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Religião & Sociedade

Print version ISSN 0100-8587

Relig. soc. vol.27 no.1 Rio de Janeiro July 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-85872007000100009 

ARTIGO

 

Religião e Política entre Alunos de Serviço Social (UFRJ)

 

 

Pedro Simões

 

 


RESUMO

O artigo busca comparar a participação religiosa, cívico-política e voluntária-assistencial dos alunos de serviço social da UFRJ. Buscava-se identificar com que religiões os discentes mais se identificavam (entre católicos, espíritas, protestantes e sem religião) e se a identidade e participação religiosas favoreciam a participação nas outras duas instâncias. A pesquisa abrangeu 756 alunos, em 1999 e 2006, de todos os períodos, dos cursos diurno e noturno da Escola de Serviço Social da UFRJ. O artigo conclui que os alunos não abandonam suas crenças religiosas quando expostos a formação política. Além disso, eles demonstram ter espírito cooperativo e estão dispostos a atuarem voluntariamente nas instituições a que estão filiados.

Palavras-chave: religião, política, voluntariado e serviço social


ABSTRACT

The article seeks to compare the religious, civic-political and voluntary-assistential forms of participation of UFRJ social workers students. It aims to identify the religions to which the faculty mostly identifies itself (between Catholics, Spiritists, Protestants and religiousless) and whether the religious identity and participation favor the participation in the other two instances. The research has contemplated 756 students of UFRJ Social Work School, all grades and course turns comprised, in 1999 and 2006. The article concludes that the students do not abandon their religious beliefs when they are exposed to a political background. Moreover, they seem to have a cooperative spirit and are willing to work voluntarily in the institutions to which they are affiliated.

Keywords: religion, politics, volunteerism, social work.


 

 

Estudos sobre alunos universitários são amostras do comportamento da juventude brasileira. Quando se escolhe um curso, em particular, para se realizar o estudo, deve-se levar em consideração as características que peculiarizam o perfil dos alunos que nele ingressam e que os distinguem dos demais.

A bem dizer, os alunos de serviço social não têm a mesma identidade e o mesmo perfil que alunos de ciências sociais (Vianna et. al. 1994; Novaes 1994; NER 2001; Oro 2004), mas se aproximam muito dos alunos de educação e pedagogia (Villas Boas e Pessanha 1995). Em geral, estas carreiras são majoritariamente femininas, sendo o serviço social o curso com a maior taxa de mulheres, entre todos os cursos universitários nos últimos 30 anos (Beltrão e Teixeira 2004). Além disso, 72% dos pais dos assistentes sociais (contando pai e mãe juntos) completaram no máximo até o 2º Grau, sendo que destes, 48% só têm o curso elementar (PNAD 1996). Portanto, os alunos de serviço social são majoritariamente mulheres advindas de camadas baixas e pouco letradas da população.

Outro ponto relevante do perfil profissional está na identidade que o curso tem com os valores religiosos (Simões 2005). Estes são fortes motivadores para o ingresso na profissão, sejam eles de base católica ou evangélica/protestante. A idéia de fazer o bem, de ajuda ao próximo, da busca da justiça social, o ideal do "bom samaritano", são elementos repetidamente trazidos por aqueles que escolhem o serviço social. Os assistentes sociais ascendem social e educacionalmente assim como têm justificativas de valor para o ingresso nessa mesma mobilidade.

Curiosamente, a formação profissional em serviço social é bastante avessa às justificativas religiosas e ao ideário de ajuda social do qual seus alunos são portadores ao ingressarem nos cursos. Em contraposição a estas idéias, os cursos oferecem uma formação extremamente politizada a seus alunos e, principalmente nas universidades públicas, a formação tem uma ampla base marxista e socialista.

A história mostra que os universos religiosos e políticos não estão em necessária contraposição. Eles não se contradizem obrigatoriamente e podem ser, em muitos casos, complementares. A experiência da Teologia da Libertação é um caso clássico de complementaridade entre religião e política. Foi por esta via que grande parte dos teóricos marxistas do serviço social chegaram à profissão (Silva 1991). Seja dentro do campo profissional, seja fora dele, noções e valores da política podem ser adicionados às crenças religiosas de uma pessoa, sem que estas últimas sejam afetadas. Os alunos de serviço social realizam, então, esta conciliação entre os dois campos.

