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Religião & Sociedade

Print version ISSN 0100-8587

Relig. soc. vol.29 no.2 Rio de Janeiro  2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-85872009000200009 

Influência e contribuição: a igreja católica progressista brasileira e o fórum social mundial

 

 

Charmain Levy

 

 


RESUMO

Desde o começo dos anos 1980, a Igreja Católica Progressista organizou e influenciou as práticas, as ideias e os objetivos da sociedade civil brasileira. A proposta do presente artigo consiste em analisar as diferentes maneiras pelas quais a Igreja Católica Progressista influenciou o Fórum Social Mundial (FSM). Os dois principais eixos de análise são, primeiro, a influência dos princípios, da visão de mundo e da metodologia da Igreja Católica Progressista sobre indivíduos e organizações da sociedade civil que estiveram envolvidos na concepção e na realização do FSM e, segundo, a participação da Igreja Católica Progressista no FSM através de organizações ligadas à Igreja Católica, forçando a inclusão da agenda da Igreja Progressista naquela do FSM. O artigo analisa como e por que a Teologia da Libertação e a Igreja Popular brasileiras influenciaram as ideias que levaram à criação e organização do FSM, além de discutir em detalhe a participação da Igreja Católica Progressista nas edições subsequentes do Fórum.

Palavras-chave: Movimento social, Movimento transnacional, Igreja Católica, atores altermundistas, teologia da libertação, religião.


ABSTRACT

Since the early 1980s, the Progressive Church in Brazil has organised and influenced Brazilian civil society practices, ideas and goals. This paper proposes to study the different ways which the Brazilian Progressive Church has influenced the World Social Forum (WSF). The two principle axes of influence include: its principles, world vision and methodology on individuals and civil society organisations who have been involved in the conception and realization of the WSF; and its participation through Church related organisations in the WSF that push to include the Progressive Church's agenda within that of the WSF. This paper analyses why and how the Brazilian Liberation Theology and Popular Church have influenced the ideas that lead to the conception and organisation of the WSF and details the participation of the Brazilian Progressive Church in the WSFs.

Keywords: Social movement, Transnational movement, Catholic Church, alterglobalisation actors, Liberation theology, religion.


 

 

Introdução

Desde as suas primeiras edições, muito se escreveu sobre as origens e a evolução do Fórum Social Mundial (FSM) e dos outros Fóruns locais e regionais que se multiplicaram nos últimos anos. Tais origens remontam a ONGs transnacionais, intelectuais franceses, novos movimentos sociais e, mais recentemente, ao movimento antiglobalização da década de 1990 (Mertes 2004). No entanto, pouco ou nada foi dito sobre outro ator direta ou indiretamente envolvido na concepção, organização e evolução dos Fóruns: a Igreja Católica Progressista1. Na medida em que a influência da Igreja não aparece à primeira vista, é preciso voltar aos princípios e às práticas da Teologia da Libertação e da Igreja Católica Progressista para entender plenamente o tipo de influência implícita que a Igreja exerceu sobre o Fórum.

A Igreja Católica Progressista é um conjunto de organizações e indivíduos inspirados pela Teologia da Libertação e engajados em realizar mudanças profundas na Igreja Católica e na sociedade. Ao contrário do que aconteceu em outros países latinoamericanos, no Brasil a Igreja Católica Progressista esteve e está presente em todos os níveis da Igreja. Entre os progressistas encontram-se cardeais, bispos e padres, além de ordens e congregações.

Em muitos sentidos, a Igreja Católica Progressista foi o ator social mais importante do período de formação da sociedade civil brasileira contemporânea. A Igreja Católica Progressista criou, promoveu a apoiou movimentos sociais modernos em todo o Brasil, tanto nos centros urbanos quanto na zona rural. Durante muitos anos - a começar pelo trabalho realizado na constituição das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) nos anos 1960 -, foi a Igreja Católica Progressista que esteve no centro das lutas de pequenos agricultores deslocados/atingidos por barragens, comunidades indígenas, pescadores, trabalhadores urbanos e donas-de-casa das periferias das grandes cidades, em bairros pobres e favelas. Além disso, a Igreja Católica Progressista atuou em comunidades carentes para organizar as pessoas que perderam com a modernização autoritária da economia do país, denunciando publicamente as injustiças sociais na tentativa de influenciar as decisões da elite política brasileira e chamando a atenção internacional para o problema dos direitos humanos no Brasil (Mainwaring 1986; Bruneau 1992).

No presente artigo serão discutidos o grau e as formas pelas quais a Teologia da Libertação e a Igreja Católica Progressista influenciaram a concepção, o caráter, a organização, o conteúdo e a evolução do FSM entre os anos de 2001 e 2005. Também será analisado o modo pelo qual esta influência se distingue daquela de outros atores do FSM. A presente análise baseia-se em pesquisas secundárias, em informações disponíveis no programa do FSM e em entrevistas com líderes e personalidades da Igreja Católica brasileira que participaram e contribuíram para o FSM, tanto em âmbito nacional quanto internacional2.

O tema aqui discutido relaciona-se a um outro, mais amplo, relativo ao lugar e ao papel da reflexão, da fé e dos atores religiosos nas práticas políticas dos movimento altermundialista e de resistência ao sistema capitalista. Embora esta questão geral não seja abordada no presente artigo, pretende-se ao menos aprofundar as implicações maiores da influência da Teologia da Libertação sobre o fenômeno do FSM e dos movimentos sociais que ele abarca.

 

A Igreja Católica Progressista e o Fórum Social Mundial

Por que considerar a Igreja Progressista brasileira importante na concepção e na evolução do FSM? Muitos atores participaram da elaboração do FSM. Porém, mesmo em um nível primário de análise, muitos dos atores que organizaram o primeiro FSM em 2001 - lançando assim as bases para os Fóruns futuros - eram principalmente brasileiros (Aguiton e Cardon 2005). Se compararmos o papel desempenhado pelos atores brasileiros ao dos atores dos demais países envolvidos, veremos que os primeiros tiveram uma participação muito mais decisiva no nascimento do FSM3. Desses atores brasileiros, metade foi direta ou indiretamente inspirada pela Teologia da Libertação ou esteve envolvida em atividades e/ou organizações conduzidas pela Igreja (Comissão Brasileira Justiça e Paz, ABONG - Associação Brasileira de ONGs, IBASE - Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas, e MST - Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra). Além disso, indivíduos como Chico Whitaker, militante da Igreja Católica Progressista, participaram da própria concepção do FSM.

O presente artigo propõe-se a demonstrar que a Igreja Católica Progressista faz parte de um conjunto de atores da sociedade civil brasileira que moldaram o formato e o conteúdo do FSM. Ao longo do tempo, esta influência especificamente brasileira resultou tanto em vantagens quanto em contradições, na medida em que o FSM precisou se adaptar a sociedades, valores, práticas e problemáticas de outros continentes. Mesmo assim - e muito embora o FSM tenha mudado e evoluído no tempo e no espaço -, o seu modelo foi esboçado principalmente por atores da sociedade civil brasileira e, particularmente, pela Igreja Progressista do país.

