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Revista da Faculdade de Educação

Print version ISSN 0102-2555

Rev. Fac. Educ. vol. 23 n. 1-2 São Paulo Jan./Dec. 1997

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-25551997000100002 

LIÇÕES DE FREIRE

 

Moacir GADOTTI (*)

 

 

Resumo:
Convivência com Paulo Freire: no exterior, a possibilidade de se aprender mais sobre o Brasil. Fundação do Instituto Paulo Freire: um espaço na busca de novas teorias e práticas educacionais. Compromisso com os oprimidos de todo o mundo. Contribuição de Paulo Freire à história das idéias pedagógicas. O conhecimento deve-se constituir numa ferramenta essencial para intervir no mundo. Para Paulo Freire, conhecer é descobrir e construir e não copiar, como na pedagogia dos conteúdos. A educação não pode ser orientada pelo paradigma de uma empresa, que dá ênfase apenas a eficiência. Este paradigma ignora o ser humano. Segundo os construtivistas, aprende-se quando se quer aprender e só se aprende o que é significativo.

Palavras-chave: Instituto Paulo Freire - Pedagogia freireana/pedagogia do diálogo - Construtivismo crítico - Educação.

 

 

Vivi 23 anos muito próximo de Paulo Freire. Trabalhávamos juntos e estávamos envolvidos com os mesmos temas educacionais. Li, certa vez, que "a verdadeira amizade chega quando o silêncio entre duas pessoas é agradável". Com Paulo Freire era assim, falávamos horas seguidas, concordávamos em muitas coisas, mas discordávamos em tantas outras e, às vezes, o debate nos inflamava. Mas nunca sem perder o respeito. Colocávamos os pontos divergentes e apresentávamos os respectivos argumentos que os sustentavam. Com um olhar meio maroto, ele carinhosamente colocava a mão no ombro, como costumava fazer com todos os seus amigos quando queria chamar a atenção para o que estava dizendo, e apresentava seus contra-argumentos. Jamais se furtava ao debate. Mas havia também, depois de longas conversas, momentos de absoluto silêncio, o agradável silêncio de que trata a citação feita anteriormente: o silêncio-carinho, o silêncio-pausa para refletir, o silêncio-prazer de aprender.

E assim foram os anos se passando, desde 1974, numa relação de "sins", de silêncios, de diálogo e de conflito. Inicialmente isto ocorria em Genebra, seja no seu enfumaçado escritório no seu apartamento da Rue de Lancy, seja no Restaurante do Conselho Mundial de Igrejas para um almoço ou um cafezinho.

Em 1967, no meu Curso de Pedagogia, li e estudei em profundidade o livro Educação como prática da liberdade. A Faculdade Nossa Senhora Medianeira onde estudava exigia como trabalho de conclusão, uma espécie de tese, para obter o grau de Licenciado. Concentrei minha exposição na análise do terceiro capítulo daquele livro que tratava da relação entre "massificação versus educação". Seu livro Pedagogia do oprimido ainda não havia sido publicado. Li-o pela primeira vez em francês, quando já me encontrava no exterior.

Mas voltemos a 1967. Quando expus o meu trabalho no curso, Paulo Freire era conhecido principalmente pelo seu "método" de educação de adultos. Três anos haviam se passado do golpe militar e do exílio de Paulo e as notícias sobre os exilados políticos eram censuradas. Muitos jornais, inclusive muitos intelectuais, estavam apenas tomando consciência da brutalidade do regime militar, que se acentuaria nos anos seguintes. A repressão havia se intensificado desde o ano anterior com a prisão de estudantes e professores que manifestavam sua opinião contrária ao regime.

A repressão e a intimidação aumentaram. Em 1969 comecei a lecionar na mesma Faculdade onde havia concluído o curso. Ela era constantemente vigiada. Uma colega do Departamento de Filosofia, Lídia Acerboni, foi obrigada a sair do país e todos ficamos temendo que a repressão fosse ainda muito mais longe. Decidi, então, sair do país. Fazer um doutorado no exterior e poder ter contato com educadores como Paulo Freire não era uma fuga mas uma possibilidade de aprender mais sobre o Brasil. Foi o que aconteceu comigo. De longe e com a liberdade de que não dispúnhamos no Brasil, pudemos aprender mais sobre a situação social e política brasileira. O encontro, em 1974, na Universidade de Genebra, com o educador que eu havia estudado 7 anos antes, foi muito emotivo para mim. Era tudo com que eu sonhava na terra de Jean-Jacques Rousseau. Paulo convidou-me para ir para a África com os meus colegas de curso Arturo Ornellas e Miguel Escobar. Com crianças pequenas em casa não pude ir, já que teria que ficar seis meses fora. Lamentei muito não poder participar. Contudo, segui de perto toda a experiência africana de Paulo pelos relatos que ele fazia e pelos textos que produzia sobre essa experiência.