Ao analisarmos as questões de vinculação religiosa e política dos alunos de serviço social, estamos comparando, de um lado, elementos culturais da formação de identidade destes jovens que tem por base a transmissão de valores no interior da família pela religião; e, de outro, elementos culturais aprendidos ao longo do cursos educacional (Bourdieu apud Ortiz 1983).

Além disso, estes dois universos serão comparados em momentos históricos bastante peculiares: em 1999 e em 2006. No primeiro caso, tínhamos uma euforia ante a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, após oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso, identificado com uma agenda neoliberal. A esperança era a eleição por um governo justo, ético e comprometido com a uma agenda de reformas sociais para o país. Em 2006, o Brasil vive a "crise do mensalão", onde os principais líderes do governo "Lula" são identificados com uma série de atos de corrupção, além do governo ter adotado, em grande medida, a política econômica do seu antecessor.

Do ponto de vista religioso, o cenário brasileiro dos anos 1990 aponta para um crescimento das seitas pentecostais, uma redução do catolicismo, uma presença forte dos espíritas entre os setores mais letrados e o crescimento dos "sem religião" (Fernandes 1998; Machado 2006). Não há indicações de que estas tendências tenham se modificado nos últimos anos e, por isso, elas continuam sendo referências importantes para análise dos dados.

Como o catolicismo, o protestantismo e o espiritismo têm fortes relações de identidade com a prática assistencial (Simões 2006), o artigo irá se deter nos alunos que estão vinculados a uma destas três religiões, tendo como parâmetro de comparação os alunos "sem religião". A distribuição dos alunos por religiões encontra-se assim discriminada (independente do ano observado): 39,7% católicos, 25,0% evangélicos, 18,8% espíritas, 11,1% de sem religião e 5,4% de outras religiões (afro-brasileira, judeus, etc.). Portanto, apenas os de "outras religiões" serão excluídos da análise.

Estes percentuais guardam muita diferença entre os alunos de ciências sociais, por exemplo. Novaes (1994) encontrou apenas 56% de alunos religiosos no curso da UFRJ, sendo assim distribuídos: 33% de católicos, 11% de evangélicos, 8% de espíritas e 4% de afro-brasileiros (candomblé). Nos dados do NER (2001), com informações de vários cursos de Ciências Sociais do país, o resultado foi de 48% de religiosos, contra 52% de "sem religião", agnósticos e ateus, sendo os religiosos distribuídos em: 34,7% de católicos, 9,7% de espíritas, 7,7% de evangélicos/protestantes e 6,3% de outras religiões.

Os alunos de serviço social destacam-se, assim, pelo alto percentual de religiosos (89%), frente aos discentes de ciências sociais (56%, segundo Novaes (1994) e 48%, segundo NER (2001)). Além disso, os percentuais de espíritas e evangélicos/protestantes entre os assistentes sociais são superiores quando comparados aos dos cientistas sociais.

O banco de dados desta pesquisa contou com 756 questionários respondidos, entre os alunos de serviço social da UFRJ, abarcando todos os períodos, sendo 46% aplicados em 1999 e 54% em 2006. Além disso, como esta instituição conta com um curso diurno e outro noturno, a amostra contemplou 58% com estudantes da manhã e 42% com estudantes da noite.

Vale ressaltar que os cursos públicos de serviço social, dos quais o curso da UFRJ é uma parte, somam apenas 23% do total destes cursos existentes no Brasil. Por isso, os dados aqui encontrados são um parâmetro somente para esta parte dos alunos. Não é possível saber se há diferenças significativas de pertencimento religioso entre alunos de serviço social dos cursos públicos e privados, pois não há ainda pesquisas disponíveis que sustentem esta afirmação.

