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DELTA: Documentação de Estudos em Lingüística Teórica e Aplicada

Print version ISSN 0102-4450On-line version ISSN 1678-460X

DELTA vol.14 n.2 São Paulo  1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-44501998000200006 

Nós e a gente no português falado culto do Brasil*

(Nós and a gente in standard spoken Brazilian Portuguese)

 

Célia Regina dos Santos LOPES (Universidade Federal do Rio de Janeiro)

 

 

ABSTRACT: An analysis of the variation nós and a gente in subject position is presented. Using the framework of Labovian Quantitative Sociolinguistics, social and linguistic factors were identified in order to explain the different distribuitions of these forms. The study focused the use of educated speakers of three main geographical regions of Brasil: Rio de Janeiro (Southeastern area), Porto Alegre (Southern area) and Salvador (Northeastern area).

RESUMO: Este trabalho analisa a variação de nós e a gente na posição de sujeito. Com base nos princípios da Sociolingüística Quantitativa Laboviana foram identificados os fatores lingüísticos e sociais com o objetivo de explicar a diferente distribuição destas formas. O estudo focaliza o uso de falantes cultos das três principais regiões geográficas do Brasil: Rio de Janeiro (Sudeste), Porto Alegre (Sul) e Salvador (Nordeste).

KEY WORDS: Sociolinguistic; Variation; Personal Pronouns; Portuguese.

PALAVRAS-CHAVE: Sociolingüística; Variação; Pronomes Pessoais; Português.

 

 

0. Introdução

A alternância das formas nós e a gente, representando a primeira pessoa do plural, é de uso comum entre os falantes no Brasil. A gramática normativa, entretanto, por raramente explicar fenômenos já consagrados na língua falada, apresenta, ainda, incoerências quanto à classificação e inserção da forma a gente no sistema de pronomes pessoais e considera o pronome nós como mero plural de "eu", sem discutir o seu uso mais abrangente e genérico de um "eu-ampliado".

Nos últimos anos, diversas pesquisas têm sido realizadas sobre a introdução da forma a gente no quadro dos pronomes pessoais, como uma variante do pronome de 1ª pessoa no plural nós (Naro et alii, 1983, Omena, 1986, Albán et alli, 1986, Fernandes & Gorski, 1986, Freitas et alii, 1991, Lemos Monteiro, 1991). Tais pesquisas de cunho variacionista ou restringem-se à investigação das características sociais, sem apontar os fatores lingüísticos que favorecem o uso dessa variável (Lemos Monteiro, 1991), ou tomam por base apenas a fala popular (Omena, 1986).

Pretende-se, pois, rever essas posições, dando conta da norma oral culta e identificando, além dos fatores sociais, os ambientes lingüísticos que condicionam o uso de nós e a gente na função de sujeito. Para tanto, utilizamos metodologia variacionista, levando em consideração as seguintes variáveis sociais: região geográfica, representadas pelas cidades do Rio de Janeiro (região sudeste), Salvador (região nordeste) e Porto Alegre (região sul), faixa etária e sexo dos informantes.

 

1. Revisão gramatical e descritiva

No tocante à apresentação dos pronomes pessoais pelas diversas gramáticas normativas, não são verificadas divergências significativas. As questões mais problemáticas dizem respeito aos seguintes pontos: 1) a não inclusão de formas amplamente utilizadas na linguagem coloquial, como é o caso de você/vocês/a gente e 2) a concepção equivocada nas noções de número e pessoa. Com relação à forma a gente, as gramáticas não apresentam uma posição coerente e única. A classificação é, em geral, controvertida, pois ora consideram a gente como pronome pessoal, ora como forma de tratamento, ou ainda como pronome indefinido, comentando-na apenas em notas ou observações de rodapé.

Em termos gerais, os pronomes pessoais são caracterizados pelos gramáticos como indicadores universais das três pessoas do discurso: quem fala, com quem se fala e de quem/que se fala, admitindo formas no singular com correspondente no plural. Entretanto, há inúmeras ressalvas que devem ser estabelecidas quanto às categorias de número e pessoa.

Assim como os nomes têm essencialmente, no plano semântico, um caráter representativo ou simbólico, os pronomes, em oposição, se caracterizam como formas indicativas que situam os seres e/ou coisas no mundo bio-social.

