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Trans/Form/Ação

Print version ISSN 0101-3173On-line version ISSN 1980-539X

Trans/Form/Ação vol.27 no.1 Marília  2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-31732004000100008 

O Sonho 

 

 

Henri Bergson

 

 

Conferência feita no Instituto Geral Psicológico em 26 de março de 19011

O Instituto Psicológico me convidou para tratar de um assunto tão complexo, o qual suscita tantos problemas, alguns psicológicos, outros fisiológicos e mesmo metafísicos, assunto que requereria tão longos desenvolvimentos – e temos tão pouco tempo – que peço a permissão para suprimir todo preâmbulo, afastar o acessório e me colocar logo no coração da questão.

Eis, pois, um sonho. Vejo toda espécie de objetos desfilar diante de mim; nenhum deles existe efetivamente. Creio ir e vir, passar por uma série de aventuras, enquanto estou deitado em minha cama, bem tranqüilamente. Escuto-me falar e ouço o que me é respondido; todavia estou só e não digo nada. De onde vem essa ilusão? Por que se percebem pessoas e coisas como se elas estivessem realmente presentes?

Mas, não há absolutamente nada no sonho? Uma certa matéria sensível não é oferecida à vista, ao ouvido, ao tato, etc., no sono como o é na vigília?

 

O PAPEL DAS SENSAÇÕES VISUAIS

Fechemos os olhos e vejamos o que acontece. Muitas pessoas dirão que não acontece nada: é que elas não olham atentamente. Em realidade, percebem-se muitas coisas. Inicialmente um fundo negro. Depois manchas de diversas cores, às vezes pálidas, às vezes de um brilho singular. Essas manchas se dilatam e se contraem, mudam de forma e de nuança, estendem-se umas sobre as outras. A mudança pode ser lenta e gradual. Às vezes acontece com extrema rapidez. De onde vem essa fantasmagoria? Os fisiologistas e os psicólogos têm falado em “poeira luminosa”, em “espectros oculares”, em “fosfenas”. Eles atribuem essas aparências às leves modificações que se produzem sem cessar na circulação retiniana, ou ainda à pressão que a pálpebra fechada exerce sobre o globo ocular, excitando mecanicamente o nervo óptico. Mas pouco importa a explicação do fenômeno e o nome que se lhe dê. Ele se encontra em todo mundo, e fornece, sem nenhuma dúvida, a matéria na qual esculpimos muitos de nossos sonhos.

Alfred Maury e, na mesma época, o marquês d’Hervey de Saint-Denis, já tinham observado que essas manchas coloridas de formas moventes podem se consolidar no momento em que se adormece, desenhando assim os contornos dos objetos que irão compor o sonho. Mas a observação era um tanto suspeita porque provinha de psicólogos semi-adormecidos. Um filósofo americano, G.T. Ladd, professor na Universidade de Yale, imaginou então um método mais rigoroso, mas de uma aplicação difícil, porque exige uma espécie de treinamento. Consiste em manter os olhos fechados quando se desperta, e em reter durante alguns instantes o sonho que vai se desvanecer do campo da visão e logo também, sem dúvida, da memória. Nesse caso, vêem-se os objetos do sonho se dissolverem em fosfenas, e se confundirem com as manchas coloridas que o olho percebia realmente quando as pálpebras estavam fechadas. Lê-se, por exemplo, um jornal: eis o sonho. Desperta-se e do jornal cujas linhas se esfumam resta uma mancha branca com vagos riscos negros: eis a realidade. Ou ainda, no sonho passeamos em alto mar; o oceano desvela, a perder de vista, suas ondas cinzentas coroadas com uma espuma branca. Ao despertar, tudo se perde em uma grande mancha cinza-pálida permeada de pontos brilhantes. A mancha estava aí, os pontos brilhantes também. Havia, pois, oferecida à nossa percepção durante o sono, uma poeira visual, e esta poeira serviu para a fabricação do sonho.

Somente ela serve? Para falar ainda apenas do sentido da visão, digamos que ao lado das sensações visuais cuja fonte é interna existem aquelas que têm uma causa exterior. Ainda que com as pálpebras bem fechadas o olho distingue a luz da sombra e reconhece, até certo ponto, a natureza da luz. As sensações provocadas por uma luz real estão na origem de muitos de nossos sonhos. Uma vela acendida repentinamente fará surgir no sonhador, se seu sono não for muito profundo, um conjunto de visões nas quais dominará a idéia de incêndio. Tissié cita dois exemplos: “B... sonha que o teatro d’Alexandria está em chamas; o fogo ilumina todo um quarteirão. De repente ele se vê transportado para o meio da fonte da Praça dos Cônsules; um corrimão de fogo corre ao longo das correntes que ligam as grossas colunas colocadas em torno da fonte. Depois ele se encontra em Paris na Exposição em chamas..., ele assiste a cenas dilacerantes, etc. Ele desperta em sobressalto. Seus olhos recebiam o feixe de luz projetado pela lanterna silenciosa que a freira que fazia a ronda virava para a sua cama ao passar. __ M... sonha que se alistou na infantaria da marinha onde serviu outrora. Ele vai ao Fort-de-France, a Toulon, a Lorient, à Criméia, a Constantinopla. Ele percebe clarões, ouve o estampido ..., assiste, enfim, a um combate no qual vê o fogo sair das bocas de canhão. Ele acorda em sobressalto. Como B..., ele foi despertado pelo facho de luz lançado pela lanterna silenciosa da freira que fazia a ronda.” Tais são os sonhos que podem ser provocados por uma luz viva e inesperada. 