Assim, o presente artigo irá comparar a participação religiosa, político-cívica e voluntária-assistencial dos alunos de serviço social, a partir dos seus pertencimentos religiosos: católico, evangélico/protestante, espírita e sem religião. Primeiramente, foram contemplados apenas os estudantes religiosos e será investigada a freqüência a cultos ou práticas religiosas por parte dos alunos. No segundo momento, a observação recaiu sobre a participação em movimentos sociais, em associação de moradores e em partido político. Como a participação em cada uma destas atividades é baixa, optou-se por realizar uma análise conjunta, através de uma única variável (dicotômica) que medisse a presença dos discentes em uma ou mais instituições. Além disso, este item será desdobrado com questões relativas à preferência partidária dos alunos.

Por último, investigou-se a relação entre a participação voluntária-assistencial (através do questionamento se os alunos participavam, ou tinham participado, de trabalhos voluntários) e a adesão religiosa e política dos mesmos. Buscou-se verificar se estas últimas estavam ou não relacionadas com o maior engajamento discente em atividades voluntárias.

Em todas as análises realizadas, levou-se em consideração três aspectos: o ano da pesquisa (1999 ou 2006); o período do curso em que o aluno estava (1º ao 4º período ou acima do 5º período); e se o curso em que o aluno estava inserido era diurno ou noturno. Portanto, além de comparar as três dimensões principais de participação, segundo o pertencimento (ou não) a uma vertente religiosa, estes outros três aspectos foram considerados, visando verificar se a conjuntura também afetava a participação (ano da pesquisa); se a formação acadêmica era fator relevante para a explicação das diferenças de participação (período); e se o fato de se estudar durante o dia ou a noite interferia na chance de um estudante ter algumas das formas de participação consideradas.

 

1. Participação Religiosa

Vamos iniciar nossa análise observando o percentual de participação religiosa dos alunos, segundo os seus pertencimentos religiosos, sem considerar as três variáveis de controle: ano da pesquisa, turno e período:

 

 

Os dados acima mostram que os alunos evangélicos são os que mais participam de suas instituições religiosas, seguidos de católicos e espíritas. Duas questões chamam a atenção nas respostas: primeiro, o percentual de participação maior de católicos do que de espíritas e a presença de 6% de "não religiosos" participando de instituições religiosas.

No primeiro caso, como não havia uma definição prévia, no questionário, sobre o sentido de "participar de instituição religiosa", os percentuais podem ter sido afetados pela diferença de entendimento que cada grupo religioso tem do que seja "participação religiosa". A ausência de um detalhamento sobre formas de participação impede uma análise mais rigorosa dos percentuais observados.

No segundo caso, o fato de o aluno se dizer "sem religião" não significa que ele não tenha valores religiosos e que não participe eventualmente de cultos ou práticas vinculadas a uma ou mais religiões. O que não se verifica, nestes casos, é a incorporação de uma identidade religiosa específica a uma determinada instituição. Assim, por exemplo, entre os que se dizem não-religiosos, 82% acreditavam em Deus em 1999, e 74% em 2006; evidenciando não se tratar de um grupo de materialistas, no sentido estrito do termo, mas de alunos não identificados com as igrejas e seitas tradicionais.

Chama a atenção ainda, o fato de que metade dos estudantes é participante de alguma instituição religiosa. Portanto, não são alunos como os acima comentados. Eles guardam, em seu mundo privado, valores e idéias religiosas herdadas de suas famílias. Estes alunos são ativos em suas instituições religiosas e, portanto, afirmam-se como "religiosos-participantes".

Os dados acima demonstraram que 18% da variação da participação religiosa (Eta2) é explicada apenas pelo pertencimento religioso. Ao se excluir os "sem religião" e se incluir as três variáveis de controle na análise, pode-se medir (através de uma regressão logística binária1, cuja variável dependente era "participa" ou "não participa" de instituição religiosa) qual a chance de participação de cada um dos grupos religiosos.

Neste cálculo, tanto o turno de estudo, quanto o período letivo e o ano da pesquisa não se mostraram significativos, ou seja, a chance de participação não é afetada por nenhuma destas três variáveis. Entretanto, elas permaneceram no modelo estudado como forma de controle. Assim, conclui-se que católicos têm 110% a mais de chance de participar de sua instituição religiosa que os espíritas; assim como os protestantes têm 555% a mais de chance de participação que os espíritas e 210% a mais de chance de participação religiosa que os católicos, independente do ano da pesquisa, do turno ou período do aluno.

