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DELTA: Documentação de Estudos em Lingüística Teórica e Aplicada

Print version ISSN 0102-4450On-line version ISSN 1678-460X

DELTA vol.14 special issue São Paulo  1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-44501998000300006 

Apagamento do R Final no Dialeto Carioca: um Estudo em Tempo Aparente e em Tempo Real

 

Dinah CALLOU (Universidade Federal do Rio de Janeiro/CNPq)
João MORAES (Universidade Federal do Rio de Janeiro/CNPq)
Yonne LEITE (CNPq/Universidade Federal do Rio de Janeiro)

 

 

ABSTRACT: This paper deals with the weakening process of the phoneme R in final coda position, in Rio de Janeiro dialect. Following labovian quantitative approach, three sets of data are compared, in order to present a case-study in apparent time and real time, through a panel and a trend study. It is shown that final R deletion follows age grading pattern and cannot be considered a change in progress.

 

 

0. Introdução

O apagamento do R em posição de coda, em final de palavra, é um fenômeno antigo no português do Brasil. O processo, em seu início, foi considerado uma característica dos falares incultos e, no século XVI, nas peças de Gil Vicente, era usado para singularizar o linguajar dos escravos. O fenômeno expandiu-se paulatinamente, sendo hoje comum na fala dos vários estratos sociais.

A perda do R final tem sido avaliada sob ângulos diversos: um, que a considera uma pronúncia esteriotipada, ainda demarcador social, com indícios de recuperação, inclusive em hipercorreções (Houaiss, 1970); outro, que prediz sua completa perda em dialetos não-padrão (D'Arc, 1992).

Neste artigo, focaliza-se o apagamento do R — o estágio final de um processo de enfraquecimento que leva à simplificação da estrutura silábica no Português do Brasil — em posição final no vocábulo, na fala culta do Rio de Janeiro (R à h à Ø CVC à CV).

Usando a metodologia da sociolingüística quantitativa laboviana, intenta-se realizar uma análise em tempo aparente e em tempo real de curta duração, a fim de verificar se o processo representa uma variação estável ou se há uma mudança em curso, seja a sua implementação, seja a sua recuperação.

São analisados três conjuntos de dados do Projeto NURC, coletados em duas épocas distintas, os locutores estratificados em três faixas etárias: 25 a 35 anos; 36 a 55 anos e 56 anos em diante. O primeiro conjunto (66 informantes, 33 do sexo masculino e 33 do feminino) foi gravado no início da década de 70; o segundo, com alguns dos mesmos informantes do corpus anterior (10 informantes, 5 do sexo masculino e 5 do feminino), e, o terceiro, uma nova amostra, composta de 18 informantes, 9 do sexo masculino e 9 do feminino, ambos gravados entre 1992-1996.

A segunda amostra, do recontato, talvez seja muito reduzida para ter significância estatística, mas é, de qualquer modo, valiosa para a interpretação dos resultados iniciais. Essa redução deveu-se, em parte, à dificuldade de localizar os mesmos informantes dos anos 70, principalmente os que àquela altura pertenciam à terceira faixa, agora, necessariamente, com mais de 76 anos. Foram gravadas entrevistas de 30 minutos, focalizando os mesmos tópicos das entrevistas anteriores.

Na amostra dos anos 70, foram analisadas 2723 ocorrências de R final e nas dos anos 90, 506 para o estudo do recontato e 817 para o estudo da nova amostra.

Usando o programa VARBRUL, os seguintes fatores (a) estruturais e (b) sociais foram examinados: (a) tamanho do vocábulo, vogal precedente, ponto e modo de articulação do segmento subseqüente, pausa subseqüente, classe morfológica, item lexical, acento frasal e acento lexical; (b) faixa etária e gênero.

 

1. Variação do R no Português brasileiro padrão

Na análise fonológica estruturalista do português, dois fonemas R são habitualmente propostos: um pronunciado como um tepe alveolar, tradicionalmente denominado de R simples ou "fraco" e um outro, que pode variar consideravelmente em sua articulação, tradicionalmente chamado de R múltiplo ou "forte". Em posição final de coda, onde o apagamento é observado, sua variação articulatória , como se pode ver no quadro1, vai de uma vibrante, alveolar ou uvular, a uma fricativa, velar ou glotal, chegando a seu total apagamento.

