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Educação & Sociedade

Print version ISSN 0101-7330

Educ. Soc. vol.18 no.58 Campinas July 1997

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-73301997000100012 

A fala da criança sobre sexualidade humana: o dito, o explícito e o oculto*

Elizabete Franco Cruz**

 

 

Cláudia Ribeiro, professora do Departamento de Educação da Universidade Federal de Lavras, transformou em livro um trabalho inédito, originário de sua dissertação de mestrado (Unicamp).

A relevância dessa publicação, para o campo de conhecimento da educação sexual, é destacada no elogioso prefácio com o qual sua orientadora, Isaura Guimarães, apresenta-nos a autora e sua obra.

Na introdução, além da estruturação do texto (que surge na breve descrição de cada capítulo), revela-se também a trajetória da pesquisadora, marcada por uma prática educativa que instigou a busca de aprofundamento teórico no mestrado. Encontramos ainda, a delimitação do objeto de investigação: as idéias infantis sobre a sexualidade, o que as crianças dizem, explicitam ou ocultam, revelando o contexto sócio-histórico em que vivem. "A partir da fala da criança, poderia inferir suas estruturas cognitivas e afetivas, que refletem sua constituição" (p. 18).

No primeiro capítulo, "A construção do corpo sexuado", através de alguns subtítulos a autora vai tecendo os fios que compõem o pano de fundo teórico: a evolução biológica aponta a integração entre os imperativos biológicos básicos, que diferenciam homens e mulheres, e a dimensão sócio-histórica-cultural que compõe a construção de um corpo sexuado. Fundamentando-se em Fernández (1990), afirma:

O sujeito nasce com um organismo individual herdado e um corpo que se constrói e que, ao mesmo tempo, é construído. O sujeito articula construtivamente corpo, organismo, inteligência e desejo, num grupo familiar/social. (Fazer-se homem e mulher mostra-nos que) a construção da sexualidade abrange o que significa "ser menino" ou "ser menina", homem ou mulher numa dada cultura; a manifestação dos sentimentos, a maneira de ver o mundo, que acabam por refletir as estruturas cognitivas e afetivas construídas ao longo do processo de desenvolvimento. Nessa construção inclui-se a categoria do desejo, que é a mola da reconstrução, numa dimensão micro do conhecimento socialmente compartilhado. O desejo imprime um estilo pessoal e um ritmo ao movimento da construção do corpo sexuado cognitiva e afetivamente. (p. 26)

Não somente neste subtópico, como também ao longo de todo o livro, apreendemos a influência de Piaget no trabalho da autora, que concebe a sexualidade como "objeto de conhecimento". Esta abordagem "não significa separá-la do contexto no qual ela se manifesta, ou reduzi-la a uma de suas faces menos envolventes, ou destituí-la dos seus elementos constitutivos mais vibrantes" (p. 29). Em A criança e a sexualidade são apresentadas as contribuições de Veronique Jagstaid (1987) que, fundamentada na teoria piagetiana e na psicanálise, realizou um estudo no qual demonstra que a elaboração de teorias sexuais pela criança está relacionada com seu desenvolvimento cognitivo e afetivo. No último item, "O desenvolvimento moral, o conhecimento social e a sexualidade", as idéias de vários autores são brevemente retomadas, destacando-se Piaget e Kolberg para explicar a gênese da moralidade; Delval (1989), que fez uma revisão sobre teorias que abordam como a criança adquire conhecimento e conduta social, e as contribuições de Vigotsky (1987), principalmente no que se refere à fantasia.

Em síntese este capítulo mostra a criança como sujeito cognoscente, que ao longo de seu desenvolvimento, na interação com o meio social e cultural, vai construindo seu corpo sexuado.

A população envolvida e os procedimentos metodológicos utilizados nesta pesquisa qualitativa são relatados no capítulo 2, "O encontro com as crianças". Nele descobrimos que a autora fez intervenções pedagógicas (através de histórias infantis, músicas, vídeos que desencadeavam produções escritas, discussões, reflexões) em 11 classes (da pré-escola à 4a série) de três escolas (duas públicas e uma particular) da cidade de Guaxupé (MG). Outras estratégias utilizadas foram a observação e as entrevistas individuais realizadas com 41 crianças com idade entre 4 e 12 anos. O material coletado foi organizado em três categorias de análise que nomeiam os capítulos que se seguem.