Os protestantes representam 25% dos alunos de serviço social e este percentual não se altera entre 1999 e 2006. A ausência de dados do início dos anos 1990 e dos anos 1980 impede que seja possível verificar o crescimento deste grupo entre os alunos de serviço social. Entretanto, os alunos evangélicos detêm um potencial de participação religiosa e identidade com suas religiões bem maior que os demais.

 

2. Participação Cívico-Política

A análise de participação política irá repetir a realizada no item anterior. Neste item, a participação cívico-política abrange a inserção dos alunos em associação de moradores, em partido político ou em movimentos sociais. Independente do ano observado e sem levar em consideração as variáveis de controle, os alunos apresentam baixa participação (se comparado com a participação religiosa de 49%) nestas atividades: 6% participam de movimentos sociais; 3% de associação de moradores; e 6% de partidos políticos. Devido a esta baixa participação, a análise realizada baseou-se entre os que não participam e os que participam, independente se de uma, duas ou das três instituições aqui consideradas. Assim, o percentual de participação subiu para 12%, independente do ano observado.

O que se pretende investigar, inicialmente, é a relação do pertencimento religioso com a participação cívico-política, sem considerar as variáveis de controle. É o que pode ser visto na tabela abaixo:

 

 

Nesta análise, pode-se observar a relação entre pertencimento religioso e participação política. Somente 10% dos alunos religiosos, independente da religião que abracem, têm alguma participação política. Destes, em torno de 80% só participam de uma das instituições consideradas, enquanto 20% de duas delas. Isto não significa que a formação profissional não seja politizada e que os alunos não incorporem os valores da política. No entanto, diferente da formação religiosa, a formação política dos assistentes sociais não se expressa na participação efetiva em instituições de cunho cívico-político.

O percentual de alunos "sem religião" engajados em alguma instituição cívico-política é aproximadamente o dobro do que a dos religiosos (22,4% contra 10%, respectivamente). Vale notar, entretanto, que os religiosos são muito mais participativos em suas instituições do que os "sem religião" nas instituições cívico-políticas. Portanto, os alunos religiosos não são apenas mais numerosos do que os não religiosos, mas são também mais atuantes em suas respectivas filiações.

Será importante verificar, em uma pesquisa posterior, qual o sentido da participação religiosa dos alunos, visando identificar se ela contém uma conotação estritamente religiosa (participação em cultos, missas, rituais, etc.) ou se contempla trabalhos cívicos, de cidadania e assistenciais. A hipótese em questão refere-se a possibilidade de os alunos associarem religião e política no interior de suas práticas religiosas e não fora delas.

Para calcular a chance de participação em instituições cívico-políticas, incorporando as variáveis de controle, será utilizada uma variável binária: participa ou não participa de instituições cívico-políticas2. Nesta análise, o turno de estudo, o período letivo e o ano da pesquisa também não se mostraram significativos, ou seja, a chance de participação também não foi afetada por nenhuma destas três variáveis. Entretanto, elas permaneceram no modelo estudado como forma de controle. Além disso, foi incluído no modelo a "participação em instituição religiosa", visando identificar se havia alguma correlação com a participação cívico-política.

Observou-se que não há correlação entre as formas de participação religiosa e a cívico-política, ou seja, quem participa de um tipo de instituição não participa do outro. Além disso, os "sem religião" têm 150% a mais de chance de participar de uma instituição cívico-política do que os religiosos.

Configuram-se, deste modo, dois grupos de alunos bem definidos: o primeiro, composto pelos assistentes sociais que se dizem religiosos, somando quase 85% do total de alunos. Seu contingente é extremamente participativo nas instituições religiosas, com destaque especial para os evangélicos/protestantes, e embora absorvam conteúdos e valores de natureza política, eles não se vinculam a instituições desta natureza. O segundo grupo é de alunos "sem religião", somando pouco mais que 10% do universo total. O que se destaca neste grupo é sua maior inserção nas instituições cívico-políticas, embora em proporção bem menor do que faz o grupo anterior nas instituições religiosas.