 

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Em trabalho anterior, Callou et alii (1996) analisaram a realização do R em posição de travamento silábico nos cinco centros urbanos do Projeto NURC, usando a amostra da década de 70. O grupo de fatores "posição interna/externa no vocábulo" foi selecionado como o mais significativo de todos. Assim, o comportamento do R em final de vocábulo deve ser analisado separadamente, uma vez que a posição final (externa) constitui o ambiente onde o apagamento se dá mais freqüentemente, como se pode ver nas Figuras 1 e 2, que levam em conta apenas o dialeto carioca.

 

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Distribuição similar pode ser observada nas amostras da década de 90 (recontato e nova amostra).

A fim de avaliar as duas propostas referentes ao apagamento do R — uma mudança completa no sentido da perda do segmento ou de sua recuperação — apresenta-se uma análise em tempo aparente e em tempo real, através de um estudo em painel (panel study) e de um estudo de tendências (trend study), conforme a metodologia proposta por William Labov (1994).

 

2. Análise da mudança em tempo aparente e em tempo real: pressupostos gerais

A concepção de mudança, formulada pela sociolingüística laboviana (Labov, 1994), segue, em essência, a doutrina do uniformitarismo — oposta à teoria da catástrofe — segundo a qual todos os fenômenos geológicos podem ser explicados como resultantes de processos observáveis que operam de maneira uniforme. Essa teoria, tomada de empréstimo à geologia, teve como seu precursor, na lingüística, William Dwight Whitney (1867, apud Labov) tendo influenciado significativamente a corrente neogramática.

Assim, o princípio uniformitário é uma pré-condição necessária, tanto para a reconstrução histórica, quanto para o uso do presente para explicar o passado, pois permite inferir pela observação de processos em curso aqueles que operaram no passado.

A proposta de Labov, derivada dessa concepção, parte do pressuposto de que é possível captar mudanças em progresso através da análise distribucional-quantitativa de variáveis em diferentes faixas etárias. Isso constitui o que se convencionou chamar análise em tempo aparente. As formas das curvas de distribuição indicariam se se trata de variação estável ou de mudança em curso (implementação ou perda de um processo). A distribuição, porém, por faixas etárias pode não representar mudanças na comunidade, mas sim constituir um padrão característico de gradação etária que se repete a cada geração. A resposta aos problemas derivados da interpretação dos dados em tempo aparente deve basear-se nas observações feitas em tempo real, isto é, na observação e confronto de dois ou mais períodos discretos de tempo.

A combinação de observações em tempo aparente e em tempo real constitui, portanto, o método fundamental de análise da mudança em curso.

Há duas abordagens básicas de obtenção de dados em tempo real: 1) o recontato dos mesmos falantes em período posterior ou 2) a constituição de uma nova amostra representativa, panel ou trend study, respectivamente, termos tomados de empréstimo à sociologia. Essa metodologia de estudo em tempo real encontra-se, ainda, em fase experimental, havendo muitas questões abertas, entre elas, o paradoxo de ser a mudança sonora, a um tempo, muito lenta e muita rápida para poder ser observada e o modo pelo qual a variação se transmite através das gerações

O estudo da mudança, em tempo aparente, é feito, assim, observando-se o comportamento lingüístico de falantes em diversas faixas etárias, mas só o estudo em tempo real poderá esclarecer melhor se se trata de uma mudança ou de gradação etária, já que se compara a fala de um mesmo informante em dois momentos distintos. Se um indivíduo de uma determinada faixa etária reproduz, ao passar para outra, em certa medida, o comportamento lingüístico de falantes da mesma geração na amostra anterior, tem-se um indicativo de a variação ser característica daquela faixa etária. Se, no entanto, ao mudar de faixa etária, reproduz o seu comportamento na faixa anterior, tem-se um indício de que não se está diante de uma característica etária, mas sim de mudança geracional.

Segundo Labov (1994:83), "a interpretação dos dados em tempo real, de estudos do tipo em painel ou de tendências, requer um modelo subjacente de como os indivíduos mudam ou não mudam durante sua vida, como as comunidade mudam ou não mudam ao longo do tempo, e o que pode resultar da combinação dessas possibilidades. A combinação mais simples produz quatro padrões distintos".

 

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Um estudo em tempo aparente não permite diferençar entre gradação etária e mudança geracional. Por um lado, um estudo em painel poderá detectar as condições em que o indivíduo é ou não estável, mas ele, per se, não distingue gradação etária de mudança comunitária ou estabilidade de mudança geracional, uma vez que só se pode ter uma visão da comunidade através do comportamento dos mesmos indivíduos.

