol, análogo sintético da prostaglandina E1, comercializado com o nome de Cytotec®.

Estudos em maternidades do Rio de Janeiro, Recife e Fortaleza indicam que percentual significativo (34-72%) dos abortos incompletos atendidos são induzidos pelo Cytotec® 3. A suscetibilidade individual é variável, e em cerca de 7% dos casos o medicamento mostra-se ineficaz na indução da interrupção da gravidez4. Outras complicações têm sido ainda destacadas em recém-nascidos expostos intra-útero ao misoprostol. Além de abortos incompletos pode ocorrer efeito teratogênico da droga, devido à sua potente ação uterotônica, promovendo um déficit transitório na circulação fetal que, a depender da intensidade do fenômeno vascular, do seu tempo de atuação e do momento de ocorrência, pode ocasionar um grande espectro de anomalias congênitas5-8. Existem também controvérsias sobre o efeito abortofaciente e teratogênico das ervas medicinais, não apenas pela falta de comprovação científica mas também pelas interações com outros remédios e a procedência dessas ervas.

Este estudo teve o objetivo de investigar a freqüência do uso de chás, infusões e medicamentos na gestação, em grupos amostrais de puérperas e sua associação com defeitos congênitos.

 

Pacientes e Métodos

Para a validação da hipótese sobre a associação entre o uso gestacional de abortivos e a ocorrência de anomalias congênitas maiores e menores, foi realizado estudo caso-controle, em amostra hospitalar. Para tanto foram selecionados 800 nativivos entre os seis primeiros nascimentos, em dias alternados, em maternidade universitária de Salvador, Bahia, entre agosto de 1994 e julho de 1995. A coleta de dados foi iniciada após a aprovação do Comitê de Ética e Pesquisa da instituição.

Nos casos de bebês portadores de defeitos congênitos, eram consultados prontuários e feitas entrevistas com as puérperas com o preenchimento de questionário, após a obtenção de consentimento informado.

Por meio deste procedimento eram coletadas informações referentes ao estado geral de saúde, grupo racial, escolaridade, moradia, renda, planejamento familiar, tentativas de abortamento, uso de abortifacientes e história de distúrbios genéticos.

Paralelamente à investigação na maternidade, foram coletadas nos diversos erveiros da cidade amostras das ervas indicadas pelas puérperas terem sido utilizadas nas tentativas infrutíferas de abortamento. A partir destas amostras foi realizada classificação sistemática com finalidade de verificar se a denominação popular e a utilização terapêutica correspondiam às referidas na literatura9-11.

Os dados referentes à caracterização sociocultural, tentativas de abortamento e presença de defeitos congênitos foram processados em computador IBM, analisados por meio do programa Epi-Info 5.0 e submetidos à análise estatística utilizando o teste do c2 com nível de significância de 5% (p<0,05) para as comparações.

 

Resultados

A caracterização socioeconômica e cultural das puérperas mostrou que 74,8% delas provinham de classe socioeconômica baixa, sem rendimentos próprios ou recebendo até um salário mínimo por mês. Quanto à instrução apresentada, 61,1% tinham 1º grau incompleto ou eram analfabetas. A faixa etária modal era 19 a 30 anos e o grupo étnico prevalente, mulato ou negro.

Entre as mães entrevistadas, 52,3% referiram gravidez não-planejada e 16% destas realizaram tentativas de abortamento no primeiro trimestre da gravidez. Na Figura 1 é mostrada a distribuição dos agentes utilizados nas tentativas de aborto: 78 puérperas usaram chás ou infusões e 38, o misoprostol, geralmente na dosagem de 4 comprimidos, sendo 2 via oral e 2, vaginal. Outros medicamentos e meios não-especificados foram utilizados por 12 puérperas.

 

 

Defeitos congênitos ocorreram em 38 dos recém-nascidos (4,7%) e em 14 desses casos foi registrado uso gestacional de abortivos. Para a comparação entre as malformações em crianças com exposição a abortivos (10,9% ou 14:128) e o grupo negativo para o uso dessas substâncias (3,6% ou 24:672), foi construída a Tabela 1 e feito o cálculo do c2. Tendo em vista o c2 = 12,89; G.L. = 1; p<0,05, as diferenças entre os dois grupos foram consideradas significativas, evidenciando a associação entre malformações congênitas em recém-nascidos e uso de abortivos no primeiro trimestre da gestação.

 

 

As plantas utilizadas como chás e infusões abortivas são apresentadas na Tabela 2, com a classificação sistemática, freqüência de utilização e propriedades abortivas. As Tabelas 3 e 4 relacionam os abortifacientes utilizados com a ocorrência e natureza de anomalias congênitas observadas nos recém-nascidos. Embora defeitos de membros/extremidades tenham sido verificados em crianças com história de exposição gestacional de chás e/ou misoprostol, esta associação não foi significativa.

 

Discussão

Desde a década de 1960, com a caracterização da focomelia em crianças nascidas de mães que fizeram uso gestacional da talidomida12, a ingestão de drogas tem sido considerada um fator de risco para o desenvolvimento de defeitos congênitos. Cabral et al.13 observam que a utilização de fármacos e análogos durante a gravidez é uma prática freqüente que pode trazer conseqüências adversas à saúde do feto e do recém-nascido.