Um aspecto complementar à participação política é a preferência que os alunos têm em relação a partidos políticos. Se não há modificação substantiva na participação religiosa e cívico-política segundo o ano da pesquisa, o mesmo não ocorre com a preferência política, como se verá a seguir.

 

2.1. Preferência por Partido Político

O primeiro ponto a considerar é de que há uma variação muito significativa, entre 1999 e 2006, quando se trata de "preferência partidária". Veja a tabela abaixo:

 

 

Os dados acima mostram o descrédito que a política partidária passa a ter após o início do governo Lula. Simplesmente, a preferência por algum partido político cai pela metade, passando de 60% para 21%, de 1999 para 2006.

Em ambos os anos, entretanto, aqueles que têm alguma preferência por partidos buscam nos partidos identificados como de "esquerda" a sua opção política. Em 1999, 87% preferiam exclusivamente o PT (Partido dos Trabalhadores), ficando os demais, dispersos entre outros partidos, como PDT, PSTU, etc. Em 2006, a maioria "petista" permanece (48%), entretanto ela é dividida com partidos considerados mais à esquerda que o próprio PT, a saber: PSTU (27%) e PSOL (12,7%). A descrença, portanto, não é na esquerda, como um todo, mas no PT, em particular. Parte dos alunos desiludidos com o PT não transferiram suas preferências partidárias para outros partidos de esquerda, mas deixaram de ter preferência; outro grupo, migrou para outros partidos também vinculados ao ideário da "esquerda".

Foi estruturado um modelo explicativo que levou em consideração: o ano da pesquisa, o período, o turno de estudo, a participação religiosa, a participação cívico-política e o pertencimento a um grupo religioso, para buscar identificar quais destes grupos têm maior chance de se manter com preferências partidárias frente aos demais.

O resultado do modelo (no final do texto) mostra que apenas três variáveis mostraram-se significativas:

1. Em 2006, os estudantes tinham 86% a menos de chance de ter uma preferência partidária do que os alunos em 1999;

2. Os alunos dos últimos períodos, controlados pelo ano de ingresso e por todas as demais variáveis, têm 87% a mais de chance de ter uma preferência partidária do que os que estão entre o 1º e o 4º períodos;

3. A participação em uma instituição política aumenta em 350% a chance de um aluno ter preferência por um partido político frente os demais.

Os dados mostram dois componentes centrais no aumento da chance de um aluno ter preferência partidária: a conjuntura política do país é o primeiro elemento; e a formação acadêmica em serviço social configura-se como segundo elemento. Como já foi dito, os escândalos do mensalão e as denúncias de corrupção envolvendo o governo Lula foram decisivas para a drástica queda de "preferência partidária" entre os alunos.

O segundo elemento relevante trata-se de um fator de fundo do curso de serviço social da UFRJ: sua formação fortemente voltada para temas caros à esquerda brasileira, além de uma defesa dos direitos sociais e humanos e, no limite, uma formação voltada para os ideários socialistas. Este viés de formação é decisivo para que o aluno tenha uma maior chance de possuir uma preferência partidária nos períodos finais do curso. Esta preferência, em geral, estará afinada com a formação profissional e será por um partido de esquerda ou de extrema esquerda.

A vinculação do aluno a um partido político é um determinante óbvio para o aumento da chance por uma preferência partidária. No entanto, esta opção só abrange 6% do alunado. Além disso, se a formação acadêmica afeta a preferência política do aluno, ela não afeta nem a sua participação nas instituições cívico-políticas, nem sua participação em instituições religiosas. Portanto, a formação política do curso de serviço social da UFRJ, em particular, e dos cursos de serviço social em geral, é um acréscimo importante na formação dos alunos, em seus aspectos teóricos e ideológicos, o que não os torna mais politicamente ativos.

 

3. Participação Voluntária-Assistencial

A participação voluntária-assistencial, diferente das demais, guarda uma relação direta com o trabalho dos assistentes sociais. Em países como Inglaterra e Estados Unidos, ter participado de algum trabalho voluntário é um importante pré-requisito para aqueles que querem ingressar na carreira profissional. Isto porque o trabalho voluntário, em geral, ocorre nos mesmos locais onde os assistentes sociais atuam, assim como, estão dirigidos a um público semelhante, senão idêntico, com os quais os profissionais do serviço social trabalham.