Em sua origem, a noção de pessoa está intimamente relacionada a condições pragmáticas, designando um elemento do universo discursivo que pressupõe, por sua vez, uma interação dialógica entre o falante - aquele que enuncia - e o ouvinte - a quem se dirige o enunciado. Esta concepção interlocutiva da noção de pessoa remonta ao latim e reflexo disso era a exclusividade de representação pronominal, em posição de sujeito, para o eixo falante-ouvinte (ego-tu). Por sua vez, designava-se "aquele de quem se fala" por intermédio de um demonstrativo (ille), dada a inexistência de um pronome pessoal para representar a dita terceira pessoa no caso nominativo. Outras particularidades, verificáveis hoje, caracterizam a "não-pessoa": a flexão de gênero e número (ele/ela, eles/elas) e a combinação com verbos que nas línguas do mundo, em geral, levam desinência zero. Conforme afirmam há muito os estudos sobre o assunto, entende-se a terceira pessoa como um elemento que se situa fora da interlocução verbal, e tal enfoque deve-se firmar de vez.

Levanta-se ainda outra divergência quanto à descrição gramatical, referente à oposição singular/plural nos pronomes pessoais. Ora, a noção de número implica o grupamento de elementos de mesma natureza e não é isso que ocorre com a forma nós, entendida como plural de eu, e vós/vocês como plural de tu/você. No primeiro caso, é inconcebível a junção de eu+eu, havendo, na verdade, várias possibilidades de compreensão: eu+tu/você, eu+ele/ela, eu+vós/vocês, eu+eles, eu+todos. No segundo caso, do mesmo modo, a forma plural refere-se a um conjunto de pessoas com quem se fala, admitindo também um valor indeterminado, abrangente, genérico e até difuso. Novamente, à diferenciação semântico-pragmática coaduna-se uma distinção formal, uma vez que o sentido expresso e os radicais das formas eu/nós e tu/vós são completamente diferentes. A introdução de formas como você(s)/a gente ratifica a posição de que a pluralização do eu/tu por nós/vós não se processa pela junção de elementos iguais, como se percebe no exemplo:

"Havia uma tradição, desde a copa do mundo de cinqüenta, pelo menos aquele pessoal que assistiu e se lembra daquilo. Ah, até nós sairmos perdendo. Então, acho que foi o jogo mais emocionante. O Brasil estava jogando mal." (Inquérito 18, Projeto NURC/Porto Alegre)

O falante emprega a forma nós podendo referir-se a ele pessoalmente (o eu), ao interlocutor (tu/você), aos jogadores que participam da partida, aos torcedores, enfim, a todos os brasileiros em geral.

Fica entendido, pois, que o plural, nos pronomes pessoais, pode indicar:

- a referência a dois ou mais seres que partilham o mesmo lugar na interlocução e, por conseguinte, são da mesma natureza. Poderíamos citar o uso de vocês, dito por um professor para interagir com seus alunos, ou seja, mais de um você;

- a referência a dois ou mais seres que ocupam lugares diferentes na interlocução (nós, representando eu+você(s), eu+ele(s)).

- uma referência indeterminada, porque ao englobar diferentes pessoas, um pronome pode, como dizíamos antes, tornar-se tão genérico a ponto de não podermos precisar qual é o seu referente.

Assim, resgatando as considerações sobre pessoa e número gramaticais nos pronomes pessoais, teríamos as seguintes observações em termos de uma descrição mais coerente:

1) Stricto sensu, a noção de pessoa restringe-se às duas primeiras (eu e tu (ou você)) que se opõem na enunciação, assumindo seus papéis legítimos: pessoa que fala e com quem se fala. A forma ele é a "não-pessoa", por excelência, pois se situa fora da interlocução.

2) Lato sensu, a noção de pessoa se expande para as formas eu, tu, nós e vós ou às suas variantes atuais (você, a gente e vocês), consideradas, então, 4 pessoas gramaticais que podem ser empregadas fora da alocução (eu/tu), assumindo o caráter ampliado e indeterminado do elemento alia.

