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História (São Paulo)

On-line version ISSN 1980-4369

História vol.27 no.2 Franca  2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-90742008000200007 

PATRIMÔNIO HISTÓRICO

 

O Centro de Documentação Musical da UFPel no horizonte da multidisciplinaridade: articulações entre musicologia histórica, gestão patrimonial e memória institucional

 

 

Fábio Vergara CerqueiraI; Francisca Ferreira MichelonII; Isabel Porto NogueiraIII; Luiz Guilherme Duro GoldbergIV; Maria Letícia Mazzuchi FerreiraV

IDepartamento de História e Antropologia – Diretor do Instituto de Ciências Humanas – Universidade Federal de Pelotas – UFPel – 96010-900 – Pelotas – RS – Brasil. E-mail: fabiovergara@uol.com.br
IIDepartamento de Artes Visuais – Instituto de Artes e Design – Universidade Federal de Pelotas –UFPel – 96010-900 – Pelotas – RS – Brasil
IIIDepartamento de Artes e Comunicação – Instituto de Artes e Design – Diretora do Conservatório de Música de Pelotas – Universidade Federal de Pelotas – UFPel – 96010-900 – Pelotas – RS – Brasil
IVDepartamento de Canto e Instrumentos – Conservatório de Música – Universidade Federal de Pelotas – UFPel – 96010-900 – Pelotas – RS – Brasil
VDepartamento de História e Antropologia – Coordenadora do Curso de Museologia – Instituto de Ciências Humanas – Universidade Federal de Pelotas – 96010-900 – Pelotas – RS – Brasil

 

 


RESUMO

Esse artigo pretende apresentar o programa de memória do Centro de Documentação Musical da Universidade Federal de Pelotas (CDM-UFPEL), no qual se articulam a pesquisa em musicologia histórica, a gestão do acervo histórico do Conservatório de Música de Pelotas (CM-UFPEL) e o estudo de memória institucional. A pesquisa e organização dos suportes de memória incluem a documentação institucional, o acervo de fotografias antigas, o levantamento de fontes orais e a pesquisa junto a fontes primárias escritas (jornais, revistas, almanaques). Através da formação de um banco de dados digital, as informações resultantes dos projetos de pesquisa são organizadas e sistematizadas, visando à disponibilização pela internet. A articulação entre pesquisa em musicologia histórica e procedimentos adotados para gestão de acervos reverte para aproximação entre a memória institucional e a comunidade científica, numa abordagem essencialmente multidisciplinar.

Palavras-chave: Musicologia histórica; Acervos institucionais; Memória; Patrimônio musical.


ABSTRACT

This article aims to present the institutional memory program of the Centre ofMusic Documentation of the Federal University of Pelotas (CDM-UFPEL), which integrates historical musicology research, the organization of historical collections of the Conservatory of Music of Pelotas and the institutional memory studies. The research and organization of the memory sources include institutional documentation, the ancient photography collection, the analysis of oral sources and the primary research sources (newspapers, magazines, and almanacs). Through the creation of a digital database, the resulting information from the research projects is organized and systematized, aimed at enabling public access through the web. The integration of historic musicology research and the procedures adopted in the management of historic collections resulted in the drawing together of the institutional memory and the scientific community, through an essentially multidisciplinary approach.

Key-words: Historic musicology; Institutional collections; Memory; Musical heritage.


 

 

Apresentação: o programa de memória do Centro de Documentação Musical do Conservatório de Música da Universidade Federal de Pelotas

O presente artigo tem como tema central o Centro de Documentação Musical da UFPEL (CDM-UFPEL), que conserva e organiza o acervo histórico do Conservatório de Música da Universidade Federal de Pelotas (CM-UFPEL), criado em 1918.

Apresentamos aqui aspectos relativos às pesquisas – e respectivos resultados – realizadas com este acervo, sob uma perspectiva multidisciplinar, abordagem necessária em virtude da diversidade do acervo, que inclui documentação de ordem escrita, visual e oral. Esta multidisciplinaridade estrutura-se, fundamentalmente, com base na articulação entre a pesquisa em musicologia histórica, a gestão patrimonial e a memória institucional, resultante da atuação do Grupo de Pesquisa em Musicologia da UFPel, no âmbito do Mestrado em Memória Social e Patrimônio Cultural da mesma universidade.

O acervo: diversidade tipológica e multiplicidade de suportes de memória

O Centro de Documentação, conforme os objetivos estabelecidos para a cura da memória musical institucional e regional, compõe-se de duas ordens de registros: testemunhos originais e reproduções ou cópias de documentos. Os testemunhos originais, por sua vez, são compostos por documentos já pertencentes à instituição, quando do início do projeto (partituras musicais, livros de assinaturas, livros de autógrafos, livros de programas de concertos, hemeroteca, fotografias preto-e-branco e coloridas, atas de reuniões do Conservatório de Música, cartas, livros de matrículas, quadros de formatura e mobiliário antigo), e documentos que foram incorporados posteriormente, como resultado da política institucional de gestão de memória. Esta incorporação de novos testemunhos ao acervo documental atua em duas frentes: de um lado, o estímulo à doação de importantes acervos e coleções – como exemplo, relatamos a recente doação do acervo do barítono e primeiro professor de canto da escola, Andino Abreu; de outro lado, a produção de registros orais da memória da instituição, obtidos por meio do desenvolvimento de um programa de História oral. A incorporação de cópias de documentos resulta, fundamentalmente, do projeto de pesquisa realizado juntos aos periódicos antigos, conservados na Biblioteca Pública Pelotense, além de outras fontes documentais, como os almanaques e outras revistas.

Desta diversidade documental advém a composição múltipla deste acervo, que demanda políticas próprias de gestão documental e pesquisa que dêem conta dos suportes de natureza escrita (manual ou impressa, incluindo escrita musical e textual), natureza visual (sobretudo as fotografias antigas, mas também toda a imagética contida nos programas e partituras), natureza oral (nomeadamente os depoimentos obtidos por meio da História oral, articulando memória institucional e histórias de vida) e natureza material (mobiliários, com destaque aos instrumentos musicais, estantes e quadros de formatura). Este espectro plural inerente ao conjunto documental exige abordagens multidisciplinares, ao mesmo tempo em que propicia uma visão êmica da memória musical

O enfoque global

A partir da segunda metade do séc. XX, o ofício do historiador passou a englobar a necessidade do manuseio de diferentes tipos de testemunhos (BLOCH s/data: 47-64), fenômeno caracterizado por Jacques Le Goff como "uma enorme dilatação do campo do documento" (LE GOFF 1986:34). Se, de um lado, o documento escrito recua, ocorre, por outro, uma formidável abertura para o documento oral e o documento imagético, sobretudo o arqueológico figurativo, incluindo-se aí, mais recentemente, o registro fotográfico.

