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DELTA: Documentação de Estudos em Lingüística Teórica e Aplicada

Print version ISSN 0102-4450On-line version ISSN 1678-460X

DELTA vol.16 no.2 São Paulo  2000

https://doi.org/10.1590/S0102-44502000000200003 

Intercompreensão de Texto Escrito por Falantes Nativos de Português e de Espanhol

(Text Intercomprehension by Native Speakers of Portuguese and Spanish)

 

Eunice R. HENRIQUES
(Universidade Estadual de Campinas)

 

 

ABSTRACT: The aim of this paper is to verify the level of text comprehension (reading and translation) in Portuguese, by native speakers of Spanish and vice-versa. The subjects are freshmen, from different fields (300 native speakers of Portuguese and 300 of Spanish), who have never studied the other language neither as a second (L2) nor as a foreign language (FL). The results show that, in each group of subjects, there is a high level of comprehension of the foreign language, which varies from 58% to 94%, depending on the context and on the lexical/semantic similarity (or difference) between the key-words in the texts used in this research.
KEY-WORDS: Text Intercomprehension; Portuguese; Spanish; Lexical/Semantic Levels.

RESUMO: O objetivo deste trabalho é verificar o nível de compreensão de texto (leitura e tradução) em português, por falantes de espanhol, e vice-versa. Os sujeitos são alunos ingressantes de vários cursos universitários (300 falantes nativos de português e 300 de espanhol), que nunca estudaram a outra língua nem como L2, nem como LE. Os resultados mostram que, em cada um desses dois grupos de sujeitos, existe um alto índice de compreensão da outra língua, que varia de 58% a 94%, dependendo do contexto e da semelhança (ou diferença) léxico/semântica entre as palavras-chave dos textos usados nesta pesquisa.
PALAVRAS-CHAVE: Intercompreensão de texto; Português: Espanhol; níveis lexical e semântico. 

 

 

Português e espanhol são as línguas românicas mais próximas. Richman (1965) desenvolveu uma pesquisa comparativa entre as duas, com base em duas listagens de palavras de uso mais freqüente: a de Milton Buchanan, A Graded Spanish Word Book (Toronto: Univ. of Toronto Press, 1927) e a de Charles Brown, Wesley Carr e Milton Shane, A Graded Book of Brazilian Portuguese (New York: 1945).

Em seu trabalho, Richman analisou cada uma das 6500 palavras mais freqüentes do espanhol, com o objetivo de determinar a porcentagem de palavras cognatas em português e estabelecer a proximidade entre o léxico dessas duas línguas. Richman leva em conta apenas as palavras mais usadas de cada língua, ou seja, o vocabulário básico para que os aprendizes possam se comunicar:

By dealing only with the most common words, one can find out how closely the words of everyday use of Spanish compare with those of Portuguese. Such a basis of selection also enables us to ascertain how much new vocabulary a Spaniard would have to learn in order to express himself in Portuguese, and vice-versa. While each language may consist of hundreds of thousands of words, the pattern of all ordinary conversation falls within ranges of high frequency words. (p. 24)

O quadro abaixo, elaborado por Richman (1965:62), ilustra a grande proximidade entre português e espanhol, que é significativamente maior que aquela que existe, por exemplo, entre estas línguas e as outras duas línguas românicas mais próximas do português, o italiano e o francês. Segundo o autor (p.63), "a maior porcentagem encontrada, a partir de um conjunto de 500 palavras foi: port.-esp. 97%; esp.-port. 98%; esp.-fr. 71%. A menor porcentagem para o mesmo número de palavras foi: port.-esp. 85%; esp.-port. 92%; esp.-ital. 70%; e esp.-fr. 53%. A porcentagem total, baseada em todas as 6500 palavras analisadas, foi a seguinte: port.-esp. 91.6%; esp.-port. 96.0%; esp.-ital. 76.7%; e esp.-fr. 63.6%. 