Entre 1975 e 1977 Paulo discutia comigo a tese que eu estava fazendo sobre a "educação permanente". Ele participou da banca examinadora falando em português. Foi nessa época que combinamos retornar ao Brasil. No início, Elza, sua esposa, opôs-se dizendo que no Brasil não teria a mesma assistência médica que teria na Suíça (Elza sofria do coração e mais tarde implantaria um marca-passo). Faleceu em 1986, vítima de ataque cardíaco, como Paulo Freire.

Eu voltei ao Brasil em junho de 1977 e Paulo e Elza dois anos e meio depois. Em 1980, Paulo visitou o CEDES (Centro de Estudos Educação e Sociedade), uma organização não-governamental que eu dirigia junto à Universidade Estadual de Campinas, que o havia convidado a trabalhar. Dois anos depois, como membros do Partido dos Trabalhadores, criamos a Fundação Wilson Pinheiro para subsidiar o partido com estudos, pesquisas e reflexões sobre questões sócio-políticas, econômicas e culturais. Começamos um intenso programa de debates e conferências em diversas partes do mundo. Escrevemos alguns trabalhos em parceria e, em 1989, quando Paulo Freire se torna Secretário Municipal de Educação, assumi a chefia do seu gabinete. Em 1991 ele sugeriu a criação do Instituto que leva o seu nome. Desde então estamos nos dedicando ao estudo, pesquisa e divulgação do seu legado.

Depois de tantos anos de convivência, o leitor deste pequeno artigo certamente compreenderá a dificuldade que tenho de falar dele, passados apenas alguns meses de seu falecimento. É difícil transformar a dor em saudades. Alguns dias antes de sua morte, estávamos discutindo ainda vários projetos a serem desenvolvidos pelo Instituto Paulo Freire (IPF) que era, para ele, um espaço de busca de novas teorias e práticas educacionais. Ele havia projetado ministrar aí vários cursos, inclusive um para estudantes estrangeiros. Ele nos dizia que era muito sacrificado para ele viajar para o exterior e que seria melhor que os estudantes estrangeiros que desejassem ouvi-lo pudessem ser recebidos no IPF. Faleceu no auge de sua produção intelectual, com um livro inacabado e muitos projetos.

Depois da partida de Paulo Freire, recebemos mais de 600 mensagens de condolências, enviadas à família e ao Instituto. Todas elas são manifestações de carinho e de imenso apreço pelo grande educador. Elas mencionam a profunda dor e tristeza pela perda de um mestre mas também as saudades que ele está deixando, evidenciando o impacto de sua práxis em muitas partes do mundo. Professores de aproximadamente 150 universidades enviaram mensagens. Isso demonstra a repercussão de suas idéias também no meio acadêmico.

Suas idéias poderão ter despertado controvérsias, mas não a sua pessoa. Muitas das mensagens recebidas no IPF dizem textualmente: "minha vida não seria a mesma se eu não tivesse lido a obra de Paulo Freire. O que ele escreveu ficará no meu coração e na minha mente". Essa relação entre o cognitivo e o afetivo é muito forte na obra de Paulo Freire e também naqueles que foram influenciados por ele. Essa relação era muito forte também na obra de Paulo Freire. Ele não envolvia as pessoas emocionalmente só através de suas tão encantadoras falas, mas também através de seus escritos.

