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Horticultura Brasileira

Print version ISSN 0102-0536

Hortic. Bras. vol.26 no.4 Brasília Oct./Dec. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-05362008000400002 

ARTIGO CONVIDADO INVITED ARTICLE

 

 

Contribuição portuguesa à produção e ao consumo de hortaliças no Brasil: uma revisão histórica

 

The Portuguese contribution to the production and consumption of vegetables in Brazil: an historical review

 

 

Nuno R MadeiraI; Francisco JB ReifschneiderI; Leonardo de B GiordanoII

IEmbrapa Hortaliças, C. Postal 218, 70359-970 Brasília-DF
IIPesquisador aposentado, Embrapa Hortaliças; nuno@cnph.embrapa.br

 

 

 


RESUMO

Após a descoberta do Brasil em 1500 e o início da colonização sistemática em 1530, os portugueses foram paulatinamente se estabelecendo ao longo do litoral brasileiro. Ocorreu então, promovido pelos colonos, navegadores e jesuítas portugueses um amplo processo de troca de plantas, dentre elas as hortaliças, entre Portugal, Brasil e as outras possessões portuguesas na África e na Ásia. Além de diversificar a alimentação, estas introduções serviram de material básico para o melhoramento genético, muitas vezes realizado de forma empírica, na adaptação destas espécies às condições edafoclimáticas brasileiras. A partir do século XVIII, intensificouse a imigração portuguesa para o Brasil em função da descoberta de ouro nas Minas Gerais, verificando-se também um forte surto urbano. Também, em meados do século XVIII, ocorreu a imigração sistematizada de açorianos para o Sul do Brasil. Com eles, muitas variedades de hortaliças, especialmente de cebola e cenoura. Em cebola, a maioria das variedades brasileiras são originárias deste material. A partir de seleção dentro da cultivar portuguesa Garrafal, originou-se a cultivar de cebola Baia-Periforme, cultivar mais plantada no Sudeste até o advento dos híbridos. Também as cebolas do tipo Crioula, até hoje as mais plantadas no Sul do Brasil, são originárias de material vindo dos Açores. Em cenoura, o chamado germoplasma tropical, também seleção de materiais trazidos pelos açorianos, foi base para o melhoramento genético de cenoura tropical, culminando com o lançamento da cultivar Brasília em 1981 até hoje o material mais plantado no verão. Os portugueses deixaram profundas heranças para a cultura brasileira, determinando alguns de nossos hábitos, entre eles os alimentares. No ano em que se completam 200 anos da vinda da família real portuguesa ao Brasil, aproveitamos a oportunidade para falar sobre as contribuições lusas na introdução, na produção e no consumo de hortaliças no Brasil.

Palavras-chave: Imigração, introdução de variedades, intercâmbio de germoplasma.


ABSTRACT

After the discovery of Brazil in 1500 and the beginning of its systematic colonization in 1530, the Portuguese have gradually settled along the Brazilian coast. An extensive exchange of plants, including vegetables, took place among Portugal, Brazil and other possessions in Africa and Asia by the Portuguese colonizers, sailors and Jesuits. In addition to diversifying the food, these introductions served as basic materials for breeding, often carried out empirically, searching the adaptation of these species to Brazilian soils and climate. After the eighteenth century, with the discovery of gold in Minas Gerais, Portuguese immigration to Brazil was intensified, with a strong urban development. Also, in the middle of the eighteenth century, there was a strong and systematized immigration from Açores to the South of Brazil. With it, many varieties of vegetables, specially onion and carrot, were brought to Brazil. Most of the Brazilian varieties originated from this material. Cultivar Baia-Periforme, the predominant onion variety in the Brazilian Southeast until the advent of hybrids, originated from selection within the portuguese cultivar Garrafal. The Creole onions, still today the most planted in Southern Brazil, were originated from germplasm brought by the Azoreans. In carrots, the so-called tropical germplasm, formed by selection of materials brought by the Azoreans, was the basis for the genetic improvement of tropical carrot, culminating with the release of cultivar Brasilia, in 1981, the most planted cultivar in summer. The Portuguese have left a profound legacy for Brazilian culture, present in some of our habits, including food habits. In the year we are completing 200 years of the arrival of the Portuguese royal family to Brazil, it is our opportunity to mention the Portuguese contributions to the production and consumption of vegetables in Brazil.

