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Educação & Sociedade

Print version ISSN 0101-7330

Educ. Soc. vol.18 no.60 Campinas Dec. 1997

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-73301997000300012 

Vygotsky e Bakhtin – Psicologia e educação: Um intertexto*

Marilene Sinder**

 

 

A obra é resultado das pesquisas realizadas por Maria Teresa de Assunção Freitas, com vistas à elaboração de sua tese de doutorado, na PUC-RJ. O texto traduz toda a preocupação da autora em encontrar a intertextualidade (nos termos bakhtinianos) entre a psicologia e a educação, necessidade vivida por ela a partir da constatação da incapacidade de se enfrentar os "desafios colocados pela prática pedagógica" através da psicologia fragmentada e a-histórica.

Em Vygotsky e Bakhtin a pesquisadora-autora encontra a possibilidade de rompimento com o antigo paradigma de interpretação da prática pedagógica, baseado na psicologia descritiva e descontextualizada, que ignora a relação do sujeito com o meio ambiente. A compreensão do indivíduo como ser histórico parece, à autora, condição necessária à redefinição do campo de atuação da psicologia da educação, pautada na dicotomia entre sujeito e objeto, sob a ótica do idealismo e do objetivismo. É em Vygotsky e Bakhtin que ela vai buscar o instrumental teórico para propor essa nova metodologia.

Maria Teresa parte de duas necessidades, na busca de uma nova teoria: a da construção de um conhecimento acerca da escola e a da compreensão do homem como ser histórico. Isso por ter constatado a posição individualizante adotada pela prática pedagógica, ao longo de sua carreira como educadora e através do exame de textos utilizados na formação dos educadores, como os manuais de psicologia da educação, que mostram uma psicologia vinculada ao modo de produção capitalista, sem questionar o lugar ocupado pelos indivíduos no sistema. Ela constata que a discussão psicologia- educação deve-se dar na sua relação com o econômico, o político e o social, passando a ser necessária uma psicologia que não restrinja o pedagógico ao psicológico, mas que abra o horizonte ao social, ao cultural e ao histórico.

A autora descobre a possibilidade da interdisciplinariedade através de Vygotsky e Bakhtin, que chegaram à psicologia por outros campos do conhecimento: a linguagem, a semiótica, a filosofia, a história e a arte. Com esses autores, ela mostra um novo caminho: uma abordagem psicológica do processo educativo que leva em conta o homem – objeto tanto da pedagogia quanto da psicologia – e as condições sociais, históricas e econômicas em que ele vive.

A compreensão do indivíduo como ser histórico é de fundamental importância para uma redefinição no campo de estudo da psicologia. Com essa perspectiva, Maria Teresa propôs-se a investigar como o materialismo histórico pode contribuir para essa construção. Nesse estudo, ela verificou como Vygotsky e Bakhtin, críticos do marxismo positivista e reducionista, construíram suas teorias. Seu interesse por esses dois autores deu-se pelo fato de eles se proporem a fazer a ruptura com o objetivismo e o subjetivismo: "Vygotsky o faz através de sua psicologia histórico-social e Bakhtin na área de estudos da linguagem".

Sobre as bases do materialismo dialético esses autores construíram suas teorias. Vygotsky propôs reformular a psicologia de sua época, por considerá-la incapaz de explicar coerentemente os processos psicológicos do homem. Vinculado às artes, à literatura, à semiótica e à educação, ele pôde ampliar sua visão do homem psicológico.

O caminho percorrido por Vygotsky para construir a psicologia foi a crítica e a estética. Pelos seus interesses estéticos e semiológicos, ele chegou à categoria de consciência. Percebeu que era necessário chegar à explicação da consciência para explicar os processos de criação e percepção estética do homem. "Vygotsky quis buscar na psicologia a resposta para as questões: O que é a consciência? Que relação tem a estrutura de símbolos e signos com a estrutura da consciência?"

A pesquisa de Vygotsky girou em torno do "princípio da gênese social da consciência". Inicialmente, percorreu um longo caminho reflexológico, mas, aos poucos, ingressou numa reflexão epistemológica acerca da psicologia. Entre os anos de 1924 e 1934, trabalhou com Luria e Leontiev num grupo de trabalho de forte expressão, que tinha o objetivo de transformar a psicologia. Sua formação filosófica dava-lhe a garantia de uma segura direção metodológica, necessária à tarefa que se propunha realizar.