 

 

A partir do trabalho de Richman, resolvemos fazer um levantamento da freqüência de palavras cognatas, não-cognatas e dos falsos cognatos (FCs), em textos científicos. Para tal, fizemos uma análise quantitativa de vários textos curtos, selecionados especialmente para esta pesquisa, dos quais extraímos as frases, usadas no teste que descreveremos adiante. (Questões I e IV/V). De um total de 1198 palavras, isolamos:

1087  palavras cognatas (idênticas e não-idênticas);
56     vocábulos análogos etimologicamente (porém com algumas divergências semânticas);
27     empréstimos;
19     falsos cognatos;
9       termos científicos (que pressupõem conhecimento do assunto).

Verificamos, assim, que, nos textos analisados, existe uma alta porcentagem de palavras cognatas (90.8%). O restante está assim distribuído: vocábulos heterossemânticos (4.7%), empréstimos de outras línguas (2.3%), FCs (1.6%) e termos científicos (0.76%). Verificamos, portanto, que houve correspondência entre os resultados de Richman e os nossos, apesar de os textos usados em cada pesquisa terem sido de natureza diferente.

Com base nos resultados acima, podemos afirmar que, entre português e espanhol, a transferência de conhecimento, idealmente, pode chegar a mais de 90%. Todo o conhecimento que o aprendiz/falante transfere, com acerto, da sua língua nativa para a segunda língua (ou língua estrangeira) facilita o processo de aquisição/aprendizagem e a compreensão (oral e/ou escrita).

Contudo, existem também os fatores dificultadores, que são aqueles que interferem na compreensão. Apesar de se constituírem, em média, em apenas 10%, sua importância pode ser crucial. Por exemplo, a compreensão da parte essencial de um texto (ou de uma parte dele) pode depender de falsos cognatos. A não-compreensão destes, certamente, compromete a compreensão do texto como um todo. Tomemos, como exemplo, a frase " La niña vio unos lindos pimpollos a la izquierda de un escritorio." Um falante de português poderia entender que havia algumas crianças à esquerda de um escritório quando, na verdade, o que havia eram botões de rosa à esquerda de uma escrivaninha.

Essenciais, também, são os articuladores sintáticos, devido ao papel que desempenham na frase (unir idéias). Desta forma, uma frase como "embora [= "em boa hora"] estivesse tarde, fomos à praia" é incompreensível para um falante de espanhol (que nunca tenha sido exposto ao português) porque o conectivo do espanhol é completamente diferente ("aunque", do latim). Devido à diferença, não há transferência, e a compreensão fica comprometida.

Além dos articuladores, existem ainda outros dificultadores de maior peso: as expressões idiomáticas, que são intraduzíveis literalmente. Isso significa que, para que os falantes dessas línguas entendam essas expressões, será necessária uma negociação dos sentidos. 

Todos esses complicadores – falsos cognatos, articuladores sintáticos e expressões idiomáticas – ocorrem em qualquer tipo de texto e em número variável. Em outras palavras, a ocorrência e a freqüência desses termos não podem ser previstas nem controladas.

Esta pesquisa analisa tanto os fatores facilitadores quanto os dificultadores, a fim de mostrar, a partir dos textos usados, a porcentagem de acertos e de desvios, ou seja, de transferências e interceções. O objetivo deste trabalho é verificar até que ponto o falante nativo de português é capaz de ler e entender um texto em espanhol, sem nunca ter sido exposto à língua e até que ponto um falante nativo de espanhol consegue ler e entender um texto em português também, sem nunca ter sido exposto à língua.

 

Pressupostos teóricos

Tanto Krashen (1981) quanto Corder (1978) consideram a língua nativa (L1) como uma fonte de conhecimento a serviço da aprendiz, a fim de superar suas limitações. Krashen sugere, por exemplo, que os aprendizes podem se basear na L1 para iniciar sua fala ("to initiate their utterances") quando não conseguem fazê-lo na L2 (segunda língua). Corder afirma que "a L1 do aprendiz pode facilitar a aprendizagem de L2, ajudando-o a progredir mais rapidamente pelo percurso universal ("universal route"), no caso de existirem semelhanças entre a L1 e a L2".