Muito diferentes são os sonhos sugeridos por uma luz contínua e suave, como a luz da Lua. Krauss conta que uma noite, ao despertar, percebeu que ainda estendia o braço para o que foi, em seu sonho, uma jovem, que agora era apenas a Lua da qual recebia plenamente os raios. Este caso não é o único; parece que os raios da Lua, acariciando os olhos do sonhador, tinham a virtude de assim fazer surgirem aparições virginais. Não seria isso o que exprime a fábula de Endymion – o pastor adormecido para sempre, que a deusa Selena (ou seja, a Lua) ama com um profundo amor?

 

O PAPEL DAS SENSAÇÕES AUDITIVAS

O ouvido tem também suas sensações interiores – zumbido, zunido, assobio – que mal distinguimos durante a vigília e que o sono destaca nitidamente. Continuamos, adormecidos, a ouvir alguns barulhos externos. O estalo de um móvel, o fogo que crepita, a chuva que bate na janela, o vento que lança sua gama cromática na chaminé, tantos sons ainda que tocam o ouvido e que o sonho converte em conversa, grito, concerto, etc. Esfregam-se as tesouras contra as pinças nos ouvidos de Alfred Maury enquanto ele dorme: ele sonha imediatamente que ouve o sino tocar e que assiste aos acontecimentos de junho de 1848. Eu poderia citar outros exemplos. Mas seria preciso que os sons tivessem tanto espaço quanto as formas e as cores na maior parte dos sonhos. As sensações visuais predominam; freqüentemente apenas vemos enquanto acreditamos também ouvir. Acontece-nos, segundo a observação de Max Simon, manter em sonho toda uma conversação e nos darmos conta, de repente, que ninguém fala, que ninguém falou. Era uma troca direta de pensamentos, uma conversa silenciosa entre o nosso interlocutor e nós. Fenômeno estranho e, todavia, fácil de explicar. Para que ouçamos os sons em sonho, é preciso geralmente que haja barulhos reais percebidos. Com nada o sonho não faz nada; e onde não lhe fornecemos uma matéria sonora, ele tem dificuldade de fabricar a sonoridade.

 

O PAPEL DAS SENSAÇÕES TÁTEIS

O tato intervém tanto quanto o ouvido. Um contato, uma pressão também chegam à consciência enquanto se dorme. Impregnando com sua influência as imagens que ocupam em um dado momento o campo visual, a sensação tátil poderá modificar sua forma e significação. Suponhamos que o sonhador sinta, de repente, o contato do corpo com a camisa; ele se lembrará que está levemente vestido. Se acredita estar passeando na rua, é neste aparato muito simples que se oferecerá aos olhos dos transeuntes. Aliás, estes não ficarão chocados, porque é raro que as excentricidades às quais nos entregamos em sonho pareçam comover os espectadores, por mais confusos que nós próprios possamos estar com elas. Acabei de citar um sonho bem conhecido. Eis um outro, que muitos de vocês já devem ter sonhado. Ele consiste em voar, planar, atravessar o espaço sem tocar a terra. Em geral, quando ocorre uma vez, tende a se reproduzir, e a cada nova experiência se diz: “Tenho freqüentemente sonhado que estou voando sob o Sol, mas dessa vez estou bem desperto. Sei agora, e vou mostrar aos outros, que é possível subtrair-se das leis da gravidade.” Se vocês despertarem bruscamente, eis o que creio que encontrarão: como vocês estariam deitados, sentiriam que seus pés perderam os pontos de apoio; por outro lado, acreditando não dormir, vocês não teriam consciência de estar deitados, diriam a si mesmos que não tocavam mais a terra, ainda que estivessem em pé. É esta convicção que o sonho de vocês desenvolveu. Observem, no caso em que vocês se sentem voando, que acreditam lançar seu corpo sobre o lado à direita ou à esquerda, elevando-o com um movimento brusco do braço que seria como um golpe de braço. Ora, este lado é justamente aquele sobre o qual vocês estão deitados. Despertem e verão que a sensação de esforço para voar é apenas a sensação de pressão do braço e do corpo contra a cama. Esta, destacada de sua causa, não era mais que uma vaga sensação de fadiga, atribuível a um esforço. Ligada então à convicção de que seu corpo tinha deixado o solo, ela é resolvida em sensação precisa de esforço para voar.

É interessante ver como as sensações de pressão, remontando ao campo visual e aproveitando a poeira luminosa que o ocupa, podem se transpor em formas e cores. Max Simon sonhou um dia que estava diante de duas pilhas de peças de ouro, que essas pilhas eram desiguais e que ele procurava igualá-las mas não o conseguia. Experimentava um vivo sentimento de angústia. Esse sentimento, aumentando a cada instante, acabou por despertá-lo. Percebeu então que uma de suas pernas estava presa pelas dobras da coberta, que seus dois pés não estavam no mesmo nível e procuravam em vão se aproximar um do outro. Tinha evidentemente surgido daí uma vaga sensação de desigualdade, a qual, irrompendo no campo visual e nele encontrando talvez (é a hipótese que proponho) uma ou várias manchas amarelas, se exprimia visualmente pela desigualdade de duas pilhas de peças de ouro. Há, pois, imanente às sensações táteis que ocorrem durante o sono, uma tendência a se visualizar, e a se inserir sob esta forma no sonho.