Esta ampliação somente se tornou possível a partir de meados do século passado, sob a influência dos Annales, quando foram revistos vários pressupostos da ciência histórica, entre os quais o conceito vigente na História Metódica de finais do séc. XIX e inícios do séc. XX, que definia somente o documento escrito, e preferencialmente o documento oficial, como fonte histórica válida e confiável, relegando os testemunhos visuais a um lugar desprezível na construção do conhecimento histórico. Nesta perspectiva, predominante até inícios da segunda metade do séc. XX, a iconografia, a História oral ou a Cultura material não preenchiam os requisitos necessários para serem consideradas fontes de pesquisa histórica. As imagens ficavam qualificadas na posição subalterna, como documentos de segunda categoria.

Além disso, a permanência de heranças da epistemologia platônica, sobre as Ciências Humanas do século XIX e boa parte do século XX, contribuía para a rejeição da fotografia como documento histórico, posto que predominava o conceito da imagem enquanto uma aparência que não é nada mais que simulacro do real, de modo que as imagens, diferentemente do texto escrito oficial, gerariam uma percepção ilusória do real (BORGES 2003: 15-35).

O CDM-UFPEL insere-se neste novo cenário aberto pela epistemologia histórica da segunda metade do século XX, cujo amadurecimento precisou aguardar as últimas décadas do século, com a Nova História Cultural, de um lado, e a Arqueologia Pós-processual, de outro. Seja na perspectiva histórica ou arqueológica, colocou-se a diversificação das fontes como método para alcançar a complexidade, a visão êmica, a articulação entre os processos sociais e simbólicos, entre as dimensões materiais e imateriais. A maior virtude em se operacionalizar o estudo lidando com fontes de natureza variada é a incorporação de diferentes perspectivas. A perspectiva musicológica que orienta o programa de memória do CM-UFPEL está em consonância com esta tendência contemporânea: a diversidade dos documentos, abordados de forma articulada, propicia uma visão êmica da sociedade, do passado, da memória, pois permite uma abordagem multifacetada.

As fontes escritas, visuais, orais e materiais, em sua diversidade, travam, entre si, múltiplas relações. O arqueólogo Gilberto da Silva Francisco (2007), ao tratar das relações entre a escrita, a imagem e a oralidade, não somente afirma a independência entre estas fontes, mas, mais que isso, destaca que não é possível estabelecer uma hierarquia a priori sobre o maior ou menor grau de valor destas fontes para o conhecimento do passado, uma vez que palavra – falada ou escrita – e imagem não possuem compromisso diferenciado com o real, pelo contrário, igualam-se, na proximidade ou distância, quanto à sua capacidade de nos revelar do passado, das experiências efetivamente vividas:

Configura-se oposição? Mais coerente é pensar em complementaridade com campos de autonomia e sem hierarquias naturais; dessa forma, cabe entender que quando as hierarquias existem [entre a palavra, falada ou escrita, e a imagem]1*, são socialmente estabelecidas". (FRANCISCO 2007:32)

Assim como a pesquisa histórica em geral, a musicologia histórica contemporânea não pode se bastar com a documentação escrita. Lembremos, como salienta Lévi-Strauss, que a escrita corresponderia a apenas 0,35% da experiência humana, sendo imprudente relegar o visual, o oral e o material a um plano secundário. Esta abertura para a diversidade documental, porém, traz consigo a exigência da multidisciplinaridade, pois, para se articular essas fontes variadas, é necessário que cada uma delas seja estudada levando em conta suas particularidades teóricas e metodológicas.

Deste modo, o programa de memória do CDM-UFPEL desenvolve um espectro multidisciplinar de pesquisas, que propiciará, futuramente, uma interpretação articulada destas diversas fontes. Na etapa inicial de desenvolvimento deste programa, estão sendo realizados os projetos de pesquisa pontuais, estruturados conforme o tipo de fonte: fontes escritas (partituras, programas, livros de matrículas e livros de concertos, assim como levantamento de dados nos jornais, almanaques e revistas antigos), fontes orais (História oral) e fontes iconográficas (fotografias antigas, impressos, ornamentações de partituras e programas, etc.).

Nesta perspectiva, a equipe de pesquisadores vinculados ao CDM-UFPEL, por meio do Grupo de Pesquisa em Musicologia da UFPEL, é integrada por musicólogos e historiadores (com ênfases na história escrita, musical e oral), bem como por historiador da arte e arqueólogo (com ênfases na visualidade e materialidade).

A perspectiva multidisciplinar

Ao relatarmos alguns dos principais projetos desenvolvidos no âmbito do programa de memória do CDM-UFPEL, nosso texto assume inevitavelmente um viés interdisciplinar ao articular a reflexão global sobre o Centro de Documentação e as reflexões pontuais desenvolvidas pelos pesquisadores em seus projetos específicos, baseados em fontes diversas (partituras, programas de concertos, fotografias antigas, História oral, etc.).

Desta forma, o musicólogo Luiz Guilherme Goldberg, além do estudo das edições musicais antigas, preocupa-se com a fundamentação teórica sobre a história imediata, buscada no estudo dos periódicos antigos, tentando articular conceitos da epistemologia histórica contemporânea e da musicologia histórica atual, com destaque ao pensamento de Carl Dalhaus, que oferece embasamento para o trabalho realizado com as noticias de jornal como fonte primária para a pesquisa. Por sua parte, Maria Letícia Mazzucchi Ferreira discorre sobre a contribuição da história oral no âmbito dos projetos desenvolvidos, enquanto Francisca Ferreira Michelon e Fábio Vergara Cerqueira, com perspectivas variadas, que vão da conservação e restauração até a iconografia e a arqueologia da imagem, abordam o tema da contribuição dos estudos da fotografia e da imagem. A musicóloga Isabel Porto Nogueira e o historiador, arqueólogo e iconografista Fábio Vergara Cerqueira preocupam-se com a construção de uma coerência global, do ponto de vista teórico e conceitual, neste todo multifacetado, que inclui metodologias diversas, e em que se pretende promover o diálogo entre universos teóricos distintos.

O CDM-UFPEL é uma atividade pioneira no Rio Grande do Sul, tendo em vista tratar-se de um programa de memória institucional que articula projetos de pesquisa, extensão e gestão patrimonial, a partir do acervo documental da instituição, sendo uma iniciativa vinculada à Universidade Federal de Pelotas, articulando-se ao Conservatório de Música e ao Mestrado Multidisciplinar em Memória Social e Patrimônio Cultural.

Insere-se no campo do estudo das instituições musicais, tanto de ensino como de divulgação da cultura musical. Seu pioneirismo pode ser constatado também neste âmbito, na medida em que, do ponto de vista da metodologia da pesquisa histórica e musicológica, propõe-se articular as evidências escritas, orais, visuais e materiais, diferentemente da entonação predominante entre os estudos em musicologia no Brasil, nos quais os acervos musicais costumam ser limitados aos conjuntos de partituras, aos documentos institucionais ou a acervos pessoais. Observa-se a proeminência de estudos analíticos sobre as obras de um compositor ou estudos biográficos e institucionais, sobre um determinado período, em contraste com a perspectiva adotada pelo CDM-UFPEL, que busca um olhar plural e multifacetado da memória da instituição, em que pesa, por exemplo, o estudo das histórias de vida de ex-alunas e professores, proporcionado pela pesquisa de História oral.