Keywords: Immigration, introduction of varieties, germplasm exchange.


 

 

"Este Brasil é já outro Portugal, e não falando no clima que é muito mais temperado e sadio, sem calmas grandes, nem frios, e donde os homens vivem muito em poucas doenças, como de cólica, fígado, cabeça, peitos, sarna, nem outras enfermidades de Portugal; nem falando do mar que tem muito pescado, e sadio; nem das cousas da terra que Deus cá deu a esta nação..." Fernão Cardim, 1625.

 

Brasil foi achado, segundo termo empregado pelo jornalista e historiador Bueno (2000), pelos portugueses a 22 de abril de 1500, referindo-se ao descobrimento do Brasil como uma mera formalização da posse de territórios já anteriormente visitados por outros navegadores que, entretanto, não estavam autorizados a reivindicar a posse destes territórios em nome de suas respectivas coroas. E todos os bons e maus hábitos portugueses, como ressalta Antonil1 foram transportados da matriz para sua nova colônia (André João Antonil, 1711). A partir de 1500, os colonos passaram a se estabelecer na nova possessão. De início, aqui foram deixados degredados, isto é, pessoas indesejáveis em Portugal como ladrões e traidores que tinham como pena o degredo no Brasil. Os primeiros colonos foram abandonados à própria sorte e acabaram sendo respeitados, temidos e acolhidos ou eliminados e até mesmo comidos pelos grupos indígenas que viviam no litoral.

Nas primeiras décadas do século XVI, a imigração portuguesa para o Brasil foi pouco significativa, pois a Coroa Portuguesa adotou por estratégia investir na expansão comercial nos continentes asiático e africano, deixando suas possessões nas Américas para um momento posterior. Era gigantesco o desafio para a pequena população portuguesa pela enormidade do território sob seu controle, praticamente todo o litoral africano e grandes porções na Ásia, em especial na Índia e nas Molucas (parte da atual Indonésia). Entretanto, alguns anos após o descobrimento, piratas franceses e de outras nacionalidades começaram a rondar o território brasileiro, traficando principalmente paubrasil em terras sob domínio luso, o que obrigou a Coroa Portuguesa a começar efetivamente a colonização do Brasil. A coroa então dividiu a colônia em capitanias hereditárias em 1530 e repassou sesmarias a colonos que tinham um prazo para desenvolvê-las.

Assim, segundo Bueno (2006), a verdadeira colonização do Brasil mediante a imigração sistemática, teve seu início em 1530 após a famosa expedição de Martin Affonso de Souza e a fundação da primeira vila brasileira, São Vicente, na Baixada Santista. Mais que uma simples Feitoria, a Vila de São Vicente desenvolveu-se, tornando-se sede de próspera capitania. A partir de então, numerosos portugueses foram paulatinamente se estabelecendo ao longo do litoral brasileiro, desde a foz do Amazonas até o estuário do Rio da Prata. Eram atraídos pela exuberância de sua natureza e prodigiosidade de seu solo adequado ao cultivo agrícola e ao pastoreio e, posteriormente, pelos tesouros em seu subsolo. A isso se aliava a relativa facilidade de obtenção do braço indígena trabalhador, pois os brasilíndios litorâneos eram pouco hostis aos primeiros desbravadores.

Vieram nesse período portugueses de todos os tipos: ricos fazendeiros, aventureiros, mulheres órfãs, degredados, empresários falidos e membros do clero. O foco da imigração foi o Nordeste brasileiro onde as plantações de cana-de-açúcar estavam em pleno desenvolvimento. Esta imigração ficou marcada pela masculinidade da população, em função da imagem do Brasil como uma terra selvagem e perigosa, difícil para as mulheres portuguesas, havendo inclusive o envio pela Coroa de mulheres órfãs para suprir a falta de mulheres portuguesas. Ainda assim, as mulheres indígenas e africanas, oriundas do florescente e terrível tráfico de escravos, acabaram por substituir a falta de portuguesas, acarretando ampla miscigenação (GNU FDL, 2008). Isso influenciou nossa cultura e, consequentemente, nossos hábitos alimentares, caracterizados pela mescla de sabores entre a grande diversidade de espécies exóticas introduzidas pelos colonizadores e de espécies nativas, efetivamente já utilizadas pela população indígena que habitava o Brasil.