Desta forma, os erros de interferência resultam não da transferência negativa, mas de empréstimos ("borrowing"). Ou seja, para Corder, segundo a visão pós-Dulay/Burt sobre a análise contrastiva (AC), interferência seria mais uma interceção ("intercession"), isto é, uma estratégia (de comunicação). Sabemos que as estratégias prevêem conhecimento já existente (como a L1). Essa visão cognitivista da ("SLA – Second Language Acquisition") considera a língua nativa como uma contribuição e não como impedimento. Como McLaughlin (1978) e Taylor (1975) afirmam, o uso da L1 é simplesmente uma manifestação de um processo psicológico geral, que consiste em tomá-la como base para facilitar a aprendizagem. Assim, enquanto a interferência, com suas conotações estruturalistas, deve ser contestada, a noção de interceção, baseada no fato de que o aprendiz participa ativamente do processo de SLA, é uma parte importante da teoria de SLA (Ellis, 1985: 38).

Essa nova versão da AC se constitui numa reavaliação, a partir de pressupostos cognitivos. Essa visão objetiva mostrar em que condições a interceção se dá e o tipo de conhecimento da L1 que foi utilizado. Nesse sentido, a nova AC obtém sucesso na previsão de erros de compreensão ("comprehension errors") e na estratégia de esquiva ("avoidance of structures"). Para inferir o significado (1) de palavras não-cognatas (como "arranjar", do português, e "impartir", do espanhol), (2) de palavras cognatas com significados divergentes nas duas línguas (como "acordar", que significa "resolver de comum acordo", em português e em espanhol, e que tem o sentido de "despertar", em português e de "lembrar-se", em espanhol), (3) dos falsos cognatos ("exquisito", em espanhol, e "esquisito", em português) e/ou (4) dos articuladores sintáticos ("aunque", em espanhol, e "embora", em português), o sujeito irá usar estratégias, que se apóiam no contexto e/ou na língua materna, como fonte de conhecimento, que podem levar a acertos.

Um outro ponto essencial, nesta pesquisa, é o pressuposto de que a distância tipológica entre as línguas (no caso, português e espanhol) influencia a tríade "ritmo, percurso e desempenho" ("rate, route, success": Ellis, 1985:99). Por exemplo, o fato de a ordem canônica ser a mesma (SVO) e o fato de haver uma alta porcentagem de equivalências entre as estruturas sintáticas das duas línguas fazem com que o aprendiz, durante o processo de aquisição/ aprendizagem, aprenda a usar a nova língua com muito mais facilidade e rapidez e com maior número de acertos (devido às transferências) do que um falante de uma língua distante. Este, para se comunicar, terá que lidar com diferenças bem marcadas, tais como, a ordem canônica (que, na sua língua materna, pode ser SOV), as flexões e as preposições (que podem ser diferentes ou inexistentes), etc. Quanto à leitura de textos, as diferenças citadas acima também tendem a interceder na compreensão, ao passo que as semelhanças levam a um maior número de acertos, em função das transferências. 

Devido a todos esses fatores, é de se esperar que exista um alto grau de intercompreensão entre os falantes destas duas línguas, muito particularmente através do texto escrito. Para precisar o grau de intercompreensão, partiu-se, neste projeto, da equivalência léxico-semântica entre os textos usados para testagem, nos dois grupos de sujeitos: falantes de espanhol e de português, que nunca foram expostos à língua irmã, nem em situação formal, nem em situação natural.