O estudo das instituições musicais no Brasil

O estudo da história das instituições musicais no Brasil é ainda relativamente incipiente, tendo em vista o fato concreto de que poucas instituições guardam acervo relativo à sua trajetória, ao ensino ali desenvolvido e aos concertos promovidos por estas escolas.

No entanto, a simples existência do acervo não basta para o desenvolvimento da pesquisa em música. É necessário que haja um programa de memória, com uma política de organização e sistematização, assim como um trabalho interdisciplinar com outras áreas do conhecimento, para que o acervo esteja disponível para a pesquisa e possa ser devidamente contextualizado. Assim, o trabalho que ora apresentamos está sendo desenvolvido a partir da ação conjunta de pesquisadores em diferentes áreas, visando à composição de um banco de dados virtual para acervos de documentos histórico-musicais.

Com vistas à compreensão global deste programa de memória, apresentaremos um breve histórico do Conservatório de Música da Universidade Federal de Pelotas (CM-UFPEL) e um panorama geral do Centro de Documentação Musical (CDM-UFPEL)e de seus projetos; subseqüentemente, abordaremos os procedimentos metodológicos próprios e perspectivas teóricas específicas adotados no âmbito das três linhas de pesquisa vinculadas ao CDM-UFPEL: 1) pesquisa, sistematização e digitalização da documentação existente (partituras, documentos institucionais oficiais, fotografias antigas, etc.); 2) levantamento de dados junto aos periódicos antigos e outras publicações impressas, como revistas e almanaques; 3) História oral. Procuraremos demonstrar a articulação entre estas linhas e os vários projetos de pesquisa e extensão.

Nas considerações finais, observaremos como o trabalho aponta para uma íntima e necessária relação entre dois níveis: de um lado, o levantamento empírico de dados, através da musicologia histórica, e, de outro, a gestão patrimonial, sinalizando, ainda, para a necessária contribuição destes dois níveis para os estudos e ações em torno da memória institucional.

Panorama histórico do Conservatório de Música de Pelotas na Primeira República, no contexto do Rio Grande do Sul

O Conservatório de Música de Pelotas foi fundado em 1918, dentro do projeto de interiorização da cultura artística, idealizado por Guilherme Fontainha e José Corsi, a partir da capital, Porto Alegre, pretendendo a criação no Rio Grande do Sul de um movimento musical autônomo.

Guilherme Fontainha (1887-1970), professor e pianista mineiro, realizou sua formação musical entre França e Alemanha, especializando-se com os melhores professores de piano em atuação no momento. Regressando ao Brasil, fixou-se diretamente em Porto Alegre, em 1916, exercendo as funções de professor de piano, diretor do Conservatório de Música de Porto Alegre, além de fundar a Sociedade de Cultura Artística da cidade; onde permaneceu até 1924.

Logo após sua chegada ao Rio Grande do Sul, Guilherme Fontainha idealizou, em conjunto com José Corsi, um projeto de "interiorização da cultura artística", que pretendia a criação de um movimento cultural autônomo no Rio Grande do Sul, através do "estabelecimento de uma rede de centros culturais que permitisse a circulação permanente de artistas nacionais e internacionais, além de também promover a educação musical da juventude" (CALDAS 1992:17).

José Corsi, bandolinista húngaro, fundou, em 1913, o Instituto Musical de Porto Alegre. Foi também presidente do Centro Musical Porto-Alegrense e inspetor e organizador da Banda Municipal de Porto Alegre.

O projeto elaborado por Fontainha e Corsi surpreende-nos por seu idealismo, por sua abrangência e pelas estratégias de ação envolvidas, tendo em vista a extensão do estado e as dificuldades de locomoção no período; uma vez que pretendia abranger dezessete cidades do Rio Grande do Sul, onde seriam fundados conservatórios de música que trabalhariam associados a centros de cultura artística.

Preocupamo-nos em explicar aqui o projeto de interiorização da cultura artística de Fontainha e Corsi, porque a fundação do CM de Pelotas está diretamente vinculada a esse processo. O momento em que esta escola foi fundada marcou a consolidação de um projeto que foi pioneiro no Brasil, cujo objetivo era a criação de um movimento cultural que aliasse a educação musical dos jovens à promoção de concertos, posto que previa a atuação de escolas de música em conjunto com centros de cultura artística, encarregados dessa promoção.

Lucas (2005) destaca este momento como um possível teste da modernidade em terras gaúchas, tendo como líderes Guilherme Fontainha, como diretor do CM de Porto Alegre (fundado em 1908), e Antonio Leal de Sá Pereira, como diretor do CM de Pelotas(1918).

O Conservatório de Música começou como idéia a partir do recital do barítono Andino Abreu, realizado em Pelotas no dia 28 de abril de 1918, quando este trouxe uma carta de Guilherme Fontainha endereçada ao Major Alcides Ivo Affonso da Costa, ilustre cidadão local, "na qual sugeria entusiasticamente a criação do Conservatório de Música de Pelotas" (CALDAS 1992: 17). Como conseqüência deste ato, foi realizada, em 4 de junho de 1918, a primeira reunião para formalizar a criação da escola, cuja inauguração aconteceu em 18 de setembro de 1918. Dois meses mais tarde, ocorreu a primeira audição pública de alunas, que teve lugar no Theatro Sete de Abril, em 13 de dezembro do mesmo ano.

O CM-UFPEL é a segunda mais antiga instituição oficial para o ensino de música no estado do Rio Grande do Sul, e o quinto conservatório mais antigo do Brasil.

O CM de Pelotas foi municipalizado em 1937 e participou do processo de fundação da Universidade Federal de Pelotas, em 1969, passando a ser unidade de ensino em novembro de 1983. A escola dedicou-se, desde a sua fundação, às atividades de ensino e de promoção de concertos, sendo na atualidade a única sala de concertos em atividade na cidade de Pelotas, oferecendo mais de oitenta concertos gratuitos anualmente. Juntamente com o CM, funcionaram o Centro de Cultura Artística, de 1919 a 1922, e a Sociedade de Cultura Artística, de 1940 a 1974, sendo responsáveis pela vinda à cidade de Pelotas de grandes nomes da cena artística internacional, como Arthur Rubinstein, Andrés Segóvia, Cláudio Arrau, Ignaz Friedman, Alexandre Brailowsky, Francisco Mignone, Magdalena Tagliaferro, entre outros.

Em 2004, o CM-UFPEL foi reconhecido como Patrimônio Cultural do Estado pela Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul, através de Projeto de Lei proposto pelo Deputado Estadual Bernardo Olavo de Souza.

Os primeiros professores: Sá Pereira e Andino Abreu

Pela importância de sua atuação, uma vez que marcam a linha pedagógica adotada pela escola, cabe observarmos mais detidamente quem foram seus primeiros professores; Antonio Leal de Sá Pereira e Andino Abreu.

