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Educação & Sociedade

Print version ISSN 0101-7330

Educ. Soc. vol. 19 n. 62 Campinas Apr. 1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-73301998000100010 

Temas transversais em educação. Bases para uma educação integral

Maria Thereza C. C. de Souza**

 

 

A obra, publicada originalmente na Espanha, apresenta uma discussão a respeito da estrutura curricular das escolas ocidentais, contrapondo à estrutura vigente uma outra, baseada nos chamados temas transversais, tais como educação para a saúde, o consumo e a igualdade de oportunidades (alguns dos temas previstos na reforma espanhola). Estes se tornariam o eixo longitudinal, vertebrador, de um sistema no qual as disciplinas tradicionais estariam em um plano transversal (ocupando lugar determinado na estrutura curricular). Nessa estrutura, os temas transversais são os eixos geradores de conhecimentos, a partir das experiências dos alunos, assim como os eixos de união entre as matérias tradicionais. Estes temas estariam presentes, portanto, de maneiras diversas, na totalidade de matérias da estrutura curricular.

O tema transversal nuclear da reforma espanhola é a educação moral e cívica, a qual se insere em todas as matérias e está contemplada em todos os temas transversais. A justificativa para a mudança de eixos é dada por Moreno no primeiro capítulo, intitulado "Temas transversais: Um ensino voltado para o futuro". Neste capítulo, a autora discorre sobre as origens das matérias curriculares, as quais remontam aos interesses dos pensadores da Grécia clássica. Estes determinaram os temas mais importantes a serem pensados, discutidos e/ou escritos, tais como o movimento dos corpos celestes, as origens do universo e a composição da matéria. A questão levantada por Moreno é: Eram estes os temas fundamentais para o pensamento da época, posto que os pensadores eram a elite de uma sociedade com forte hierarquia, e não representavam também as outras classes? E hoje, serão ainda estes temas (refletidos nas matérias tradicionais das escolas) os mais importantes e fundamentais? Sabe-se que os temas levantados pelos gregos eram bastante distanciados dos aspectos da vida cotidiana, ainda que tenham trazido progressos para o plano das idéias.

Para a autora, ainda hoje, a sociedade ocidental continua tratando os temas "helênicos" como se fossem a única temática possível e desinteressando-se da problemática cotidiana atual, como a fome no Terceiro Mundo, as agressões à mulher e outros temas. Será a temática clássica a única possível?, pergunta Moreno. Sua proposta é inserir outros temas (transversais, no ensino, necessários para se viver na sociedade atual) e vinculá-los aos conteúdos curriculares, com o objetivo de dar-lhes sentido e aproximá-los do cotidiano. De acordo com esta linha de pensamento, retoma o princípio básico do construtivismo, segundo a perspectiva epistemológica de Jean Piaget; a necessidade de um processo de elaboração do conhecimento a partir de uma construção pessoal, a qual é resultado de um processo interno de coordenações de ações e suas significações, buscando patamares de equilíbrio mais integradores. Ainda segundo a perspectiva piagetiana, a aprendizagem, necessariamente, se dá atrelada ao desenvolvimento cognitivo e será possibilitada com a ajuda de um guia (o educador) que favoreça que o pensamento do aprendiz siga seu caminho e converta-se em algo próprio. Isto leva tempo e o educador deverá (ou deveria), para ser este guia dos processos construtivos do conhecimento, estar atento ao seu ponto de partida, ao caminho a seguir e à atribuição de um significado pelos alunos às aprendizagens propostas. Este último aspecto é importante, pois na perspectiva proposta, trata-se de retirar das matérias curriculares uma finalidade em si mesmas e reintegrá-las à luz dos temas transversais, permitindo uma aproximação entre o científico e o cotidiano.

Não se trata, portanto, de retirar as matérias curriculares da escola, mas de redimensioná-las, considerando o que Moreno denomina a "realidade educativa" da escola, determinada pelas necessidades educativas mais imediatas de alunos e alunas e do ambiente sociocultural do qual eles provêm. Os temas transversais são, nesta ótica, o ponto de partida para as aprendizagens, encaixando-se nos planos de ensino como desencadeadores da aprendizagem com significado.

A partir das idéias apresentadas por Moreno no capítulo inicial, os capítulos seguintes abordam alguns temas transversais, apoiados na perspectiva construtivista defendida pela primeira autora. No capítulo 2, intitulado "Educação para a Saúde", Busquets e Leal apresentam os objetivos da educação para a saúde na escola como diretamente ligados aos interesses vitais das crianças (bem-estar físico, mental e social). Isto confere ao tema educação para a saúde uma conotação de eixo fundamental, o qual liga-se ao conjunto das matérias curriculares, demandando dos alunos uma participação ativa e autônoma em suas atitudes e tomadas de decisões. Enfocar educação e saúde com crianças na escola implica conhecer as formas do pensamento infantil e as interações de meninos e meninas com os meios físico e social. Estas interações provocarão contraposições de idéias, conflitos e desequilíbrio, o que, do ponto de vista construtivista adotado, levará à busca de novos modos de interpretar e atuar sobre a realidade. A inspiração construtivista é evidente: o funcionamento intelectual permite a construção de conhecimentos, cuja elaboração individual é crucial. Ressalta-se duas conseqüências deste fato: 1) não há possibilidade de um indivíduo dar marcha a este processo pelo outro; e 2) qualquer intervenção não poderá nem desconsiderar as capacidades pessoais dos alunos nem limitá-las. As intervenções devem, ao contrário, convertê-las nos eixos principais da atividade educativa. Isto somente será possível se considerarmos o desenvolvimento das formas de pensar e o que Busquets e Leal denominaram estratégias de ensino-aprendizagem, tais como integrar as contribuições infantis aos processos de ensino-aprendizagem e fornecer a informação necessária para avançar no conhecimento que está sendo construído (cf. pp. 74-75). Usando como exemplo o tema dos acidentes e sua prevenção, as autoras destacam o quanto a compreensão de um acontecimento no campo da saúde na escola é ajudada pela matemática, língua escrita e desenho, o que vem corroborar a idéia de que os temas transversais não pretendem substituir as matérias tradicionais e sim atrelar-se a elas.