Entre os alunos estudados, a vinculação neste tipo de trabalho envolveu 35% dos discentes, independente do ano observado sendo, portanto, inferior à participação religiosa e superior à cívico-política. Além disso, participar de um trabalho voluntário3 está mais fortemente correlacionado com a participação em instituições religiosas (Correlação de Pearson = 0,331, com 99% de confiança) do que cívico-políticas (Correlação de Pearson = 0,143, com 99% de confiança).

A tabela abaixo mostra, inicialmente, as diferenças de participação voluntária-assistencial, segundo o pertencimento religioso dos alunos:

 

 

Conforme pode ser observado na tabela acima, há uma gradação na participação voluntária-assistencial. Os evangélicos/protestantes são os mais participativos, seguidos de espíritas, católicos e "sem religião". De um ponto de vista, o resultado é surpreendente, se considerarmos a "vocação" do catolicismo e do espiritismo para as "obras sociais" (Giumbelli 1993; Paiva 2003). No entanto, os resultados tornam-se mais compreensíveis quando se observa que é o grupo dos evangélicos/protestantes o mais participativo em suas religiões. Além disso, o grupo em análise, "alunos de serviço social", está entre aqueles que mais se identificam com a "assistência social".

Outro dado que merece destaque é a participação voluntária dos "sem-religião". O total de participação deste grupo em instituições cívico-política (22,4%) é praticamente a mesma da participação em trabalhos voluntários-assistenciais (20,5%). Pode-se supor, e ter como hipótese que, nestes casos, a ação voluntária é desenvolvida, particularmente, em atividades sem cunho religioso e com mais espírito cívico-político, o oposto ocorrendo entre os religiosos. Como não foi perguntado sobre que tipo de trabalho voluntário era desenvolvido, é preciso que outras pesquisas sejam realizadas para testar a hipótese em questão.

No modelo criado para identificar que fatores aumentam a chance de um aluno participar em um trabalho voluntário-assistencial, foram incluídas as seguintes variáveis: ano da pesquisa, turno, período de estudo, pertencimento religioso e a participação (variável que incluía as alternativas: não participa, participação religiosa, participação cívico-política ou ambas).

O resultado (ver tabela ao final) demonstrou que ser espírita, participar em instituição religiosa, cívico-politica ou ambas afetam significativamente a chance de um aluno estar vinculado a um trabalho voluntário-assistencial.

Esta conclusão confirma o que já havia sido observado: há uma forte correlação entre a participação voluntária e as participações religiosa e cívico-política, sendo que, no primeiro caso, a correlação é mais forte que no segundo. Esta tendência foi corroborada, mesmo sob controle das demais variáveis. Assim, somente o fato de participar de uma instituição religiosa (43%), independente da religião e de todas as demais variáveis consideradas, acarreta em um aumento de 398% na chance de o aluno ser um voluntário, contra aqueles que não participam de nenhum tipo de instituições.

Se o aluno, por outro lado, participa somente de uma instituição cívico-política (6,6%), sua chance de ser um voluntário aumenta em 277%, em comparação a quem não participa de nenhum tipo de instituição. E aqueles que participam de ambas as instituições (5,2%) têm suas chances aumentadas de participar de trabalho voluntário em 900%, em comparação a quem não participa de nenhuma instituição.

Por último, independente do tipo de participação que o aluno tenha, se ele for espírita, sua chance de participação ainda é acrescida em 100%, quando comparado àqueles que não têm religião; e em 68% quando comparados a católicos e evangélicos/protestantes. Havia sido demonstrado acima que os evangélicos/protestantes tinham maior participação voluntária-assistencial do que os espíritas e os católicos. No entanto, quando foram adicionadas no cálculo as demais variáveis de controle, foram os espíritas que se destacaram.

 

4. Participação Social

Neste item, todas as formas de participação serão consideradas conjuntamente. Afinal, ainda não foram observadas, em detalhes, as interseções, ou seja, o percentual dos casos em que os alunos têm mais de um vínculo institucional.

