SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.52 issue4Cattle and rabbits immune response against beta and epsilon Clostridium perfringens toxins induced by six commercial vaccines in BrazilAngular deformation of radius and ulna treated by dynamic percutaneus osteogenesis distraction. Case report author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Article

Indicators

Related links

Share


Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.52 n.4 Belo Horizonte Aug. 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-09352000000400005 

Prótese intra-ocular de resina acrílica em cães e gatos

[Acrylic resin intraocular prosthesis in dogs and cats]

 

S.C. Rahal1, F.M.M. Bergamo2, H.M.Ishiy3

1Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia – UNESP Botucatu
Rubião Júnior s/n
18618-000 – Botucatu, SP
2Pós-graduanda, FMVZ – UNESP – Botucatu
3Pós-graduanda, Faculdade de Medicina – UNESP – Botucatu

 

Recebido para publicação em 3 de maio de 1999.
E-mail: sheilacr@fmvz.unesp.br

 

 

RESUMO

Foram atendidos no Hospital Veterinário da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Unesp - Campus de Botucatu, 11 animais (oito cães e três gatos), com alterações oftálmicas unilaterais graves que levaram à perda total da função ocular (protrusão de globo com injúria nervosa e estrutural, perfurações de córnea com perda de conteúdo intra-ocular e endoftalmites, entre outras). Os animais, com idades entre dois meses e 10 anos, foram submetidos à evisceração e posterior inclusão de esfera de resina acrílica (metilmetacrilato) na capa córneo-escleral ou escleral. As esferas foram previamente confeccionadas e esterilizadas por autoclavagem. No pós-operatório foram utilizados antiinflamatórios e antibioticoterapia tópica combinada ou não a sistêmica. O período de observação variou de 2 meses a 3 anos e os aspectos avaliados foram secreção ocular, blefarospasmo, sinais de desconforto e estética. Obtiveram-se resultados satisfatórios em oito casos. Concluiu-se que a resina acrílica pode ser uma alternativa para uso como inclusão em cavidade anoftálmica.

Palavras-Chave: Cão, gato, olho, prótese, resina acrílica

 

ABSTRACT

Eleven animals (eight dogs and three cats), aged between two months and ten years were referred to the Veterinary Hospital of Faculty of Veterinary Medicine and Animal Science – Unesp, Botucatu, Brazil. These animals presented severe unilateral ophthalmic changes that lead to a total loss of ocular function, such as prolapsed eyes with nervous and structural injury, corneal damage with loss of intraocular contents or endophthalmitis among others. They were submitted to evisceration followed by the insertion of an acrylic resin prosthesis (methylmethacrylate) in the corneoscleral or scleral shell. The spheres were previously made and sterilized by autoclave. The postoperative medical therapy included topical and systemic broad-spectrum antibiotics for seven days and anti-inflammatory drugs. The follow-up time varied from two months to three years. The evaluated aspects were: ocular secretion, signs of discomfort, blepharospasm and cosmetic effect. Results turned out to be satisfactory in eight animals. It was concluded that acrylic resin could be an alternative prosthesis for intraocular implant.

Keywords: Dog, cat, eye, prosthesis, acrylic resin

 

 

INTRODUÇÃO

A perda do bulbo ocular é desfigurante, sendo a enucleação esteticamente pior que a evisceração. O uso de inclusões esféricas na cavidade anoftálmica pode melhorar a estética (McLaughlin, 1990). A evisceração é indicada para o tratamento de glaucoma com buftalmia e cegueira permanente, após laceração corneana ou escleral extensa, no hifema persistente resultante de deslocamento da retina ou em uveítes dolorosas crônicas (McLaughlin, 1990; Kern, 1991).

Em medicina veterinária, a inclusão mais comumente utilizada é a esfera de silicone. Deve ser 1 a 2 mm maior que o diâmetro horizontal da córnea normal, mas no animal imaturo o tamanho deve ser baseado no diâmetro corneano de um adulto da raça (McLaughlin, 1990).

As complicações operatórias incluem hemorragia excessiva e incompleta remoção do conteúdo intra-ocular e as do pós-operatório são edema periorbital excessivo, hemorragia persistente, ulceração corneana e perda do implante (Kern, 1991). A aparência final depende da doença corneana preexistente. Se a córnea é saudável e transparente antes da cirurgia, permanecerá transparente e com resultados estéticos excelentes; se tem cicatrizes e vascularizações, a aparência não deve piorar (McLaughlin, 1990).