Trabalhos recentes sobre pronomes pessoais, e mais especificamente sobre as formas de representação da 1ª pessoa do plural, enfatizam os aspectos levantados sobre a categoria de pessoa e número e a noção do "eu-ampliado" (cf. Omena, 1986, Bastos, 1988, Bondim, l989, Lemos Monteiro, 1991, Freitas e Albán, 1991, Rollemberg, 1991, Cunha, 1993). Com base em Benveniste (l988), Freitas et alii (1991a, 1991b) realizaram vários estudos, identificando as diferentes possibilidades de formas pronominais, como nós e a gente, serem utilizadas para expressar o "eu-ampliado". Considerando eu (o emissor), o ‘não-eu’ (receptor) e a ‘não-pessoa’ (alia), mostram como o falante pode utilizar ambas as formas equivalendo a:

a) eu + não-eu

(1) "O que nós chamamos, aqui, a brisa, que vem da terra...vem da terra propriamente não, da cidade, vamos dizer, aqui onde nós estamos, vem da Barra Avenida para o... para Mar Grande." (Inquérito 135, Salvador)

b) eu + ‘não-pessoa’

(2) "LOCUTOR:
- Está assaltando, né. Em frente à minha casa assaltaram as pequenas...
DOCUMENTADOR:
- ...Nessa área de assalto, por exemplo, como é que você chama o ato, o ato de tirar alguma coisa que não é da pessoa que está tomando?
LOCUTOR:
- Hoje mesmo nós falamos disso. Eu chamo de roubo.
DOCUMENTADOR:
- Hum. Você chama de roubo sempre?
LOCUTOR:
- Roubo sempre. A minha colega estava perguntando... E ela não saberia usar se era roubo ou furto. Eu não, eu também não, não sei direito como a gente usa, mas eu nunca uso furto. Eu sempre uso roubo."

c) eu + não-eu + ‘não-pessoa’

(3) "Então a única preocupação que um brasileiro normal, assim ...um padrão de vida razoável tem, é com, é com a estética. Não engordar demais. Mas se a gente está comendo as proteínas certas ou não, a gente não sabe."

O caráter genérico e globalizante que nós e a gente podem assumir, referindo-se, muitas vezes, a um grupo de pessoas indeterminado, tem estimulado outros pesquisadores a analisar de que forma os pronomes pessoais estão sendo empregados pelos usuários da língua como um recurso para indeterminar o sujeito (cf. Rollemberg et alii, 1991 e Cunha, 1993).

Rollemberg et alii (1991), com base em dados de falantes cultos de Salvador, examina esse aspecto relacionando-o com as variáveis ‘categoria de texto’ e ‘faixa etária do informante’. Observa a autora que você é o recurso mais utilizado, seguido respectivamente por nós, a gente e eles. Nas situações formais há preferência pela forma nós, contrariamente ao que se observa nos textos informais em que o falante prefere a gente. Quanto à faixa etária, conclui que você e a gente são empregados como recursos de indeterminação do sujeito entre os falantes mais jovens, estando nós e eles na preferência dos idosos.

Percebe-se a existência de uma estreita relação entre o uso de nós e a gente, com valor ampliado - sem a identificação nítida dos referentes no discurso - e o emprego dessas formas como recursos de indeterminação. Cunha (1993:13) alerta para este fato:

"Parece-nos que pronomes de primeira e de segunda pessoa tornam-se indeterminados na medida em que assumem a capacidade de englobar a "não-pessoa", o que pode acontecer inclusive com eu."

Nota-se ainda que esse valor genérico, difuso e indeterminado das formas nós e a gente e você se reflete na própria desinência verbal, como apontaram Benveniste (1988) e Lemos Monteiro (1991). O fato de a gente e você, por exemplo, abarcarem a "não-pessoa" (alia) está expresso na forma verbal a eles associada. Com tais pronomes o verbo fica na 3ª pessoa do singular, que se caracteriza pela marca zero ou falta de desinência e é considerado como forma impessoal. A impessoalidade verbal se coaduna com a noção de amplitude em que as formas pronominais são empregadas. Numa escala que vai do [-determinado] para o [+determinado] você e a gente, como observam Rollemberg e Cunha, são mais freqüentemente utilizadas do que a forma nós, que, em contrapartida, apresenta desinência verbal, ausente naquelas.