Em 1711, o famoso livro-marco da história do desenvolvimento brasileiro, o Cultura e Opulência do Brazil por suas Drogas e Minas escrito por Antonil, registrava com detalhes a produção de cana-de-açúcar e fumo e ressaltava a vastidão da pecuária em todo o território. Dava uma idéia detalhada dos processos sociais da agricultura e particularmente das relações entre o senhor do engenho e todos os outros que com ele interagiam e destacava a preponderância da agricultura sobre as minas. É interessantemente mudo com relação às hortaliças, já amplamente cultivadas no país. Possivelmente, a decisão estratégica de Portugal de reservar ao Brasil a posição de grande produtor de açúcar e fumo e concentrar as especiarias (entre elas olerícolas como o gengibre) no Oriente, apesar de ter inicialmente feito as introduções destas no Brasil, em Angola e em São Tomé já no início do século XVI. E Dom Manuel mandou-as destruir e proibiu o seu cultivo. É sabido, todavia, que a força das ordens reais perdia-se sempre na distância...

Após a restauração, nome dado à reconquista da independência de Portugal em 1640, isto é, o regresso à sua independência plena em relação à Castela, em que por questões de herança as coroas de Portugal e Castela couberam simultaneamente a Felipe II, III e IV de Castela em um regime de monarquia dualista que durou 60 anos, dá-se o reconhecimento de que Portugal perdera o comércio das especiarias orientais, levando o Rei de Portugal, D. Pedro II, a tentar estabelecer um novo pólo de especiarias no Brasil. Desde 1677, pelo menos, foram enviadas várias remessas de plantas vivas e sementes pelos barcos que aportavam no Brasil a caminho de Lisboa para as deixarem em vários locais do próprio Brasil e nas colônias da África (Ferrão, 1993).

A introdução de hortaliças

A colonização do Brasil pelos portugueses provocou, sem dúvida, um dos mais amplos processos de troca de plantas entre a Europa, as novas terras descobertas e as outras possessões na África e na Ásia. Do reino e das ilhas, os colonos e os navegadores portugueses trouxeram, além da cana-de-açúcar e da videira, outras fruteiras (limoeiros, laranjeiras, cidreiras, figueiras, romãzeiras) e as hortaliças (alfaces, couves, repolhos, nabos, cenouras, pepinos, espinafres, cebolas, alhos, mostardas, tomates, gengibres, inhames). Os Padres da Companhia de Jesus, que chegaram ao Brasil a partir de 1549, possivelmente foram ativos também na introdução de hortaliças no Brasil. As contribuições dos Jesuítas na introdução de algumas espécies, como a canela, é bem conhecida e documentada (Ferrão, 1993). Aos 21 de julho de 1773, o Papa Clemente XIV assinou o Breve "Dominus ad Redemptor" que suprimiu a Companhia de Jesus. É incalculável a contribuição dos jesuítas com relação à difusão do cultivo e do consumo de hortaliças durante os mais de duzentos anos de sua permanência no Brasil.