Vestre et al. (1978) empregaram uma prótese de silicone em um gato com glaucoma. Três semanas após, observaram opacidade corneana central, que involuiu em poucas semanas. Afirmaram que a prótese pode ser empregada quando não há inflamação ativa.

Koch (1981) aplicou 78 próteses intra-oculares em animais de companhia. A remoção foi necessária em sete ocasiões. As causas foram erosão corneana com posterior extrusão da esfera, tumor, infecção ou deiscência. Além das falhas, obteve resultados insatisfatórios em nove olhos que apresentaram conjuntivite crônica, necessitando contínua terapia antibiótica tópica. Segundo o autor, é importante que sejam selecionados pacientes com a córnea tão próxima do normal quanto possível e, ao utilizar o método em cães braquicefálicos, empregar a tarsorrafia temporária, uma vez que os olhos desses cães parecem cicatrizar mais lentamente.

Esferas de silicone intra-oculares foram implantadas em 46 cães por Hamor et al. (1994), sendo glaucoma e buftalmia as indicações mais comuns. As complicações pós-operatórias foram deiscência escleral, úlcera corneana, entrópio secundário e deiscência da cantotomia. Citaram que os proprietários precisam estar conscientes sobre as possíveis complicações para decidir qual o melhor procedimento a ser utilizado.

McLaughlin et al. (1995) introduziram esfera de silicone em oito cães e um gato, eviscerados por neoplasia. Em dois cães houve recidiva e os olhos foram enucleados. O gato desenvolveu sinais compatíveis com metástase sistêmica quatro anos após e foi sacrificado. Três cães tiveram neoplasia metastática ou multicêntrica que envolviam o olho. Afirmaram que a neoplasia intra-ocular não é uma contra-indicação absoluta à utilização da prótese.

Esferas de metilmetacrilato foram implantadas por Nasisse et al. (1988) na órbita de 73 cães e cinco gatos. Ocorreram complicações apenas em três cães, cujas causas foram deslocamento durante uma briga, extrusão espontânea e inflamação crônica. O acúmulo de fluido orbital foi o fator de insucesso em dois gatos, sugerindo que implantes orbitais podem ter menos êxito nessa espécie.

Atualmente, na área médica estão sendo empregadas esferas com maior capacidade de integração aos tecidos, como por exemplo as de hidroxiapatita. A invasão da esfera por tecido fibrovascular promove maior integração entre a esfera e o hospedeiro, evitando, assim, os riscos de extrusão.

O trabalho teve por objetivo verificar a estética e a ocorrência de complicações pós-operatórias da evisceração quando da implantação de esfera de resina acrílica no olho de cães e gatos, com o uso de material de baixo custo e fácil confecção.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foram atendidos no Hospital Veterinário da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da UNESP – Campus de Botucatu, em um período de três anos, onze animais (oito cães e três gatos) que apresentavam alterações oftálmicas unilaterais graves, com perda da função ocular.

Os animais, com idade entre dois meses e dez anos, foram numerados de 1 a 11 e submetidos a anestesia geral inalatória e preparação para cirurgia ocular. Quando necessária, para facilitar a exposição do globo ocular, realizou-se cantotomia lateral aliada ou não a pontos de reparo escleral. A conjuntiva foi afastada base-fórnice e realizou-se uma incisão na esclera a 1mm do limbo superior em 180 graus. Foram removidos o humor vítreo, a lente, a úvea e a retina por meio de cureta. Cotonetes foram utilizados para auxiliar na hemostasia e facilitar a remoção dos resquícios de material uveal. Empregou-se solução salina 0,9% para lavagem da cavidade, e nos casos em que havia infecção, a esta foi acrescida iodopovidona (1:25). A córnea foi preservada em seis animais e removida em cinco devido à presença de lesões extensas. Em dois animais ela foi suturada na área da perfuração. Foram observados três casos de ruptura escleral, duas associadas a hematoma retrobulbar e uma à celulite orbitária. Esses hematomas foram removidos e a ruptura escleral suturada. Após a evisceração, foi introduzida uma esfera de resina acrílica (metilmetacrilato - JET ACRÍLICO pó e líquido - Avenida Diogenes Ribeiro de Lima, nº 2720 – São Paulo, SP) de tamanho adequado ao volume ocular, na capa córneo-escleral ou escleral. As esferas foram previamente confeccionadas e esterilizadas por autoclavagem (130ºC em 15minutos). A incisão escleral foi suturada com fio inabsorvível (náilon ou seda) em um padrão contínuo simples, sendo posteriormente recoberta pelo fechamento da conjuntiva. Nos casos em que persistia algum grau de exoftalmia, aplicou-se tarsorrafia temporária ou recobrimento com terceira pálpebra.