Como apontou Lemos Monteiro, parece que estamos caminhando para a simplificação do quadro dos pronomes pessoais, e a gramática não deveria continuar deixando de lado tais questões. Por isso propõe-se, nesse trabalho, verificar que ambientes lingüísticos e extralingüísticos são mais propícios ao uso de nós e a gente, tentando contribuir para o esclarecimento de mais um ponto abordado de forma pouco coerente por nossos gramáticos, repercutindo num ensino de língua que não corresponde à realidade falada pelos seus usuários.

 

2. Metodologia

As hipóteses preliminares desse trabalho foram levantadas a partir da pesquisa de Omena (1986), intitulada "A referência variável da 1ª pessoa do discurso no plural", cuja análise foi feita a partir de um corpus de falantes com pouca escolaridade. A intenção básica era partir dos resultados obtidos pela autora e verificar se o comportamento lingüístico de falantes cultos é o mesmo de falantes com pouca escolaridade Outro objetivo era descobrir se estávamos diante de um fenômeno de variação estável ou de mudança lingüística, além de observar se há uma "unidade lingüística brasileira na aparente diversidade regional".

Adotando a metodologia sociolingüística quantitativa laboviana (Sankoff, 1988), partimos de um corpus constituído de uma amostra de 18 entrevistas do tipo DID (diálogo entre informante e documentador) do Arquivo Sonoro do Projeto NURC/Brasil (6 de cada cidade - Rio de Janeiro, Porto Alegre e Salvador), havendo uma distribuição proporcional de 01 (uma) entrevista de cada sexo pelas 03 (três) faixas etárias (de 25 a 35 anos (F1), de 36 a 55 anos (F2) e mais de 56 anos (F3)).

Embora tenhamos realizado diversas rodadas binárias, isolando cada uma das variáveis sociais, privilegiamos, para a interpretação e análise dos resultados, a rodada geral que será, paulatinamente, apresentada no exame dos fatores lingüísticos. Os grupos selecionados na rodada geral, por ordem, foram:

1º) Paralelismo formal.
2º) Sexo associado à faixa etária;
3º) Saliência fônica;
4º) Região geográfica;
5º) "Eu-ampliado"
6º) Tempo verbal;
7º) Modalização discursiva.

Os outros grupos de fatores controlados (mudança de referente, gênero discursivo, tamanho de grupo e tipo de oração) não foram considerados pertinentes na rodada global.

 

3. Análise dos dados: nós e a gente na função de sujeito

Obteve-se um total de 972 dados, sendo 375 de nós (39%), 333 de a gente (34%), 187 de sujeito Ø com verbo na 4ª pessoa gramatical (19%) e 77 de sujeito Ø com verbo na 3ª pessoa do singular (8%). Na análise geral, temos 562 dados de sujeito nós, explícito ou não, contra 410 de sujeito a gente, explícito ou não. Dos 972 dados, 523 são de mulheres e 449 de homens. Quanto à idade, a distribuição também é bastante equilibrada: 253 dados de jovens, 333 de adultos e 386 de idosos.

Em nossos dados, foram identificadas 4 possibilidades utilizadas pelo falante culto para referir-se a 1a pessoa do discurso no plural: sujeito nós - explícito ou não - seguido de verbo com desinência -mos e de sujeito a gente - explícito ou não - com desinência verbal Ø.

"Nós íamos" assistir um filme. (Inquérito 121, Porto Alegre)
Então "vamos" fazer o negócio." (Inquérito 181, Rio de Janeiro)
"A gente se esquecia" que tinha muito o que fazer e "tomava" duas cervejas e "ficava" com um sono danado." "Comia" pra burro. (Inquérito 050, Rio de Janeiro)

É importante mencionar que, obviamente, só foram considerados como dados os verbos de 3ª pessoa, sem sujeito explícito, que apresentavam em orações antecedentes ou subseqüentes a forma a gente, uma vez que o verbo na 3ª pessoa gramatical pode se referir a diferentes sujeitos não explícitos.

Ainda que se tenha levantado que as duas formas referem-se a um "eu-ampliado", havendo um certo nivelamento semântico entre elas, identificaram-se ambientes lingüísticos, sejam eles estruturais ou discursivos, favoráveis à presença de a gente, enquanto outros apresentam um acentuado condicionamento ao uso de nós. As características sociais do falante também atuam no uso das variantes em estudo. A tabela abaixo ordena os fatores mais favoráveis ao uso de a gente:

 

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Analisemos, pois, em que consiste cada um dos grupos de fatores relecionados e os respectivos resultados.