"A fala da criança" (capítulo 3) traz a criança em relação ao seu corpo, aos papéis de gênero, às suas crenças. No tópico sobre o corpo são comentados os desenhos infantis, as impressões que as crianças têm quanto a vestir-se ou não com a roupa do sexo oposto e os sentimentos que as crianças têm sobre o próprio corpo (a vergonha localiza-se no rosto, no pênis, na vagina, no seio!). Os papéis de gênero são observados nas brincadeiras e no comentário que a criança faz sobre as falas ouvidas dos adultos: "O avô fala e o neto repete". Nas crenças das crianças encontra-se um Deus, sinônimo de homem comum, que faz todas as coisas. Os discursos infantis, segundo a autora, são oriundos de idéias religiosas e do social.

Segundo a autora, "A representação infantil da vida intra-uterina" (capítulo 4) é elemento relevante para a constituição da sexualidade e do conhecimento. Duas questões foram analisadas: Onde está o bebê? Como o bebê se alimenta? As respostas dadas à primeira indagação indicam que todas as crianças sabem que o bebê está na barriga da mãe, mas no que se refere à compreensão de "como ele foi parar lá", os resultados encontrados por Ribeiro são condizentes com aqueles descritos por Jagstaid (1987), ou seja, revelam que esta compreensão está vinculada aos diferentes momentos do desenvolvimento infantil. As hipóteses das crianças a respeito de como o bebê se alimenta estão repletas de fantasias sobre canos, tubinhos, boquinhas e até mesmo de um cordão umbilical que pode ser ligado ao umbigo ou ao pênis. A pesquisadora fez intervenções junto às crianças e destaca a relevância do papel do adulto como mediador entre a criança e o conhecimento.

No capítulo 5, "A criança e o trabalho escolar", o espaço da escola é abordado num primeiro momento a partir da realidade existente – um espaço proibido para a fala sobre sexualidade – e, num segundo momento – a partir das incursões da pesquisadora na escola –, como um espaço para a fala explícita, marcado pela interação que possibilita às crianças, através da troca de idéias, refletir, rever e elaborar seus conceitos, valores e sentimentos. Neste processo o adulto tem papel importante, sua linguagem é (re)significada pela criança. Os papéis de gênero são rígidos e estereotipados, seu questionamento e a reflexão sobre a moral que vigora podem ampliar o leque de possibilidades da criança no decorrer da construção de sua identidade.

O livro é recheado com desenhos e falas que demonstram o percurso e o investimento que as crianças fazem para construir conhecimento sobre sexualidade. Considero que este "recheio", que colabora para a demonstração dos resultados obtidos, não tem somente um caráter ilustrativo, podendo ser traduzido como um aviso aos adultos de que a criança olvida seus melhores esforços para compreender o mundo em que vive e, portanto, merece respeito. Além do mais, a inclusão dos desenhos e das falas permite-nos o prazer de acessar as descobertas infantis, e rouba-nos gostosos sorrisos: "Como a mãe do nenê tem leite? (Ro) Ah! A mãe do nenê tem leite porque ela toma leite. (An) Será? (Lu) Não e não. Eu nunca vi vaca tomar leite e ela tem leite (GA)" (p. 100).

O estudo de Ribeiro mobiliza minha curiosidade. No trabalho com educadores observo que, geralmente, a primeira queixa refere-se à masturbação. Por que será que as crianças não falaram sobre o assunto? Será que esta é uma fala "oculta", escondida no comportamento repressivo dos adultos e na vergonha relatada pelas crianças? Temos um descompasso na forma de olhar? Os adultos enxergam problemas onde as crianças vêem descobertas e prazer? Numa sociedade "adultocêntrica", qual o significado das respostas a estas perguntas?