Ainda uma observação sobre as mensagens recebidas. Além de revelarem o impacto teórico e afetivo sobre a vida de tantos seres humanos de todas as partes do mundo, essas manifestações terminam sempre com o desejo de unir-se a outras pessoas e instituições para dar continuidade ao seu trabalho, ao seu compromisso, que era sobretudo o compromisso com os oprimidos. Não o compromisso com os oprimidos deste ou daquele lugar - da América Latina por exemplo - mas com os oprimidos de todo o mundo. Há portanto um sentimento comum de que devemos continuar a tarefa da conscientização, da não violência, do trabalho de organização dos excluídos, dos pobres, dos pescadores, dos agricultores, dos sem-terra, dos sem-teto, das minorias oprimidas.

Mesmo tendo passado mais de um mês de sua morte, as paredes do Instituto Paulo Freire estão impregnadas de sua presença. Há uma sensação de que ele não morreu. A impressão que temos é que se trata de mais uma das ausências entre uma viagem e outra, entre uma reunião e outra e que ele, a qualquer momento, poderá estar novamente entre nós. Recebemos mensagens de pessoas que dizem ter rezado por ele. Outros dizem que há um misto de presença e de ausência dele. Como ele escreveu ao deixar a Secretaria de Educação de São Paulo, em 1992, na carta de despedida: "Continuem contando comigo na construção de uma escola com outra "cara" mais alegre, fraterna e democrática... Continuarei junto de vocês, de outra forma. Vou ficar mais livre para assumir outro tipo de presença". Agora temos a presença do seu legado.

Paulo Freire confessou no último grande Congresso Internacional sobre o seu pensamento, realizado em setembro de 1996, em Vitória (ES), que, desde criança, era um "menino conectivo". Essa característica não era apenas pessoal. Era também epistemológica. Ele conseguia, melhor do que qualquer outro intelectual que conheço, criar laços, interligar as categorias história, política, economia, classe, gênero, etnia, pobres e não-pobres. Sua pedagogia não é apenas uma pedagogia para os pobres. Ele, como ser conectivo, queria ver também os não-pobres e as classes médias se engajando na transformação do mundo.

Em todos os escritos de Freire, dos mais antigos aos mais atuais, ele nos falava das virtudes como exigências ou virtudes necessárias à prática educativa transformadora. Mas ele também nos deu exemplo de algumas virtudes, entre elas, a coerência e a simplicidade. Ele não foi coerente por teimosia. Para ele a coerência era uma virtude que tomava a forma da esperança permanente. Paulo praticava sobretudo a virtude do exemplo: dava testemunho do que pensava. Nessa coerência entre teoria e prática eu destacaria o valor da solidariedade. Paulo se insurgia contra um provérbio popular: "Minha liberdade termina quando começa a liberdade do outro". Não - dizia ele - a minha liberdade termina quando termina a liberdade do outro. Se o outro não é livre eu também não sou livre. A minha liberdade acaba quando acaba a liberdade do outro.

Outra virtude que conquistou foi a simplicidade. O simples não é fácil. É difícil ser simples. É sabedoria. Ele conseguia estranhar o saber cotidiano sem ser pernóstico, arrogante. Paulo detestava o intelectual arrogante, sobretudo o intelectual arrogante de esquerda. Para ele o intelectual de direita já era por convicção arrogante, mas o de esquerda era por deformação. O simples não se opõe ao concreto e ao complexo. Opõe-se ao prolixo. A simplicidade de Paulo Freire era densa, concreta e complexa.

Paulo Freire era também um ser humano esperançoso. Não por teimosia, mas por "imperativo histórico e existencial", afirma no seu livro Pedagogia da esperança. Além da esperança cultivou a autonomia. Autonomia é a capacidade de decidir-se, de tomar o próprio destino nas suas mãos. Diante de uma economia de mercado que invade todas as esferas de nossa vida, precisamos lutar - também através da educação - para criar na sociedade civil a capacidade de governar e controlar o desenvolvimento (alternativa ao socialismo autoritário). Paulo Freire tinha um verdadeiro gosto pela democracia. Ele sempre a tratava com carinho.