A variável paralelismo, como atualmente é rotulada nos diversos estudos de fenômenos do português e de outras línguas (cf. Poplack, 1980, Schiffrin, 1981, Lefebvre, 1981, Omena, 1986, Scherre, 1988, Silva, 1988, Gryner, 1990), consiste na tendência de o falante repetir uma mesma forma numa seqüência discursiva, seja dentro de um sintagma, seja entre orações, por influência, dependendo do fenômeno, de fatores pragmático-discursivos.

Observemos um exemplo de uma estrutura paralela de nosso corpus:

"Eh, dizem, dizem, os nutrólogos, né, que nós somos um povo que pior comem, né? Nós não sabemos nos alimentar, né? E é, e é verd... e é real porque a gente não tem um mínimo, a gente não tem a mínima preocupação com a comida..." (Inquérito 050, Rio de Janeiro)

No exemplo, o falante escolhe nós (1ª referência) para designar o brasileiro em geral, incluindo-se nesse contexto. Na seqüência do discurso, utiliza novamente o nós - precedido de nós (repete a forma). Utiliza depois duas vezes a gente, o primeiro antecedido por nós e o segundo precedido por a gente (repete a forma).

Valor de aplicação: nós

 

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A tabela 2 mostra que, com relação ao pronome que inicia uma série (1ª referência) e a forma isolada no período, o falante tanto pode usar nós quanto a gente: pesos relativos próximos de .50. Contudo, no momento em que seleciona uma forma, tal escolha influenciará no uso das formas subseqüentes, pois o falante tende a repetir a mesma forma numa seqüência discursiva. Observa-se uma maior freqüência: 1) com o sujeito não explícito com verbo na 1ª pessoa do plural - (93% dos casos, .86), e 2) com a forma nós precedida de uma oração introduzida por nós (87%, .79). Isto indica que a probabilidade de usar nós, ao invés de a gente, é significativamente maior quando o falante utiliza também nós em oração antecedente. A forma a gente apresenta comportamento idêntico: há maior probabilidade para o uso de a gente quando o antecedente formal é a gente, e o verbo encontra-se na 3ª pessoa do singular, com sujeito explícito ou não.

Interessante observar ainda que a presença do pronome no paralelismo está relacionada à mudança de referência, apresentando-se altos índices de sujeito explícito na 1ª ocorrência de uma série. Isso nos sugere que o falante, a fim de identificar para o ouvinte o referente, necessita explicitá-lo formalmente, quando faz sua primeira alusão a ele, iniciando um tópico. Durante a interlocução, este recurso será utilizado, novamente, quando houver uma mudança de referência.

O paralelismo formal mostrou-se significativo na análise, sendo selecionado em primeiro lugar em todas as subamostras. Os fatores de natureza discursiva controlados - determinação do referente, mudança da referência, tipos de discurso - foram dominados pelo paralelismo, que se revelou o condicionador mais poderoso.

Com relação ao princípio da saliência fônica (Lemle & Naro, 1977), diz-se que entre duas formas niveladas, que se opõem, é mais provável a manutenção dessa oposição quando existe, entre elas, uma diferenciação fônica acentuada. Caso contrário, ou seja, quando for menor essa distinção, há uma tendência a neutralizar-se a oposição e prevalecer o uso de apenas uma das formas.

Nos nossos resultados identificamos que quanto maior a diferença entre as formas do singular e plural maior probabilidade de ocorrer o pronome nós (.77), tabela 3 próxima página, nos níveis 3, 4 e 5 (está/estamos, comeu/comemos, é/somos). Em contrapartida, nos níveis 1 e 2 de menor saliência (falava/falávamos, fala/falamos), há favorecimento para a forma a gente.

 

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Para analisar o "eu-ampliado", definimos, seguindo alguns esquemas propostos em outros trabalhos (cf. Lemos Monteiro, 1991), níveis situados entre dois extremos: o grau máximo de inclusão do "eu" e o grau mínimo de inclusão do "eu". Os resultados mostraram que há uma diferenciação no emprego de nós e a gente em relação a um uso mais restrito ou mais genérico. O falante utiliza preferencialmente o pronome nós 1) para se referir a ele mesmo e mais o interlocutor (eu+você) (.91), ou a (eu+ele) "não-pessoa"(.87): referente [+perceptível] e [+determinado]. No momento em que o falante amplia a referência, indeterminando-a, há maior favorecimento para a forma a gente(.65), de maior grau de impessoalidade.