 

Descrição da pesquisa

Sujeitos

Trata-se de alunos ingressantes em vários cursos universitários, tais como: Biblioteconomia, Nutrição, Farmácia, Medicina, Economia e Geografia (trezentos falantes de português, dos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo, e trezentos de espanhol, de três capitais de países do Mercosul: Buenos Aires, Montevidéu, e Assunção). Nossos sujeitos (com idade média entre dezoito e vinte e um anos) nunca foram expostos ao português ou ao espanhol, nem em situação de imersão (ou de não-imersão) e nem em situação formal.

 

Questionários

As respostas aos questionários (Anexo I) foram usadas para eliminar certas variáveis, como: idade acima de 21 anos, conhecimento de português ou de espanhol (através de contato com parentes ou amigos, estadia fora ou aprendizagem em situação formal). Os questionários poderão, em estudos futuros, indicar, por exemplo, a motivação de ambos os grupos de falantes para o estudo da outra língua.

 

Coleta de dados

Esta pesquisa analisa as semelhanças e as principais diferenças entre o português e o espanhol nos níveis lexical e semântico, a partir de textos técnico-científicos, ou seja, textos escritos em registro formal, sobre assuntos específicos da área de tecnologia de alimentos. Usamos, além desses, dois textos expositivo-argumentativos sobre conhecimentos gerais, tais como a globalização. Com essa escolha, pretendemos eliminar certas variáveis, como desconhecimento do assunto (que poderia interferir na compreensão), e/ou a predominância de termos científicos, específicos de uma área pouco conhecida (como seria o caso da física quântica, da termodinâmica ou da engenharia nuclear, por exemplo).

Usamos, para a testagem, quatro tipos de atividades estruturadas (Anexo II), rigorosamente controladas, através do levantamento das etimologias de cada termo, nas duas línguas:

  1. Tradução de 50 palavras, descontextualizadas: a previsão era que a maioria destas palavras (as mais próximas, com sentido equivalente nas duas línguas e com poucas alterações vocálicas e consonantais), tanto em espanhol quanto em português, seriam inferidas mesmo fora do contexto;

  2. Respostas a 2 perguntas sobre um texto de 197 palavras: a previsão era que a porcentagem de acerto, para os falantes de português, seria alta, já que as palavras de difícil inferência ("ingresos, rasgos, brecha e desarrollo"), por serem falsos cognatos parciais (ou seja, mesma origem, com acepções semânticas parcialmente coincidentes nas duas línguas), poderiam ser inferidas via contexto; para os falantes de espanhol, a porcentagem de acerto seria menor devido à existência de três termos não-cognatos ("embora, ainda, atingir") e de apenas um cognato (nenhuma <lat. nec unu = "ningún", em espanhol) possivelmente inferível;

  3. Tradução de um texto de 45 palavras: a previsão era que, pelo menos, 41 destas palavras não ofereceriam qualquer problema, por serem cognatas. Contudo, o texto, para os falantes de português, contém algumas dificuldades: uma expressão, possivelmente inferível, via contexto ("a tono con"), uma palavra com um sentido diferente, em português ("alberga") e duas palavras ("desarrollo" e "investigación") possivelmente inferíveis via contexto. Por exemplo, o termo "desarrollo", apesar de diferir da palavra portuguesa "desenvolvimento (< desenvolver"), é de possível inferência, via contexto: "desarrollo" (esp.) lembra "desarrolhar" (port.), que significa "tirar a rolha." O falante de português pode associar, com a ajuda do contexto, "desarrolhar" com "soltar" e, por extensão, com "desenvolver" (que também tem o sentido de "soltar.") A previsão, aqui, era que a porcentagem de acerto seria também muito alta. Para os falantes de espanhol, existem quatro complicadores: dois termos inferíveis via contexto ("meio e recorrer"), que apresentam pequenas alterações vocálicas e/ou consonantais, um termo de possível inferência ("muitas", apesar das divergências vocálicas e consonantais com seu equivalente "muchas", em espanhol) e um termo não-inferível ("alvo"). Devido a este último, a porcentagem de acerto, para os falantes de espanhol, deve ficar um pouco inferior;

  4. Tradução das mesmas palavras, usadas no item (I), acima, só que, desta vez, dentro dos contextos: a previsão era que grande parte destas palavras (mesmo aquelas que apresentam alterações vocálicas, consonantais e silábicas) seriam inferidas, com a ajuda do contexto.