A tabela abaixo mostra que, novamente, a forma de participação não se altera de modo significativo segundo o ano da pesquisa:

 

 

A tabela acima mostra que o percentual de participantes é praticamente o dobro dos não participantes (62,4% versus 37,6%). Dentre os que participam, três formas de participação são as principais, evidenciando a forte relação existente entre elas e a profissão de serviço social: a) participação religiosa, envolvendo 21,7% do total de alunos e 34,7% dos alunos participantes; b) participação religiosa e trabalhos voluntários, absorvendo 21,3% do total de alunos e 34,1% dos alunos participantes; e c) só trabalho voluntário, onde participam 7,5% do total de alunos e 12,0% dos alunos participantes. Assim, metade do total de alunos é participante, necessariamente, de instituições religiosas ou de trabalho voluntário, o que equivale a 80,8% do total de alunos participantes.

A tabela abaixo mostra a variação de participação, segundo o pertencimento religioso dos alunos:

 

 

O resultado mostra que os evangélicos/protestantes são os mais participativos, seguidos de católicos e espíritas e, por último, os "sem religião". Vejamos os resultados para cada grupo em particular:

– os evangélicos/protestantes são os mais participativos e sua inserção divide-se principalmente entre a participação religiosa propriamente dita e a associação destas com os trabalhos voluntários. Depois, vêm os trabalhos voluntários. Somente estas três formas de participação abarcam 88,7% dos evangélicos.

– os católicos em sua maioria estão engajados em alguma instituição e sua inserção repete o comportamento observado entre evangélicos/protestantes: sua inserção principal divide-se entre a participação religiosa propriamente dita e a associação destas com os trabalhos voluntários. Somente estas duas formas de participação abarcam 83% dos católicos.

– metade dos espíritas participa de alguma instituição e, assim como os demais religiosos, suas formas de participação dividem-se também entre religião e trabalho voluntário. No entanto, diferente dos demais, a ênfase deste grupo está mais fortemente associada ao trabalho voluntário do que ao religioso. Enquanto 5% dos evangélicos e 10% dos católicos (participantes) fazem somente trabalho voluntário, 26,3% dos espíritas estão vinculados apenas a esta atividade.

– os "sem religião" são os menos participativos. No entanto, 42,5% estão vinculados a instituições exclusivamente políticas e 85% deles estão inseridos em instituições políticas ou voluntárias.

A ação voluntária perpassa a participação, tanto dos alunos religiosos quanto dos alunos não religiosos. Há, portanto, uma cultura do voluntariado que está implícita entre os alunos de serviço social, seja daqueles com mais participação política, seja dos que estão vinculados a instituições religiosas.

 

Considerações Finais

O estudo dos alunos de serviço social evidencia que estes formam, dentro do universo temporal estudado (1996-20064), um grupo com características bem definidas, quando se trata do pertencimento religioso dos alunos, da participação em instituições religiosas, cívico-políticas e voluntárias-assistenciais.

Pode-se assim dizer que há um contingente alto de alunos religiosos no serviço social (88,9%) e que a maioria deles (62,4%) participa de alguma das instituições estudadas. O predomínio de participação se dá entre as religiosas (49%), seguido do trabalho voluntário (36%) e das instituições cívico-políticas (11,5%). Como foi visto, estar vinculado a uma destas instituições dependeu, sobretudo, do tipo de pertencimento religioso do aluno e de sua inserção em alguma das outras instituições consideradas.

As variáveis de controle (ano da pesquisa, período e turno) não afetaram a participação, evidenciando que não há variações temporais significativas na participação; que a formação acadêmica não afeta na participação dos alunos e que o turno de estudo também não é um fator relevante para a análise. A formação acadêmica e a conjuntura influíram de modo profundo somente na "preferência partidária" dos alunos fazendo com que, no primeiro caso, a preferência fosse entre os partidos de esquerda; no segundo, diminuindo o interesse dos alunos pela política institucional.