O que mais o preocupava nos últimos anos era o avanço de uma globalização capitalista neoliberal. Por que Paulo Freire atacava tanto o pensamento e a prática neoliberal? Porque o neoliberalismo é visceralmente contrário ao núcleo central do pensamento de Paulo Freire que é a utopia. Enquanto o pensamento freireano é utópico o pensamento neoliberal abomina o sonho. Para Paulo Freire o futuro é possibilidade. Para o neoliberalismo o futuro é uma fatalidade. O neoliberalismo apresenta-se como única resposta à realidade atual, desqualificando qualquer outra proposta. Desqualifica principalmente o Estado, os Sindicatos e os Partidos Políticos. Denuncia a política fazendo política. Paulo Freire atacava a ética do mercado sustentada pelo neoliberalismo, porque ela se baseia na lógica do controle e afirmava uma ética integral do ser humano. No seu livro Pedagogia da autonomia (p. 15) ele destaca: "Daí a crítica permanentemente presente em mim à malvadez neoliberal, ao cinismo de sua ideologia fatalista e a sua recusa inflexível ao sonho e à utopia. Daí a minha raiva, legítima raiva, que envolve o meu discurso quando me refiro às injustiças a que são submetidos os esfarrapados do mundo. Daí o meu nenhum interesse de, não importa que ordem, assumir um ar de observador imparcial, objetivo, seguro, dos fatos e dos acontecimentos. Em tempo algum pude ser um observador ‘acinzentadamente’ imparcial, o que, porém, jamais me afastou de uma posição rigorosamente ética". O anti-academicismo de Freire é conhecido. E assim termina o mesmo livro (p. 165): "Nem a arrogância é sinal de competência nem a competência é causa da arrogância. Não nego a competência, por outro lado, de certos arrogantes, mas lamento neles a ausência da simplicidade que, não diminuindo em nada seu saber, os faria gente melhor. Gente mais gente".

A educação não pode orientar-se pelo paradigma da empresa que dá ênfase apenas à eficiência. Este paradigma ignora o ser humano. Para este paradigma, o ser humano funciona apenas como puro agente econômico, um "fator humano". O ato pedagógico é democrático por natureza, o ato empresarial orienta-se pela "lógica do controle". O neoliberalismo consegue naturalizar a desigualdade. "É assim mesmo", "Não há outra coisa a fazer", ouve-se dizer. Por isso, Paulo Freire chama nossa atenção para a necessidade de observarmos o processo de construção da subjetividade democrática, mostrando, ao contrário, que a desigualdade não é natural. É preciso aguçar nossa capacidade de estranhamento. Precisamos ter cuidado com a anestesia da ideologia neoliberal: ela é fatalista, vive de um discurso fatalista. Mas não há nenhuma realidade senhora dela mesma. O neoliberalismo age como se a globalização fosse uma realidade definitiva e não uma categoria histórica.

A concepção de mundo e a sua teoria sócio-político-educativa nos ajudam não apenas a entender melhor como funciona o modelo neoliberal, mas nos ajudam a construir a resposta necessária ao neoliberalismo. Ele defende uma nova modernidade cuja racionalidade deve estar "molhada de afetividade". Contra o iluminismo pedagógico e cultural que acentua apenas a aquisição de conteúdos curriculares, ele realça a importância da dimensão cultural nos processos de transformação social. A educação é muito mais do que a instrução. Para ser transformadora - transformar as condições de opressão - ela deve enraizar-se na cultura dos povos. A pós-modernidade se caracteriza pelo simulacro e pelo consumo imediato. Ora, a educação é um processo a longo prazo e precisa combater o imediatismo, o consumismo, se quiser contribuir para a construção de uma pós-modernidade progressista. A educação, para ser libertadora, precisa construir entre educadores e educando uma verdadeira consciência histórica. E isso demanda tempo.

Paulo Freire era uma pessoa feliz. Ele tinha verdadeiro prazer em aprender e transmitia esse prazer para os que convivam com ele, seja na sala de aula, seja em outros lugares. Aprende-se quando se quer aprender e só se aprende o que é significativo, dizem os construtivistas. Paulo Freire também foi um dos criadores do construtivismo, mas do construtivismo crítico. Desde suas primeiras experiências no nordeste brasileiro, no início dos anos 60, ela buscava fundamentar o ensino-aprendizagem em ambientes interativos, através do uso de recursos audiovisuais. Mais tarde reforçou o uso de novas tecnologias, principalmente o vídeo, a televisão e a informática. Mas não aceitava a sua utilização de forma acrítica.

