Os estudos sociais da ciência, mais especificamente da história social da medicina, no referente ao século XIX, ainda é pouco privilegiado pelos pesquisadores brasileiros, que em bloco tendem a privilegiar as análises sobre o período republicano. Desse vício historiográfico decorre a consagração de uma série de pressupostos errôneos, como aquele que vislumbra o Oitocentos como um século que, no campo dos debates e das práticas médicas, apenas dedicou-se à reprodução do que era proposto na Europa. Em consequência, avalia-se que, no contexto brasileiro, o século XIX seria, sobretudo, o território da tradição e da medicina pré-científica, ao qual é contraposto o momento seguinte, emblematizado pela modernidade científica representada pela vida e pelos feitos de Oswaldo Cruz e seus discípulos diretos.
Opondo-se a essa perspectiva caricatural, incorporada inclusive por pesquisas recentes, Flavio Edler premia o leitor com uma obra em muitos pontos original e instigante, tendo como ponto de análise a superação da doutrina que tinha como fundamento a determinação climática das doenças pela geografia médica dos trópicos e, conjuntamente, a constituição do campo da helmintologia médica. Para focar as novidades científicas, o autor baseia-se menos nos supostos de ruptura pura e simples e bem mais nas noções de conflito, negociação e disputa intraprofissional pelos postos de destaque na hierarquia médica imperial. Tal postura, ancorada em vasta bibliografia, permite que o texto apresente a fluência do processo de elaboração de novas propostas médicas a partir de 1860, evitando com isso o comodismo dos pesquisadores que apologizam a existência de uma “revolução” na qual o “novo” substituiu o “velho” científico sem crises, tensões e disputas.
Valendo-se de um enfoque epistêmico, o autor explica o advento e o aceite pela comunidade científica de um novo paradigma explicativo das helmintíases, deslocando o olhar da macro-história, que observa as ciências como reprodutora das grandes estruturas da sociedade, para a micro-história, que coloca em destaque as instituições científicas e seus atores privilegiados.
Primeiramente, Edler destaca o florescimento da geografia médica, sobretudo na França, onde os Archives de Médecine Navale tornaram-se o principal canal de pronunciamento da nova proposta médica, escudada nos interesses colonialistas, abordando temas como a capacidade de o europeu aclimatar-se nas regiões tropicais. Nesse curso, a geografia médica e a estatística fomentaram uma nova concepção de meio ambiente e contribuíram para a constituição da medicina tropical que, em uma de suas pontas, travou os primeiros embates com visões mais tradicionais que, fomentadas desde Hipócrates, usavam o meio climato-telúrico como explicação de uma vasta variedade de patologias.
Na sequência, o autor se volta mais detidamente para a formulação da helmintologia médica, vale dizer, para as observações que indicavam a ação dos vermes no organismo humano como causadoras de múltiplas enfermidades. O movimento que se prolongou por décadas e que favoreceu o surgimento da helmintologia como especialidade ganhou impulso com a disseminação do uso do laboratório e do microscópio, o que permitiu não só a identificação e classificação dos parasitas como também a definição de uma nomenclatura patológica clara e, em resultado, um conjunto de técnicas de diagnósticos, terapêuticas e prognósticos que conferiu um novo status a quem dominasse os novos conhecimentos. A disposição de novos critérios de validação da pesquisa científica permitiu colocar de vez por terra a hipótese da geração espontânea dos vermes, assim como propiciou a organização de um grupo de especialistas que reclamava para si a autoridade intelectual para decidir sobre as questões propostas pelos vermes, inclusive no plano do ensino médico.
Deslocadas para o cenário nacional, as discussões forjadas na Europa ganharam uma dimensão peculiar. A Academia Imperial de Medicina, responsável não só por sacramentar a doutrina médica que a comunidade hipocrática deveria praticar, mas também por estabelecer a hierarquia institucional de seus membros, conferia legitimidade aos ensinamentos metereopatológicos. O posicionamento oficial da Academia, sobretudo na voz de um de seus principais membros, o barão João Vicente Torres Homem, indicava que o clima tropical, aliado à alimentação e à precariedade de observância das regras de higiene, eram os elementos causadores da hipoemia, uma anemia que poderia levar à óbito, e os vermes encontrados no duodeno do paciente eram desprezados como agentes explicadores da enfermidade.