Mais importante ainda são as sensações do “tato interior” emanando de todos os pontos do organismo, e mais particularmente, das vísceras. O sono pode lhes dar, ou antes, lhes devolver uma finura e uma acuidade singulares. Sem dúvida elas estavam aí durante a vigília, mas estávamos distraídos pela ação, vivíamos exteriormente a nós mesmos: o sono nos fez reentrar em nós. Acontece de as pessoas sujeitas às laringites, às amidalites, etc., se sentirem retomadas por sua afecção no meio de um sonho e experimentarem picadas desagradáveis no lado da garganta. Simples ilusão, dizem ao despertar. Ai de mim! A ilusão torna-se rapidamente realidade. Citam-se as doenças e os acidentes graves, ataques de epilepsia, afecções cardíacas, etc., que têm sido previstos e profetizados em sonho. Não nos espantemos pois se filósofos como Schopenhauer querem que o sonho traduza à consciência os estímulos vindos do sistema nervoso simpático, se psicólogos como Scherner atribuem a cada órgão o poder de provocar sonhos específicos que o representariam simbolicamente e, enfim, se médicos como Artigues escreveram tratados sobre “o valor semiológico” do sonho, sobre a maneira de fazê-lo servir ao diagnóstico das doenças. Mais recentemente, Tissié mostrou como as perturbações da digestão, da respiração, da circulação se traduzem por espécies determinadas de sonhos.

Resumamos o que precede. No sono natural nossos sentidos não estão de modo algum fechados às impressões exteriores. Sem dúvida eles não têm mais a mesma precisão, mas, em compensação, reencontram muitas impressões “subjetivas” que passaram despercebidas durante a vigília, quando nos movíamos em um mundo exterior comum a todos os homens, e que reaparecem no sono, porque aí vivemos somente para nós mesmos. Não se pode nem mesmo dizer que a nossa percepção se estreita quando dormimos; antes, ela amplia, em certas direções pelo menos, seu campo de operação. É verdade que ela perde em tensão o que ganha em extensão. Ela traz quase somente o difuso e o confuso. Isto não significa que fabriquemos o sonho com menos  sensação real.

Como o fabricamos? As sensações que nos servem de matéria são vagas e indeterminadas. Consideremos aquelas que figuram no primeiro plano, as manchas coloridas que evoluem diante de nós quando estamos com as pálpebras fechadas. Eis linhas negras sobre um fundo branco. Elas poderão representar um tapete, um tabuleiro de xadrez, uma página escrita e, ainda, uma multidão de outras coisas. Quem escolherá? Qual é a forma que imprimirá sua decisão à indecisão da matéria? Esta forma é a lembrança.

 

O SONHO É CRIADOR?

Observemos, inicialmente, que em geral o sonho não cria nada. Sem dúvida citam-se alguns exemplos de trabalho artístico, literário ou científico executado no decorrer de um sonho. Relembrarei apenas o mais conhecido de todos. Um músico do século XVIII, Tartini, obstinava-se em uma composição, mas a musa mostrava-se rebelde. Ele adormeceu e eis que o diabo em pessoa apareceu, se apoderou do violino e tocou a sonata desejada. Ao despertar, Tartini escreveu esta sonata de memória e deu a ela o nome de Sonata do Diabo. No entanto, não podemos concluir nada a partir de uma narrativa tão sumária. Seria preciso saber se Tartini terminou a sonata enquanto procurava lembrar-se dela. A imaginação do sonhador ao despertar faz acréscimos ao sonho, modifica-o retroativamente, tapando os buracos que podem ser consideráveis. Tenho procurado observações mais aprofundadas e, sobretudo, de uma autenticidade mais segura. A única que encontrei é a do romancista inglês Stevenson. Em um curioso ensaio intitulado A chapter on dreams, Stevenson nos informa que seus contos mais originais foram compostos ou pelo menos esboçados em sonho. Mas se vocês lerem atentamente o capítulo, verão que o autor vivenciou, durante uma certa parte de sua vida, um estado psicológico no qual lhe era difícil saber se dormia ou se estava desperto. Creio, em efeito, que quando o espírito cria, quando faz o esforço que a composição de uma obra ou a solução de um problema exige, ele não está dormindo; pelo menos a parte do espírito que trabalha não é a mesma que a que sonha; aquela prossegue, no subconsciente, uma pesquisa que não influencia o sonho e que só se manifesta ao despertar. Quanto ao próprio sonho, ele é apenas uma ressurreição do passado. Mas de um passado que podemos não reconhecer. Freqüentemente trata-se de um detalhe esquecido, de uma lembrança que parecia abolida e que em realidade se dissimulava nas profundezas da memória. Freqüentemente, também, a imagem evocada é a de um objeto ou de um fato percebido distraidamente, quase inconscientemente, durante a vigília. Sobretudo, há fragmentos de lembranças soltas que a memória reúne aqui e ali, e que apresenta de uma forma incoerente à consciência do sonhador. Diante dessa reunião desprovida de sentido, a inteligência (que continua a raciocinar, independentemente do que se diga a seu respeito) procura uma significação; ela atribui a incoerência às lacunas que ela preenche evocando outras lembranças, as quais, apresentam-se freqüentemente na mesma desordem, clamando, por sua vez, por uma nova explicação, e assim indefinidamente. Mas não insistirei nisto no momento. Basta-me dizer, para responder à questão apresentada anteriormente, que o poder enformador dos materiais transmitidos pelos órgãos dos sentidos, o poder que converte em objetos precisos e determinados as vagas impressões provenientes do olho, do ouvido, de toda a superfície e de todo o interior do corpo, é a lembrança.