O construtivismo freireano vai além da pesquisa e da tematização: a terceira etapa do seu método - a problematização - supõe a ação transformadora. O conhecimento não é libertador por si mesmo. Ele precisa estar associado a um compromisso político em favor da causa dos excluídos. O conhecimento é um bem imprescindível à produção de nossa existência. Por isso ele não pode ser objeto de compra e venda, cuja posse fique restrita a poucos. Paulo Freire tinha um verdadeiro amor pelo conhecimento e amor pelo estudo. Mas dizia, conhecemos para: a) entender o mundo (palavra e mundo); b) para averiguar (certo ou errado, busca da verdade e não apenas trocar idéias); c) para interpretar e transformar o mundo. O conhecimento deve constituir-se numa ferramenta essencial para intervir no mundo.

Para Paulo Freire, o conhecimento é construído de forma integradora e interativa. Não é algo pronto a ser apenas "apropriado" ou "socializado", como sustenta a pedagogia dos conteúdos. Por isso, essa pedagogia sustenta, até hoje, a necessidade da memorização. Conhecer é descobrir e construir e não copiar. Na busca do conhecimento, Paulo Freire aproxima o estético, o epistemológico e o social. Para ele é preciso reinventar um conhecimento que tenha "feições de beleza".

A escola não distribui poder, mas constrói saber que é poder. Não mudamos a história sem conhecimentos, mas temos que educar o conhecimento para que possamos interferir no mercado como sujeitos, não como objeto. O papel da escola consiste em colocar o conhecimento nas mãos dos excluídos de forma crítica, porque, a pobreza política produz pobreza econômica. "Ninguém ignora tudo, ninguém sabe tudo", dizia Freire. Ninguém é ignorante de tudo, mas o "analfabeto político" não consegue entender as causas da sua pobreza econômica. Por isso Paulo Freire associava alfabetização e politização. A pedagogia neoliberal é uma pedagogia da exclusão justamente porque reduz o pedagógico ao estritamente pedagógico, buscando retirar da pedagogia a sua essência política. A pedagogia da esperança é o oposto da pedagogia da exclusão. Ensinar é inserir-se na história: não é só estar na sala de aula, mas num imaginário político mais amplo.

Paulo Freire colocou o oprimido no palco da história, pelo seu engajamento político e pela sua teoria como contra-narrativa ao discurso dos poderosos e privilegiados. Ela valorizava, além do saber científico elaborado, também o saber primeiro, o saber cotidiano. Sustentava que o aluno não registra em separado as significações instrutivas das significações educativas e cotidianas. Ao incorporar conhecimento, ele incorpora outras significações, tais como: como conhecer, como se produz e como a sociedade utiliza o conhecimento... enfim, o saber cotidiano do seu grupo social.

Outra noção que ele desenvolveu e que a distinguia de toda a conotação neoliberal, era a noção de qualidade. Quando estava à frente da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo ele nos falava de uma "nova qualidade". A qualidade é todos (quantidade) terem acesso ao conhecimento e a relações sociais e humanas renovadas. Qualidade é empenho ético, alegria de aprender. Para o pensamento neoliberal, a qualidade se confunde com a competitividade. Negam a necessidade da solidariedade. Contudo, as pessoas não são competentes porque são competitivas, mas porque sabem enfrentar seus problemas cotidianos junto com os outros e não individualmente.

Uma outra contribuição de Freire à história das idéias pedagógicas é a sua concepção de currículo. Não se pode entender a pedagogia de Freire sem entender os conceitos de transdisciplinaridade, transcurricularidade e interculturalidade. A inter e a transdisciplinaridade freireanas não são apenas um método pedagógico ou uma atitude do professor. Elas se constituem numa verdadeira exigência da própria natureza do ato pedagógico. Paulo Freire, na prática, sabia trabalhar com várias disciplinas ao mesmo tempo: a etnografia, a teoria literária, a filosofia, a política, a economia, a sociologia, etc. Trabalhava mais com teorias do que com disciplinas ou currículos que dizia deveriam ser ultrapassados. Insistia que os alunos buscassem fora de seu currículo outros conhecimentos, na educação principalmente. Para o ato pedagógico concorrem muitas ciências. Além disso, ele trabalhava ao mesmo tempo também com várias perspectivas teóricas: a do militante político, do filósofo da libertação, do cientista, do intelectual, do revolucionário, etc.