Igualmente, Cainzos, no capítulo intitulado "O Consumo como tema transversal", liga o tema às características e aos problemas da sociedade de consumo, apresentando-o como um eixo estruturador necessário e recente da educação na escola, o qual deve relacionar-se às matérias tradicionais. Fundamenta sua proposta na história da evolução do consumo na sociedade, localizando no século XX as primeiras manifestações concretas de uma sociedade de consumo massificada, que expressam um modelo de sociedade onde predominam o desenvolvimento do marketing, a introdução de novas técnicas de comercialização e a abundância de produção, dentre outros aspectos. O autor ressalta, ainda, a importância de se considerar e investigar as concepções infantis sobre o consumo, passo inicial para o trabalho deste tema na escola. Ilustra esta necessidade com sub temas como, por exemplo, os alimentos e sua função no organismo, a finalidade da publicidade, destacando níveis de compreensão desses assuntos, em função da idade e das diferentes capacidades das crianças e, também, da menor ou maior clareza do processo de elaboração. Apresenta, a partir daí, os elementos curriculares da educação do consumidor e as propostas de trabalho, que pressupõem uma mudança em relação à organização das disciplinas tradicionais quanto a grupos, matérias, espaços, horários etc. Ilustra estas propostas com alguns temas que podem ser aplicados em sala de aula, ressaltando que eles não esgotam o assunto, nem tampouco podem ser fechados em si mesmos. Ao contrário, devem ser coordenados a outros temas e aspectos que surjam a partir da experiência dos alunos e também dos professores junto a eles. Esta experiência é avaliada por uns e outros sob a forma de relatórios, os quais tratam da avaliação das atividades, do funcionamento do grupo, da relação com o professor etc.

Sastre e Fernández, compartilhando do posicionamento "teórico" a respeito dos temas transversais (apresentado por Moreno), analisam o importante tema da igualdade de oportunidades, no capítulo final da obra intitulado "Como aprender a partir da igualdade de oportunidades". Iniciam apresentando a história da igualdade (ilusória) de oportunidades da escola mista, apontando a determinação masculina subjacente às atividades propostas às crianças e a colocação em segundo plano das capacidades femininas (apesar das conquistas da mulher em todos os campos da sociedade). As autoras propõem a co-educação, ou seja, uma educação que considera as diferenças pessoais sem confundi-las com as diferenças de gênero, repudiando qualquer tipo de discriminação. O tema da igualdade de oportunidades, é explicitamente ligado à ética, e deve direcionar currículos e práticas docentes baseados numa "visão não-androcêntrica" da sociedade. A questão da co-educação toca também o tema da complementariedade entre o público e o privado, e não de sua oposição. Isto significa que um currículo que propõe a co-educação como matéria transversal, deve permitir aos alunos e às alunas estabelecer relações e ordenar os conteúdos curriculares a fim de aprender os fatos científicos, relacionando-os aos fatos cotidianos. A metodologia decorrente desta forma de pensar busca, portanto, organizar contextos para que meninos e meninas possam ter acesso a conteúdos curriculares diversos, de acordo com seus pontos de partida, ou seja, a partir do significado que lhe atribuam. Uma outra metodologia, conseqüência desta proposta, é que se forme uma microssociedade na escola como primeira "maquete" onde são experimentadas as interações não-discriminatórias, o que permitirá aos alunos exercitar o que lhes é explicado de modo formal. Em outras palavras, para aprender ética, nada melhor do que ter a oportunidade de exercitá-la, além de ouvir "lições de ética". O exemplo escolhido pelas autoras para ilustrar este tema pertence à área das ciências sociais, mas, como tema transversal, perpassa várias matérias curriculares tradicionais, o que, mais uma vez, reforça a idéia de interligação entre o longitudinal e o transversal.

Resta-nos concluir este texto dizendo que a proposta espanhola toca de muito perto questões fundamentais da escola em nossos dias, quais sejam, a de como tornar o ensino atraente e interessante para os alunos; como convencê-los de que as matérias tradicionais podem lhes ser úteis um dia; e mais, como favorecer o interesse do educador em ensinar seus alunos, a partir das realidades educativas da escola onde atua. Sabe-se que também no Brasil os parâmetros curriculares estão sendo revistos e novos temas (transversais) têm sido pensados. A experiência espanhola traz, portanto, um depoimento importante a favor da mudança de eixos na estrutura curricular. Resta-nos acompanhar e participar da discussão brasileira do assunto, para encontrar nossos temas transversais fundamentais, adequados à nossa realidade educativa, como diz Moreno. As estratégias, as metodologias e os conteúdos curriculares apresentados nesta obra acrescentam aspectos importantes à discussão brasileira.

 

 

* Resenha do livro de Busquets, M.D.; Cainzos, M.; Fernández, T.; Leal, A.; Moreno, M.; e Sastre G.

** Professora do Departamento de Psicologia da Aprendizagem, do Desenvolvimento e da Personalidade do Instituto de Psicologia da USP