Antonio Leal de Sá Pereira, importante intelectual brasileiro cuja formação se deu em um período de dezessete anos de estudos realizados entre França, Suíça e Alemanha, foi diretor artístico e professor de piano do CM de Pelotas, no período de 1918 a 1923, transferindo-se para São Paulo neste mesmo ano para fundar a Ariel - Revista de Cultura Musical, em conjunto com Mário de Andrade. Durante os cinco anos em Pelotas, primeira cidade em que Sá Pereira radicou-se logo que voltou ao Brasil, desenvolveu um importante trabalho promovendo mudanças no panorama cultural da cidade. As pesquisas já realizadas demonstram que Sá Pereira incentivou, junto às alunas do CM, a interpretação da música brasileira e da música contemporânea da época, fazendo com que estas interpretassem Claude Debussy e Heitor Villa-Lobos nas audições públicas da escola no ano de 1919. Além disto, formou um coro de mil vozes, que cantou diante da sede da Prefeitura Municipal de Pelotas, nas comemorações do Centenário da Independência do Brasil; além disso, publicou artigos e criticas sobre música nos jornais locais (NOGUEIRA 2003).

Andino Abreu, professor de canto na cidade nesse mesmo período, foi cantor de sólida experiência nos palcos, desenvolvendo repertório de música brasileira e música de câmara, numa época em que estas eram menos valorizadas socialmente do que a ópera. Observamos que, já radicado em São Paulo, Andino foi um dos primeiros intérpretes de Camargo Guarnieri, sendo responsável também pela primeira gravação mundial das canções de Villa-Lobos, realizadas em Paris, em 1928, onde se apresentou, acompanhado ao piano por Lucília Villa-Lobos, esposa do compositor.

Centro de Documentação Musical da Universidade Federal de Pelotas: sua composição, seu programa de memória e seus projetos de pesquisa

O CDM-UFPEL é um projeto permanente, ligado desde 2001 ao Conservatório de Música da Universidade Federal de Pelotas, que abarca atividades de ensino, pesquisa e extensão universitária, nas áreas de musicologia, história, memória e patrimônio musical, concernentes à cidade de Pelotas e ao Rio Grande do Sul como um todo, constituindo-se no único centro universitário de pesquisa e extensão deste gênero no estado.

O CDM-UFPEL tem como sua base principal de atuação o acervo documental histórico do Conservatório de Música da UFPel, que foi sendo constituído desde a fundação da escola, em 1918, pelos próprios diretores e funcionários. O acervo é de natureza variada: engloba partituras musicais, livros de assinaturas, livros de autógrafos, livros de programas de concertos, atas de reuniões do CM, cartas e livros de matrículas, além de hemeroteca (composta por recortes de jornais) e acervo iconográfico. A partir de 2001, com o trabalho desenvolvido pelo Grupo de Pesquisa em Musicologia da UFPel, este acervo tem-se incrementado, tanto por meio de doações realizadas por ex-alunos e ex-professores da casa, quanto por meio da cópia de documentos originais (sobretudo informações contidas nos jornais antigos), levantados por meio da pesquisa histórica.

Dentre os procedimentos adotados para gestão do acervo e pesquisa, temos, basicamente, três linhas de trabalho:

1) Análise e Gestão do Acervo (Pesquisa, organização, sistematização e digitalização do acervo documental): constitui-se no lento, meticuloso e criterioso processo de classificação, catalogação, guarda e conservação dos conjuntos documentais que compõem o acervo, que visa, além de subsidiar pesquisas, à posterior organização e disponibilização da documentação em um banco de dados digital que relacione as informações de todos os suportes documentais (escritos, visuais, orais e materiais), o qual pretendemos tornar acessível, via internet, a partir da construção da homepage do CDM-UFPEL.

Esta linha de atuação se insere nas reflexões que são objeto da musicologia, conforme adverte Paulo Castagna (2004), quando refere que, até os anos 1980, a musicologia histórica brasileira tratou apenas da constituição de fontes, em um trabalho sistemático positivista que não estava necessariamente aliado a uma reflexão crítica. A partir de então, observamos que passou a ocupar-se desta reflexão crítica sobre os seus acervos.

Ao mesmo tempo em que observa que não foi realizado trabalho suficiente de sistematização destes acervos, alerta sobre a necessidade do trabalho de um musicólogo que alie a sistematização e organização dos acervos à reflexão crítica sobre o mesmo.

Observamos assim que nosso projeto, em que propomos a sistematização do acervo em um banco de dados digital, aliado a trabalhos críticos sobre os documentos ali encontrados, insere-se exatamente nas perspectivas propostas por Castagna, em sua análise sobre a nova musicologia brasileira. Assim, é nesta linha de trabalho que se inserem, por exemplo, os estudos e reflexões relativos à base documental fotográfica, aos programas de concerto e demais documentos oficiais da instituição.

2) Levantamento Documental de Fonte Primária (periódicos antigos e demais fontes primárias impressas, como revistas e almanaques): A investigação histórica que utiliza como fonte os jornais consiste no levantamento e sistematização de notícias e críticas publicadas nos periódicos em circulação na cidade. São objeto do estudo, na etapa inicial da pesquisa, os jornais publicados no período 1918 a 1923, tendo em vista ser este o período de permanência de Antônio Leal de Sá Pereira e Andino Abreu, na cidade de Pelotas. Procede-se a este levantamento em cada uma das edições diárias dos três jornais em circulação na cidade de Pelotas, no período estudado, conservados no Arquivo de Obras Raras e Valiosas da Biblioteca Pública Pelotense: Opinião Pública, O Rebate e o Diário Popular. Buscam-se artigos sobre o Conservatório de Música, sobre concertos ali realizados e sobre todos os aspectos da vida musical da época.

A partir do levantamento, as notícias são transcritas em documento WORD, agrupadas em tipologias e relacionadas em um índice que pretende facilitar a busca posterior. Por meio deste levantamento empírico, a base de dados do Centro de Documentação Musical incorpora, para além do acervo de documentação original, cópias de testemunhos registrados em fontes originais – a imprensa escrita da época.

O levantamento de dados nos jornais antigos, buscando notícias, críticas e aspectos da vida musical, está permeado pelo conceito de história imediata, que, conforme o historiador Jean Lacouture (1988: 217), "não tende apenas a encurtar os prazos entre a vida das sociedades e sua primeira tentativa de interpretação, mas também a dar a palavra aos que foram os atores dessa história". O jornal, portanto, nos colocaria em contato direto com opiniões e percepções contemporâneas aos acontecimentos. Além disso, dada a sua característica de serem meios de comunicação de massa, muito mais do que trazerem aos historiados narrativas acontecimentais, possibilitam o acesso ao plano das representações, portanto, a um nível de subjetividade: como a sociedade da época via a si mesma e queria ser vista. François Dosse (2003: 314), ao referir-se à história das mentalidades de George Duby, considera que esta história imediata enseja "deslocar o olhar do historiador da narração dos fatos passados […] para estudar, a partir dessas mesmas fontes, as representações que uma época tem de si própria, de sua história e em sua subjetividade".