Ao término da leitura, restam-me ainda algumas inquietações, como, por exemplo, a necessidade de maior linearidade e fluidez na articulação das diferentes contribuições teóricas apresentadas no capítulo inicial. Em outras palavras, elos de ligação mais claros, entre o conteúdo apresentado nos diferentes subtítulos e a idéia central do capítulo, beneficiariam a compreensão do leitor. Por exemplo, o capítulo denomina-se "A construção do corpo sexuado", e num dos subtítulos, "A criança e a sexualidade", é comentado o trabalho de Jagstaid (1987) e são apresentadas as representações infantis sobre a reprodução. Porém, somente no início do capítulo 4, o leitor vai encontrar, de forma mais explícita, a relação entre uma coisa e outra.

Não localizei, nas citações ou na bibliografia, referência a alguns trabalhos como os de Graciano (1978) e de Huston (1983),1 que abordam temáticas próximas à deste estudo, e poderiam acrescentar contribuições interessantes às discussões apresentadas. Entretanto, talvez o livro de Constantine e Martinson (1984)2 pudesse agregar contribuições mais substanciais, na medida em que traz vários artigos que abordam a sexualidade infantil, alguns deles comentando pesquisas em escolas, a fala de crianças, estudos com uma abordagem piagetiana e um debate sobre aspectos culturais.

Tais inquietações, no entanto, não minimizam o mérito deste trabalho por duas razões: primeiro porque, com exceção das contribuições oriundas da psicanálise, este é um campo de conhecimento pouco sistematizado; segundo porque reconheço que a bibliografia, além de escassa (Cruz l996),3 é, por vezes, de difícil localização.

Além disso, este estudo traz importantes contribuições ao enfocar um aspecto quase sempre negado da sexualidade, sua dimensão cognitiva, aquecendo um debate teórico da maior relevância; publicar um material que poderá ser utilizado num processo de formação de educadores para o trabalho de educação sexual, e ampliar a escassa bibliografia nacional sobre a temática da sexualidade infantil.

Na descrição da população, encontramos a origem do nome da cidade a que pertencem as crianças que participaram do estudo: "Guaxe é uma espécie de pássaro e Axupé é uma espécie de abelha. O prefixo Gua (de guaxe) uniu-se ao sufixo Xupé (de axupé) e adveio: Guaxupé" (p. 50). Observando o livro de Cláudia Ribeiro indago-me se Guaxupé foi sua fonte de inspiração. Os detalhes de sua obra – como por exemplo procurar Toquinho, o autor das músicas que trabalhou com as crianças, entrevistá-lo, promover a comunicação entre o compositor e seus ouvintes – revelam que trabalhou como uma abelha operosa que passo a passo junta elementos para sua colméia. Por outro lado, ao falar de um tema tão negligenciado na produção acadêmica, assemelha-se àquela espécie de pássaros persistentes, que insistem em soltar seu canto, mesmo quando encontram um campo árido, como o do estudo da sexualidade infantil.

 

 

Notas

1. GRACIANO, Marília. "Aquisição de papéis sexuais na infância". Cadernos de Pesquisa no 25. São Paulo, junho 1978, pp. 29-44.

HUSTON, Aletha C. "Sex Typing". In: Mussen, Paul H. Handbook of child psychology. CARMICHAEL'S Manual of child psychology. Nova York, Jonh Wiley & Sons, 1983, vol. V.

2. CONSTANTINE, Larry L. e MARTINSON, Floyd M. Sexualidade infantil: Novos conceitos, novas perspectivas. São Paulo: Livraria Roca Ltda, 1984.

3. CRUZ, Elizabete Franco. "A educação sexual e a formação do educador de creche/pré-escola". Dissertação de mestrado em Psicologia Social/PUC, São Paulo, 1996.

 

 

* Resenha sobre livro de Ribeiro, Cláudia. A fala da criança sobre sexualidade humana: O dito, o explícito e o oculto. Lavras, Universidade Federal de Lavras; Campinas, Mercado de Letras, 1996.
** Professora da Universidade São Marcos, psicóloga da Rede Paulista de Mulher e Aids/GIV, membro do Grupo de Estudos sobre Sexualidade Masculina e Paternidade/Ecos.