 

Justificativa para a escolha de textos

O parâmetro norteador da escolha de textos foi a equivalência léxico-semântica entre os mesmos. Por isso, os textos de compreensão tratam do mesmo assunto – a globalização – embora exista uma diferença fundamental de ponto de vista. No texto em português (TP), para os falantes de espanhol (FE), a globalização integra os países do mundo e, no texto em espanhol (TE), para falantes de português (FP), ela divide os povos entre incluídos e excluídos. Ambos os textos contêm cento e noventa e sete palavras (incluindo título, artigos definidos, numerais e palavras hifenizadas, que contam como duas) e o mesmo número de termos inferíveis nesses contextos, apesar das alterações vocálicas, consonantais e silábicas (TP: esteja, nova, povo, hoje, trabalha, responsável, viver, melhor; TE: escenario, puesto, fuerzas, cuya, fracturas, trazan, quienes, quedan). Quanto ao número de termos possivelmente não-inferíveis (TP: ainda, embora, atingir, nenhuma; TE: ingresos, rasgos, brecha, desarrollo), os FP terão a vantagem de poder contar com quatro palavras cognatas e os FE, com apenas uma, o que, com certeza, pode comprometer algumas partes do texto, para os FE, desequilibrando os resultados. No entanto, a compreensão global do texto não deverá ser afetada radicalmente porque existe, de fato, equivalência semântica entre as perguntas e as respostas dos dois textos: 

TP

1. Quais são as consequências da globalização?
São duas: a modernização, através da tecnologia e da informática e as desigualdades sociais.

2. O que impede a integração dos países?
As tensões sociais e ambientais, que se constituem em obstáculos para a integração.

TP

1. Citen se dos consecuencias esenciales de la globalización. 
Integra as sociedades do planeta e constitui uma novaidentidade cultural entre os povos.

2. Cuáles factores impiden la total informatización de la UNICAMP?
É o fato de a Coordenadoria de Serviços Sociais não estar ligada a nenhuma rede.

Como vemos, os dois textos tratam da globalização, através de alta tecnologia, pressupondo (a) compreensão global do texto (depreensão de duas conseqüências da globalização), com base no primeiro parágrafo (de cada texto), e (b) depreensão de um ponto específico. No TP, trata-se de uma limitação da Coordenadoria de Serviços Sociais da UNICAMP, que, diferentemente de outros setores da universidade, não se acha ligada a nenhuma rede. No TE, trata-se de um contraste, ou seja, os efeitos negativos da globalização.

Os textos para tradução apresentam também o mesmo número de palavras (quarenta e cinco). Embora os assuntos sejam diferentes, os termos têm o mesmo nível de dificuldade, isto é, têm a mesma origem (o latim) e apresentam alterações vocálicas e/ou consonantais (TP: meio, recorrer, alvo; TE: tono, desarrollo, investigación), que não devem impedir a inferência. Por exemplo, a palavra "tono", do espanhol, significa "tom" (tom de voz, um termo da música), em português. Embora não exista, em português, uma expressão idêntica a essa (nós diríamos "em harmonia com"), é possível de ser inferida se o sujeito associar "tono" com "tom, harmonia". Vale lembrar que, nos dois textos escolhidos para os FP, existia o termo desarrollo, com a diferença de que, no texto para tradução, o contexto estava mais claro, podendo até facilitar o processo de inferência. De todas essas palavras, o par que apresenta a maior dificuldade é "alvo e investigación". Em português, a dificuldade é maior no caso de "alvo", que tem o sentido de "puro (adjetivo)" e de "motivo (substantivo)", sendo que ambos são muito usados, em diferentes contextos. Em espanhol, porém, "albo" é considerado poético e tem o sentido primordial de "blanco" e é adjetivo. A palavra "investigación" tem o sentido de (a) pesquisa e de (b) indagação minuciosa, nas duas línguas, com a diferença de que "investigación", no sentido (a), é mais usada em espanhol do que em português. No TE, aparece ainda o termo "alberga" (igual a "abriga", em português). "Alberga" existe, na nossa língua, com o sentido de "hospedar por caridade". Devido a esta equivalência semântica, o termo não oferece maiores problemas para os FP. Em suma, todas essas diferenças não tornam automática a compreensão mas também não devem impedi-la completamente.

