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Estudos Econômicos (São Paulo)

Print version ISSN 0101-4161

Estud. Econ. vol.40 no.3 São Paulo Sept. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-41612010000300009 

Resenha bibliográfica

 

 

Leonardo Monteiro Monasterio

Diretoria de Estudos Regionais, Urbanos e Ambientais, Instituto de Pesquisas Aplicadas (IPEA) - Brasília. E-mail: leonardo.monasterio@ipea.gov.br

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DIAMOND, J.; ROBINSON, J. A. (Ed.). Natural experiments of History. Cambridge, Massachusetts: Belknap Press of Harvard University Press, 2010. 288 p.

O nome dos editores de Natural experiences of History já chama atenção para o livro. Jared Diamond e James Robinson foram autores de contribuições de muito impacto durante a última década. O polímata Diamond publicou, em 1997, Guns, germs and steel: the fates of human societies, no qual combinava conhecimentos de Linguística, Biologia e História para explicar 13 mil anos de história e a velha questão: por que o mundo inteiro não é desenvolvido? O livro foi traduzido para dezenas de línguas (incluindo o Português), alcançou públicos bem mais amplos do que o acadêmico e chegou às listas de best-sellers. Já Robinson foi coautor de uma série de artigos com Daron Acemoglu e Simon Johnson, cujo mais famoso é Reversal of fortune: Geography and institutions in the making of the modern world income distribution (2002). Atualmente, o Google Scholar aponta que esse artigo foi citado mais de 1300 vezes. As obras de ambos os autores, apesar de (ou mesmo porque) muito criticadas, deram novo fôlego e redirecionaram a discussão sobre crescimento econômico no longuíssimo prazo.

Natural experiments of History reúne sete artigos, que cobrem um período de vários séculos e todos os continentes do planeta. O público-alvo não é nem o econometrista nem o historiador especializado nos temas tratados. Os editores optaram por um formato mais acessível do que as versões acadêmicas que deram origem aos artigos anteriores, omitindo os procedimentos econométricos e o jargão da profissão (sempre que possível).

Antes de tudo, deve-se alertar que os editores escolheram uma definição de experimento natural bastante elástica e a igualaram ao "método comparativo". No Prologue, eles afirmam:

This approach [experimento natural] consists of comparing - preferably quantitatively and aided by statistical analyses - different systems that are similar in many respects but that differ with respect to the factors whose influence one wishes to study. (DIAMOND; ROBINSON, 2010, p. 2)

Uma definição mais tradicional de experimento natural exigiria que a decisão sobre quais unidades sofreram tratamento e quais são controle fosse aleatória ou não relacionada com o fenômeno que se deseja compreender. Nessa acepção mais rigorosa, apenas três dos sete artigos do livro seriam experimentos naturais.

Em From Ancien Régime to Capitalism: the spread of French Revolution as a Natural Experiment, David Cantoni se junta aos autores de Reversal of fortune para argumentar que as invasões napoleônicas na Alemanha e Prússia funcionaram como experimentos naturais acerca do efeito das instituições sobre o crescimento econômico. Para tal, eles mostram evidências de que Napoleão não escolheu as regiões a serem invadidas com base no seu potencial de crescimento. As regiões invadidas por Napoleão receberam um conjunto de mudanças institucionais modernizador, como um código civil e a abolição das guildas medievais, que teria induzido um posterior crescimento econômico mais veloz.

Banerjee e Iyer (Colonial land tenure, electoral competition and public goods in India) aproveitam o fato de o Império Britânico ter utilizado formas diversas de posse e tributação da terra para estimar o efeito dessa escolha na provisão de bens públicos nos distritos indianos atuais. Eles mostram que aqueles locais em que a arrecadação de tributos era responsabilidade de um landlord, ao invés de ser cobrada por propriedade ou ao nível das vilas, têm hoje menos escolas, estradas pavimentadas, taxas de alfabetização e de eletrificação.

Nathan Nunn tenta responder uma das questões mais controversas da história econômica: qual foi o efeito do tráfico de escravos sobre o desenvolvimento da África? Sua estratégia é avaliar se as regiões que exportaram mais escravos seriam as mais pobres hoje. Para garantir que se trata de um experimento natural, ele mostra evidências que foram as áreas mais ricas (e não as mais pobres) da África que forneceram mais escravos para o tráfico. Como todo historiador que lidou com o assunto deve imaginar, seu maior desafio foi estimar a nação de origem dos escravos, uma vez que os registros costumam trazer informações sobre os portos de embarque e não o local de captura. Superado esse obstáculo, o autor usa a distância das regiões africanas em relação à demanda como variável instrumental para a estimação da importância do tráfico de escravos. Com os devidos controles estatísticos, ele mostra que, de fato, a escravidão foi perniciosa para os países e que, se ela não tivesse ocorrido, esses teriam hoje níveis de desenvolvimento semelhantes aos dos países desenvolvidos.1