 

PAPEL DA MEMÓRIA   

A lembrança! No estado de vigília, temos lembranças que aparecem e desaparecem, reclamando nossa atenção sucessivamente. Mas estas são lembranças que se ligam estreitamente à nossa situação e à nossa ação. Lembro-me neste momento do livro do marquês de Hervey sobre os sonhos. É porque trato da questão do sonho e estou no Instituto Psicológico. Meu ambiente e minha ocupação, o que percebo e o que sou chamado a fazer orientam em uma direção particular a atividade de minha memória. As lembranças que evocamos durante a vigília, por mais estranhas que freqüentemente pareçam às nossas preocupações do momento, sempre se ligam a elas por algum aspecto. Qual é o papel da memória no animal? É o de lhe lembrar, em cada circunstância, as conseqüências vantajosas ou prejudiciais que se seguiram aos antecedentes análogos, e de lhe ensinar, assim, o que deve fazer. No homem, a memória é menos prisioneira da ação, reconheço-o, mas ela ainda lhe adere: nossas lembranças, em um dado momento, formam um todo solidário, uma pirâmide, se quiserem, cujo cume incessantemente movente coincide com nosso presente e penetra o futuro. Mas atrás das lembranças que vêm assim colocar-se sobre nossa ocupação presente e se revelar por meio dela, existem outras, milhares e milhares de outras, por baixo, sob a cena iluminada pela consciência. Sim, creio que nossa vida passada está aí, conservada até em seus mínimos detalhes, que não esquecemos nada, e que tudo o que percebemos, pensamos e quisemos desde o primeiro despertar de nossa consciência, persiste indefinidamente. Mas as lembranças que minha memória conserva em suas mais obscuras profundezas nela estão no estado de fantasmas invisíveis. Elas talvez aspirem à luz; todavia não tentam voltar à tona; elas sabem que é impossível, e que eu, ser vivente e agente, tenho mais o que fazer do que me ocupar com elas. Mas suponham que em um dado momento eu me desinteresse da situação presente, da ação urgente, enfim, do que concentrava sobre um único ponto todas as atividades da memória. Suponham, em outros termos, que eu adormeça. Então, essas lembranças imóveis, sentindo que acabo de afastar o obstáculo, de abrir o alçapão que as mantinha no subsolo da consciência, colocam-se em movimento. Elas se levantam, agem, executam na noite do inconsciente uma imensa dança macabra. E, todas em conjunto, correm para a porta que acaba de se entreabrir. Todas elas querem passar. Elas não podem, elas são muitas. Desta multidão de chamadas, quais serão as escolhidas? Vocês adivinharão sem dificuldade.  Há pouco, em vigília, as lembranças admitidas eram as que podiam invocar relações de parentesco com a situação presente, com as minhas percepções atuais. Agora, são as formas mais vagas que se desenham a meus olhos, os sons mais indecisos que impressionam meus ouvidos, é um toque mais indistinto que está espalhado pela superfície de meu corpo; mas são também as sensações mais numerosas que me vêm do interior de meus órgãos. Entre as lembranças-fantasmas que aspiram a se carregar de cor, de sonoridade, enfim, de materialidade, só serão bem sucedidas aquelas que puderem assimilar-se à poeira colorida que percebo, aos barulhos de fora e de dentro que ouço, etc., e que, além do mais, se harmonizarem com o estado afetivo geral que minhas impressões orgânicas compõem. Quando esta junção entre a lembrança e a sensação se operar, eu terei um sonho.

 

CORPO E ALMA DO SONHO

Em uma página poética da Eneida, o filósofo Plotino, intérprete e continuador de Platão, nos explica como os homens nascem para a vida. A natureza, diz ele, esboça os corpos vivos, mas somente os esboça. Ela não iria até o fim apenas com as suas próprias forças. Por outro lado, as almas habitam o mundo das Idéias. Incapazes de agir e, aliás, nem pensam nisso, elas planam acima do tempo, fora do espaço. Mas, entre os corpos, há aqueles que respondem mais, por sua forma, às aspirações de tais ou quais almas. E entre as almas, há aquelas que se reconhecem mais em tais ou quais corpos. O corpo, que não sai totalmente viável das mãos da natureza, se eleva para a alma que lhe daria a vida completa. E a alma, olhando o corpo onde acredita perceber o reflexo de si mesma, fascinada como se fitasse um espelho, se deixa atrair, se inclina e cai. Sua queda é o começo da vida. Comparo, a essas almas desprendidas, as lembranças que estão à espera no fundo do inconsciente, do mesmo modo que nossas sensações noturnas assemelham-se a esses corpos apenas esboçados. A sensação é quente, colorida, vibrante e quase viva, mas indecisa. A lembrança é nítida e precisa, mas sem interior e sem vida. A sensação quer encontrar uma forma sobre a qual fixar a indecisão de seus contornos. A lembrança quer obter uma matéria para se preencher, se carregar, enfim, se atualizar. Elas se atraem mutuamente, e a lembrança-fantasma, materializando-se na sensação que lhe traz o sangue e a carne, torna-se um ser que viverá uma vida própria, um sonho.