 

Justificativa para a escolha de palavras

Existem duas categorias maiores de palavras: (I) inferíveis, que inclue cognatos idênticos ("ocupada" / "desocupados") e palavras que sofreram alterações silábicas, vocálicas e/ou consonantais, como é o caso de maçã/manzana (que vieram do latim vulgar "mattiana, abreviação de "mala mattiana"); para o falante de espanhol, a síncope e as alterações consonantais e, para o falante de português, as diferenças silábicas e consonantais podem dificultar (muito provavelmente sem impedir) o processo de inferência dessas duas palavras; e (II) não-inferíveis, tais como os vocábulos não-cognatos, que têm o mesmo significado nas duas línguas e apresentam o mesmo nível de dificuldade (embora/aunque), ou seja, não são inferíveis em nenhuma das duas línguas;

 

I. Vocábulos (possivelmente) inferíveis:

[Obs.: daqui para a frente, os termos que não estão em negrito são traduções das palavras da lista de 50 palavras, que não fizeram parte do teste; por exemplo, "raza" (= raça) faz par com "peças" (= piezas, em esp.) porque ambas apresentam uma alteração consonantal idêntica, ou seja, -z– (esp.) > -ç– (port.).] 

  1. Palavras cognatas idênticas: existe apenas o par "ocupada" e "(des)ocupados";

  2. Palavras cognatas, que têm apenas um sentido em uma das línguas e dois na outra, mas que podem ser, apesar disto, inferíveis, via contexto: é o caso de patrón = padrón, ambos com a mesma origem.1

  3. Vocábulos que apresentam divergências heterossilábicas, vocálicas e/ou consonantais mas que, apesar disso, poderão ser inferidos pelo contexto: color;/cor (o -l– intervocálico não se manteve em muitas palavras portuguesas);2

 

II. Vocábulos (possivelmente) não-inferíveis:

[Obs.: Apenas nesta seção, faremos a seguinte distinção: inferíveis (negrito) e não-inferíveis (grifos)]

  1. Termos aparentemente cognatos, ou seja, semelhantes a outros termos existentes na língua, como é o caso de "impartir" (= repartir, distribuir), do espanhol, e "arranjar" (= obter, conseguir), do português;

  2. palavras não-cognatas, que poderão ser inferíveis ou não-inferíveis para os falantes da outra língua:
    (a) que têm o mesmo sentido nas duas línguas: remolacha (<it. "ramolaccio", <lat. "armoracium")/beterraba (<fr. "betterave");3
    (b) que têm sentido diverso: o (port.) = el (esp.); o (esp.) = ou (port.); no (port.) = en el, en lo (esp.); no (esp.) = não (port.); dos (port.) = de los (esp.); dos (esp.) = dois (port.);

  3. falsos cognatos, possivelmente não-inferíveis, nem com o auxílio do contexto: donde/ onde (<lat. unde); todavía/ todavia (<lat. totalis + via = por todos os  caminhos); polvo/ (<lat. pulvus); (5) "rato" (< lat. rattu"), que, na lista, faz par com "polvo", é um falso cognato por significar "espaço de tempo", em espanhol, e "mamífero roedor", em português.4

  4. falsos cognatos parciais (= mesma origem, porém com uma acepção semântica coincidente nas duas línguas e uma não-coincidente) – o que pode dificultar o processo de inferência, para os falantes da outra língua:
    (1) capa (port./esp.) = A. capa (port./esp.)
    B. camada (esp.)
    (2) lograr (port./esp.) = A. obter (port./esp.)
    B. enganar (port.)
    (3) pinha (port.) / piña (esp.) = A. pinha, fruto do pinheiro (port./esp.)
    B. ananá(s) (esp.)