Os outros quatro artigos que completam o volume são bem distintos em termos metodológicos e não são experimentos naturais em sentido estrito. Controlled comparison and Polynesian cultural evolution, de Patrick Kirch, parece ser o artigo menos interessante e mais hermético para os economistas. O autor analisa a evolução política divergente de três ilhas ou arquipélagos da Polinésia que tiveram uma origem comum. Na falta de documentos, a pesquisa recorreu a evidências linguísticas, arqueológicas e etnográficas para reconstruir as histórias das sociedades dessas ilhas. Por ter um viés mais metodológico e tratar de uma realidade muito distante (em todos os sentidos), o texto é algo inacessível para os não iniciados.

Ainda no tema das ilhas, o artigo do próprio Jared Diamond, Intra-Island and Inter-Island comparisons, resume duas pesquisas bem distintas. Uma delas é a comparação entre as trajetórias históricas dos dois países da ilha de São Domingos (Hispaniola para os anglófonos): Haiti e a República Dominicana. Com a mesma habilidade já demonstrada em Guns, germs and steel, ele monta um relato analítico bastante convincente, a despeito de não apresentar testes estatísticos, para explicar suas trajetórias de desenvolvimento. Pequenas diferenças naturais na ilha, associadas a circunstâncias fortuitas, puseram o Haiti em uma trajetória de desmatamento, empobrecimento, instituições inapropriadas e atraso econômico. A segunda pesquisa apresentada no artigo é a síntese do trabalho de Diamond com o arqueólogo Barry Rolett. Os autores montaram uma base de dados sobre a geografia física, clima e sociedade de 69 ilhas do Pacífico para estudar os determinantes do desmatamento. A análise econométrica permitiu revelar que, ao contrário do que sustenta parte da literatura, o colapso da Ilha de Páscoa não foi um evento outlier e nada houve de peculiar no comportamento de seus habitantes. Eles só tiveram a má fortuna de terem se estabelecido em uma ilha onde os valores de todas as variáveis significantes favoreciam o desmatamento e impediam a recuperação da flora local.

O texto de Stephen Haber, Politics, banking and economic development: evidence from New World Economies, é o único artigo do livro que trata do Brasil. O autor compara o país com os Estados Unidos e o México, para testar a hipótese de que variação das instituições políticas entre os países e ao longo do tempo explicaria a forma e o caráter dos seus sistemas bancários. Os governos desses países, para se financiarem, criam sistemas bancários com entrada regulada, o que eleva o custo do crédito para o setor privado. Enquanto isso, nos Estados Unidos, a competição entre os estados, a participação eleitoral e outras especificidades de sua estrutura política foram as responsáveis pelo maior sucesso do seu sistema bancário. Apesar da bem fundamentada argumentação, o autor incorre no erro, muito popular, de afirmar que, no Brasil do Império, o voto estava limitado às classes mais altas. Já está bem consolidado que, até a Lei Saraiva (1881), a parcela da população qualificada para votar era maior do que a de muitos países europeus da época, pois o valor da renda mínima era muito baixo e os analfabetos participavam do processo eleitoral (CARVALHO, 2002).

O texto de James Belich, Exploding Wests: boom and bust in 19th century settler societies", é o que mais se afasta de um experimento natural tradicional. O autor analisa a história de um conjunto heterogêneo de territórios "novos" ricos de recursos naturais: Sibéria, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, África do Sul, Argentina e o Oeste norte-americano. Ele encontra um padrão de desenvolvimento comum a tais países. Inicialmente, um período explosivo, em que tais áreas de fronteira recebem ondas de pessoas, bens e capital. Nessa etapa, é a demanda dos entrantes que mantém a atividade econômica dos imigrantes já estabelecidos. Uma retração catastrófica se segue e a recuperação só é possível graças à exportação em boa hora de um recurso natural para a metrópole. Em relação aos textos clássicos sobre o papel das exportações para o crescimento regional em perspectiva histórica (NORTH, 1955), o capítulo é um avanço, uma vez que o autor detalha os mecanismos e aprofunda o debate sobre o papel das exportações em novos territórios. Por outro lado, a principal crítica metodológica à tese de um padrão comum, na trajetória dos Exploding Wests, é o viés de seleção. O autor só considera os casos das regiões que cumpriram as três fases identificadas. Uma área que não tenha tido sorte na "loteria das commodities" - no dizer de Diaz-Alejandro (1984) - fica fora da amostra analisada.