O nascimento do sonho não tem, pois, nada de misterioso. Nossos sonhos se elaboram mais ou menos como nossa visão do mundo real. O mecanismo de operação é o mesmo em suas grandes linhas. O que vemos de um objeto colocado sob nossos olhos, o que ouvimos de uma frase pronunciada ao nosso ouvido, é pouca coisa, em efeito, ao lado do que nossa memória aí acrescenta. Quando folheiam um jornal ou um livro, vocês acreditam perceber efetivamente cada letra de cada palavra, ou mesmo cada palavra de cada frase? Não leriam, então, muitas páginas de seu jornal. A verdade é que vocês percebem da palavra, e mesmo da frase, somente algumas letras ou alguns traços característicos, apenas o que é preciso para adivinhar o restante: todo o resto vocês figuram o ver, em realidade o alucinam. Experiências numerosas e concordantes não deixam nenhuma dúvida a esse respeito. Citarei apenas as de Goldscheider e Mueller. Esses experimentadores escrevem ou imprimem fórmulas de uso corrente: “Entrada estritamente proibida”, “Prefácio à quarta edição”, etc.; mas eles têm o cuidado de cometer erros, trocando e sobretudo omitindo letras. A pessoa que deve servir de sujeito da experiência é colocada diante dessas fórmulas, na escuridão, e naturalmente ignorando o que foi escrito. Então a inscrição é iluminada durante um tempo muito curto, muito curto para que o observador possa perceber todas as letras. Começou-se, em efeito, por determinar experimentalmente o tempo necessário para a visão de uma letra do alfabeto; é pois fácil fazer de tal modo que o sujeito não possa distinguir mais de oito ou dez letras, por exemplo, das trinta ou quarenta que compõem a fórmula. Ora, o mais freqüentemente, ele lê esta fórmula sem dificuldade. Mas este não é o ponto mais instrutivo dessa experiência.

 

MECANISMO DA PERCEPÇÃO NORMAL

Se se pergunta ao observador quais são as letras que ele está certo de ter percebido, ele pode designar letras que estão realmente presentes, mas indicará também letras ausentes, as quais foram trocadas por outras ou simplesmente omitidas. Assim, porque o sentido parecia exigir, ele viu destacarem-se em plena luz letras inexistentes. Os caracteres realmente percebidos serviram, pois, para evocar uma lembrança. A memória inconsciente, reencontrando a fórmula à qual eles davam um começo de realização, projetou essa lembrança para fora sob uma forma alucinatória. É essa lembrança que o observador viu, tanto e mais que a própria inscrição. Em suma, a leitura corrente é um trabalho de adivinhação, mas não de adivinhação abstrata: é uma exteriorização de lembranças, de percepções simplesmente rememoradas e, conseqüentemente, irreais, as quais aproveitam-se da realização parcial que encontram aqui e ali para se realizar integralmente.

Assim, no estado de vigília, o conhecimento que tomamos de um objeto implica uma operação análoga à que ocorre no sonho. Percebemos da coisa apenas o seu esboço; este lança um apelo à lembrança completa da coisa; e a lembrança completa, da qual nosso espírito não tinha consciência, que permanecia interior como um simples pensamento, aproveita a ocasião para se lançar para fora. É esta espécie de alucinação, inserida em um quadro real, que nos damos quando vemos a coisa. Haveria, aliás, muito a dizer sobre a atitude e a conduta da lembrança no curso desta operação. Não é preciso acreditar que as lembranças alojadas no fundo da memória aí permaneçam inertes e indiferentes. Elas estão à espera, elas são quase atentas. Quando, com o espírito mais ou menos preocupado, abrimos nosso jornal, não nos acontece de cair imediatamente sobre uma palavra que responde justamente à nossa preocupação? Mas a frase não tem sentido, e percebemos bem rapidamente que a palavra lida por nós não era a palavra impressa: havia simplesmente entre elas alguns traços comuns, uma vaga semelhança de configuração. A idéia que nos absorvia deve ter dado o alerta, no inconsciente, a todas as imagens da mesma família, a todas as lembranças de palavras correspondentes, fazendo com que elas esperassem, de alguma maneira, um retorno à consciência. Torna-se efetivamente consciente aquela que a percepção atual de uma certa forma de palavra começou a atualizar.

Tal é o mecanismo da percepção propriamente dita, tal é o mecanismo do sonho. Nos dois casos há, de um lado, impressões reais produzidas nos órgãos dos sentidos e, de outro,  lembranças que vêm se inserir na impressão e aproveitar sua vitalidade para voltar à vida.  

 

MECANISMO DO SONHO

Mas, onde está a diferença entre perceber e sonhar? O que é dormir? Não estou perguntando, bem se entenda, quais são as condições fisiológicas do sono. Esta é uma questão para ser debatida entre os fisiologistas e ela está longe de ser resolvida. Pergunto como devemos representar o estado de alma do homem que dorme, afinal, o espírito continua a trabalhar durante o sono. Ele atua – acabamos de ver – sobre as sensações, sobre as lembranças e, quer esteja dormindo, quer esteja acordado, ele combina a sensação com a lembrança que ela evoca. O mecanismo de operação parece ser o mesmo nos dois casos. Todavia temos de um lado a percepção normal e de outro o sonho. O mecanismo não funciona, pois, da mesma maneira nos dois casos. Onde está a diferença? E qual é a característica psicológica do sono?