Até mesmo a pesquisa limitada conduzida no início de 2007 - da qual resulta este artigo - mostrou claramente que a Teologia da Libertação e a sua expressão na Igreja Católica Progressista contribuíram para o caráter, a organização, a metodologia, os valores e o conteúdo do FSM de uma forma muito nítida. Tal contribuição abrange a influência sobre os princípios, a visão de mundo e as práticas de todos os indivíduos e entidades da sociedade civil envolvidos na organização e na realização do FSM, ligados à Igreja Progressista nas décadas de 1980 e 19904. Essa influência - que ocorreu tanto através da participação de membros e organismos da Igreja (Pastorais, Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB, Cáritas) nos conselhos e comitês organizadores do Fórum quanto através de grupos e movimentos populares - fez com que o FSM adotasse determinadas características que diferem daquelas dos movimentos sociais de esquerda mais tradicionais do Brasil, como aqueles ligados às correntes ideológicas esquerdistas (comunistas, maoistas, trotskistas), à luta armada, aos sindicatos e aos partidos políticos.

Tais características compreendem a diversidade, o respeito pelo outro e a defesa e a promoção de valores e práticas democráticos por meio da democracia direta participativa em todos os níveis dos processos decisórios. Incluem, particularmente, a compreensão do Fórum como uma estrutura aberta e horizontal e como um instrumento para a conscientização e o aumento da participação de todos. Outra influência notável é a importância atribuída à espiritualidade, ao simbolismo e à celebração no Fórum, que definem o seu espírito e vão muito além do intelectualismo.

Isto não implica que outros atores sociais que participam do FSM não compartilhem tais princípios e práticas, mas que a Teologia da Libertação influenciou aqueles que estiveram estrategicamente posicionados em termos de conceitualização e organização do Fórum, e que o posicionamento dos mesmos encontra-se refletido nas características mencionadas acima.

 

Teologia da Libertação e Igreja Católica Progressista

O que há de tão singular e especial nas ideias, no discurso e na prática da Teologia da Libertação? Nesta seção serão brevemente apresentadas as diversas características e eixos de pensamento da Teologia da Libertação, a fim de compreender de que forma ela influenciou uma geração de militantes nos anos 1960 - e, mais uma vez, a geração de militantes nascidos na década de 1980 -, através das CEBs, pastorais e diversos movimentos populares. Também será analisada a maneira como esses militantes conceitualizaram, participaram e moldaram o FSM.

A Teologia da Libertação é, antes de mais nada, uma reflexão espiritual e religiosa. Fundamenta-se no princípio de que os seres humanos são os sujeitos do seu destino e os criadores da história. Através da participação nos movimentos sociais, os cristãos buscam compreender problemas específicos, como o trabalho, além de questões mais gerais, como a dignidade e os direitos humanos. A inspiração básica da Teologia da Libertação é a fé cristã, vivida e entendida como ação transformadora da história. Existe a crença fundamental de que os pobres e destituídos podem contribuir para a transformação do mundo - e os agentes das pastorais e da Igreja, conscientes de que em geral os resultados são poucos, pontuais e claramente não imediatos, dedicam-se a tal tarefa. Eles possuem uma paciência histórica e acreditam que a revolução (a tomada do poder a partir de cima) não é a melhor via para transformações sociais duradouras. O ponto de partida é a libertação dos seres humanos, a descoberta da sua dignidade, a redefinição do seu estatuto de cidadãos e a libertação das várias formas de opressão (econômica, política, jurídica, racial, sexual).

É preciso reiterar a ideia de que a visão liberacionista da política, entendida em seu sentido mais amplo como uma matriz comum de crenças políticas e religiosas, é um processo de afinidade eletiva entre ética religiosa e utopias sociais que guiou as ações de muitos militantes e ex-militantes da Igreja no FSM (Lowy 1996:36). Nesta visão, a Teologia da Libertação reconhece a autonomia da esfera política e deixa tais questões para os partidos políticos da esquerda, limitando-se a tecer a crítica social e moral da injustiça, a despertar a consciência popular, a disseminar a esperança da utopia e a promover iniciativas a partir de baixo (Lowy 1996:37; Frei Betto apud Mainwaring 1989:230). Um dos mais importantes militantes da Igreja, Frei Betto, disse certa vez que seria errado transformar a Igreja ou as CEBs em partido político ou movimento social, pois a sua motivação não é o poder, e sim a fé. Assim, a Igreja só pode ser considerada como um ator político em sentido indireto ou geral5. É o discurso da Teologia da Libertação sobre o sentido global da existência que mobiliza as forças espirituais (Houtart 2000:24-25). Tal discurso visa a estimular a auto-organização da sociedade civil e a democracia, mobilizando um novo espaço e uma nova cultura política, e manifestando uma desconfiança em relação à manipulação política, às estruturas hierárquicas e ao paternalismo estatal.

Assim, a Teologia da Libertação e a Igreja Progressista brasileira foram agentes importantes no refortalecimento da sociedade civil ao final da ditadura militar e durante a década de 1980, ajudando a reunir milhões de pessoas em organizações sociais e políticas. Elas também prestaram um apoio valioso na organização desses grupos de forma democrática, com o argumento de que os meios são tão importantes quanto os fins. Conforme mencionado anteriormente, uma segunda geração de militantes sociais e políticos recebeu a sua educação política nas CEBs, nas pastorais de cunho social (como a Pastoral da Terra, a Pastoral da Juventude e a Pastoral dos Trabalhadores) e nos movimentos sociais dos anos 1980.

Contudo, depois de 1985, as CEBs começaram a perder a sua influência à medida que os movimentos sociais ganharam peso político, participando da vida política na forma de organizações autônomas da sociedade civil. Muitos líderes das CEBs abandonaram o trabalho com os movimentos sociais e entraram para a política. Tal politização das CEBs fortaleceu a esquerda e os movimentos sociais brasileiros, mas enfraqueceu as alas progressistas da Igreja.

O declínio da Igreja Progressista ao longo da década de 1990 pode ser atribuído a diversos fatores endógenos: o esforço orquestrado do Vaticano para reduzir a influência da Teologia da Libertação na Igreja brasileira; a nova realidade encontrada pela Igreja no trabalho com o novo pobre - vítima desorganizada das políticas econômicas neoliberais; o retorno a um regime democrático que incluía outros atores políticos, entre eles partidos, sindicatos, movimentos sociais e ONGs.