O português mantém a diferença etimológica entre "pinha" (< lat. pinea) e "ananás" (< a + tupi na'ná = s paragógico), ou seja, "pinha", para nós, é o fruto do pinheiro (ou da pinheira) e "ananás" é sinônimo de "abacaxi" (<tupi i'bá + ká'ti), cujo termo científico é "Ananas sativus". O espanhol usa apenas o primeiro termo (piña<lat. pinea) com os dois sentidos (pinha e ananás/ abacaxi). A designação "piña de América" (Corominas e Pascual, 1991) se refere a "ananás", ou seja, "abacaxi".

Além de ser um falso cognato parcial, o par "pinha"/ piña" tem um dificultador que são as alterações consonantais (que, no nível fonológico, são quase imperceptíveis). Essas alterações oferecem o mesmo nível de dificuldade para ambos os grupos de sujeitos.

E. expressões idiomáticas: poner de manifiesto (=manifestar) e vir à tona (= surgir);

 

III. Termos científicos: escolhemos apenas um, "organoléptico" (em ambas as línguas), que poderia, segundo nossa hipótese, ser traduzido corretamente mesmo que o sujeito não soubesse seu significado, já que o termo é idêntico nas duas línguas. No caso de acerto, não teríamos como constatar se o aluno sabia ou não o significado da palavra. Via de regra, no que se refere a termos científicos, esse fenômeno tende a ocorrer. A única maneira de verificar se houve compreensão seria através da técnica do protocolo ou de uma entrevista retrospectiva com os sujeitos, o que, numa pesquisa transversal, como esta, que envolve um grande número de sujeitos, seria inviável. No futuro, poderemos pensar em estudos de caso para testar não só isso mas outras questões, que surgiram, na medida que começamos a trabalhar com os dados.

 

Escolha de palavras equivalentes nas duas línguas

A escolha de palavras (Questões I e IV/V), em ambos os testes, foi feita segundo o parâmetro da correlação entre o nível de dificuldade (cognatos idênticos; cognatos não-idênticos, que apresentam alterações silábicas, vocálicas e consonantais; palavras não-cognatas; falsos cognatos e expressões idiomáticas) e o índice previsto de inferência (alto, médio e baixo). Para isso, foi necessário agrupar as palavras em pares, a fim de eliminar variáveis nos níveis lexical e semântico.

A lista abaixo segue a ordem do teste para os FP. No teste para os FE, a ordem difere, mas as palavras ou são idênticas ou equivalentes ou, no caso de serem divergentes quanto ao significado, apresentam um nível de dificuldade equivalente.

[OBS.: os sinais, entre cada um dos cinquenta pares de palavras abaixo, mostram que cada par (a) tem o mesmo significado nas duas línguas (=); (b) não tem o mesmo significado nas duas línguas (#); e (c) tem apenas uma ou outra característica lexical e/ou semântica comum (/)]:

Port./Esp.

1. beterraba = remolacha
2. embora = aunque
3. dados = datos
4. sejam = sean
5. banana = plátano
6. morango = fresa
7. maçã = manzana
8. abacate = aguacate
9. todavia # todavía
10. amendoim = cacahuete
11. enquanto = mientras
12. sob = bajo
13. padrão = patrón
14. laranja = naranja
15. rato / polvo
16. amostras = muestras
17. folhas = hoja(s)
18. armazenamento = almacenamiento
19. sementes = semillas
20. cor = color
21. vermelho = rojo
22. amarelo = amarillo
23. ditos = dicha(-os)
24. porém = pero
25. farinha = harina

Port./Esp.