Não confiemos muito nas teorias. Tem-se dito que dormir consiste em se isolar do mundo exterior. Mas mostramos que o sono não fecha nossos sentidos às impressões externas, que ele empresta delas os materiais da maior parte dos sonhos. Tem-se visto ainda no sono um repouso dado às funções superiores do pensamento, uma suspensão do raciocínio. Não creio que isso seja mais exato. No sonho, nos tornamos freqüentemente indiferentes à lógica, mas não incapazes de lógica. Eu quase diria, correndo o risco de beirar o paradoxo, que o erro do sonhador é antes o de raciocinar muito. Ele evitaria o absurdo se assistisse, como simples espectador, ao desfile de suas visões. Mas quando quer a toda força explicá-las, sua lógica, destinada a ligar entre si as imagens incoerentes, pode apenas parodiar a da razão e beirar o absurdo. Reconheço, aliás, que as funções superiores da inteligência relaxam-se durante o sono, e que, mesmo que não seja encorajada pelo jogo incoerente das imagens, a faculdade de raciocinar se distrai por vezes imitando o raciocínio normal. Mas se diria o mesmo de todas as outras faculdades. Não é, pois, pela abolição do raciocínio, não mais que pelo fechamento dos sentidos, que caracterizaremos o estado de sonho. Deixemos de lado as teorias e tomemos contato com o fato.

É preciso realizar uma experiência decisiva consigo mesmo. Ao sair do sonho – visto que pouco pode se analisar no curso do próprio sonho – se observará a passagem do sonho à vigília, se a cercará  de tão perto quanto puder: atento ao que é essencialmente desatenção, surpreender-se-á, do ponto de vista da vigília, o estado de alma, ainda presente, do homem que dorme. É difícil, mas não é impossível para quem se exercitou nisso pacientemente. Permitam aqui ao conferencista contar um de seus sonhos, e o que ele acreditou  constatar ao despertar.

O sonhador acredita estar na tribuna, discursando para uma assembléia. Um murmúrio confuso eleva-se do fundo do auditório. Ele se acentua, torna-se estrondoso, uivante, alarido, espantoso. Enfim ressoam de todas as partes, escandidos sobre um ritmo regular, os gritos “Fora! Fora!” Desperta bruscamente neste momento. Um cão latia no jardim vizinho, e com cada um dos “Au, au” do cão se confundia um dos gritos “Fora!”. Eis o instante a ser apreendido. O eu da vigília, que acaba de aparecer, vai se voltar para o eu do sonho, que ainda está aí, e lhe dizer: “Eu lhe pego em flagrante delito. Você me mostra uma assembléia que grita, e há simplesmente um cão que late. Não tente fugir; eu tenho você; entregue-me seu segredo, você vai me deixar ver o que fazia.” A que o eu dos sonhos responderá: “Veja: Eu não fazia nada, e é justamente isso o que nos difere, você e eu, um do outro. Você imagina que para ouvir um cão latir, e para compreender que é um cão que late, não tem que fazer nada? Erro profundo! Você faz, não duvide disso, um esforço considerável. É preciso que você tome toda a sua memória, toda a sua experiência acumulada, e que a leve por um estreitamento súbito, a apresentar ao seu ouvido apenas um desses pontos, a lembrança que parece mais com essa sensação e que melhor pode interpretá-la: a sensação é então recoberta pela lembrança. É preciso aliás que você obtenha a aderência perfeita, que não haja o mais leve afastamento entre elas (senão, você estaria precisamente no sonho); você só pode assegurar esse ajustamento por uma atenção, ou antes, por uma tensão simultânea da sensação e da memória: assim faz o alfaiate quando experimenta em você uma vestimenta que está apenas “alinhavada”; ele ajusta com alfinetes tanto quanto ele pode o tecido sobre seu corpo. Sua vida, no estado de vigília, é pois uma vida de trabalho, mesmo quando você acredita nada fazer, porque a todo momento você tem que escolher, e a todo momento excluir. Você escolhe entre suas sensações, visto que rejeita de sua consciência milhares de sensações “subjetivas” que reaparecem logo que você adormece. Você escolhe, com uma precisão e uma delicadeza extremas, entre as suas lembranças, visto que afasta toda lembrança que não se molda sobre o seu estado presente. Essa escolha que você efetua sem cessar, essa adaptação continuamente renovada, é a condição essencial do que se chama o bom senso. Mas adaptação e escolha o mantêm em um estado de tensão ininterrupta. Você não se dá conta dela no momento, do mesmo modo que não sente a pressão da atmosfera. Mas se cansa com o tempo. Ter bom senso é muito fatigante. Ora, eu lhe dizia há pouco: eu difiro de você justamente por não fazer nada. Eu me abstenho pura e simplesmente de fazer o esforço sem trégua que você faz. Você se liga à vida; eu estou desligado dela. Tudo me é indiferente. Nada me interessa. Dormir é se desinteressar.2 Dorme-se na exata medida em que se desinteressa. Uma mãe que dorme ao lado de seu filho poderá não ouvir os trovões, enquanto um suspiro da criança a despertará. Dormia ela realmente para sua criança? Nós não dormimos para o que continua a nos interessar. “Você me pergunta o que faço enquanto sonho. Vou lhe dizer o que você faz quando acorda. Você me toma – eu, o eu dos sonhos, eu, a totalidade de seu passado – e me leva, de contração em contração, a me encerrar no círculo muito pequeno que você traça em torno de sua ação presente. Isto é estar desperto, é viver a vida psicológica normal, é lutar, é querer. Quanto ao sonho, você tem necessidade que eu lhe explique? É o estado em que você se encontra naturalmente desde que se abandone, desde que negligencie a concentração sobre um único ponto, desde que cesse de querer. Se você insiste, se exige que lhe explique alguma coisa, pergunte como a sua vontade faz, a cada momento da vigília, para obter instantaneamente e quase inconscientemente a concentração de tudo o você traz consigo sobre o ponto que lhe interessa. Mas dirija-se então à psicologia da vigília. Ela tem por principal função lhe responder, porque estar desperto e querer são uma só e mesma coisa.”