Este estudo evidencia a dimensão da prática do aborto em mulheres de baixa renda, com registro de tentativas em 16% de nascidos vivos. Os agentes utilizados não mostraram entretanto associações estatisticamente significantes com a ocorrência de diferentes anomalias congênitas. Não foram verificados casos de seqüência de Moebius, hidrocefalia ou defeitos de extremidades, malformações que têm sido observadas em casos de uso gestacional do misoprostol.

Em relação a este agente, a possibilidade de uma ação teratogênica é ainda objeto de controvérsias. Alguns estudos revelam a presença de quadro semelhante de anomalias de extremidades e/ou seqüência de Moebius5,6,8,14-16. O Estudo Colaborativo Latino-Americano de Malformações Congênitas (ECLAMC)17, entretanto, avalia com cautela esta associação, embora reconheça o efeito de altas doses do medicamento nos casos de aparente defeito de disrupção vascular.

A taxa de malformações congênitas de 4,7% observada neste estudo é da mesma ordem que as verificadas nos diversos estudos de monitorização de defeitos congênitos18-21. A maior proporção de malformações em crianças expostas a abortivos apoia a hipótese de efeito teratogênico dessas substâncias.

De acordo com o Inventário de Plantas Medicinais do Estado da Bahia9, entre as plantas que as puérperas indicaram terem utilizado como abortivos, apenas a quina verdadeira, hortelã e romã apresentam esta propriedade, justificando a ineficácia do uso da maioria dos chás relacionados.

Em relação à arruda, Approbato et al.11 observam que o seu uso mais freqüente e popular é como emenargoga, provocando a menstruação e aumentando o fluxo; entretanto, em doses maiores atua como abortivo. Quer10 chama atenção para a sua toxicidade, capaz de acarretar conseqüências graves como a morte.

Farias et al.1, em estudo sobre os condicionantes socioeconômicos e culturais do aborto provocado, verificaram que alumã e tapete de oxalá correspondem a cerca de 30% dos chás ou infusões utilizados nesta prática e enfatizam a dificuldade em se atribuir aos chás um efeito causal na etiologia do abortamento provocado, não apenas pela falta de conhecimento das propriedades quimioterápicas das plantas, como também pela associação com outros fatores. Deve ser ainda levado em conta que a sensibilidade individual aos referidos agentes e a ausência de efeitos abortivos ou teratogênicos pode também refletir uma combinação genotípica menos suscetível no binômio mãe/filho.

Apoiando este ponto de vista, Clarijo22 observa que vários fatores, tais como a absorção, metabolismo e distribuição maternos, transferência placentária e metabolismo fetal, interferem na suscetibilidade a um teratógeno potencial e são características únicas para cada par mãe/filho em função da heterogeneidade genética.

 

 

SUMMARY

Purpose: to verify the association of the use of abortifacient drugs during the first 3 months of gestation with the occurrence of congenital malformations in live births.
Patients and Methods: population-based case-control study through selection of the first six live births on a day, over the period of a year, at a public maternity in Salvador, Bahia, with a total of 800 cases. Studies were performed through investigation of birth records in the search of congenital malformation data, observation of selected malformed newborns, followed by interview with the mothers for collection of anamnesis data, by application of a questionnaire. Later on data were statistically evaluated by Epi-Info 5.0 software.
Results: puerperae came from a low socialeconomic class (74.8%), without any or almost any schooling (61.1%). The general percentage of birth defects was estimated at 4.7%. Out of 800 puerperae, 16% reported abortifacient drug intake during the first 3 months of gestation and 10.9% of them had malformed babies. This incidence was 3.6% in children whose mothers denied the intake of any abortifacient drugs. Agents most commonly taken in those unsuccessful abortive attempts were misoprostol (Cytotec) and herbs, specially "alumã" (Vermonia baiensis Tol) and "espinho cheiroso" (Kanthoxilum shifolium Lam), which, according to the literature, do not really have any abortive effect.
Conclusion: the study revealed the extension of intentional miscarriage in a low income population and showed that the occurrence of birth defects could be related to gestational exposure to misoprostol and herbal medicine intake.

KEY WORDS: Miscarriage. Congenital defects. Misoprostol. Herbal medicines.

 

 

Agradecimentos

Os autores manifestam o seu agradecimento à Profª Lenise Silva Guedes, Curadora do Herbário Prof. Alexandre Leal Costa, pela classificação sistemática das plantas utilizadas como chás medicinais; à Profª Sonia Moura Costa pela tradução do resumo; ao biólogo Fábio Alexandre Gusmão pela leitura e sugestões na análise estatística, ao Sr. Aloisio Lisboa Mota pela digitação e formatação do texto e aos pacientes, médicos e equipe técnica da Maternidade Climério de Oliveira pela participação e apoio a esta investigação.

 

Referências

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1 Laboratório de Genética Humana e Citogenética, Instituto de Biologia, Universidade Federal da Bahia
2 Maternidade Climério de Oliveira, Faculdade de Medicina, Universidade Federal da Bahia
Correspondência:
Lília Maria de Azevedo Moreira
Laboratório de Genética Humana e Citogenética
Instituto de Biologia ¾ UFBA
Campus Universitário de Ondina
40170-110 ¾ Salvador ¾ BA
e-mail: lazevedo@ufba.br