Não é difícil interpretar os dois primeiros padrões. Se o comportamento dos indivíduos é estável durante toda a sua vida e a comunidade se mantém também estável, não há variação a analisar e tem-se estabilidade; se os indivíduos mudam seu comportamento lingüístico durante suas vidas mas a comunidade como um todo permanece a mesma, o padrão pode ser caracterizado como gradação etária. A terceira e quarta combinações não são de tão fácil apreensão. Na mudança geracional, os indivíduos apresentam uma freqüência característica para uma variante particular, mantendo-a durante toda a sua vida. Aumentos regulares, porém, dessas freqüências individuais durante várias gerações podem levar a uma mudança comunitária. Na mudança da comunidade, todos os membros da comunidade alteram conjuntamente suas freqüências ou adquirem simultaneamente novas formas. Segundo Labov, este seria o padrão característico da mudança lexical e sintática, enquanto a mudança geracional seria típica da mudança sonora e morfológica.

 

3. Análise de fatores estruturais e sociais

O primeiro grupo selecionado, em todas as amostras, foi classe morfológica. A perda do R é mais freqüente nos verbos: o infinitivo e a primeira e terceira pessoas do futuro do subjuntivo são marcados em português tanto pela presença do R final quanto pela tonicidade da sílaba que contém o segmento (comer versus come). Nos não-verbos, em que o R não carreia informação morfológica, o peso relativo é baixo (Tabela 1).

 

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Esse comportamento vai de encontro às afirmações correntes na literatura de que material fonológico que carreie informação morfológica tende , nos processos de mudança, a ser preservado.

Para os nomes, o tamanho do vocábulo é um fator significante, a perda do R sendo praticamente bloqueada em vocábulos monossilábicos. Já para os verbos, a variável tamanho do vocábulo tem um comportamento neutro.

Devido a essa polaridade, nomes e verbos foram analisados em separado, em todas as amostras. Isso faz uma diferença. Se os nomes não forem separados dos verbos, a seleção dos grupos de fatores significativos não reflete corretamente os ambientes condicionantes do apagamento do R. Por exemplo, se nomes e verbos forem tratados em conjunto, a vogal precedente torna-se o último grupo a ser selecionado pelo programa Varbrul; se eles forem separados, a vogal precedente torna-se, para o apagamento, o primeiro grupo a ser selecionado para os não-verbos.

Além disso, as ocorrências do pronome indefinido qualquer foram excluídas, uma vez que neste item lexical a perda do R é praticamente categórica (99 %).

Com essas modificações, os mesmos grupos de fatores estruturais são selecionados em ambos os períodos, tanto para homens quanto para mulheres: acento frasal, para verbos e não-verbos e tipo de vogal precedente, para os não-verbos.

A análise multivariada, em ambos os períodos, nas três amostras, selecionou sempre os grupos de fatores faixa etária e gênero, passando as duas variáveis, desde o início, a serem analisadas simultaneamente.

 

4. Dois estudos em tempo aparente

A fim de verificar o comportamento lingüístico estável ou instável do indivíduo e da comunidade, comparou-se a distribuição do apagamento do R no tempo aparente, nas duas amostragens que incluem indivíduos diferentes. Conforme nos diz Labov (1994), no recontato, os resultados podem refletir mais uma característica de faixa etária que uma mudança geracional que tenha a acarretar uma mudança lingüística da comunidade. É no estudo com outros indivíduos não constitutivos da amostra anterior que se pode visualizar melhor a mudança geracional, característica, conforme se disse no item 2, da mudança sonora.

Verbos e não-verbos, homens e mulheres, são analisados separadamente, pelos motivos já expostos. Nas figuras 3 e 4, comparam-se os pesos relativos da perda do R em homens e mulheres, nas décadas de 70 e 90.

 

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As curvas de distribuição dos verbos indicam, para os homens, uma variação estável, em ambos os períodos. Os falantes mais jovens não modificam o seu comportamento dos anos 70 para os anos 90, mas o segundo e terceiro grupos apresentam comportamentos opostos: nos anos 70, o peso relativo decresce da terceira para a segunda faixa etária e aumenta da segunda para a primeira; nos anos 90, há um aumento da terceira para a segunda e uma diminuição da segunda para a primeira.

Uma provável explicação para esse aumento na segunda faixa — que coincide, no Brasil, com a senioridade na vida profissional — é a de o apagamento do R não ser mais uma pronúncia estigmatizada, ao menos nos verbos, correspondendo a uma nova norma introduzida na comunidade.