Eis o que diria o eu dos sonhos. E ele nos contaria muitas outras coisas se o deixássemos. Mas é tempo de concluir. Onde está a diferença essencial entre o sonho e a vigília. Resumiremos dizendo que as mesmas faculdades se exercem, seja em vigília seja em sonho, mas elas estão tensas em um caso e relaxadas no outro. O sonho é a vida mental inteira, menos o esforço de concentração. Ainda percebemos, ainda lembramos, ainda raciocinamos: percepções, lembranças e raciocínios podem abundar no sonhador, porque abundância, no domínio do espírito, não significa esforço. O que exige esforço é a precisão  do ajuste. Para que um latido de cão acione em nossa memória, en passant, a lembrança de um ruído de assembléia, não temos que fazer nada. Mas para que ele encontre, de preferência a todas as outras lembranças, a lembrança de um latido de cão, e para que ela possa desde então ser interpretada, isto é, efetivamente percebida como um latido, é preciso um esforço positivo. O sonhador não tem mais força para fazê-lo. Por aí, e por aí somente, é que ele se distingue do homem desperto.

Tal é a diferença. Ela se exprime sob muitas formas. Não entrarei nos detalhes; limitar-me-ei a chamar a atenção de vocês para dois ou três pontos: a instabilidade do sonho, a rapidez com a qual ele pode se desenrolar, a preferência que ele dá às lembranças insignificantes.

 

INSTABILIDADE DOS SONHOS

A instabilidade se explica facilmente. Como o sonho tem por essência o não-ajustamento exato entre a sensação e a lembrança, contra a mesma sensação se aplicarão lembranças muito diversas. Eis, por exemplo, no campo da visão, uma mancha verde salpicada de pontos brancos. Ela poderá materializar a lembrança de um canteiro com flores, a de um bilhar com suas bolas e muitas outras ainda. Todas querem reviver na sensação, todas correm à sua solicitação. Algumas vezes elas a atingem uma após a outra: o canteiro torna-se bilhar e assistimos a transformações extraordinárias. Outras se reúnem simultaneamente: então o terreno é bilhar – absurdo que o sonhador talvez procure eliminar por um raciocínio que mais o agravará.

 

RAPIDEZ DE ALGUNS SONHOS

A rapidez de alguns sonhos parece ser um outro efeito da mesma causa. Em alguns segundos, o sonho pode nos apresentar uma série de acontecimentos que ocupariam dias inteiros durante a vigília. Vocês conhecem a observação de Alfred Maury:3 ela permanece clássica e, o que quer que se tenha dito a seu respeito nesses últimos tempos, a considero verossímil, porque tenho encontrado narrativas análogas na literatura do sonho. Mas esta precipitação das imagens não tem nada de misterioso. Observe que as imagens do sonho são sobretudo visuais; as conversas que o sonhador acredita ter ouvido são a maior parte do tempo reconstituídas, completadas, ampliadas ao despertar: talvez mesmo, em certos casos, fosse apenas o pensamento da conversação, sua significação global, que acompanhava as imagens. Ora, uma multidão tão grande quanto se queira de imagens visuais pode ser dada de uma só vez, de forma panorâmica, e com mais forte razão isso acontecerá na sucessão de um pequeno número de instantes. Não é pois espantoso que o sonho reúna em alguns segundos o que se estenderia por vários dias de vigília: ele vê em resumo; ele procede, em definitivo, como faz a memória. No estado de vigília, a lembrança visual que nos serve para interpretar a sensação visual é obrigada a se colocar exatamente sobre ela; ela segue pois seu desenrolar, ela ocupa o mesmo tempo; em suma, o reconhecimento perceptivo dos eventos exteriores dura exatamente tanto quanto eles. Mas, no sonho, a lembrança interpretativa da sensação visual reconquista sua liberdade; a fluidez da sensação visual faz com que a lembrança não adira a ela; o ritmo da memória interpretativa não tem mais que adotar o da realidade; e as imagens podem desde então se precipitar, se lhes agradar, com uma rapidez vertiginosa, como fariam as de um filme cinematográfico se o seu desenrolar não fosse regulado. Precipitação, assim como abundância, não é sinal de força no domínio do espírito: é a regulagem, é sempre a precisão do ajustamento que reclama um esforço. Que a memória interpretativa se tencione, que ela preste atenção à vida, que ela saia, enfim, do sonho: os eventos de fora escandirão sua marcha e diminuirão seu andar – como, em um relógio, o balancim recorta em partes e distribui em uma duração de vários dias a distensão da mola que seria quase instantânea se ela estivesse livre.