Os legumes europeus foram introduzidos desde os primeiros anos de colonização. O padre jesuíta Fernão Cardim, que chegou ao Brasil em 1583, relata: "Melões não faltam em muitas capitanias, e são bons e finos; muitas abóboras que fazem conserva, muitas alfaces, de que também a fazem couves, pepinos, rabões, nabos, mostarda, hortelã, coentros, endros, funchos, ervilhas, gergelim, cebolas, alhos, borragens, e outros legumes que do Reino se trouxeram, que se dão bem na terra." (Fernão Cardim; Ana Maria de Azevedo [ed lit], 1997). Os textos do padre Fernão Cardim foram escritos entre 1583 e 1601 e mantiveram-se inéditos durante séculos, só vindo a ser parcialmente divulgados em língua portuguesa em 1847. Na relação das hortaliças apresentadas pelo padre Cardim nota-se a ausência do tomateiro que, entretanto, encontra-se presente na relação das hortaliças cultivadas no Brasil em trabalho publicado em 1730 e citado por Ferrão (2005). Portanto, pode-se depreender que, possivelmente, a introdução do tomateiro como cultura hortícola no Brasil ocorreu após 1601, época em que já havia sido introduzido na Espanha, Itália e Inglaterra.

A introdução de várias espécies e variedades de hortaliças, além de diversificar a alimentação dos primeiros colonizadores, serviu de material básico para o melhoramento genético, na busca por uma melhor adaptação destas espécies às diferentes condições edafoclimáticas encontradas no Brasil. Outras introduções tornaram-se indispensáveis à culinária regional em algumas regiões brasileiras. Neste particular, destaca-se a tradicional "couve mineira", herança de um dos produtos mais representativos da culinária portuguesa, que criou raízes profundas no solo mineiro devido à forte presença lusa na província das Minas Gerais durante o ciclo do ouro. Entretanto, deve-se ressaltar que em terras lusas as variedades de couve mais usadas são do tipo tronchuda, enquanto que no Brasil as couves do tipo manteiga "pé alto" adaptaram-se melhor.

Outra contribuição, esta indireta e bem menos honrosa para os portugueses, mas que ocorreu de fato e que hoje resultou no enriquecimento ainda maior do miscigenado povo brasileiro, foi, em decorrência do tráfico de escravos promovido pelos portugueses, o fluxo de materiais africanos, como os inhames, o quiabo, o jiló e o maxixe, entre outros.

A introdução dos "inhames" africanos e asiáticos no Brasil deve ter sido realizada nos primeiros anos da colonização portuguesa, pois serviam, nos navios, de alimento da tripulação e dos escravos durante as longas viagens marítimas dos portugueses (Ferrão, 2005). Os "inhames" eram alimentos estratégicos para a armada portuguesa, à semelhança dos repolhos para a armada Holandesa, pois reduziam o aparecimento de escorbuto durante o período das grandes navegações. O inhame da espécie Dioscorea alata foi introduzido da Ásia e as espécies D. bulbifera, D. cayanensis, D. dumentorum e D. rotundata são originárias da África Ocidental (Ferrão, 1992), todas cultivadas nas regiões Norte/Nordeste do Brasil (Pedralli et al., 2002). O taro (Calocasia esculenta), comumente chamado de inhame no Sudeste e Sul do Brasil, cuja origem é o Sudeste Asiático e Oceania, foi outra cultura introduzida pelos portugueses na nossa dieta.

Incentivo ao consumo e à produção de hortaliças

A partir do século XVIII, intensifica-se a imigração portuguesa para o Brasil em função da descoberta de ouro nas Minas Gerais e do aprimoramento dos meios de transporte. No início do século XVIII, a cultura da cana-de-açúcar e as minas de ouro tornaram-se os principais motores da economia da colônia e o desenvolvimento e riqueza trazidos pelo ouro atraiu um grande contingente de colonos portugueses. O surto urbano que se deu na colônia graças à mineração fez crescer as ofertas de emprego para os portugueses, antes quase que exclusivamente rurais e, agora, profissionais do comércio. A maior parte desses imigrantes vieram do Minho, província ao Norte de Portugal, fixando-se principalmente na região Centro-Oeste e no estado de Minas Gerais. Pela vinda em larga escala de colonos, a língua portuguesa tornou-se dominante no Brasil em meados do século XVIII, em substituição ao tupi-guarani ou língua geral (GNU FDL, 2008).

