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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311XOn-line version ISSN 1678-4464

Cad. Saúde Pública vol.17 no.6 Rio de Janeiro Nov./Dec. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2001000600035 

DEBATE DEBATE

 

 

Maria Helena Cabral de Almeida Cardoso

Instituto Fernandes Figueira, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil. oscarmc@unisys.com.br


Debate sobre o artigo de Mary Jane P. Spink

Debate on the paper by Mary Jane P. Spink

 

 

O risco-aventura e os limites de uma teoria da história

 

O risco-aventura como metáfora na (da) modernidade tardia, desde o início da leitura do exercício de translocação conceitual empreendido por Mary Jane Spink, remeteu-me à noção de uma sociedade que, muito mais do que a nomeada por Beck (1992), para além do poder disciplinar, advoga a si a delimitação da trajetória do homem, modulando seu tempo e sua vivência pessoal. É como se a sempre presente pergunta de Gauguin: "de onde viemos, quem somos, para onde vamos?" - fundamento de nossa historicidade - estivesse respondida, não mais através de respostas múltiplas, diferentes em substância e estrutura, mas num sentido quase linear e especificado: viemos de uma herança genética codificada, que conjugada com os fatores de risco nela compreendidos e aqueles adquiridos, nos molda, e encaminhamos para uma morte passível de ser probabilisticamente datada se tais riscos forem considerados e administrados. Fica implícita que a fase intermediária - "o quem somos" - permanece ligada, talvez como jamais o fora, à idéia de liberdade, só que esta liberdade, agora, não está mais numa condição de "essência", como pensavam os iluministas, mas qualificada pela marca da opção e da escolha embutidas na "aventura" de viver. O que se pauta não é o reforço do conceito de livre arbítrio, pois nele se inscreve uma percepção teológica de mundo, mas a de liberdade/aventura perante a vida e a morte. Não é mais Deus quem fez os homens e esses, porque dotados de livre arbítrio, seguem ou não Seus desígnios. A escolha que atualmente se patenteia é de outra ordem. Não somos dotados de livre arbítrio porque não há quem sobre nós tudo sabe; somos, isso sim, dotados de liberdade de opção e escolha de conduzir a "aventura" de nossas vidas, mediante a gestão das informações sobre todos e quaisquer riscos estudados, medidos e nomeados. Essa ilusão nos é vendida dentro das fronteiras de um mercado alicerçado numa ordem social que, na falta de uma reflexão mais profunda, eu chamaria de ordem social da imagem mediática.

E o que tal ordem parece pretender? Para mim é claro e, a própria argumentação levada a cabo no texto de Mary Jane Spink, referenda-a. Trata-se, como diz um dos personagens da série Arquivo X, de "inventar" o futuro para melhor controlá-lo. Mas, se somos assolados, na atualidade, por uma certeza de que algo mudou, de que há muito viemos sofrendo transformações de algum modo decisivas e de que nossa vertiginosa história tecnológica do presente modula novas formar de sentir, essa história, por outro lado, remete-se para a produção de novos sentidos que nos permitem outras e mudadas interpelações com o mundo e seu conteúdo. Assim, é necessário abrir-se para as surpresas, para a heterogeneidade, para múltiplas semioses e se isso pode ser qualificado como aventura, então, bem vinda ela seja.

Uma teoria da história que considere e se preocupe em oferecer instrumental para uma prática crítica capaz de reconhecer as próprias "tecnologias semióticas" (Haraway, 1999) do homem para a fabricação de sentidos, talvez mais que constatar uma sociedade de risco a Beck, enseje refletir sobre o núcleo dela, ou seja, a questão da vigência atual de sociedades de controle, conforme o delineado por Deleuze (1992) e dentro delas pensar a ética da ação humana, sobretudo, na transformação do caminho ditado pela metáfora do risco-aventura. É voltar-se para o "quem sou?" Pensar o ser hodierno relacionado a um corpo que é ao mesmo tempo propriedade e produto (Vaz, 1996). Propriedade porque é resultado de uma identidade construída pelo consumo e pela realidade de que cada um de seus órgãos são matéria-prima/produtos colocados à disposição de novas tecnologias.

Entretanto, pensar a ética da ação humana, dentro dessa nova realidade do corpo é também, no meu entender, não abdicar de um projeto de (re)atualizar a vontade de utopia interligada ao desejo e à necessidade, porque sem ele não há como (re)equacionar o viver societário e, principalmente, as dimensões assustadoras assumidas pela fome e pela miséria em escala mundial. A democracia social deve permanecer no horizonte assim como a luta contra o esvaziamento do processo político. Tanto a transmutação para a política do corpo, quanto a assunção do risco-aventura como metáfora na (da) modernidade, parece-me, funcionarem mais como símbolos do que signos/sinais da realidade que se deseja/precisa mudar. Se enquanto símbolos escapam, em parte, a um projeto de racionalismo totalizador, por outro lado não podem se limitar à mera constatação de um determinado modo de se apropriar do mundo. Nesse sentido, faz-se necessário empreender uma ética de valorização da ação humana que precisa da materialidade histórica de uma razão afetiva.

A aventura não seria, então, aquela embutida nos repertórios interpretativos do risco, mas uma semelhante ao do camponês de uma "estória" sempre contada por Cornelius Castoriades em suas conferências (Heller, 1993). A "aventura" deste camponês era a do viver plantando oliveiras para seus netos, pensando no quanto eles iriam usufruir do horto, o que fazia, segundo ele, não por desprendimento, mas sim por prazer, porque via os arbustos crescerem. Do risco-aventura, enquanto plot de uma meta-narrativa sobre a tardo-modernidade, se pensássemos como o camponês de Castoriades, passaríamos à aventura ética de plantar, mesmo sem a certeza de que alguém irá fazer uso daquilo que plantamos, todavia podendo desejar que alguém o faça. No caso não seria considerar o risco como ator histórico e, sim, considerar e aceitar a história como risco.

 

 

BECK, U., 1992. Risk Society: Towards a New Modernity. London: Sage Publications.

DELEUZE, G., 1992. Conversações. Rio de Janeiro: Editora 34.

HARAWAY, D., 1999. Situated knowledges. In: The Science Studies Reader (M. Biagioli, ed.), pp. 172-188, New York: Routlegde.

HELLER, A., 1993. Uma Teoria da História. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

VAZ, P., 1996. O Corpo-Propriedade. Rio de Janeiro: Programa de Pós-Graduação em Saúde da Criança e da Mulher, Instituto Fernandes Figueira. (mimeo.)

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