Atualmente, muito embora já não possa mais ser considerada como um ator central, a Igreja Progressista continua influenciando a sociedade civil e a política6. Ela não só participa ativamente como também organiza redes em torno de questões relativas à justiça social (através das pastorais sociais e das CEBs) através da mobilização das suas bases. Além disso, ela também ajuda a organizar outros atores em torno de questões e eventos gerais e específicos.

Lesbaupin observa que as CEBs superaram a fase carismática das décadas de 1970 e 1980 e se encontram, desde os anos 1990, naquilo que ele considera como a sua fase rotineira ou normalizada (Lesbaupin 1997:42). As CEBs ainda existem e permanecem atuantes nos grupos de base da Igreja e da sociedade, mas já não são uma força proeminente nos movimentos sociais.

Outro exemplo de influência importante sobre a organização e as características do FSM pode ser encontrado em eventos como a Semana Social da CNBB, organizada todos os anos desde 1991. A Semana Social da CNBB visa criar uma dinâmica de "reflexão, mobilização e engajamento" e possui uma vocação ao mesmo tempo cognitiva e espiritual que consiste em "renovar as utopias e fortalecer a motivação na luta contra as injustiças e as estruturas nas quais as mesmas estão representadas"7. O evento busca debater o tipo de sociedade que as pessoas querem e as maneiras de alcançá-la. Assim como as reuniões das CEBs, os eventos são organizados tanto em nível local quanto em nível nacional. Isto fica evidente em um dos temas da Semana Social da CNBB: "O Brasil que queremos".

Para sintetizar, a Teologia da Libertação e a sua ação por meio da Igreja influenciaram os movimentos sociais no Brasil através das seguintes ideias: os pobres são o sujeito da sua própria libertação; a valorização dos saberes populares, agregando um novo significado político aos símbolos da Igreja e priorizando os movimentos comunitários, as redes sociais e a democracia e a participação diretas; a importância da organização pacífica; o valor e a pertinência da pedagogia na organização social. Conforme será visto a seguir, muitas destas ideias e práticas também se encontram refletidas e manifestas nos princípios e nas práticas do FSM.

 

Características do Fórum Social Mundial

As origens do FSM podem ser encontradas em uma série de fontes e experiências internacionais. Entre elas estão as várias conferências da ONU ocorridas ao longo da década de 1990, os Encontros Intercontinentais pela Humanidade e contra o Neoliberalismo organizados pelos Zapatistas em 1996, 1997 e 1999 no México, na Espanha e no Brasil, as manifestações contra a OMC em Seattle em 1997, contra o Banco Mundial em Washington e em Praga no ano 2000 (entre outras), contra a Cúpula das Américas em Québec em 2001 e contra o G-8 em Gênova no mesmo ano e, finalmente, o Jubileu do Ano 2000. Entre os atores envolvidos na concepção e na organização do FSM encontramse intelectuais franceses, militantes de partidos políticos brasileiros, ONGs, os movimentos das populações pobres e uma elite antiglobalização.

A fim de compreender a influência da Teologia da Libertação sobre o FSM, é preciso descrever as principais características do Fórum. O FSM difere das reuniões esquerdistas anticapitalistas do passado pela sua natureza descentralizada e horizontal. Os seus participantes são sobretudo militantes da sociedade civil, e não membros de partidos políticos ou governos. Isso reforça o fato de que o princípio de transformação do Fórum não vem da elite social, mas das classes média e baixa. Além disso, o FSM não é institucional, como o são as conferências da ONU; é proativo, e não reativo como os encontros de Seattle, Washington, Praga, Gênova e Québec e as campanhas de alvo mais específico8.

Portanto, o FSM pode ser considerado uma resposta às limitações da participação nos espaços das organizações internacionais e das resistências isoladas aos processos de governança formal. Ademais, em vez de se concentrar em tópicos ou temas específicos, o FSM abarca uma pluralidade de problemáticas (como as mulheres, os trabalhadores rurais e os povos indígenas, por exemplo), mas agregando diferentes causas, lutas e correntes, bem como as suas práticas.

De acordo com Pleyers, as três características principais do FSM são as seguintes: a atmosfera inclusiva com relação à diversidade; a organização de espaços abertos; a natureza não-deliberativa das reuniões (Pleyers 2004:509). O Comitê Organizador do primeiro FSM insistiu no caráter descentralizado e reflexivo dos encontros, incentivando os participantes a utilizarem as suas experiências locais para enriquecerem o Fórum e, ao mesmo tempo, utilizarem o Fórum para renovar as suas ações locais (Leite 2005:12). O Comitê Organizador concebeu o FSM como uma espaço distintivamente não-deliberativo para o diálogo e a colaboração.

O Fórum busca preservar as identidades singulares de suas partes e, ao mesmo tempo, possibilitar que elas se reúnam em um espaço mais amplo e aberto, para o qual todos possam contribuir - um espaço plural do ponto de vista político e ideológico, mas não menos comprometido com as lutas contra a exploração, a injustiça e a opressão e com a busca por liberdade, justiça, igualdade e solidariedade (Leite 2005).

Considera-se o Fórum como um espaço representativo da diversidade global, e o significado político que ele costura através de tal diversidade é fundamental para o processo da formação democrática da sociedade contemporânea. O Fórum também possui um forte caráter educativo. É um espaço estratégico - uma junção de lutas comuns trabalhando para a convergência e para um novo paradigma civilizacional - que visa a transformação estrutural e individual.

De acordo com Biagiotti, o debate, o testemunho e o diálogo são as ferramentas do Fórum. O que está em jogo no FSM enquanto fenômeno sociopolítico é a criação de uma ágora para os movimentos que propõem uma globalização alternativa, e não a subordinação destes movimentos a um programa conjunto predeterminado (Biagiotti 2004:532-533). Em um nível ainda mais básico, foi a visão horizontal, holística e participativa inscrita nos princípios da democracia deliberativa que tornou possível o lançamento do Fórum.

Da mesma forma, o objetivo do Fórum não consiste em criar maiorias efetivas capazes de se constituírem em instância de poder, mas em construir redes, trocar experiências e produzir consenso. É um processo que recusa a urgência e que tenta evitar a imposição de prioridades às organizações menores, mais fracas ou menos integradas (Biagiotti 2004:535). São respeitados o ritmo, os instrumentos e a velocidade de cada participante (Whitaker apud Merlant 2003:57). O Fórum é considerado tanto como um espaço quanto como um processo, a fim de assegurar e permitir a formação e o desenvolvimento dos movimentos sociais (Whitaker 2004:114).