Particularmente, momento crucial e que este ano completa dois séculos, foi a vinda da família real e sua comitiva em 1808 (mais de oito mil pessoas), a elite da sociedade portuguesa. Por uns é vista como uma fuga covarde e por outros como uma estratégia de guerra. Fato é que esta medida poupou Portugal do inevitável massacre frente às tropas napoleônicas. E o gosto dos portugueses pelas terras d'além mar foi tanto que o Rei D. João VI ficou por aqui por 13 anos, regressando à Portugal somente em virtude de percalços políticos que o obrigavam a isso. Chegando ao Rio de Janeiro, em 08 de março de 1808, e instalando-se abusivamente nas casas dos senhores mais abastados, ao assumir a rotina diária, os portugueses sentiram falta de seus alimentos e passaram a promover sua produção e consumo em maior escala. Consigo traziam novas cultivares de couve, cenoura, cebola, batata, alface, entre outras hortaliças. Esta demanda e a resultante abundância de hortaliças no Brasil imperial de 1853 é detalhadamente descrita por Custódio de Oliveira Lima no "A Guia do Jardineiro - Horticultor e Lavrador Brazileiro ou Tratado Resumido e Claro Ácerca da Cultura das Flores, Hortaliças, Legumes, Fructos e Cereaes; da Criação e Tratamento das Abelhas, Bicho da seda, Animaes e Aves Domésticas". Seu terceiro capítulo (Das hortas, e das Searas), aborda diversos aspectos, citando que a horticultura ou arte do hortelão demanda mais cuidados que a agricultura propriamente dita, exigindo do horticultor dedicação diária, e que a horticultura não se pode aplicar a grandes terrenos. Já fala de algumas sugestões de rotação de culturas como o plantio de cebola após couves. São discutidas mais de 50 hortaliças, incluindo: abóbora, acelga, aipo, chicória, almeirão, alface (250 variedades, com três raças principais: repolhuda, crespa, romana ou orelha de mula), alcachofra, alho, anil, azedinha, batata (brancas, amarelas, cinzentas, violáceas, compridas, redondas), batata doce, berinjela, beterraba, borragem, cardos, cebola, cenouras (branca longa, branca redonda, amarela longa, amarela redonda, roxa de Hespanha, curva de Holanda e vermelha da Alemanha), chalotas, chicórias, coentro, couves, repolho, couve flor e brocos, chus-chus ou caiota da Ilha da Madeira, espargos, espinafres, favas, grão de bico, hervilha, inhame ou girassol batateiro, lentilha, melancia, melão, morangueiro, mostarda, nabo, nabo da Suécia, ortelãa, ouregões, pastel, pepino, pimentão, pimpinella, rabãos, rabanetes, ruiva, salsa, tomates e túbara da terra.

A contribuição específica dos Açorianos

O fluxo de imigrantes açorianos contribuiu marcadamente para o desenvolvimento da agricultura brasileira. A imigração dos Açores para o Brasil foi esporádica até 1617, quando se estabeleceu um contrato para o transporte de 1000 açorianos, sendo os mesmos instalados no Maranhão. Entretanto, foi durante o reinado de D. João V que se efetivou a vinda de maiores levas de açorianos, quer seja para o Norte/Nordeste (Pará, Maranhão) e principalmente para a Região Sul (Silva, 1994). No Sul, a colonização açoriana instalou-se principalmente em Santa Catarina e Rio Grande do Sul por decisão regulamentada pelo Conselho Ultramarino, de modo a ocupar uma região que vinha sendo ameaçada pela expansão espanhola proveniente do Prata. O primeiro transporte de açorianos chegou ao Sul do Brasil em 1748, após três meses de viagem em pequenos navios mercantes (Wiederspahn, 1979). Nos Açores, o excesso demográfico atingia níveis intoleráveis e a miséria grassava, resultado da baixa produção agrícola. Assim, o recrutamento de colonos ilhéus foi a solução para os açorianos e para o governo português que precisava povoar efetivamente o Sul do Brasil. A Coroa oferecia vantagens aos colonos: passagem gratuita, um pequeno lote de terra, ferramentas agrícolas, sementes, duas vacas, uma égua e farinha suficiente para um ano. Único foco de colonização de povoamento no Brasil colônia, buscavam uma vida melhor e não somente enriquecimento. Santa Catarina recebeu 4.612 colonos em 1748, 1.666 em 1749, 860 em 1750 e 679 em 1753, duplicando a escassa população da capitania. Outros tantos rumaram para o Rio Grande do Sul, fixando-se ao longo do litoral. No final do século XVIII, quase todo o Sul estava incorporado ao domínio português, predominando no litoral as pequenas propriedades agrícolas e no interior as grandes estâncias. Os açorianos reforçaram a presença lusa de Santa Catarina ao Prata e o predomínio da língua portuguesa, enquanto núcleos de resistência à expansão espanhola (GNU FDL, 2008). Introduziram seus costumes e hábitos, inclusive alimentares, trazendo consigo variedades hortícolas que, após seleção empírica pelos agricultores, formou o que hoje chamamos de germoplasma nacional, base do melhoramento genético em algumas hortaliças para as condições edafoclimáticas brasileiras.