No pós-operatório, foi utilizada antibioticoterapia tópica [cloranfenicol (EPITEZAN "Oculum" – Laboratórios Allergan Frumtost) ou gentamicina (GENTAMICINA "Oculum" – Laboratórios Allergan Frumtost)] combinada ou não à sistêmica (ampicilina (AMPICILINA – Infabra Ind. Farm. Bras. Ltda) – 20 mg/kg/oral a cada seis horas, cloranfenicol (QUEMICETINA XAROPE – Carlo Erba S.A.) – 50 mg/kg/oral a cada 8 horas) por sete dias em média, e, quando necessário, antiinflamatório [flunixina meglumina (BANAMINE – Schering-Plough Veterinária) – 1,1 mg/kg/dia]. Nos casos de endoftalmite aplicou-se, no término do procedimento cirúrgico, uma injeção subconjuntival de gentamicina (GARAMICINA Injetável – Schering Plough) (20mg).

As avaliações pós-operatórias foram efetuadas por exame clínico ou por contato telefônico, quando o proprietário estava impossibilitado de trazer o animal. Foram considerados resultados satisfatórios quando o aspecto estético foi aceitável, com ausência de secreção ocular, blefarospasmo ou sinais de desconforto, e resultados insatisfatórios quando o aspecto estético não foi aceito pelo proprietário. Como complicações incluíram-se entrópio, úlcera corneana, extrusão do implante, infecções e volume intra-orbitário pequeno.

 

RESULTADOS

Os dados referentes a raça, sexo, idade, causa da perda do bulbo ocular, alterações oftálmicas constatadas na época do atendimento, informações sobre o procedimento cirúrgico, resultados estéticos e complicações observadas são apresentadas na Tab. 1.

 

a05tab01.tif (312058 bytes)

 

Observou-se a mesma proporção de perda do bulbo ocular em machos e fêmeas, e a causa, em todos os animais em que ela pôde ser observada, deveu-se a trauma.

Todos os animais apresentavam lesões graves, com perda de tecidos e endoftalmite, e mesmo naqueles com infecção foi empregada a esfera. A evisceração foi acompanhada de remoção da córnea em 45% dos casos e a sutura da esclera em 27%. Em 36% dos animais observaram-se complicações pós-operatórias.

 

DISCUSSÃO

Como a prótese de resina apresenta coloração branca ou rosa pode-se considerar que o aspecto final não é excelente, mas satisfatório e menos desfigurante que a enucleação. Nos casos em que a córnea foi mantida, o resultado estético foi melhor. No entanto, por ser a estrutura mais sensível, como citado por Kock (1981), é importante selecionar pacientes com a córnea saudável. Um aspecto positivo foi a manutenção do movimento palpebral, bem como a do coto escleral, devido a preservação da musculatura extrínseca.

A úlcera de córnea verificada no cão n.º 6, um mês após a cirurgia, é uma complicação freqüentemente citada (Koch, 1981; Kern, 1991; Hamor et al.,1994). Embora tenha evoluído adequadamente apenas com tratamento tópico, trata-se de um processo grave, que pode culminar com a extrusão do implante (Koch,1981).

Embora alguns autores não recomendem o emprego da prótese na presença de infecção ou inflamação (Vestre et al., 1978; McLaughlin, 1990), ela foi aplicada nos animais de número 2, 3, 4 e 9 com sucesso. Na endoftalmite, a evisceração evita a propagação da infecção para além da capa escleral, ao passo que a secção do nervo óptico na enucleação pode levar à extensão da infecção para o espaço subaracnoídeo, não estando contra-indicado o uso das esferas (Hashimoto et al., 1994). O conteúdo ocular não foi avaliado por histopatologia por serem as lesões, em sua maioria, de caráter traumático. Entretanto, é uma medida importante a ser adotada, uma vez que a neoplasia pode coexistir.

Não foram observadas referências sobre evisceração em animais portadores de ruptura escleral, provavelmente porque as causas mais freqüentes para a utilização do método tivessem estado associadas ao glaucoma (Vestre et al.,1978; Hamor et al., 1994) e aos tumores (McLaughlin et al.,1995). Optou-se pela sutura da esclera para se evitar um possível alojamento inadequado da esfera, no entanto, ela foi de difícil realização.

