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Estudos Econômicos (São Paulo)

Print version ISSN 0101-4161

Estud. Econ. vol.40 no.1 São Paulo Jan./Mar. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-41612010000100009 

Resenha bibliográfica*

 

 

Maurício Bugarin

Insper Instituto de Ensino e Pesquisa - Rua Quatá, 300 - Vila Olímpia - CEP: 04546-042, São Paulo - SP. E-mail: bugarin@insper.org.br; web: www.bugarin.insper.org.br

 

 

Gonçalves, Carlos Eduardo S.; RODRIGUES, Mauro. Sob a lupa do economista - uma análise econômica sobre bruxaria, futebol, terrorismo, bilheterias de cinema e outros temas inusitados. são Paulo: Campus/Elsevier, 2009. 248 p.

Caro leitor, se você é professor, responda rapidamente às seguintes questões: Qual foi a disciplina que lhe deu mais trabalho lecionar? E qual foi a que lhe deu menos trabalho?

Quer saber sobre minha experiência? A disciplina mais fácil de lecionar foi Teoria dos Contratos, no Doutorado do ECO/UnB. Os alunos estavam muito bem preparados e naturalmente motivados pela disciplina. Por pior que fosse o professor, por mais complexo que fosse o conteúdo formal dos modelos apresentados, os alunos esclareciam dúvidas em aula, traziam comentários pertinentes e interessantes, associavam o conteúdo apresentado com outras áreas da Economia, buscavam referências adicionais, estudavam em grupo. Enfim, uma experiência que trouxe imenso prazer para este professor.

E a mais difícil? Foi Cálculo 1, no MAT/UnB. Não que o conteúdo fosse complexo, afinal era o primeiro curso a que os alunos assistiam, assim que passavam no vestibular. Mas foi justamente isso que tornou o curso tão trabalhoso! Os alunos tinham pouco interesse pelo formalismo matemático e precisavam ser constantemente motivados. A familiaridade com o raciocício lógico era limitada, e o nível de maturidade ainda pouco desenvolvido não lhes permitia apreciar a beleza do treinamento do argumento. Uma boa dose de paciência, exemplos do mundo real, exercícios variados e explicações alternativas foram fundamentais para que eu pudesse concluir a disciplina sem traumatizar meus pobres calouros. Consegui despertar-lhes o gosto pelo argumento lógico, meu principal objetivo para essa disciplina? Só eles poderão responder...

Desde que tive essas duas experiências, tornou-se para mim claro que é muito mais fácil lecionar conteúdos avançados a um público altamente especializado do que conteúdos fundamentais a um público leigo e heterogêneo. Para chamar a atenção de um público amplo e mantê-lo interessado no que se está expondo é necessário um talento muito especial que poucos, mesmo no meio acadêmico, possuem. Os autores Carlos Eduardo Gonçalves e Mauro Rodrigues demonstram justamente essa habilidade no livro Sob a Lupa do Economista.

O livro discute questões que se apresentam a todos nós cotidianamente e mostra como a ciência econômica pode nos ajudar a melhor entendê-las, interpretá-las e mesmo a lidar com elas. A linguagem é extremamente clara e acessível. Alguns termos técnicos são introduzidos, mas sempre com clara motivação e muito naturalmente explicados. Questões simples como a classificação dos filmes de maior bilheteria são motivação para se explicar a importância de se usar as unidades adequadas de medição para se fazer comparações. No caso das bilheterias de cinema, por serem usualmente contabilizadas em dólares contemporâneos, tendem naturalmente a favorecer filmes mais recentes, simplesmente pela inflação no preço do ingresso do cinema. Uma simples correção, baseada no número de ingressos vendidos, resulta em ordenação das maiores bilheterias muito mais equilibrada do ponto de vista temporal. Essa correção serve de pano de fundo para a introdução de conceitos mais profundos como a diferença entre salário nominal e salário real.

O livro é composto de 46 crônicas totalmente independentes que podem ser lidas em qualquer ordem. São crônicas curtas de, em média, cinco páginas, que sempre se iniciam com a discussão de um tema cotidiano e de interesse atual, como a crise financeira mundial de 2008, a poluição ambiental, as espécies de animais em extinção, o especulador, o terrorismo, o transplante de rins, a pirataria de música na internet e os famigerados cambistas de ingressos de jogos de futebol, para citar apenas alguns exemplos. Cada um desses temas está associado a um problema que é discutido inicialmente sob a ótica do noticiário cotidiano. Em seguida, uma discussão mais aprofundada é apresentada, baseada na teoria econômica.