Em relação ao que o Fórum realmente produz em termos de mudança enquanto força social, política e cultura alternativa ao neoliberalismo dominante, é possível afirmar que ele estimula as ações existentes, facilita o aprendizado, estabelece novas conexões e organiza novas ações. Os discursos, os testemunhos pessoais e a concentração de gente inspiram sentimentos de solidariedade e entusiasmo nas pessoas, incentivando-as a perseverar nas suas lutas. Os participantes aprendem novas informações, ideias e maneiras de pensar nos seminários, nas oficinas, nas conferências e em discussões informais. As pessoas aprendem até mesmo como poderia funcionar um outro mundo, modelando-o através de uma economia solidária implantada no local. O Fórum estabelece conexões entre pessoas que, em outras circunstâncias, poderiam não ter se encontrado, reunindo militantes de diversos países, movimentos e causas. Ainda mais importante, talvez, é o fato de os participantes do Fórum organizarem novas redes, protestos, websites, entidades, grupos de discussão, reuniões e campanhas.

Um exemplo disso é a Rede Smin (Rede Internacional de Movimentos Sociais, na sigla em inglês), que surgiu no FSM em 2002/2003 através da cooperação de uma série de organizações - a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Brasil, a Marcha Mundial das Mulheres no Québec, a ONG tailandesa Foco no Sul Global e parte da Attac francesa. Estas organizações conseguiram chegar a um consenso quanto a uma lista de jornadas globais de ação para o ano 2004 (começando com as manifestações mundiais contra a Guerra do Iraque no dia 20 de março), a qual recebeu o apoio de muitos movimentos em todo o mundo. Ademais, a Smin esteve no centro da convocação para a terceira conferência dos movimentos, redes e ONGs contra a guerra, ocorrida em Beirute em 20049. Assim, o Fórum se tornou um meio através do qual são canalizados argumentos, protestos e novas demandas, e onde são consolidados novos repertórios de ações coletivas.

 

Participação da Igreja Católica Progressista brasileira no Fórum Social Mundial

Desde o princípio, organizações e personalidades ligadas à Igreja Católica, como Chico Whitaker, fizeram parte do Conselho Internacional do FSM, que discute questões políticas gerais, a metodologia do evento anual e o futuro do Fórum10. No Conselho Internacional, militantes da Igreja Progressista brasileira aderiram à metodologia de chegar a decisões através de consenso e de rechaçar a ideia de diretores, presidentes ou conselho diretor que implique hierarquia. O Conselho foi concebido como um espaço para a democracia participativa, mesmo que esta ideia tome mais tempo e nem sempre seja tão eficaz quanto uma metodologia hierárquica. Aqueles que pertenciam ou que foram influenciados pela Igreja e pela Teologia da Libertação tentaram radicalizar a ideia de horizontalidade na administração e na organização do Fórum, e também na dinâmica das suas ações autogerenciadas11.

Embora a influência da Igreja Progressista brasileira no FSM seja evidente através de pessoas como Chico Whitaker, a participação quantitativa da Igreja nas duas primeiras edições do Fórum, em 2001 e 2002, foi pequena (mas cresceu de maneira significativa depois de 2003). Mesmo que algumas entidades e personalidades da Igreja Progressista estivessem presentes na primeira e na segunda edição do evento, a sua presença aumentou em quantidade e em qualidade no terceiro e no quinto Fórum,12 ao reconhecerem o FSM como um espaço em que poderiam mobilizar as suas bases e contribuir para o movimento altermundialista com o seu discurso, os seus valores e as suas práticas13. As razões pelas quais a Igreja não participou intensamente desde o começo poderiam ser as muitas redes e eventos (nacionais e internacionais) que ela mesma organiza e frequenta, além de serem limitados os recursos de que dispõe para os mesmos. Em 2002, os participantes dos Fóruns e dos seus comitês convenceram outras pessoas da Igreja sobre a importância do FSM em termos de mobilização das bases e de potencial para a transformação social. Em 2003, os Fóruns fizeram parte da agenda da Igreja.

Portanto, a Igreja se tornou mais consciente da importância e do potencial do Fórum, investindo na mobilização das bases a ela ligadas para a participação no evento e em suas instâncias decisórias e redes e campanhas internacionais. Isso ficou mais visível na participação de entidades e personalidades da Igreja em mesas redondas, conferências e oficinas14. Além disso, uma semana antes do FSM de Porto Alegre em 2005 - no ano em que o Fórum voltou ao Brasil, depois da experiência em Mumbai -, aconteceu o primeiro Fórum Mundial da Teologia da Libertação. A maioria dos seus participantes também esteve no FSM. A estratégia continuou sendo utilizada: em 2007, o encontro voltou a acontecer pouco antes do FSM em Nairóbi, no Quênia.

É importante mencionar que a Igreja brasileira não organizou a sua participação da mesma maneira que o fizeram os sindicatos, o movimento feminista e outras tendências políticas, focados em questões atinentes às suas próprias organizações e lutas. Em vez disso, a participação da Igreja foi pulverizada em diversos temas e eixos, como a Área de Livre Comércio das Américas, a dívida externa, os migrantes, a terra e a água - e, portanto, acabou de alguma forma se diluindo em cada um deles15. Mesmo assim, a Igreja foi particularmente ativa na organização de eventos e cerimônias inter-religiosos que atraíram um número significativo de participantes do FSM16.

Em termos de participação, é importante que a postura da Igreja tenha sido a de colaborar para um evento universal que interessa a todas as pessoas que lutam contra a opressão e a injustiça, e não simplesmente a de participar em busca de uma plateia17. A Igreja não organizou formalmente a sua presença entre as muitas organizações, líderes e membros a ela vinculadas, tampouco tentou criar os seus próprios grupos; pelo contrário, a Igreja fez parte do Fórum, fortalecendo uma iniciativa comum e coletiva para mudar o mundo.

O FSM representa um espaço nacional e transnacional de mobilização das bases da Igreja Progressista brasileira e de comunicação com outros movimentos cristãos progressistas do mundo inteiro,18 bem como uma vitrine para as ideias e experiências da Igreja Católica Progressista. O FSM se revelou uma oportunidade para que a Igreja Progressista brasileira se integre plenamente ao movimento altermundialista dos anos 2000 e dê prosseguimento à sua práxis em diversos níveis - local, nacional e transnacional. Somente os estudos conduzidos no futuro poderão demonstrar até que ponto existe um efeito multiplicador desta participação transnacional sobre as bases brasileiras.

A característica central da Teologia da Libertação é a relação dialética que ela estabelece entre teoria e prática. A práxis é uma fonte legítima de análise, de inspiração e de reflexão, e não apenas a maneira de aplicação de uma ortodoxia estabelecida. A Teologia da Libertação orienta-se na direção de uma concepção dialética entre estruturas sociais e práticas individuais e coletivas. Neste sentido, enquanto os teólogos da libertação trabalharem ativamente junto às suas bases da Igreja, a teologia por eles elaborada será alimentada pelas experiências e interações com os grupos de base. Esta é, aliás, uma das fontes da riqueza e da originalidade da Teologia da Libertação brasileira, sobretudo se a compararmos a outras Teologias da Libertação. Um exemplo de teologia sem práxis e, consequentemente, de ruptura com esta relação dialética é aquela do teólogo camaronês Jean-Marc Éla. Exilado em 1995, Éla continuou a produzir textos teológicos sem nenhuma práxis junto às bases. Este exemplo demonstra também a situação de uma teologia sem nenhuma organização de grupos de base e, portanto, ilustra de que forma tal teologia não se traduz em práticas no nível das bases.