Apesar da qualidade e interesse dos sete artigos do livro, as partes com maior potencial de serem utilizadas pelo público acadêmico são o Prologue e o Afterword. Neles, Diamond e Robinson mostram as vantagens e riscos dos experimentos naturais e tentam remover as barreiras que restringem a aplicação de tal método na pesquisa em História. Parte dos historiadores se opõe à utilização de métodos quantitativos porque, supostamente, as sociedades humanas seriam complexas demais para serem reduzidas a meros números. Em um ótimo momento, Diamond e Robinson se opõem a essa visão, lembrando que as áreas hard também tratam de temas complexos e enfrentam dificuldades adicionais:

Historians often believe that human history is fundamentally different from the history of cancers, chimpanzees, or glaciers, on the grounds that it is much more complicated and involves the motives of individual humans, which supposedly cannot be measured or expressed in numbers. However, cancers, chimpanzees, and glaciers are also very complicated, and they pose the added obstacle that they do not leave behind any written archival evidence of their motives (DIAMOND; ROBINSON, 2010, p. 5).

Na seção Afterword, Diamond e Robinson apresentam uma tipologia dos experimentos naturais (em sentido amplo), mostram as restrições dessa metodologia para a História e alertam para os riscos de atribuir causalidade a meras correlações. O trecho sobre esta última questão serve como boa apresentação do assunto para o leitor-alvo, apesar de ser coberto em qualquer livro-texto contemporâneo de econometria.

Por fim, os autores argumentam que existem historiadores que têm aversão aos experimentos naturais por motivos psicológicos e não metodológicos. Como parte dos historiadores se especializa em um objeto bastante restrito, as comparações com outros casos são vistas como inapropriadas, mal-informadas e, na pior das hipóteses, invasões no seu território de estudo. A abordagem dos experimentos naturais faz com que as diferenças e semelhanças relevantes entre as sociedades e processos históricos sejam destacadas e se tenha uma visão renovada e insights impossíveis de serem obtidos a partir de um caso único.

Será muito benéfico se Natural experiments in History vier a influenciar os meios acadêmicos brasileiros. Afinal, a revolução cliométrica nunca chegou propriamente em nossas terras e há ainda, por incrível que pareça, aqueles que veem com maus olhos a aplicação de métodos quantitativos que ultrapassem a estatística descritiva mais trivial. Nesse sentido, o livro pode contribuir para: a) incentivar os historiadores a identificarem experimentos naturais e a aplicarem métodos quantitativos; b) mostrar aos que já têm domínio de técnicas econométricas, incluindo o uso de variáveis instrumentais, que o campo de aplicação vai muito além do exame dos dados recentes. Os autores do livro nos fazem relembrar que o passado é um laboratório e indicam os ganhos que os pesquisadores em História Econômica podem ter se souberem utilizá-lo.

 

Referências

ACEMOGLU, D.; JOHNSON, S.; ROBINSON, J. A. Reversal of fortune: Geography and institutions in the making of the modern world income distribution. Quarterly Journal of Economics, v. 117, n. 4, p. 1231-1294, 2002.         [ Links ]

DIAZ-ALEJANDRO, Carlos. Latin America in the 1930s. In: THORP, Rosemary. (Ed.). Latin America in the 1930s: the role of the periphery in world crisis. New York: St. Martin's Press, 1984.         [ Links ]

CARVALHO, J. Cidadania no Brasil: o longo caminho. São Paulo: Civilização Brasileira, 2002.         [ Links ]

DIAMOND, J. Guns, germs, and steel: the fates of human societies. New York: Norton, 1998.         [ Links ]

GRAHAM, R. Patronage and politics in nineteenth-century Brazil. Stanford, Califórnia: Stanford University Press, 1990.         [ Links ]

MCAFEE, R. P. American economic growth and the voyage of Columbus. The American Economic Review, v. 73, n. 4, p. 735-740, 1983.         [ Links ]

NORTH, D. Location theory and regional economic growth. Journal of Political Economy, v. 63, n. 3, p. 243-58, 1955.         [ Links ]

 

 

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1 Nesse ponto, ele levou o exercício contrafactual um pouco longe demais. Afinal, na ausência do tráfico transatlântico de escravos, o mundo seria tão diferente que os parâmetros estimados teriam validade duvidosa nesse universo alternativo. Sua estimativa se aproxima perigosamente do artigo humorístico de McAfee (1983), no qual a história econômica americana é discutida à luz de um contrafactual, em que o mundo seria plano e a frota de Colombo teria despencado ao ultrapassar a linha do horizonte.

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