No gráfico 1, há uma ascendência progressiva no uso de a gente em função do maior grau de amplitude do eu [-determinado]. Percebe-se a configuração de graus, partindo de eu+você(s) [+determinado] aumentando gradativamente a generalização até atingir o maior nível de indeterminação eu+ você(s)+ele(s) ou eu + todos. No caso de nós, o processo é inverso: quanto maior a delimitação do "eu-ampliado" (eu+vocês), maiores são os índices percentuais, que vão decrescendo na medida em que se parte para a generalização (eu+você(s)+ele(s).

 

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O tempo verbal revelou-se, também, em nossa investigação, como fator significativo. Ao testá-lo, como grupo de fatores, tínhamos as seguintes hipóteses, que, como veremos, se confirmaram:

a) O uso de a gente com o gerúndio é categórico, (Omena, 1986);
b) A desinência número pessoal (DNP) -mos vem adquirindo a função de morfema pretérito, em oposição ao Ø no tempo presente, (Fernandes & Gorski, 1986);
c) O pretérito imperfeito, o presente e as formas nominais favorecem o uso de a gente, já o futuro e o pretérito perfeito favorecem a presença de nós, (Omena, 1986).

As maiores probabilidades para o uso de "nós " ocorreram com o pretérito perfeito (94%, .90) e com os tempos que se caracterizam pelo fato de apresentarem maior número de marcas. Observaram-se altos índices, em termos de peso relativo, para o futuro subjuntivo (.84); o imperfeito do subjuntivo (.67); o presente do subjuntivo (.58); e o futuro do pretérito do indicativo (.61): tempos verbais em que a presença da desinência modo temporal é regular, com um emprego bem específico em termos semânticos e limitado a certas construções sintáticas. Os pesos relativos maiores para o uso de a gente ocorreram em formas nominais (infinitivo .65 e gerúndio .75) e presente do indicativo .60.

Na análise da modalização, observamos apenas dois recursos que consideramos opostos: os "auxiliares modais" do tipo poder, querer, dever, etc. que são utilizados para amenizar a responsabilidade do falante em relação ao seu discurso e os verbos ou expressões de opinião, como as orações performáticas "eu acho que ", empregados para evidenciar uma posição pessoal do falante sobre um tópico. Nossos resultados indicam que houve maior favorecimento da forma nós nas situações em que o falante expressa sua opinião pessoal (90%, .92). No entanto, ao modalizar seu discurso, através dos auxiliares poder, dever, querer, etc. a forma a gente prevalece (65%, .69).

Quanto à faixa etária, Omena (1986) constatou que na fala popular os falantes mais jovens empregam a forma a gente, enquanto os idosos utilizam, preferencialmente, a forma nós. Em nossos resultados prevalece um peso relativo de (.77) da forma a gente entre os falantes cultos de 25 a 35 anos (faixa 1), ao passo que houve uma ocorrência de .60 da forma nós entre os informantes com mais de 56 anos (faixa 3).

Com relação ao sexo, contrariamente ao que se observa entre os falantes de menor grau de escolarização, o peso relativo de uso de a gente é maior entre as mulheres (.59). Entre os homens tem-se 69% de ocorrências da forma nós contra 31% de a gente. A intersecção sexo e faixa etária faz-se necessária para verificar se o fenômeno da substituição de nós por a gente é um processo de variação estável ou de mudança lingüística. A preferência pela forma não-padrão entre as mulheres pode sugerir-nos a segunda opção, embora, ao inter-relacionar as duas variáveis sociais (sexo e idade) verifique-se uma configuração curvilinear, interpretada como um padrão de variação estável, jovens e idosas com índices mais altos que as falantes da faixa média. No caso dos homens, observa-se uma progressão contínua e ascendente.