 

Influência Implícita da Igreja Católica Progressista no Fórum Social Mundial

A Teologia da Libertação exerceu, tanto de forma aberta quanto de modo implícito, vários tipos de influência no e sobre o FSM. Nesta seção, examinar-se-á a influência oculta da Igreja Católica Progressista no FSM.

Conforme mencionado anteriormente, ao longo da década de 1950 a Igreja teve uma influência importante sobre os católicos de classe média que começavam a sua educação universitária. A partir dos anos 1980, muitos destes jovens tornar-se-iam intelectuais e militantes trabalhando com movimentos sociais progressistas, partidos políticos e ONGs de vários tipos e áreas e, mais tarde, participariam ativamente do FSM19. Os valores e as práticas por eles assimilados na Igreja Católica Progressista podem ser encontrados na maneira como o FSM foi organizado, bem como na sua missão, nos seus objetivos e, em menor grau, no seu conteúdo20. Assim, muitos dos membros das organizações que posteriormente desempenharam um papel-chave na criação e na organização do Fórum - como ABONG, IBASE, MST - foram direta ou indiretamente influenciados pela Teologia da Libertação. De fato, pelo menos a metade dos organizadores originais do Fórum trazia, em graus variados, a marca da Teologia da Libertação e da Igreja Progressista brasileira.

A mais importante influência da Igreja sobre a concepção do FSM esteve no papel desempenhado por Francisco (Chico) Whitaker, um dos criadores do Fórum e coordenador da entidade católica Justiça e Paz (vide Whitaker 2005). Whitaker passou boa parte da sua vida como militante da Igreja, a começar pela JUC, de cuja seccional de São Paulo foi o presidente em 1952-1953. No final dos anos 1970, coordenou a Jornada Internacional por uma Sociedade sem Dominação, evento anual organizado pela CNBB, pondo em funcionamento a ideia da construção de redes horizontais baseadas na corresponsabilidade (Whitaker 2005:207).

A influência da Teologia da Libertação em Whitaker é evidente nos seus escritos e nas posições por ele adotadas em relação ao caráter e à missão do Fórum. Desde o começo, Whitaker defendeu que a missão do Fórum não é a de se tornar o "movimento dos movimentos", mas a de fortalecer o movimento altermundialista, bem como os movimentos individuais e as organizações que o compõem (Whitaker apud Merlant 2003:42). Whitaker insiste no caráter instrumental do Fórum. Para ele, um dos principais objetivos do Fórum consiste em gerar novos movimentos que ampliem a luta contra o neoliberalismo ou, na expressão por ele cunhada, "ser uma incubadora de movimentos" (Whitaker 2003:113).

Whitaker não concebe o Fórum como uma organização com vistas a tomar o poder. A exemplo do papel da Igreja, o papel do FSM em relação aos outros atores da sociedade civil não consiste em tomar o poder de cima nem em ser o agente central da transformação - como é o caso dos partidos políticos e de algumas ONGs e movimentos sociais -, mas em fortalecer os movimentos sociais, sobretudo os movimentos das populações pobres, e, assim, influenciar o poder e produzir mudança a partir de baixo. A ideia não é servir de voz aos pobres, mas assegurar que as suas vozes sejam ouvidas, promovendo a sua organização e mobilização. Os militantes ligados à Igreja veem o Fórum não como um agente central que seria a soma das forças dos movimentos altermundialistas - como no conceito do "movimento dos movimentos" de Naomi Klein (Klein apud Mertes 2004) -, mas como um agente de apoio dos movimentos sociais e das suas redes que trabalha para a transformação através da luta coletiva.

Neste sentido, a autonomia do FSM em relação aos demais atores políticos se tornou central. Sendo assim, os membros da Igreja Católica Progressista que participam dos processos decisórios do Fórum observam que eles tentaram tomar o cuidado de manter o FSM independente de partidos políticos, governos e empresas, de modo que o Fórum busque os seus próprios recursos para assegurar a realização dos encontros, sem ser fortemente influenciado ou dependente de outros atores sociais e políticos.

Os participantes ligados à Igreja envolvidos na organização do Fórum sempre insistiram que a ação política eficaz pode ocorrer a partir de baixo21. Com base na experiência das CEBs e das pastorais sociais dos anos 1980, eles enfatizaram que a resistência implica a confrontação da lógica cultural e das práticas cotidianas e relações sociais que constituem, produzem e fortalecem a hegemonia dos sistemas políticos e econômicos (Osterweil 2004:498-499). Para eles, a essência participativa do Fórum é o motor da ideia de construção de alternativas.

Assim como nos encontros nacionais das CEBs e da Semana Social da Igreja Católica brasileira, um dos objetivos mais importates do FSM é a troca de experiências, para que militantes e movimentos sociais fiquem conscientes das lutas existentes em outros locais do planeta e não se sintam isolados, mas parte de um movimento maior. Por exemplo, agentes pastorais que atuam em determinado tema em determinada região do planeta podem entrar em contato com aqueles que atuam no mesmo tema em outras partes do mundo. Tal prática produziu o efeito de conectar diversas lutas locais e regionais em nível global, criando novos entendimentos de um fenômeno mais amplo que, por sua vez, alimentam as reflexões e as ações das lutas locais.

De forma semelhante, Whitaker insistiu para que o Fórum fosse um espaço aberto de caráter horizontal. Ele vê o FSM não como uma reunião para que intelectuais exibam as suas ideias, mas como um processo e um evento popular, fortalecedor e participativo (Whitaker 2005). Existe na Igreja Progressista brasileira a crença arraigada de que as transformações sociais importantes começam em nível local antes de se tornarem globais. A ação começa como um fenômeno local e o Fórum serve como espaço destinado a aglutinar e reforçar ideias que podem transformar a realidade; é um espaço de intercâmbio e de constituição de redes locais, regionais e internacionais que integram pessoas e grupos de diferentes visões22. Isto é o que dá sentido e esperança às lutas desses movimentos23. Assim, a Igreja contribui para a dimensão utópica do FSM, identificando e articulando questões de interesse comum para a humanidade (Löwy 2007:7).