 

RETORNO DAS LEMBRANÇAS FUGIDIAS

Restaria saber porque o sonho prefere tal ou qual lembrança a outras, igualmente capazes de se colocarem sobre as sensações atuais. As fantasias do sonho não são mais explicáveis que as da vigília; pelo menos pode-se assinalar a sua tendência mais marcante. No sono normal, nossos sonhos reproduzem, de preferência, os pensamentos que passaram como raios ou os objetos que percebemos sem fixar a nossa atenção sobre eles. Se sonhamos, à noite, com os acontecimentos do dia, são os incidentes insignificantes, e não os fatos importantes, que têm mais chances de reaparecer. Estou totalmente de acordo com o modo de ver de Delage, de W. Robert e de Freud neste ponto.4 Estou na rua; espero o bonde; ele não poderia bater em mim visto que estou na calçada: se, no momento em que ele me roça, a idéia de um perigo possível atravessa o meu espírito – que digo eu? Se meu corpo recua instintivamente sem que eu tenha mesmo consciência de ter medo, eu poderia sonhar, na noite seguinte, que o bonde me esmaga. Durante o dia sou um doente cujo estado é desesperador. Se um vislumbre de esperança se acender em mim por um instante – luz fugidia, quase despercebida – meu sonho da noite poderá mostrar-me curado; em meu sonho estarei curado, não sonharei que estou morto ou doente. Em suma, o que reaparece é de preferência o que foi menos observado. Nada de espantoso nisso. O eu que sonha é um eu distraído, que se distende. As lembranças que se harmonizam melhor com ele são as lembranças de distração, as que não trazem a marca do esforço.

Tais são as observações que eu queria apresentar a respeito dos sonhos. Elas são muito incompletas. Aplicam-se apenas aos sonhos que conhecemos hoje, àqueles que lembramos e que pertencem ao sono leve. Quando se dorme profundamente, têm-se talvez sonhos de uma outra natureza, mas não resta grande coisa deles ao despertar. Inclino-me a crer – mais por razões teóricas e por conseqüência hipotéticas – que temos nesse caso uma visão muito mais extensa e mais detalhada de nosso passado. A psicologia deverá dirigir seu esforço sobre o sono profundo, não somente para nele estudar a estrutura e o funcionamento da memória inconsciente, mas ainda para investigar os fenômenos mais misteriosos que surgem da “pesquisa psíquica”. Não me aventurarei neste terreno; não posso entretanto me impedir de atribuir alguma importância às observações recolhidas com um tão infatigável zelo pela Society for Psychical Research. Explorar o inconsciente, trabalhar no subsolo do espírito com os métodos especialmente apropriados, tal será a tarefa principal da psicologia no século que se abre. Não duvido que belas descobertas estão reservadas, tão importantes talvez quanto foram, nos séculos precedentes, aquelas das ciências físicas e naturais. É pelo menos o que espero e desejo para ela ao terminar.

 

 

1 Tradução feita pelo professor-assistente doutor Jonas Gonçalves Coelho, professor de Filosofia no Departamento de Ciências Humanas da UNESP de Bauru.
Nota do tradutor: A divisão do texto em partes, com títulos respectivos, segue em geral a edição de 1993 da PUF do livro de Bergson L’énergie spirituelle. A diferença é que nessa edição os títulos não aparecem no meio do texto, mas no cabeçalho da página à direita.
Nessa conferência, Bergson desenvolve dois temas fundamentais de uma de suas mais importantes obras filosóficas, publicada quatro anos antes, Matéria e memória. Primeiramente, trata da relação entre percepção e memória, procurando destacar a íntima relação entre essas duas “operações elementares do espírito” tanto na vigília quanto no sonho, com ênfase especial no papel desempenhado pela memória. A seguir, Bergson trata da noção de tensão psicológica, intimamente relacionada à noção de vontade, a partir da qual estabelece a diferença fundamental entre o sonho e a vigília. A relevância desses dois temas deve ser considerada ao relembrarmos que para Bergson a memória e a vontade são os dois componentes fundamentais da personalidade humana, e que o filósofo define o espírito ora como memória ora como vontade.
2 A idéia que apresentamos aqui avançou desde que a propusemos nesta conferência. A concepção do sono-desinteressante foi introduzida na psicologia; foi criada, para designar o estado geral da consciência no sono, a palavra “desinteresse”. Sobre esta concepção, M. Claparède propôs uma teoria muito interessante, que vê no sono um meio de defesa do organismo, um verdadeiro instinto.
3 “Eu me encontrava deitado em meu quarto, tendo minha mãe à cabeceira. Sonho com o Terror; assisto a cenas de massacre, compareço diante do tribunal revolucionário, vejo Robespierre, Marat, Fouquier-Tinville...; discuto com eles; sou julgado, condenado à morte, conduzido em carroça na praça da Revolução; subo o cadafalso; o executor me amarra na prancha fatal, a balança, o cutelo cai; sinto minha cabeça se separar de meu tronco, acordo atormentado pela mais viva angústia, e sinto sobre o pescoço a flecha de minha cama que se soltou subitamente, e caiu sobre minhas vértebras cervicais, como uma navalha de guilhotina. Isso aconteceu no mesmo instante,  como minha mãe o confirma, e entretanto era esta sensação externa que eu tinha tomado como ponto de partida de um sonho onde tantos fatos sucederam” (Maury, O sono e os sonhos, 4 ed., p.161).
4 Seria preciso falar aqui dessas tendências reprimidas às quais a escola de Freud consagrou um tão grande número de estudos. Na época em que foi feita a presente conferência, a obra de Freud sobre os sonhos tinha aparecido, mas a “psicanálise” estava longe de seu desenvolvimento atual.

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