Neste ponto, configura-se a aproximação entre, de um lado, as dimensões do distanciamento e objetividade históricas, e, de outro, as subjetividades da percepção e fruição estéticas, dimensões que se cruzam no estudo da memória da instituição musical e dos repertórios e programas musicais. Aqui se pode inclusive traçar um paralelismo entre o uso dos periódicos, das fotografias antigas e da História oral, na medida em que as críticas musicais, assim como as histórias de vida ou as fotografias de concertistas, são prenhes de abordagens subjetivas. O programa de memória do CDM-UFPEL oscila, portanto, entre História e Memória, entre objetividade e subjetividade, nas narrativas do passado construídas com base em seu múltiplo acervo documental.

Neste ponto, pesa sem sombra de dúvida a ponderação do musicólogo Dahlhaus (1993), que, de certo modo em consonância com a historiografia de inspiração antropológica, alerta para a necessidade de se utilizar critérios, categorias, provenientes da época estudada, tomando cautela para não pecar pelo excesso de anacronismos, mormente saibamos seja impraticável qualquer análise desprendida das preocupações e imaginário contemporâneos, transpostos para as tendências teóricas atuais que influenciam o pesquisador (VEYNE 1989).

Desta forma, e nos valendo do conceito de história imediata, tomamos a pesquisa nos jornais como uma ferramenta complementar na abordagem êmica da memória do CM-UFPEL, pois permite acessar formas de representação da vida musical, bem como dos valores associados à música na vida social da época: supomos que estas matérias de jornal traziam tanto a visão dos que decidiam, naquele momento, o que era digno de ser notícia, bem como os anseios daqueles que os consumiam e que faziam parte da vivência cotidiana de socialização da música na sociedade pelotense das primeiras décadas do século XX.

3) Acervo de Memórias Orais de Músicos (História oral): A terceira linha de trabalho adotada pelo CDM-UFPEL refere-se ao uso da história oral como instrumento metodológico para constituição de acervos de memórias orais de músicos, professores, ex-professores, alunos, ex-alunos, ex-diretores, funcionários e ex-funcionários do CM de Pelotas. Da mesma forma que a pesquisa junto aos periódicos, a História oral permite ampliar o espectro testemunhal do CDM-UFPEL, incluindo a perspectiva subjetiva das memórias. Utilizada tanto na forma de História oral temática como história de vida, tem como escopo, através dessas narrativas, recuperar a dimensão cotidiana da música na cidade, permitindo vislumbrar aspectos tais como as vivências de aprendizagem musical, as concepções pedagógicas e atuação dos professores, os concertos realizados ou ainda a relação do espaço físico do CM-UFPEL com a comunidade no qual está inserido. A análise dessas narrativas orais permitirá também um melhor entendimento do processo de construção de uma memória de grupo, com ênfase no registro musical, colocando, portanto, a necessidade de compreensão e tradução de um repertório específico desse campo.

Ao mesmo tempo, estes dados demonstram que havia, para além do CM, uma rede entre as diversas instituições musicais da cidade, oficiais e não oficiais. É o que se constata na observação de que os músicos que atuavam no CM, professores ou alunos, também o faziam em bandas, como a Sociedade Musical União Democrata, em coros da cidade, além de outras sociedades musicais ou salas de concerto. Esta observação nos leva a pensar que o que poderia ser considerado apenas como uma manifestação de elite – um conservatório atrelado a um já conhecido modelo europeu de escola de música –, na verdade extrapola este senso comum (da suposta2dicotomia erudito versus popular), respondendo aos anseios de uma comunidade em termos da busca da diversidade de práticas musicais.

Como exposto acima, para efetivação da base de dados, sistematização e gestão do acervo, foram organizadas três linhas mestras que coordenam os projetos de pesquisa com os quais atuamos no CDM-UFPEL, a saber: Análise e Gestão do Acervo, Levantamento Documental de Fonte Primária e Acervo de Memórias Orais de Músicos.

Após a descrição dos projetos vinculados a cada uma destas três linhas de trabalho, nos ocuparemos em descrever a forma como estamos constituindo a base de dados digital, que tratará de reunir todas as informações trabalhadas a partir de cada um deste suportes documentais.

Articulações entre Gestão de Acervos, Memória Institucional e Pesquisa em Musicologia Histórica, no âmbito do Programa de Memória do CDM-UFPEL:

A partir deste momento, trataremos então das articulações entre gestão de acervos, memória institucional e pesquisa em musicologia histórica, uma vez que os documentos constantes do acervo do CDM-UFPEL, e que nos falam de memória institucional, dão suporte para a articulação de novos projetos de pesquisa que buscam analisar os documentos existentes e realizar o levantamento de novos documentos para o acervo. Estes projetos de pesquisa também se inserem nas linhas de atuação do CDM-UFPEL, anteriormente descritas, buscando ampliar as possibilidades de compreensão dos lugares da música na sociedade, entendendo que o CM, enquanto única instituição oficial para o ensino da música na cidade de Pelotas, não atuou isoladamente, mas sim em conjunto com outras instituições musicais.

Nesta sessão, para tratarmos da gestão e análise dos acervos, serão descritos e analisados, sucintamente, projetos voltados tanto à gestão quanto às pesquisas baseadas em seus variados corpos documentais.

Os programas de concerto

Na análise dos programas de concerto, após a sistematização do repertório, as obras interpretadas são analisadas segundo o período de composição, o gênero e a vinculação estética. Inclui obras interpretadas por alunos de piano e de canto, bem como por pianistas e por cantores que estiveram realizando concertos na cidade de Pelotas, no período de 1918 a 1974.

Este estudo constitui hoje uma vertente importante da pesquisa musicológica, uma vez que se trata de uma fonte primária que não foi, até o momento, suficientemente documentada e analisada em nível local, regional ou nacional. Apesar de sua relevância para pesquisa, esta categoria de documento ainda não foi submetida a um tratamento sistemático.

Realizar o estudo de programas de concerto de alunos e de concertistas, aliado ao levantamento de críticas e notícias publicadas nos jornais da cidade de Pelotas, significa compreender que o repertório escolhido por um artista ou por um professor para seus alunos reflete a forma como as obras musicais foram recebidas por um determinado público em seu momento histórico. Analisar as relações de recepção, através dos programas de concertos praticados no Conservatório de Música de Pelotas, significa oferecer ferramentas para a reflexão sobre as práticas musicais no Rio Grande do Sul, no âmbito educacional e artístico.

Sobre esta temática, foram realizados os projetos "Práticas Pianísticas na Cidade de Pelotas 1918-1968", em que se analisa o repertório interpretado pelos alunos de piano do CM-UFPEL, e "Recepção e Circularidade da Música Erudita para Piano na Cidade de Pelotas 1918-1968", em que se realiza o estudo dos programas de concerto, das críticas e do repertório interpretado por pianistas que se apresentaram no CM da cidade, no período citado.3

Atualmente, por meio do projeto "Música Vocal de Concerto", estuda-se o repertório interpretado por alunos e professores de canto no período que se estende de 1918, ano de fundação do Conservatório de Música de Pelotas, até 1974, o ano da dissolução da Sociedade de Cultura Artística de Pelotas. O objeto desta pesquisa inclui os programas de concerto das audições de alunos e dos concertos de cantores profissionais, que se apresentaram na Sala Milton de Lemos do Conservatório de Música de Pelotas.