Apesar do poder institucional da Academia, posturas destoantes chegaram a público, colocando por terra o suposto que a medicina nacional configurava-se como um bloco monolítico no transcorrer do século XIX. Otto Henry Wucherer, após graduar-se em medicina na Universidade de Tubingen (Alemanha) e residir na Inglaterra e em Portugal, passou a clinicar na Bahia, onde, com o apoio da literatura internacional e de um grupo de médicos locais, desenvolveu pesquisas que o levaram a pontificar que tanto a ancislostomose (conhecida como hipoemia) quanto afilariose de Bancroft eram patologias verminóticas, insurgindo-se contra os ensinamentos defendidos por Torres Homem.
Para ampliar seu poder de diálogo, Wucherer e seus seguidores responsabilizaram-se inclusive pela publicação de um periódico, a Gazeta Médica da Bahia, abrindo com tal atitude um canal próprio e não escudado pela Academia Imperial de Medicina para expor seus achados. O embate intelectual entre o grupo baiano e a Academia estava declarado, mas não sob a forma heroica que ele geralmente é apresentado na maior parte da bibliografia nacional e internacional sobre o assunto.
Nesse tópico, Edler opõe-se à falácia sobre a existência de uma Escola Tropicalista Baiana, que teria como “heróis fundadores”, além de Wucherer, os médicos Silva Lima e John Paterson. Para o autor, não é possível falar na existência de uma “escola”, mas sim em um grupo de pesquisadores que dialogavam com seus pares internacionais, incorporando as novas propostas científicas e encontrando eco com a publicação de seus achados em revistas internacionais. Além disso, Edler também rejeita a ideia de ter havido um confronto declarado entre os médicos da Bahia e a Academia Imperial de Medicina, isso porque vários membros da Academia acataram as conclusões de Wucherer e seus colaboradores e, quando a proposta baiana baseadas na parasitologia foi levada à discussão na instituição carioca, a questão foi considerada inconclusiva pelos acadêmicos.
A validação das pesquisas do grupo liderado por Wucherer foi pouco a pouco sendo concedida pelos cientistas internacionais, ficando claro que os médicos brasileiros destoantes do posicionamento da Academia participavam vigorosamente da rede internacional de discussões sobre os vermes, contribuindo e não apenas reproduzindo as ideias que levaram a helmintologia a se tornar um campo científico. Mesmo assim, Torres Homem, até o final de sua vida, dedicou-se à defesa da ação do clima na produção das enfermidades, pois, se abrisse mão de seu ideário, estaria colocando em risco o próprio poder da Academia, que passara a dirigir, e as posições hierárquicas dos profissionais que a Academia defendia.
No final, a admissão dos pressupostos da helmintologia médica configurou-se como um dos episódios que definiu a incorporação da medicina tropical como um novo paradigma de estudo das doenças humanas. Tal fato resultou em um reposicionamento da hierarquia médica nacional, que passou a privilegiar os especialistas que tinham seu saber forjado nos laboratórios e na medicina experimental. Tal fato também repercutiu no ensino médico, com a incorporação de novas disciplinas que colocavam por terra a dominância da anatomoclínica como elemento fundamental da produção de novos saberes.
A erudição que alimenta o texto de Flavio Edler resultou neste livro, que se revela uma contribuição singular aos estudos sociais da medicina brasileira. Se seu foco foi a helmintologia médica, o modelo de análise incorporado em seu estudo aflora como um claro indício de que os estudos históricos da medicina e da saúde apresentam-se renovados e comprometidos em preencher lacunas de temas ainda não suficientemente explorados e, mais do que isso, capacitados para desvendar alguns pressupostos falaciosos que ainda nutrem boa parte da historiografia médica nacional.