No campo da educação, Vygotsky fora um professor de literatura, estética, história da arte e psicologia. Antes de ser psicólogo, foi pedagogo e professor, mantendo sempre a preocupação de relacionar educação e psicologia. Percebeu que, nas experiências realizadas com as situações escolares, o contexto socioinstitucional nunca era levado em conta, sendo os dados recolhidos e analisados numa perspectiva "a-histórica" e "a-social", por isso sempre rejeitados no ambiente escolar.

Vygotsky considerou a escola o próprio espaço de atuação da psicologia, porque na escola é que "se realizam sistemática e intencionalmente as construções e a gênese das funções psíquicas superiores". Para ele, essas funções seriam "resultado da influência cultural na aprendizagem e no desenvolvimento" e, para sua explicação seria necessária uma interpretação histórica, situando-as em seu contexto original.

Vygotsky desenvolveu o conceito de "zona de desenvolvimento proximal", trazendo implicações educacionais. Segundo esse conceito, "todo bom ensino é aquele que se direciona para as funções psicológicas emergentes". Assim, o ensino deve atuar no limite da "zona de desenvolvimento proximal", estimulando os "processos internos maturacionais que terminam por se efetivar, passando a constituir a base para novas aprendizagens".

Bakhtin, não sendo um psicólogo, mas um filósofo da linguagem, interessou à autora pela sua pluralidade. Graduado em letras, história e filosofia, ele foi um crítico do formalismo russo.

O interesse de Bakhtin pela psicologia se relacionou à "necessidade de compreender a construção da consciência e, por aí, apreender especificidades da criação artística". A análise que fez da psicologia baseou-se na perspectiva semiológica e social, tendo-se fundamentado na linguagem e utilizado o método dialético.

Bakhtin considerou o "nascimento social" do homem como indissociável ao seu nascimento biológico. O nascimento concreto do homem se daria em sua classe social. Dessa maneira, ele elaborou sua teoria da consciência, fundamentando-a nos aspectos sociológicos, rompendo com os aspectos fisiológicos ou biológicos. Não compreendeu a consciência aliada a processos internos e sim, ao contexto ideológico e social.

À ideologia, Bakhtin deu uma interpretação mais abrangente, na medida em que a viu como um espaço de contradição e não só de ocultamento como fez Marx. Considerando assim, a ideologia deve ser vista como uma "forma de representação do real". Decorrente disso, ele não julgou possível a existência da consciência individual e considerou possível somente a consciência social. No nível do individual existiriam apenas os signos, elementos externos, criados pelo homem, emergentes do processo social.

Bakhtin viu a necessidade de criação de uma psicologia fundada no estudo das ideologias, dando à palavra o lugar de destaque na constituição da consciência, pois que social (ou coletiva), permeada pela existência dos signos. A atividade mental do indivíduo estaria concentrada, ainda, na expressão exterior, através da palavra, da mímica ou de outro canal de comunicação, e internamente para o próprio indivíduo, constituindo-se no "discurso interior".

Uma das principais categorias do pensamento bakhtiniano é o dialogismo, que serviu de instrumental para seu estudo das várias formas de discurso, da literatura e de outras manifestações culturais. Bakhtin considerou todos os diálogos e buscou a síntese dialética entre eles. Nessa perspectiva, ele negou o subjetivismo idealista e o objetivismo abstrato, obstáculos a uma visão totalizadora da linguagem. Ao considerar o homem como ser histórico e social, Bakhtin historicizou também a linguagem, contextualizando-a histórica e socialmente.

A visão sócio-histórica abordada nas obras de Vygotsky e Bakhtin serve a Maria Teresa, na sua tentativa de propor uma psicologia que possa contribuir efetivamente com o estudo pedagógico. A perspectiva totalizadora desses autores a faz acreditar na possibilidade de superação da fragmentação experimentada pela psicologia, que, abordada a partir de uma concepção do homem como ser coletivo, pode contribuir para o estudo da dimensão pedagógica. É essa discussão que ela conduz com propriedade em sua obra.

 

 

* Resenha sobre o livro de FREITAS, Maria Tereza de Assunção. Vigotski e Bakhtin – Psicologia e educação: Um intertexto. São Paulo, Ática, 1994.

** Mestranda em Educação, Universidade Federal Fluminense.