Histórias de vida de músicos: fontes orais

A pesquisa com as histórias de vida de músicos é o fundamento do projeto denominado "Memórias de Músicos", que busca, por meio dos relatos orais, recuperar aspectos das práticas pedagógicas e artísticas, bem como aspectos mais cotidianos do convívio entre músicos e seus espaços de atuação.

O recurso à narrativa oral é decorrente da opção metodológica em privilegiar os relatos biográficos dos sujeitos envolvidos, entendendo que a recordação, articulada e veiculada pela linguagem, dá-se num processo de atualização dessas lembranças no presente. É do presente, portanto de um lugar social específico, que os sujeitos falam de suas identidades, interpretam suas próprias existências, buscando, em suas práticas discursivas, explicá-las e fundamentá-las.

Essa noção de que a evocação parte do presente e de que nele se constroem os sentidos do passado, idéia que fundamentou as teorias de Halbwachs sobre a memória, é ampliada pela constatação de que o passado reinterpretado e trazido ao presente é, na verdade, uma resistência ao desaparecimento. Nem sempre o que é matéria de evocação e narrativa é a transcrição exata do que verdadeiramente ocorreu. A esse respeito, a noção de ucronia, desenvolvida por Alessandro Portelli (1996), nos leva a pensar que o sujeito, ao recuperar, pelo exercício da memória, certos dados do passado, poderá dispô-los em um cenário formador daquilo que este autor aborda como "passados possíveis" – ou, como tudo teria sido se algo tivesse ou não ocorrido.

Um outro elemento fundamental que decorre das entrevistas é a forma como o tempo da narrativa se manifesta no modo narrativo. As descontinuidades, as rupturas, as crises, não são identificadas num tempo que a narrativa dá a perceber como um fluxo contínuo, predominando certa imprecisão do sujeito diante de fatos, datas, eventos demarcados.

Tal como aborda Ricoeur (1995), a narrativa humaniza o tempo que se descola de sua dimensão cronológica e passa a ser uma dimensão do vivido, do fluxo da lembrança e evocação, ao mesmo tempo em que reflete essa inscrição do sujeito numa dimensão mais ampla que é a de sua historicidade.

Jornais, revistas e almanaques antigos: artigos, críticas e vida musical.

Sobre projetos de pesquisa que tratam do levantamento de artigos e críticas publicados em jornais durante o período da Primeira República, temos o projeto "A Música na Revista Ilustração Pelotense (1919-1927)", em que se procede a um levantamento de todas as notícias, imagens e textos publicados sobre música na Revista Illustração Pelotense, durante a integralidade do seu período de circulação (1919-1927). Diferentemente do que ocorre com relação aos periódicos antigos, a Bibliotheca Publica Pelotense, um dos principais acervos documentais públicos da cidade de Pelotas (RS), não possui todos os números desta publicação; tendo se tornado necessário, então, recorrer a acervos particulares, de colecionadores que possuíssem números desta revista.

Uma vez que o projeto "A Música na Revista Illustração Pelotense" recolheu diversas notícias e imagens sobre mulheres musicistas, e tendo em vista que os anos 1920 foram um período em que a figura da mulher sofreu uma importante modificação no contexto social, tornando-se um novo público leitor e adquirindo papéis sociais diferenciados, um novo projeto impôs-se ao grupo. Como forma de realizar levantamento de fontes sobre novos papéis sociais das mulheres, elaborou-se o projeto "Negociações da Modernidade ao Sul do Brasil: um Estudo sobre a Representação das Mulheres Musicistas nas Publicações Periódicas no RS na Primeira República", que se encontra em fase de execução, com o objetivo de identificar as publicações periódicas produzidas por mulheres e/ou voltadas para o público feminino e em circulação no Rio Grande do Sul no período em questão, destacando ali a presença da música. A partir desta identificação, será realizado um levantamento da tipologia dos artigos e imagens ali encontrados, destacando sua contribuição para engendrar o conceito de modernidade através da profissionalização feminina e da relação mulheresmúsica (NOGUEIRA 2003).

Vinculado à mesma linha de investigação, o projeto "A Crítica Musical na Cidade de Pelotas 1918-1930", em que se efetua um levantamento das críticas sobre música publicadas nos jornais da cidade de Pelotas, no período citado, analisa principalmente a produção de Waldemar Coufal, crítico que publicou regularmente nos principais jornais da cidade de Pelotas, sob o pseudônimo "Sol". O levantamento e análise destas críticas publicadas em jornais podem contribuir para estudos sobre os papéis da música na sociedade, assim como para o pensamento estético da cidade.

Outra abordagem, de maior abrangência temática, é o projeto "Música de Papel", que pretende sistematizar os artigos, notícias e críticas sobre música, publicados nos jornais em circulação em Pelotas, de 1918 a 1923, com vistas a identificar quais as práticas musicais em uso na cidade e em quais locais e contextos se manifestavam.

Partituras musicais

No que tange a esta tipologia documental, destacamos o projeto de pesquisa "Edições Musicais na cidade de Pelotas: 1850-1950", que pretendeu realizar um levantamento das atividades relativas às edições musicais, impressão e publicação, envolvendo principalmente partituras musicais editadas e/ou impressas na cidade.

O levantamento revelou as partituras da comédia-opereta "Os Bacharéis", composta em 1894, por João Simões Lopes Neto, com música do maestro uruguaio Manoel Acosta y Olivera. Estas partituras geraram um projeto de pesquisa específico, que tratou da reconstituição da parte lírica e orquestral desta obra, com vistas a possibilitar a sua encenação e tornar novamente viável e disponível ao público e pesquisadores um patrimônio literário, cênico e musical do Rio Grande do Sul e da obra de Simões Lopes Neto. A pesquisa envolveu o levantamento das partituras, manuscritos, artigos e crônicas de jornais sobre a encenação da opereta, bem como a reconstituição da partitura com a possível orquestração da época, cujos originais encontrados consistiam em partituras para piano.

Acervo fotográfico: memória iconográfica da instituição

Representando uma linha de pesquisa especifica sobre a história institucional, temos o projeto que originou o livro História Iconográfica do Conservatório de Música da UFPel (2005), que tratou principalmente das fotografias e imagens do acervo histórico da escola. Nesta obra, aliaram-se, à análise das fotografias, os programas de concerto e estudos sobre a importância da escola no Rio Grande do Sul.

Encontra-se em curso o lento e meticuloso estudo e sistematização de todo o acervo fotográfico da escola, incluindo ademais as fotografias identificadas nos periódicos e nas revistas musicais, como resultado dos projetos "Música de Papel" e "Música na Revista Illustração Pelotense".