Nos últimos anos, ele estava programando organizar uma série de vídeos para possibilitar o acesso ao conhecimento a maior número de pessoas. Não se aprende tudo na escola, continuava insistindo. A TV, o vídeo e o computador podem ser ferramentas preciosas para as camadas populares. Mas precisamos aprender a ser emissores e não apenas receptores de idéias. Prezava a cultura midiática. Ela pode ser tanto um complemento do que aprendemos na escola como também um motor do conhecimento. Ela pode nos despertar para certos temas geradores que o saber escolar ignora ou valoriza pouco, que podem ser, por exemplo, de um lado, a pobreza e a violência, e, de outro, a solidariedade e a interculturalidade. Os meios de comunicação mais modernos exploram a sensibilidade. Ora, é verdade que só aprendemos o que sentimos profundamente. A mídia pode nos sensibilizar e a escola pode partir desta sensibilização para ir além. Tanto a criança da classe média quanto a criança das classes populares estão igualmente expostas à cultura midiática. Nisso elas competem em igualdade de condições. Não é o caso da cultura escolar. A criança das classes populares não encontra na escola uma continuidade da sua cultura familiar como a criança das classes médias que dispõe de um ambiente letrado em casa. A escola e o vídeo são espaços diferentes de aprendizagem e não antagônicos.

Qual é o legado que Paulo Freire nos está deixando?

Em primeiro lugar, ele nos deixou sua vida, uma rica biografia. Paulo nos encantou com a sua ternura, sua doçura, seu carisma, sua coerência, seu compromisso, sua seriedade. Suas palavras e suas ações foram palavras e ações de luta por um mundo "menos feio, menos malvado, menos desumano". Ao lado do amor e da esperança, ele também nos deixou um legado de indignação diante da injustiça. Diante dela, dizia que não podemos "adocicar" nossas palavras.

Além do testemunho de uma vida de compromisso com a causa dos oprimidos, ele nos deixou uma imensa obra, estampada em muitas edições de seus livros, em artigos e vídeos espalhados pelo mundo. Nela se encontra uma pedagogia revolucionária. A pedagogia conservadora humilha o aluno. A pedagogia freireana, a "pedagogia do diálogo", deu dignidade a ele, respeitando o educando e colocando o professor ao lado dele - com a tarefa de orientar e dirigir o processo educativo - como um ser que também busca. Como o aluno, o professor é também um aprendiz... Esse é o legado de Freire. No desenvolvimento da sua teoria da educação, Paulo Freire conseguiu, de um lado, desmistificar os sonhos do pedagogismo dos anos 60, que, pelo menos na América Latina, sustentava a tese de que a escola tudo podia, e, de outro lado, conseguiu superar o pessimismo dos anos 70, para o qual a escola era meramente reprodutora do status quo. Fazendo isso - superando o pedagogismo ingênuo e o pessimismo negativista - conseguiu manter-se fiel à utopia, sonhando sonhos possíveis. Fazer hoje o possível de hoje para amanhã fazer o impossível de hoje.

Em março de 1997, um grupo de jovens de Brasília ateou fogo e matou um índio pataxó. Paulo Freire ficou muito impressionado com este horror. E se perguntava por que chegamos a tamanha barbárie. As causas são múltiplas: há a mídia, a escola, a sociedade... todos somos responsáveis. Mas há a impunidade que permite, sobretudo às classes poderosas, fazer quase tudo o que quiserem sem ser punidas. Raramente são punidas. Poucos são os ricos que estão nas cadeias. Por isso precisamos dizer "não pode" sem ter medo de sermos antidemocráticos. Há o que pode e o que não pode ser feito. Diante da injustiça, da impunidade e da barbárie, precisamos de uma pedagogia da indignação. Dizer "não" provoca conhecimento. O "não" desacomoda, incomoda, desinstala. Obriga-nos a pesquisar. Dizer "não" é afirmar-se como "eu". É buscar a ética, é valor, é postura. Paulo Freire nos falava com freqüência de uma pedagogia da rebeldia.