Pode-se observar também que os alunos não abandonam os valores religiosos adquiridos através de suas famílias e de suas socializações antes do ingresso na universidade. Ao contrário, eles são extremamente participativos nas instituições religiosas. Os valores políticos, adquiridos durante a formação profissional, não afetam nem as crenças religiosas dos alunos (pois não há um percentual menor de religiosos nos últimos períodos do que nos primeiros), assim como não tornam os alunos mais participativos. O próprio ideário formativo do curso, entretanto, de intervenção social, visando uma sociedade mais justa e igualitária, favorece a incorporação de um discurso de esquerda pelos alunos.

Além disso, foi possível identificar uma cultura de participação voluntária, conforme assinalado no último item. Esse dado é particularmente interessante considerando que a ação voluntária costuma ser criticada no serviço social por três razões principais: 1. os voluntários foram vistos como agentes que desqualificavam a profissão e que contribuíam para o seu baixo status, uma vez que estes agiam em funções e áreas semelhantes as dos assistentes sociais; 2. o voluntariado, principalmente associado à religião, foi também vinculado a uma imagem do assistencialismo, pela ausência de requisitos profissionais para ação e por operarem projetos paliativos; 3. com o crescimento do "terceiro setor" no Brasil, a ação voluntária foi vista como uma forma de incentivo às políticas neoliberais e à redução do Estado.

Entretanto, os alunos de serviço social estão dispostos para operarem voluntariamente em suas instituições religiosas ou políticas, quando isto se torna preciso. O que está em questão é o espírito cooperativo que os alunos de serviço social demonstram ter. Se, em um âmbito mais geral, este forte sentido de cooperação tende a ser positivo, pois ajuda a resolver problemas de associação e cooperação ("dilemas do prisioneiro"), por outro lado este "espírito voluntário" pode terminar redundando em ações de favor e paternalistas, quando operadas na ação profissional.

Por último, mas não menos importante, está o posicionamento político dos alunos na sociedade. Para 85% dos discentes religiosos, no período dos 10 anos pesquisados, a religião e o "espírito voluntário" são preponderantes frente à política. É nestes âmbitos que eles se ancoram, mesmo que seus discursos sejam permeados de conceitos, chavões ou noções políticas. Desta forma, o sentido de "ser cidadão", de cidadania, de obediência ao governo, de solidariedade social, etc. são mediados em grande parte por um espírito cívico-religioso e não cívico-político. Os fundamentos morais para ação social dos alunos remetem, privilegiadamente, à formação cristã que os discentes obtiveram em suas socializações primárias.

O ethos profissional relaciona, assim, gênero (feminino), religião e voluntariado. Se a maioria dos alunos está afinada com este ethos, deve-se considerar também que, no interior da profissão e entre os alunos, não deixa de existir um grupo minoritário "sem religião". Este grupo é caracterizado por ter vínculos mais fortes com a política e maior engajamento nas relações associativas de cunho cívico-político do que os demais, embora compartilhem, em alguma medida, de valores religiosos.

Esta diversidade de atuações na sociedade e de crenças no interior da profissão são fontes de distinções possíveis de serem medidas entre os assistentes sociais. Neste artigo, a análise recaiu sobre os alunos de serviço social da UFRJ. Embora não seja possível pensar em inferir estes resultados para o conjunto da categoria profissional, as informações aqui obtidas são suficientes para, uma vez mais, impedir que análises simplificadas da realidade sejam feitas, tendo como parâmetro categorias homogenizadoras.

 

 

 

 

 

 

 

 

Referências Bibliográficas

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Notas

1 Ver modelo no final do texto.
2 Ver modelo no final do texto.
3 Para dados sobre a relação entre trabalho voluntário e religião, ver Landim e Scalon (2001).
4 Embora os dados da primeira pesquisa sejam de 1999, os alunos do 7º. e 8º. períodos pesquisados iniciaram a graduação quatro anos antes, portanto, em 1996. Por isso, o espaço temporal de cobertura do estudo estende-se por uma década 1996 a 2006.

 

 

Recebido em fevereiro de 2007
Aprovado em março de 2007

 

 

Pedro Simões
Doutor em Sociologia (IUPERJ) e Professor da Escola de Serviço Social (UFRJ) (jpsimoes@ess.ufrj.br)