Nas fotografias de músicos encontradas no acervo do CDM-UFPEL e nas revistas pesquisadas, há notoriamente um sentido de pose, de configuração ideal que se coaduna com o desejo do retratado de ser representado idealmente para a sociedade a qual se apresenta. E esse tipo de fotografia, o retrato de estúdio, é capaz de situar essa elaboração através de artifícios. Esses artifícios juntamente com os elementos constitutivos da imagem: corte fotográfico, luz e enquadramento, é que possibilitam a criação de diversas máscaras sociais, que ratificam a elaboração ficcional do retratado em personagem. Por isso, ao posar, essas mulheres, conscientes de que seriam vistas pelo seu público, deixam-se fotografar afirmadas na idéia que estão mostrando sua personagem, a intérprete, a atriz. Tais considerações fazem pensar sobre aquantidade de informação e os dados que podem advir desse conjunto documental constituído pelas fotos impressas. Sobre essa consideração justificou-se o empenho em organizar um banco de fotografias do acervo, a partir da digitalização das imagens e organização por categorias.

Portanto, a análise iconográfica pretendida considerou que a fotografia é, acima de tudo, uma representação a partir do real. Daí porque se faz necessário analisar o meio em que foi produzida, ou seja, o contexto social e cultural, assim como se faz necessário avaliar algumas questões que eram próprias do período, para que se tornem concretos os dados que levam aos significados destes retratos. A fotografia, na sua condição de um recorte no fluxo do tempo, impõe a situação de ser uma elaboração técnica, e mesmo assim resultado de criação, na qual são determinantes as relações de intermediação entre o meio cultural onde o fotógrafo está inserido, seu repertório individual e a imagem ideal pela qual o fotografado gostaria de ser visto.

Mesmo sendo uma elaboração técnica, estética, idealizada, há certa inevitabilidade em atribuir à imagem fotográfica a qualidade de ser um documento, porquanto lhe é inerente ter em sua gênese a característica de ser própria de um contexto e lugar, de ser conseqüência, em partes, de um contexto. Qualquer estudo, neste sentido, deve partir de um conjunto organizado que permita a análise do conteúdo iconográfico da imagem em conformidade com a legenda e demais informações que venham ampliar o espectro de significados possíveis. Sobretudo, há que se considerar que a peculiaridade das imagens impressas está no fato de trazerem consigo denominações oriundas de legendas ou do contexto da matéria ou da página, o que faz com que essas imagens impressas apresentem capacidade narrativa favorável à interpretação de um passado em partes já sombrio e inexato. Assim, se uma fotografia pode ser um oceano de possibilidades, quando se concorda com a idéia de que para saber há que se imaginar (DIDI-HUBERMAN 2004), mesmo um retrato pode ser um caminho para o encontro com o passado. Não que a fotografia possa na sua fixidez muda afirmar alguma coisa, mas ela sugere perguntas e no exercício para respondê-las, a imaginação flui através do que parecem ser realidades. Não se descarta de tal fluência a criação (não se duvida do estímulo criativo que uma fotografia, uma que seja, proporciona), mas o que há de concreto em uma imagem fotográfica é sua origem, seu inevitável elo com o referente (BARTHES 1984). Outorgada a esta a condição de fonte, a fotografia revela suas formas inequívocas: endosso da memória, convite à imaginação. Mas ao se crer que toda fonte se capacita de tal forma e que o diferencial está na proporção em que memória e imaginação operam a partir da imagem, então a fotografia é uma fonte que reúne as possibilidades de interpretação da realidade com a esperança de enxergá-la no tempo findo. Afirmado inventário da mortalidade (SONTAG 2004), a fotografia conduz o viajante do tempo ao inapreensível: ao momento de captação no qual a cena e seus personagens se rendem à morte, ou à mortuária fixidez do tempo cunhado na imagem.

Com o fito de registrar e interpretar a memória da instituição contida no valioso repertório fotográfico conservado no CDM-UFPEL, foi desenvolvida, entre 2001 e 2002, a pesquisa iconográfica Memória fotográfica do Conservatório de Música (1918-1969), que teve como objetivo sistematizar e interpretar o acervo de fotografias preto-e-branco, procedendo-se à catalogação e reprodução eletrônica4 das imagens, com o fito de propiciar a criação de um banco de dados digitalizado, que permitirá a consulta sem o contato direto com as fotografias (fato fundamental para a conservação das mesmas). Desta forma, esta linha de pesquisa se relaciona com o trabalho de levantamento de dados em periódicos, uma vez que a sistematização e análise de fotografias e imagens ali encontradas farão parte do banco de dados do CDM-UFPEL.

A pesquisa realizada entre 2002 e 2003 resultou em um catálogo fotográfico que inclui as fotografias em preto-e-branco, do período de 1918, ano da fundação do CM de Pelotas, até 1969, quando da agregação desta instituição à Universidade Federal de Pelotas, na oportunidade de sua fundação. Este catálogo fotográfico é, portanto, um estudo iconográfico da história do CM-UFPEL, baseado numa rigorosa classificação temática. Esta classificação temática auxilia na compreensão das formas como o registro fotográfico representa e gera memória da instituição.

Pode-se notar que existe uma dualidade que permeia a todo tempo a fotografia, enquanto linguagem imagética. Ao mesmo tempo em que ela possui elementos do real, ela é uma escolha feita pelos agentes históricos, os quais procuram transmitir através dela a sua visão da instituição, das pessoas envolvidas, visão essa prenhe da dimensão simbólica constitutiva da percepção do real. A fotografia, como de resto o conjunto dos testemunhos históricos produzidos intencionalmente, são o "produto de uma certa orientação da História" (LE GOFF 1986:34). Portanto, os administradores do Conservatório, por exemplo, desejavam, através da imagem fotográfica, mostrar uma instituição grandiosa, opulenta, o centro de onde irradiaria toda uma cultura erudita. Já o artista, que enviava sua foto à instituição, presenteando-a como lembrança ou como apresentação profissional, desejava mostrar-se mais que talentoso: queria apresentar na fotografia seu compromisso com o "belo", com a idealização de refinamento e elegância da época. Além disso, não podemos esquecer que a fotografia é um instrumento usado para eternizar alguns momentos, ou pelo menos retardar o esquecimento dos mesmos. Quando a fotografia registrava a memória de uma instituição, carregando consigo sua auto-imagem, não se escolhia retratar o comum e o simples cotidiano, mas o especial, o raro, um momento de muita importância. Portanto, ao trabalhar com fotografia, e mais que isso, com memória, devemos ter em conta uma relação existente entre lembrança e esquecimento. Nota-se, desta maneira, que a fotografia mistura o real e o imaginário, sintetizando ambos em uma imagem bi-dimensional e ambivalente. (CERQUEIRA e OLIVEIRA 2005, p. 45)

Estudos biográficos: os primeiros professores – Andino Abreu e Sá Pereira

Os primeiros professores de canto e de piano da escola, respectivamente Andino Abreu e Sá Pereira, são objeto de um projeto de pesquisa especifico. O projeto "Sá Pereira e Andino Abreu: modernistas na Pampa por volta de 1920" pretende realizar um levantamento, estudo e análise da produção destes dois artistas e professores no período 1918-1923, quando os dois desempenharam, no CM de Pelotas, as funções de diretor e professor de piano, o primeiro, e professor de canto, o segundo.