 

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No plano diatópico, Lemos Monteiro (1991) examinou as tendências de uso dos pronomes "nós e a gente" em cinco capitais brasileiras, mostrando que não há grande divergência entre elas. Comprova o autor que Porto Alegre e Salvador são as cidades em que o emprego de nós atinge a taxa mais elevada e o Rio de Janeiro cidade em que mais se usa o sujeito a gente. Em minha pesquisa, com um corpus menor, a distribuição entre as cidades mostra-se significativa. No Rio, acusa-se uma preferência de (59%, .69) para o uso de a gente, em oposição a Porto Alegre e Salvador, cujos falantes utilizam mais a forma nós (72%, .60 e 63%, .66).

 

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4. Considerações finais

Confirmando-se, em sua maioria, as hipóteses levantadas a partir do estudo de Omena (1986), concluímos que os fatores lingüísticos que condicionam o uso de nós a gente são, praticamente, os mesmos, tanto para os falantes com pouca escolaridade, quanto para os de formação universitária completa. O processamento da mudança lingüística nos dois grupos, entretanto, está ocorrendo de forma diferenciada. Nos falantes com pouca escolaridade (Omena, 1986) a substituição de nós por a gente encontra-se em um estágio mais avançado que entre os falantes cultos. Estes últimos, homens e mulheres de meia-idade — sofrendo pressões sociais maiores, em função de suas atividades profissionais — estão, talvez, retardando a efetivação da mudança.

Em síntese, destacamos as tendências gerais quanto ao uso de nós e a gente no português falado culto do Brasil:

a) numa seqüência discursiva a forma a gente ocorre quando precedida de outra forma a gente ou verbo na 3ª pessoa do singular, sem sujeito explícito. O mesmo acontece com o pronome nós que tende a se repetir no paralelismo discursivo. Entretanto, quando o referente é outro, a forma escolhida pelo falante também se altera;

b) há uma diferenciação no emprego de nós e a gente em relação a um uso mais restrito ou mais genérico. O falante utiliza preferencialmente o pronome nós para se referir a ele mesmo e mais o interlocutor (não-eu), ou a não-pessoa: referente [+perceptível] e [+determinado]. No momento em que o falante amplia a referência, indeterminando-a, há maior favorecimento para a forma a gente.

c) os tempos verbais não-marcados e o presente favorecem o uso de a gente; formas [-salientes], enquanto o futuro e o pretérito perfeito e os tempos do subjuntivo favorecem a presença de nós: formas [+salientes];

d) Os falantes jovens empregam mais a forma a gente e os falantes idosos, a forma nós. Os adultos, com formação universitária completa, estão utilizando as duas formas;

e) as mulheres tendem a usar mais a forma a gente do que os homens;

f) o Rio de Janeiro é a cidade onde mais se usa o sujeito a gente, enquanto em Porto Alegre e Salvador o emprego de nós é bem mais freqüente.

Ainda que se tenha realizado uma análise separando os ambientes lingüísticos dos sociais e apresentando os resultados isolados, percebe-se que o uso das duas formas condiciona-se a determinados ambientes lingüísticos e discursivos que se inter-relacionam, endossando o caráter indeterminado de a gente em oposição a uma nuance mais específica de nós. Em primeiro lugar, tem-se o uso da forma a gente para referências discursivas mais vagas, indefinidas e amplas. Ao se referir a um grupo grande de pessoas, indeterminado e difuso, o falante prefere tal forma pelo seu caráter genérico. Utiliza a gente também com o presente, infinitivo e gerúndio que são formas verbais características das enumerações de atos habituais, freqüentes ou até atemporais, associados aos discursos descritivos, argumentativos e expositivos. Com a forma a gente o falante se descompromete com o seu discurso, comentando assuntos gerais e não particulares. Quando eventualmente narra um fato vivido, o comprometimento com aquilo que enuncia é maior, por isso o falante utiliza o pronome nós que, embora também possa englobar o elemento alia, possui um caráter mais específico e determinado, daí a sua presença em ambientes lingüísticos em que o referente é identificável e conhecido e o tempo verbal é o pretérito (característico da narração de fatos reais).

Com relação à fala carioca, é inegável a sua posição não-conservadora, contrapondo-se às outras duas cidades. As mulheres aparecem inovando com o uso de a gente e, como apontou Labov (1990), através da escola básica e da família, conduzem os membros da sociedade aos primeiros contatos com a linguagem, iniciando o processo de mudança lingüística.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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* Este artigo é em homenagem ao Prof. Ataliba Teixeira de Castilho

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