 

a05fig01.tif (130926 bytes)

 

a05fig02.tif (104422 bytes)

 

As lesões de córnea dos animais de n.º 8 e 10 melhoraram após a evisceração, o que está de acordo com a afirmação de McLaughlin (1990), em que as alterações preexistentes na córnea não tendem a piorar após o procedimento cirúrgico. Porém, por ser a córnea nutrida, em parte, pelo humor aquoso, após a evisceração ocorre inchaço e perda de transparência.

 

a05fig03.tif (89118 bytes)

 

Os gatos, em geral, apresentaram boa evolução, o que diferiu do observado por Nasisse et al. (1988) ao utilizarem a esfera intra-orbital, indicando que a evisceração associada à prótese pode ser melhor alternativa nessa espécie. O entrópio no gato n.º 11 só foi verificado após um mês, provavelmente como resultado da contração da cavidade anoftálmica.

A esfera utilizada no cão n.º 4, de dois meses de idade, precisaria ser trocada com o crescimento do animal, o que não ocorreu. No exame, observou-se pequeno volume orbital com alteração da relação das pálpebras com a cavidade, levando a entrópio inferior e superior e inflamação conjuntival crônica com secreção purulenta. A esfera foi removida e substituída por outra intra-orbital, uma vez que a capa escleral apresentava dimensões insuficientes. Também, efetuou-se blefaroplastia para correção do entrópio. Não houve complicações no pós-operatório, mas o proprietário mostrou-se novamente insatisfeito e solicitou a tarsorrafia completa. É importante ressaltar que a forma e as dimensões da órbita são influenciadas pela presença do olho, e quando a esfera é utilizada em animais muito jovens, ela deverá ser trocada.

No animal de n.º 7, o proprietário também demonstrou insatisfação com o resultado estético, apesar da ausência de secreção ou sinal de desconforto. Alegou ser facilmente reconhecido o olho cego, já que este tornou-se rosa e um pouco menor que o olho normal. Como citado por Hamor et al. (1994), o proprietário precisa estar consciente das complicações para se decidir pelo melhor procedimento, entretanto, os casos n.º 4 e n.º 7 mostraram que as explicações podem não atender às expectativas.

 

CONCLUSÃO

A esfera de resina acrílica é uma opção no tratamento da cavidade anoftálmica, uma vez que permite aspecto estético satisfatório e boa tolerância pelo animal.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

HAMOR, R.E., WHITLEY, R.D., McLAUGHLIN, S.A. et al. Intraocular silicone prostheses in dogs: a review of the literature and 50 new cases. J. Am. Anim. Hosp. Assoc., v.30, p.66-69, 1994.        [ Links ]

HASHIMOTO, M., RODRIGUES, A.C., SILVA, M.R.B.M. et al. Cavidade anoftálmica. Causas, reconstrução e complicações. Rev. Bras. Oftal., v.53, p.73-78, 1994.        [ Links ]

KERN, T.J. The canine orbit. In: GELATT, K.N. Veterinary ophthalmology. 2ed. Pliladelphia: Lea & Febiger, 1991. cap.5, p.239-255.        [ Links ]

KOCH, S.A. Intraocular prosthesis in the dog and cat: The failures. J. Am. Vet. Med. Assoc., v.179, p. 883-885, 1981.        [ Links ]

McLAUGHLIN, S.A. Evisceration and implantation of intrascleral prosthesis. In: BOJRAB, M.J., BIRCHARD, S.J., TOMLINSON, J.L. Current techniques in small animal surgery. Philadelphia: Lea & Febiger, 1990, p.117-119.         [ Links ]

McLAUGHLIN, S.A., RAMSEY, D.T., LINDLEY, D.M. et al. Intraocular silicone prosthesis implantation in eyes of dogs and a cat with intraocular neoplasia: nine cases (1983-1994). J. Am. Vet. Med. Assoc., v.207, p.1441-1443, 1995.        [ Links ]

NASISSE, M.P., VanEe, R.T., MUNGER, R.J. et al. Use of methyl methacrylate orbital prostheses in dogs and cats: 78 cases (1980-1986). J. Am. Vet. Med. Assoc., v.192, p.539-542, 1988.        [ Links ]

VESTRE, W.A., BRIGHTMAN, A.H., HELPER, L.C. Use of an intraocular prosthesis in the cat. Feline Pract., v.8, p.23-6, 1978.        [ Links ]