Focando-se no estudo do repertório de Andino Abreu e Sá Pereira, articulam-se algumas perspectivas de análise e bases documentais: o estudo comparado dos repertórios desses professores e de seus alunos de canto e piano, conforme os programas de concerto; as críticas musicais a esses concertos; os artigos escritos por Sá Pereira e publicados nos jornais da cidade no período.

De forma complementar, o projeto inclui um estudo sobre a formação e a recepção do Coro dos Mil, agrupação coral que Sá Pereira regeu diante da Prefeitura Municipal de Pelotas, nas comemorações do Centenário da Independência do Brasil (1922), e para a qual escreveu uma harmonização do Hino Nacional Brasileiro, publicada nos jornais locais da época.

História das instituições musicais no Rio Grande do Sul

Referimos ainda o projeto de pesquisa intitulado "Instituições Musicais no Rio Grande do Sul no Período 1915-1925: um Estudo sobre o Projeto de Interiorização da Cultura Artística de Guilherme Fontainha e José Corsi", que prevê os seguintes objetos de estudo: a atuação de ambos como idealizadores e articuladores deste projeto; as circunstâncias de sua vinda para o Rio Grande do Sul; o levantamento de dados sobre as cidades envolvidas no projeto, identificando as estratégias desenvolvidas por Fontainha e Corsi para a implantação do projeto. Do mesmo modo, pretendemos identificar os professores, músicos e intelectuais que colaboraram com este projeto de interiorização, em cada uma das cidades envolvidas, realizar o levantamento de documentos sobre os conservatórios e os centros de cultura artística fundados no período, realizar entrevistas e proceder ao levantamento de noticias de jornal referentes à fundação destas instituições, com vistas a constituir um banco de dados que possa oferecer material para a análise crítica da história da música no Rio Grande do Sul.

Uma vez que o CM da cidade de Pelotas foi fundado, em 1918, como parte deste projeto mais amplo de interiorização da cultura artística, entendemos que este projeto pode lançar luzes sobre como se deu este processo, oferecer ferramentas para o entendimento da cena musical gaúcha neste período e compreender este momento de modernidade no estado do Rio Grande do Sul.

Banco de dados digital: a gestão de acervos dialogando com a pesquisa em musicologia histórica

Articulando a gestão de acervos com a memória institucional, está sendo elaborado um banco de dados digital contendo as informações sistematizadas pelos projetos de pesquisa, onde, independentemente dos suportes documentais, as mesmas possam ser caracterizadas e inter-relacionadas em uma busca rápida através de palavras-chave.

Para a realização do projeto de criação do Acervo Digital doCDM-UFPEL, foi utilizado o programa ACCESS, da Microsoft, posto que este programa apresenta-se como de fácil manuseio por usuários.

Primeiramente, foi criada uma tabela para cada material a ser catalogado, em que são registradas as informações referentes a cada um dos suportes documentais, e a seguir foram criados formulários para a inserção nas tabelas dos dados referentes aos documentos.

Sobre as ferramentas de pesquisa dentro do banco de dados, o pesquisador deverá escolher a base de dados na qual deseja pesquisar, onde determinará os critérios de pesquisa ou utilizará os critérios pré-determinados pelos dados de cada suporte documental.

Entendemos que um banco de dados digital é uma ferramenta eficaz para a articulação entre memória institucional e gestão de acervo, além de possibilitar, ao ser disponibilizado virtualmente na rede internet, uma grande interatividade, entre o CDM-UFPEL e aqueles que têm interesse pela história da música na cidade de Pelotas e no RS.

Considerações finais

Indelevelmente multidisciplinar, o Programa de Memória do Centro de Documentação Musical da Universidade Federal de Pelotas tem cumprido um importante papel no âmbito da pesquisa em música no Rio Grande do Sul.

Cabe destacar aqui o reduzido número de trabalhos anteriores sobre acervos institucionais e a descontinuidade de trabalhos sobre a memória e o patrimônio musical do Rio Grande do Sul, o que tornam este um terreno fértil para novos trabalhos.

Mas destacamos principalmente a proposta metodológica do trabalho interdisciplinar, que pretende congregar horizontes teóricos distintos e práticas colaborativas entre musicólogos, arqueólogos e historiadores de diferentes especialidades.

Entendemos que este trabalho de pesquisa apresenta inovações consideráveis para a prática da pesquisa em música, tendo em vista que faz com que um acervo institucional dialogue com novos documentos, fontes e metodologias para o estudo da musicologia histórica, tais como as fontes orais, os programas de concerto, os periódicos e os almanaques.

Ao mesmo tempo, ao congregar em sua prática projetos de pesquisa e extensão, que buscam aliar a gestão patrimonial à memória institucional, propõe uma forma ativa e dinâmica para o trabalho de um grupo de pesquisa, que pretende ir além de suas implicações acadêmicas e objetiva um diálogo além-fronteiras.

Destacamos aqui a realização, em 2007 e 2008, do Projeto Memorial da Música, projeto que pretende a apresentação do trabalho realizado sobre a memória e o patrimônio musical do Rio Grande do Sul para alunos de escolas de ensino fundamental, onde a gestão patrimonial e a memória institucional adquirem um novo âmbito, a partir da divulgação e do destaque dado ao trabalho de pesquisa realizado de forma interdisciplinar no âmbito da musicologia histórica.

Neste sentido, cabe destacar o recente reconhecimento a este trabalho, concretizado com a doação, em dezembro de 2007, do acervo pessoal do barítono e primeiro professor de canto do Conservatório de Música da Pelotas, Andino Abreu, realizado por sua filha, a também cantora Helena Abreu Pacheco. Esta doação nos fez depositários de um material que compreende partituras, programas, críticas e fotografias da trajetória desse representativo artista brasileiro.

Desta forma, compreendemos que o trabalho que aqui descrevemos aponta para uma perspectiva multidisciplinar, ao congregar os estudos da história, musicologia e arqueologia no âmbito da memória institucional, na medida em que estes enfoques colaboram para a criação de um programa de memória que prioriza a leitura interligada das múltiplas fontes, constitutivas do acervo institucional, as quais alimentam a pesquisa e refletem-se nas ações para a gestão patrimonial.

 

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NOTAS

1 Acréscimo à citação original do autor.

2 Banda musical fundada na cidade de Pelotas em 1896, de posição marcadamente anti-racista posto que, ao contrário das outras bandas da cidade à época, costumava aceitar negros e mulatos entre seus músicos. É uma das mais antigas bandas do estado do RS ainda em atividade.

3 Uma proposta de análise de programa de concertos encontra-se também em GOLDBERG 2006: 425-442.

4 As fotos grandes são escaneadas na resolução de 350 dpi e as pequenas na resolução de 500 dpi. Quando elas têm como finalidade a impressão, são colocadas no formato tif e no modo CMYK. Enquanto, para sua colocação no Banco de Dados digital, são colocadas no formato jpg (que é mais compacto e de menor tamanho) e no modo RGB.

 

 

Artigo recebido em 10/2008.
Aprovado em 11/2008.

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