Em relação à organização do Fórum, outra influência da Teologia da Libertação encontra-se no que se poderia chamar de caráter "basista" do FSM, na medida em que ele assume a forma de uma democracia direta24. Ninguém pode representar o Fórum nem tomar decisões ou falar em seu nome, e nenhuma declaração ou plataforma pode ser emitida pelo Fórum como tal. Conforme mencionado anteriormente, o FSM possui uma concepção diferente da democracia e dos processos deliberativos, fundada no consenso e na participação, e não no princípio da maioria (Pleyers 2004:514). Atualmente, essa abordagem é compartilhada por outros participantes do Fórum em todo o mundo e, de modo geral, os atores que apoiam esse caráter do FSM - a chamada "horizontalidade" - buscaram promover políticas democráticas concentrando-se em micropráticas, processos organizatórios e órgãos do próprio Fórum. Além disso, eles procuraram desafiar as relações desiguais e antidemocráticas de poder mudando, entre outras coisas, a maneira como as reuniões são conduzidas, a forma como o espaço é organizado, o modo como a autoridade e a expertise são distribuídas e como o conhecimento é transmitido (Osterweil 2004:498). Essas mesmas características também se encontravam nas CEBs, cujas decisões eram tomadas coletivamente e cuja organização era fundada em práticas democráticas.

Whitaker e outros militantes ligados à Igreja Católica Progressista acreditam que, em termos de organização, deve-se priorizar as atividades auto-organizadas que garantem o longo alcance horizontal do evento, em vez de uma estrutura vertical hierárquica que determine o conteúdo e a direção do processo25. Da mesma forma que nas organizações da Igreja Liberacionista, atribui-se grande valor ao contato com as bases, ouvindo as pessoas e solicitando a participação de todos, bem como à perspectiva liberacionista que põe o foco nos pobres e destituídos.

Os atores do FSM ligados à Igreja Católica Progressista possuem a vantagem de pertencerem a uma instituição poderosa em termos de recursos e de credibilidade social e política, a qual lhes dá acesso à tomada de decisões e também à mobilização das bases. Assim, os membros da Igreja envolvem-se simultaneamente em movimentos sociais, redes e campanhas.

Portanto, a principal influência da Teologia da Libertação sobre o FSM não se dá tanto em termos de conteúdo, mas de uma metodologia que consiste em estimular os militantes dos grupos de base e dos movimentos sociais a serem sujeitos e protagonistas da transformação da realidade, bem como da convicção de que a história pode ser mudada se nos conscientizarmos da nossa realidade e nos unirmos para transformá-la. Assim como nas CEBs, a tomada de consciência acontece diariamente através da organização coletiva e da luta.

É possível argumentar que esses valores são compartilhados por outros atores e movimentos sociais e não resultam diretamente da influência da Igreja Liberacionista. No entanto, ao contrário da visão de Osterweil de que esses horizontes são compostos sobretudo pelos anarquistas ocidentais, a Igreja Católica Progressista também pertence ao campo horizontal e, como tal, tem sido um dos protagonistas do FSM contribuindo para o caráter plural, aberto, participativo e popular do Fórum. É verdade que outros grupos compartilham com a Igreja a mesma perspectiva de fortalecimento das bases (Zapatistas, Ação Global dos Povos), mas tais grupos não estiveram envolvidos diretamente na concepção e na organização dos FSMs como o esteve a Igreja26.

Por exemplo: os criadores do FSM direta ou indiretamente ligados à Igreja Católica Progressista em algum momento participaram de um encontro nacional das CEBs. Os encontros nacionais das CEBs, instrumentos importantes para que a Igreja Católica Progressista concretize os seus objetivos, são pertinentes a esta análise. Tais encontros acontecem desde 1975 e são um espaço e uma ocasião para que representantes das CEBs de todas as regiões do Brasil troquem experiências e ideias e reflitam sobre os diversos tipos de reflexão e ação pastorais. Dá-se muita importância à preparação de cada CEB para esses encontros nacionais, com uma série de encontros paroquiais, diocesanos e regionais. Esse processo contribui para inculcar uma visão mais ampla nos líderes e militantes das CEBs que fazem a ponte entre o local e o nacional. Essas reuniões também ajudam a cristalizar energias dispersas e a inspirar solidariedade e fraternidade entre os líderes, agentes e teólogos. A sua característica primeira é a celebração, ao contrário dos encontros centrados em análises e estudos. Elas procuram articular duas dimensões opostas: a festividade e a luta, a celebração e a morte.

Outra característica dos encontros é a diversidade em termos de região, etnia e religião popular - ainda mais explícita a partir do final da década de 1980 e durante os anos 1990, quando os temas eram escolhidos especialmente para refletir tal diversidade27.

Em termos de conteúdo, a mística desenvolvida nas CEBs ao longo dos anos 1980 foi uma das contribuições mais importantes para o FSM. Toda ação coletiva implica aspectos simbólicos, referências éticas, utopias e uma dimensão cultural. No hemisfério norte, a maior parte das ações coletivas da esquerda assumiram uma orientação secular cívica, mas isso não é o que acontece nos movimentos populares e esquerdistas do hemisfério sul, onde, a exemplo do Brasil, a dimensão religiosa permanece onipresente mesmo em movimentos seculares como o MST.

Esta articulação estava especialmente clara na referência da mística ao estímulo da ação social através da fé, desenvolvida nas CEBs e nas organizações pastorais, que expressavam essa dimensão de maneira espiritual, emocional e artística. A mística é composta de uma força ou espírito que inspira a luta e a crença na transformação social baseada na fé e, portanto, difere do ritual de culto28.

Essa influência espiritual é explicitada nos espaços do Fórum dedicados às celebrações e manifestações religiosas e inter-religiosas, os quais foram propostos originalmente ao Conselho Internacional por entidades da Igreja Católica brasileira. Isso ilustra a influência da Igreja sobre um importante elemento do Fórum: o simbolismo. Consequentemente, de acordo com Correia Leite, o sentido da existência é uma característica notável de todos os grandes eventos do processo do FSM (Leite 2005:139). Exemplos podem ser encontrados nas cerimônias ecumênicas diárias que acontecem no Espaço "E" e na mística da cerimônia de encerramento do Fórum.

Enfim, as pessoas ligadas à Teologia da Libertação não pretedem ser as únicas criadoras dos princípios do Fórum, os quais também podem ser encontrados em outros movimentos sociais dos hemisférios norte e sul. O presente artigo procurou demonstrar que os militantes brasileiros da Teologia da Libertação talvez tenham tido mais influência do que outros atores, no sentido que, desde a criação do FSM, eles participaram em todos os níveis do Fórum, dos órgãos deliberativos aos grupos de base, juntamente com outros atores sociais. Eles se valeram de suas próprias práticas e experiências na Igreja Progressista para contribuir e investir no Fórum. Através da sua participação, apresentaram a sua visão do que o Fórum deveria ser e dos diferentes meios para concretizá-la e, em um sentido mais amplo, para transformar o mundo. As ideias e práticas da Igreja Progressista - os pobres são o sujeito da sua própria libertação, prioridade à participação popular, democracia direta, participação direta e formação de redes, importância da organização pacífica, valor e pertinência da pedagogia na organização social -, desenvolvidas ao longo dos últimos trinta anos, são conceitos que permeiam o FSM.