A grande riqueza dessa abordagem é, em primeiro lugar, chamar a atenção para o fato de que alguns conceitos que nos parecem inicialmente naturais podem estar bastante equivocados. No caso dos rinocerontes ameaçados de extinção, por exemplo, o pensamento natural é proibir sua caça e a comercialização de seu chifre. Perguntam, então, os autores: por que será que o gado, os porcos e as galinhas, altamente comercializados, não se encontram ameaçados de extinção? E então propõem: não será justamente a existência de mercados privados livres que garante a sobrevidência dessas espécies? E exemplificam: em alguns países do sul da África uma mudança na legislação permitiu que proprietários de terra gerenciassem seu estoque de animais silvestres, o que gerou significativo crescimento da população desses animais.

Assim como no exemplo da "privatização dos rinocerontes" (título da crônica), os autores se mostram extremamente corajosos ao expor sem titubear posições delicadas e passíveis de ataques por pessoas mais ideologicamente rígidas. É assim que, por exemplo, os autores mostram que, apesar de ser muito desejável que os países mais ricos apoiem o desenvolvimento das regiões mais pobres do planeta, a evidência empírica sugere que não são as camadas mais pobres da população que praticam os maiores atos de terrorismo. Ou seja, reduzir pobreza para atacar o terrorismo, conforme defendido por inúmeros políticos mundo afora, pode não gerar o efeito desejado, segundo sugerem estudos acadêmicos.

E isso nos leva a outro dos importantes aportes desse livro: a referência à literatura avançada recente. De fato, o que difere esse livro de um simples livro de crônicas em que são expostas reflexões dos autores sobre assuntos cotidianos é o embasamento cuidadoso na literatura recente. Quando apresentam a contribuição da teoria econômica ao debate em questão, os autores se baseam firmemente em trabalhos clássicos e modernos que testam as diferentes hipóteses levantadas durante a discussão. Para citar um exemplo controverso, desde Max Weber, existe o entendimento de que nações majoritariamente protestantes tendem a se desenvolver mais que nações majoritariamente católicas, uma vez que o o trabalho e o lucro são valorizados na ética protestante enquanto a ética católica condena o lucro e foca o esforço do homem na preparação para a vida eterna. Os autores apresentam, então, interessantes estudos empíricos que mostram que, de fato, ou não há evidência empírica desse maior desenvolvimento ou, quando há um maior desenvolvimento dos Estados alemães protestantes em comparação com os católicos, esse maior desenvolvimento se explica não pela religião, mas pelo menor nível de analfabetismo nesses Estados. Ou seja, a maior contribuição da reforma Luterana para o desenvolvimento parece ter sido enfatizar a importância de as pessoas se alfabetizarem para ler a Bíblia, e o desenvolvimento foi consequência dessa prioridade.

Outra riqueza de Sob a Lupa do Economista é a forma como conceitos fundamentais em Economia vão surgindo naturalmente ao longo do texto. Para citar alguns exemplos, na crônica "Dos mosquitos ao desenvolvimento" os autores iniciam relembrando que em 1700 a renda per capita em Cuba era quase o dobro daquela dos Estados Unidos, e a discussão leva cuidadosamente o leitor a entender como

instituições são essenciais para explicar as diferentes trajetórias de desenvolvimento das nações. Ao apresentar dados estatísticos que indicam que os aposentados gastam menos com alimentação, desvendamos de forma espontânea o conceito de custo de oportunidade: os aposentados gastam menos não porque eles consomem menos, mas porque possuem mais tempo para comparar preços, adquirir alimentos mais baratos e cozinhar em casa, em vez de comer em restaurantes mais caros. Os princípios da teoria dos incentivos surgem naturalmente da discussão sobre os elevados salários dos grandes executivos, que chocam o senso comum. A maldição do vencedor se apresenta na discussão do leilão de privatização do Banespa, enquanto o conceito de sinalização se torna óbvio quando da análise da proliferação dos cursos de MBA.

Enfim, grande número de conceitos fundamentais da teoria econômica moderna são comunicados ao público leigo de forma divertida, fluindo espontaneamente das discussões assentadas na realidade cotidiana. Essa característica do livro torna-o muito adequado para a disseminação da ciência econômica. O livro com certeza atingirá um público amplo, heterogêneo, ao qual ensinará princípios que gostaríamos que todos conhecessem. Quanto a nós, professores, o livro servirá de referência fundamental para complementar as mais diversas disciplinas, tanto elementares quanto avançadas. Neste semestre que se findou em 2009, por exemplo, eu o usei no curso de Estatística I, também uma disciplina de primeiro semestre no Insper. E sabem de onde veio a sugestão? De uma aluna que teve acesso ao livro assim que publicado!

 

 

* Esta resenha foi desenvolvida enquanto o autor se encontrava na Universidade de Illinois como Lemann Visiting Scholar. O autor agradece o apoio do Lemann Institute for Brazilian Studies, bem como do CNPq.

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