Particularmente no caso da cebola, as cultivares introduzidas sofreram um processo de seleção pelos produtores, dando origem a diversas populações mais adaptadas às novas condições de cultivo, mais resistentes a doenças e com melhor conservação pós-colheita (Melo et al., 1998). A cultivar Garrafal, oriunda de Portugal, após vários ciclos de seleção, muitas vezes empírica, deu origem à cultivar Baia-Periforme (Lisbão, 1993). Até o advento dos híbridos importados na década de 1990, a cultivar Baia-Periforme foi a cultivar de cebola mais plantada no Sudeste. Também as cultivares do tipo Crioula são originárias de material trazido pelos açorianos (Bendjouya, 1980), provavelmente de origem egípcia, sendo até hoje plantadas no Sul do Brasil.

Em cenoura, o germoplasma nacional ou tropical foi coletado por pesquisadores da Embrapa Hortaliças (então UEPAE de Brasília) em 1976 no Município de Rio Grande, sul do Rio Grande do Sul (Vieira et al., 1983), aonde vinha sendo cultivado por descendentes de imigrantes açorianos, constituindo-se em base genética para o melhoramento de cenoura visando adaptação às condições climáticas tropicais. Este esforço de pesquisa culminou com o lançamento da cultivar Brasília, em 1981, e que até os dias atuais é o material mais plantado durante o verão. Tendo a cultivar Brasília como material básico, foram selecionadas novas populações de plantas pelas empresas privadas de sementes, gerando algo como uma dezena de novas cultivares para verão. Foi este material genético que permitiu a produção de cenoura em praticamente todo território nacional, assim como a produção ao longo do ano em muitas regiões.

Os portugueses deixaram profundas heranças para a cultura brasileira e também para a etnicidade do povo brasileiro. Hoje, a maioria dos brasileiros têm alguma ancestralidade portuguesa. Certamente, a influência da colonização portuguesa em terras d'além mar foi fundamental em muitos fatores do nosso dia-a-dia, determinando muitos dos hábitos que temos hoje, entre eles os alimentares. Portanto, neste ano em que se completam 200 anos da chegada da família real portuguesa ao Brasil, momento histórico marcante para o desenvolvimento do nosso país, como integrantes da Associação Brasileira de Horticultura, agradecemos o convite e a oportunidade de falar um pouco sobre as contribuições lusas (ou como dizemos carinhosamente "da terrinha") na introdução, na produção e no consumo de hortaliças no Brasil. Finalmente, a título de reflexão, é importante lembrarmos do passado como forma de entender o presente e muito do que somos hoje e como base para planejar nosso futuro enquanto indivíduos, sociedade e nação.

 

REFERÊNCIAS

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(Recebido para publicação em 15 de agosto de 2008; aceito em 31 de outubro de 2008)
(Received in August 15, 2008; accepted in October 31, 2008)

 

 

1 "Se os senhores de engenhos, e os lavradores do assucar e do tabaco, são os que mais promovem hum lucro tão estimável, parece que merecem mais que os outros ser preferidos no favor, e achar, em todos os tribunaes, aquella prompta expedição que atalha as dilações dos requerimentos, e o enfado, e os gastos de prolongadas demandas"