Um tema que Paulo Freire estava desenvolvendo nos últimos tempos era o que chamamos no Instituto de Ecopedagogia. Paulo Freire dizia que precisávamos reler Ivan Illich e Herbert McLuhan com a compreensão que temos hoje da tecnologia, mas também com uma nova ética. Como diz o filósofo e teólogo Leonardo Boff , "a justiça não pode ser apenas social; precisa ser sócio-cósmica". Paulo Freire nos falava da necessidade de criar vínculos, da amizade, das relações sociais e humanas e na sua última entrevista (16 de abril) afirmava que "gostaria de ser lembrado como aquele que amou as plantas, os animais, os homens e mulheres, a terra..." Em seu livro À sombra desta mangueira ele valorizava justamente essas "felicidades gratuitas" - como disse o seu prefaciador Ladislau Dowbord - felicidades oferecidas pela natureza, contra as "felicidades vendidas e compradas", como a infinidade de brinquedos eletrônicos, oferecidas pelo capitalismo neoliberal. Uma pedagogia libertadora precisa criar novas vivências, vivências solidárias, precisa criar novas relações sociais e humanas e não só transmitir conteúdos.

Para finalizar, gostaria de realçar o significado das muitas homenagens a Paulo Freire que estão acontecendo no mundo. Para elas terem um sentido transformador, elas não devem simplificar ou mitificar Paulo Freire. No caso de uma obra tão complexa quanto a de Paulo Freire, há sempre o perigo da simplificação. Ela pode consistir, por exemplo, na escolha de uma frase, de uma passagem ou de um pensamento dele que mais nos agrada e tomá-lo como uma verdade absoluta sem contextualizá-la. Nada menos freireano do que isso. Paulo Freire escreveu muito e é possível tomar certas passagens sem contextualizá-las. Cada uma de suas passagens precisa não apenas ser lida dentro do contexto no qual ele a escreveu, mas no contexto mais amplo de toda a sua obra. Apropriar-se acrítica e sectariamente de qualquer parte de sua obra é desfigurar Freire. Apesar da grandeza do seu legado, não devemos mitificá-lo ou a sua obra, mas seguir o seu exemplo.

Paulo Freire foi um ser humano completo. Doce guerreiro das palavras, visionário, acreditava na importância da escola, do saber, da palavra, da cultura, do educador. Confessou certa vez que "não tinha vergonha de ser professor". Como um plantador do futuro, ele sempre será lembrado porque nos deixou raízes, asas e sonhos como herança. Como criador de espíritos, a melhor maneira de homenageá-lo é reinventá-lo. Não copiá-lo. É levar adiante o esforço de uma educação com uma nova qualidade para todos. Essa nova qualidade não será medida pela quantidade absorvida de conteúdos técnico-científicos apenas, mas, pela produção de um tipo novo de conhecimento, "molhado de existência" e de história, um conhecimento que deve ser, acima de tudo, uma ferramenta de mudança das condições de vida daqueles que não têm acesso à existência plena. Ele nos deixou teorias e exemplos que nos podem levar muito além de onde estamos hoje. Como disse um professor logo que ouviu falar de seu falecimento "ele nos deixou mais pobres porque partiu, mas estamos mais ricos porque ele existiu".

 

 

Abstract:
Acquaintance with Paulo Freire: in the foreign countries there is the possibility of learning more about Brazil. The foundation of Institute Paulo Freire: a space in the search of new educational theories and practices. Paulo Freire had a commitment with the oppressed people around the world. To Paulo Freire the knowledge must be an essential tool to intefere in the world. To know is to find out and build, and no-duplicate as the pedagogy of contents. The education cannot be guided by an enterprise paradigm, which gives emphasis to the efficiency. This paradigm disregards the human being. According to the constructivists, people learn when they want to learn, and they only learn what is meaningful to them.

Keywords: Institute Paulo Freire - Freirean pedagogy/Dialogue pedagogy - Critical constuctivism - Education

 

 

(Recebido para publicação em 24.07.97 e liberado em 15.08.97)

(*) Moacir Gadotti é professor titular da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo e diretor do Instituto Paulo Freire. Escreveu, entre outras obras: Convite à leitura de Paulo Freire, publicado em 1989 pela Editora Scipione, Pedagogia da práxis, com prefácio de Paulo Freire, publicado em 1996 pela Editora Cortez e Paulo Freire: uma biobibliografia, publicado pelo Instituto Paulo Freire e pela Editora Cortez em 1996. Este último livro, com 780 páginas, é a obra mais completa existente sobre Paulo Freire e está sendo traduzida em diversas línguas.