Nos não-verbos, as curvas de distribuição indicam uma mudança em curso, a terceira e a segunda faixas etárias apresentando quase o mesmo peso relativo, e uma diminuição no uso da regra de cancelamento, nos falantes mais novos, dos anos 70 para os anos 90. Nos não-verbos, o apagamento nos anos 90 parece ter alcançado o mesmo patamar a que chegaram os verbos.

Para as mulheres, as curvas de distribuição indicam mudança em progresso nos dois casos.

Cumpre assinalar, no entanto, que essa regra avançou nas mulheres mais idosas, na década de 90, apenas nos não-verbos.

 

5. Um estudo em tempo real

Comparando os mesmos informantes do sexo masculino em ambos os períodos (estudo em painel), pode-se verificar que não há estabilidade: o comportamento não é o mesmo ao longo da vida do indivíduo, a freqüência do apagamento do R continuando a avançar em não-verbos e em verbos, exceto, na última faixa etária, nos verbos.

 

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As mulheres não apresentam o mesmo comportamento.

 

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Nos verbos, o apagamento do R diminui da primeira para a segunda e da terceira para a quarta faixa etária. Todavia, ele aumenta da segunda para a terceira faixa etária. Como ocorre nos não-verbos, não há um comportamento similar entre as mulheres: o apagamento do R diminui da primeira para a segunda faixa etária e aumenta da segunda para a terceira. As mulheres idosas, contudo, são estáveis.

O estudo em painel dá conta do comportamento lingüístico do indivíduo, mas não permite determinar se a comunidade é estável ou não, não se podendo, portanto, saber se o fenômeno se enquadra no padrão de gradação etária ou de mudança da comunidade. A comparação da amostra da década de 70 com a de 90 com informantes diferentes (nova amostra) é a forma indicada de observar o processo em curso na comunidade (Tabela 2):

 

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A tabela 2 mostra que a população feminina continua a implementar a regra de apagamento, uma vez que há sempre um aumento do peso relativo de 70 para 90. Por outro lado, em relação aos homens, a regra parece ter atingido seu limite e há indícios de perda do processo de apagamento, principalmente no que tange aos não-verbos. De certa forma, essa dualidade de comportamentos permite inferir que os dois pontos de vista opostos, o de Houaiss — no sentido da recuperação do segmento — e o de D'Arc — no sentido de seu apagamento total, na fala não-culta — têm, em certa medida, fundamento. Em relação à fala culta, no entanto, a avaliação da situação geral e o estudo em tempo aparente e em tempo real indicam antes um equilíbrio que a previsão de um completo apagamento, uma vez que os pesos relativos totais nas duas décadas não vão muito além de .50

Se não se distinguir entre homens e mulheres e entre nomes e verbos, a estabilidade de comunidade é flagrante: em 70 e 90, a freqüência de aplicação da regra se mantém.

O comportamento individual, como se viu nas figuras 5 e 6, é instável, com exceção do das mulheres da terceira faixa etária. O quadro é, deste modo, característico de um padrão de gradação etária (cf. quadro 2).

 

6. À guisa de conclusão

Os dados aqui apresentados mostram a complexidade do estudo da mudança lingüística. No caso em pauta, essa complexidade fica bastante evidente. Em primeiro lugar, teve-se que diferençar falantes do sexo masculino de falantes do sexo feminino — uma comunidade cindida, portanto — e, em segundo, distinguir entre verbos e não-verbos. O interessante aqui é que o apagamento do R, como se disse, incide sobre material com conteúdo morfológico. Essa distinção acarreta um problema para o modelo da fonologia lexical, pois se tem uma regra fonética variável para a qual é imprescindível informação morfológica. No modelo da fonologia lexical, as regras variáveis se aplicariam no nível pós-lexical, em que as informações morfológicas já não estariam presentes.

Por fim, vale salientar que o apagamento do R final tem sido considerado um caso de mudança de baixo para cima que, ao que tudo indica, já atingiu seu limite, e é hoje uma variação estável, sem marca de classe social.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CALOU, D. et alii (1996). Variação e diferenciação dialetal: a pronúncia do /r/ no português do Brasil. In: Koch, I. (org.). Gramática do Português Falado. v. VI: 465-493. Campinas, UNICAMP.         [ Links ]

D'ARC, J. (1992). Difusão lexical na vibrante final. LETRAS/UFRJ. Dissertação de Mestrado.         [ Links ]

HOUAISS, A. (1970). Sobre alguns aspectos da recuperação fonética. Anais do Primeiro Congresso de Filologia Românica: 25-38. Rio de Janeiro, MEC.         [ Links ]

LABOV, W. (1994). Principles of linguistic change. Oxford/Cambridge, Blackwell.         [ Links ]

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