 

Perspectivas Futuras da Influência da Igreja no Fórum Social Mundial

Juntamente com elementos liberacionistas da Igreja Católica de outros países, a Igreja brasileira aumentou o seu investimento e a sua presença nas últimas edições do FSM e dos Fóruns Regionais, bem como a sua visibilidade. Tal fato contribuiu para que mais pessoas envolvidas em lutas populares na sociedade civil tenham mais acesso aos Fóruns e, mais recentemente, também levou à maior percepção do papel crescente dos organismos religiosos no FSM. É possível que essa presença crescente da Igreja leve organizações e pessoas de outras religiões a acreditar que esse investimento nos Fóruns esteja ocultando a contribuição de grupos que são menos institucionalizados e que possuem menos recursos. O mesmo está sendo dito a respeito do peso financeiro e político da Igreja no FSM.

Em outro nível, o modelo brasileiro de governança foi alvo de críticas severas nos últimos anos, e outros modelos foram propostos. Aguiton e Cardon consideram o modelo brasileiro como um modelo cooptador, incompatível com as práticas de outras organizações e participantes do Fórum. Eles acreditam que não seja possível transferir uma experiência nacional para o nível internacional com tantos interesses e práticas de governança diferentes, e sugerem outras formas de governança capazes de administrar melhor os conflitos gerados nos processos decisórios, como aquelas que já foram adotadas no Fórum Europeu (Aguiton e Cardon 2005).

Outros acreditam que a ênfase do Fórum em um espaço aberto não-regulamentado também contribuiu para alguns dos problemas: participação desigual, atividades improdutivas e processos decisórios antidemocráticos. Em Porto Alegre, discussões não-regulamentadas em oficinas e deliberações muitas vezes permitiram que os participantes mais poderosos dominassem - conferencistas, especialistas de ONGs, homens, vozes mais altas ou autoconfiantes. A questão permanece em aberto: como atingir igualdade, democracia e educação através do Fórum Social Mundial?

Existem quatro correntes principais no FSM. A primeira propõe a reforma da Organização das Nações Unidas a fim de transformá-la em um órgão verdadeiramente representativo, com poder efetivo; a segunda é a favor da criação de um parlamento internacional (ou até mesmo mundial); a terceira defende a transformação do FSM em uma assembleia representativa dos movimentos sociais, com estrutura federativa e delegados habilitados a tomar decisões e planejar uma estratégia comum para a luta global. O quarto grupo prefere investir na organização e no fortalecimento das redes informais de movimentos e militantes surgidas nos últimos anos; eles acreditam que as redes são instrumentos poderosos para mudar o mundo já que elas "antecipam" as características do mundo novo que queremos construir: elas são decentralizadas, democráticas, livres de coerção e radicalmente não-hierarquizadas. Nos últimos anos houve um debate entre essas correntes - sobretudo entre as duas últimas - no que tange aos objetivos do FSM (meios contra fins) e às maneiras mais efetivas para atingi-los. Se o FSM for um fim em si mesmo, como advoga a corrente do "espaço aberto", a ênfase consistirá em desenvolver o Fórum como uma rede de longo alcance. Se o objetivo do FSM for o de maximizar as forças sociais alternativas na luta contra o capitalismo, a ênfase será dada à questão de como transformar o Fórum em um movimento social transnacional estruturado. A participação da Igreja será decisiva, na medida em que seguem vivos os debates em torno da via e da forma que os Fóruns devem assumir.

Finalmente, é possível traçar um paralelo com as CEBs dos anos 1980. Da mesma forma que as CEBs tiveram dificuldades para fazer a transição de uma sociedade sob regime autoritário com espaços limitados de expressão política para uma democracia completa, e para encontrar o seu lugar entre partidos políticos, ONGs, movimentos e redes sociais, o FSM está tendo dificuldades para decidir se deve passar para a próxima etapa - e para identificar em que exatamente consiste e quais são as consequências dessa próxima etapa.

A título de conclusão, é preciso reiterar que, enquanto o FSM for um espaço que agrupe organizações de esquerda em torno da transformação social, a Igreja Católica Progressista continuará a dele participar e a nele investir. No entanto, na medida em que o Fórum se transformar em um processo verdadeiramente global, a Igreja terá de dividir espaço com outras práticas e tradições tanto do Norte quanto do Sul, as quais podem ou não coincidir com as da Igreja, e que também impregnarão o Fórum Social Mundial com os seus ideais e tradições.

 

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Notas

1 Não ignoro o fato de que as alas progressistas internacionais da Igreja Católica também estiveram envolvidas no Fórum desde as suas primeiras edições; contudo, este artigo concentrar-se-á na Igreja Progressista brasileira.
2 Levando-se em conta o intervalo de tempo reduzido de que dispus para a elaboração deste artigo, de maneira nenhuma pretendo haver esgotado a literatura sobre o FSM.
3 Em 2001, oito entidades brasileiras escreveram originalmente a Carta de Princípios do FSM, que foi modificada e aprovada pelo Conselho Internacional do Fórum naquele mesmo ano. Entre os grupos que organizaram o primeiro FSM encontram-se a Associação Brasileira de ONGs (ABONG); ATTAC Brasil; Comissão Brasileira de Justiça e Paz (CBJP), vinculada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil; Associação Brasileira de Empresários pela Cidadania (CIVES); Central Única dos Trabalhadores (CUT); Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE); Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e Rede Social de Justiça e Direitos Humanos.
4 Burdick descreve essa contribuição como um "fundo" de ideias que introduziu valores nas interpretações do mundo de pessoas comuns e de militantes... A Igreja forma líderes cuja forma de agir e de pensar traz a marca da sua formação na Igreja Progressista (Burdick 2004:140-141).
5 Bell lembra que Gutierrez distingue dois significados para o termo "político": um sentido mais amplo e abrangente e outro mais específico. O primeiro se refere a um âmbito geral de valores e princípios que têm consequências políticas. O segundo se refere a opções e planos políticos específicos e concretos. A Igreja não pode deixar de ser considerada um ente político indireto, no primeiro sentido do termo; mas, por princípio, não é um ente político no segundo sentido, mais concreto (Bell 2001:61).
6 Por exemplo: articulando os movimentos sociais e emprestando a eles os seus recursos institucionais, participando da educação popular e das questões relacionadas aos direitos humanos, denunciando publicamente as injustiças sociais e as violações aos direitos humanos. Ou, conforme explica Burdick, "os progressistas católicos continuam sendo sólidos construtores de instituições na vida social brasileira" (Burdick 2004:9).
7 Entrevista com Luiz Demétrio Valentini, bispo da diocese de Jales, São Paulo, presidente da Cáritas Brasileira, agência da Igreja Católica que presta ajuda humanitária.
8 Embora a Igreja brasileira tenha laços sólidos com organizações católicas da Europa e da América do Norte, ela não esteve envolvida tão diretamente nos protestos internacionais quanto o estiveram as ONGs brasileiras. Podemos afirmar que o primeiro envolvimento intenso da Igreja brasileira em uma campanha internacional se deu no Jubileu do Ano 2000, trabalhando sobretudo pela proposta de abolição da dívida externa dos países pobres (Jubileu Sul).
9 Essa conferência reuniu representantes de mais de duzentas organizações e movimentos de 54 países (incluindo grandes delegações do Iraque e da Palestina). Como resultado dos trabalhos, produziuse uma declaração oficial condenando categoricamente os ataques "racistas" dos Estados Unidos e de Israel aos países árabes e apoiando de maneira firme os movimentos de resistência iraquianos e palestinos. Graças à conferência, portanto, o "movimento dos movimentos" se aproximou sobremaneira das lutas no Oriente Médio - um passo fundamental para a constituição de uma rede de resistência verdadeiramente global.
10 O Conselho Internacional do FSM também organiza grupos de trabalho que se reúnem principalmente antes e depois de cada edição do Fórum. Outro órgão operacional é o Secretariado do FSM que, entre 2001 e 2003, foi formado pelo Comitê Organizador brasileiro. À medida que o processo de organização se concentrou no Fórum de Mumbai em 2004, o órgão foi rebatizado como Secretariado Internacional do FSM, composto de oito entidades brasileiras e oito indianas. Tal órgão funcionou até abril de 2005. O papel do Secretariado consiste em incentivar e prestar suporte aos fóruns temáticos e regionais, promover as reuniões do Conselho Internacional e dos seus comitês, assegurar o processo de comunicação e a sistematização da memória do FSM e apoiar a arrecadação de recursos para o processo do FSM.
11 Entrevista com José Magalhães de Sousa, diretor da Cáritas Brasileira.
12 O quarto FSM aconteceu em Mumbai, na Índia.
13 No primeiro FSM, a presença da Igreja incluiu o presidente da Conferência dos Religiosos/as do Brasil, bispos como Dom Tomás Balduíno (presidente da Comissão Pastoral da Terra) e Dom Orlando Dotti, além de outros representantes das pastorais sociais da Igreja Católica. A mesa redonda organizada pelo Instituto Brasileiro de Ação Popular reuniu diversos líderes e militantes da Ação Católica. Contudo, a liderança da CNBB e do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC) não teve muita visibilidade (Souza 2001).
14 Em 2002, por exemplo, cerca de trinta bispos católicos estiveram presentes no FSM, incluindo o presidente e o secretário-geral da CNBB. Em 2002 e 2003, a Igreja brasileira organizou painéis sobre a dívida externa, a luta coletiva contra a fome e o diálogo inter-religioso, além de uma tenda ecumênica.
15 Por exemplo: durante o Fórum de 2005, a organização católica Cáritas Brasileira conseguiu mobilizar mais de 400 participantes entre os membros da sua base.
16 Entrevista com frei Marcelo Barros, organizador do Espaço "E", dedicado às celebrações interreligiosas.
17 Entrevista com Leonardo Boff, ex-franciscano que foi um dos fundadores e principais partidários da Teologia da Libertação.
18 Os Fóruns Mundias da Teologia da Libertação de 2005 em Porto Alegre, de 2007 em Nairóbi e de 2009 em Belém demonstram isso.
19 Na obra Legacies of Liberation, Burdick também demonstra "como os indivíduos expostos aos ideais e valores liberacionistas se apropriaram dos mesmos, eventualmente com adaptações, e os aplicaram de diversas maneiras em uma série de campos da ação social" (Burdick 2004:10).
20 Em relação ao conteúdo, podemos presumir que exista uma convergência de ideias em termos das lutas contra o neoliberalismo e as suas consequências políticas, sociais e culturais.
21 Entrevistas com José Magalhães de Sousa, diretor-geral da Cáritas Brasileira e Luis Bassergio, coordenador da Pastoral dos Migrantes e do Grito dos Excluídos. Conversa com Richard Renshaw, ex-diretor-geral da Organização Católica Canadense para o Desenvolvimento e a Paz em 2005 (Whitaker 2006).
22 Entrevista com José Magalhães de Sousa e Roberto Malvezzi, coordenador da Comissão Pastoral da Terra.
23 Entrevista com Leonardo Boff. Isso fica explícito nas palavras do padre canadense Richard Renshaw, ex-missionário e representante de uma entidade católica: "O Fórum Social Mundial é outra expressão da longa luta da Teologia da Libertação em fornecer um espaço onde a voz dos pobres possa ser ouvida, onde ela possa irromper no mundo dos ricos e poderosos, e onde o Reino de Deus, sempre presente e sempre nos desafiando, possa ser saudado no mundo real de hoje".
24 Transformação social a partir de baixo que oferece uma resposta de curto prazo aos problemas das comunidades carentes e que atua na perspectiva de uma mudança de longo prazo. Em Democracy and Development in Latin America, David Lehmann descreve o basismo como uma "ideologia básica do desenvolvimento" e acrescenta que "na versão forte do basismo, as 'pessoas' são vistas como a única fonte legítima de compreensão política, as instituições formais da democracia liberal são consideradas como um tipo de alienação, e as associações de consumo coletivo e autogestão comunitária, por oposição à militância partidária, constituem os principais elementos da mobilização política" (Lehmann 1990:xiii).
25 Isso fica claro na seguinte declaração: "os objetivos do Fórum consistem em permitir que o maior número possível de pessoas, organizações e movimentos contrários ao neoliberalismo se reúnam livremente, escutem uns aos outros, aprendam com as experiências e as lutas dos outros, discutam propostas de ação e se conectem em redes e organizações dedicadas a superar o atual processo de globalização, dominado por grandes corporações e interesses financeiros internacionais" (Whitaker 2004:119).
26 É interessante observar que o Fórum Europeu diferiu dos FSMs organizados em Porto Alegre e em Mumbai no que diz respeito à metodologia e à relação com partidos políticos e governos. Sobre o envolvimento do governo municipal de St-Denis em 2003 e de Londres em 2004, ver Osterweil 2004.
27 Como em 1992 na cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, quando o tema foi "CEB, o povo de Deus renascendo das culturas oprimidas".
28 Para mais informações sobre a mística e sua influência em outros movimentos sociais, ver Burdick (2004:111-114).

 

 

Recebido em fevereiro de 2008
Aprovado em março de 2009

 

 

Charmain Levy (charmain.levy@uqo.ca)
Doutora em Antropologia e Sociologia Política pela Universidade de Paris VIII e Professora de Estudos de Desenvolvimento Internacional da Universidade de Quebec em Outaouais (UQO).