26. rim = riñon(es)
27. população = población
28. casca = cáscara
29. pinha # piña
30. soro = suero
31. leite = leche
32. ampla = amplia
33. vantagens = ventajas
34. grau = grado(s)
35. reflexo / lujo
36. viável / indudable
37. peças / razas
38. semelhante / ajenas
39. no # no
40. dos # dos
41. o # o
42. onde # donde
43. risco / capa
44. declínio / lograr
45. vir à tona / poner de manifiesto
46. organoléptico / organoléptico
47. arranjar / impartir
48. taxa = tasa
49. desemprego = (des)empleo
50. ocupada = (des)ocupados(-a)

Essa lista contém 34 palavras com sentido idêntico nas duas línguas (=), 6 com sentido (parcialmente) divergente nas duas línguas (#) e 10 com alterações ou divergências equivalentes (/).

Segundo nossas previsões, de todos esses itens lexicais, os mais problemáticos, para os FP e FE, seriam o segundo grupo (de 6 palavras) e o terceiro (de 10 palavras). Do primeiro grupo, as que deveriam apresentar problemas maiores, para os FP, seriam "remolacha, aunque, plátano, fresa, cacahuete, mientras, rojo e pero" (não-inferíveis) e, para os FE, "morango,embora, amendoim, sob, vermelho, beterraba, porém e cor" (não-inferíveis). Do segundo grupo, todos os itens são igualmente difíceis para os dois grupos de sujeitos (por serem não-inferíveis). Do terceiro grupo, três pares merecem destaque, sendo que o primeiro deveria apresentar igual dificuldade, para os FP e os FE; o segundo, para os FP, e o terceiro, para os FE, pelos seguintes motivos:

(1) lograr (esp.)/ declínio (port.) apresentam dificuldade equivalente para FP e FE por terem uma acepção comum entre as duas línguas e uma diversa, o que pode dificultar o processo de inferência: "lograr", em espanhol, significa "obter" e, em português, "obter" e "enganar"; e "declínio", em português, tem o sentido de "decadência" e, em espanhol, "decadência" e "declinação";
(2) polvo (esp.) / rato (port.):
"polvo" é de mais difícil inferência, para os FP, porque significa "pó", em espanhol. Quanto à origem de "polvo" e de "pó", as explicações são as seguintes: segundo Cunha (1987), "polvo" (port.) vem do latim polypus (deriv. do gr. polypous) e "pó" (port.) vem do latim *pulus, que, por sua vez, vem de *pulvus. De acordo com Corominas (1961), "polvo" (esp.) vem do lat. pulvus. Desta forma, "pó" (do port.) e "polvo" (do esp.) têm a mesma origem.
"rato" (port.),por outro lado, é de mais fácil inferência, para os FE, porque parece ter a mesma origem de "ratón" (<lat. raptus). A questão é controvertida. Buarque de Holanda (1975) e Cunha (1982) concordam quanto à "origem incerta, talvez onomatopaica" de "rato". No entanto, Buarque de Holanda cita *rattus, do latim vulgar, como a possível origem da palavra, o que Cunha nem sequer menciona. Por outro lado, para Garcia de Diego (1954), tanto "rato" (esp.) quanto "ratón" (esp.) vêm do lat. rattus.
(3) risco (port.) / capa (esp.):
"capa" (esp.) é de mais fácil inferência, para os FP porque possui uma acepção semântica idêntica em ambas as línguas e outra diversa: capa (esp. e port.) = peça do vestuário; capa (port.) = "camada" (esp.); 
"Risco", em português, é "riesgo" em espanhol, que significa "perigo, possibilidade"; e "risco" (esp.) = "penhasco" (em port.). Além disso, existe um outro complicador, para os FE, que são as alterações vocálicas e consonantais ("risco" / "riesgo").
Previu-se, que o índice de acerto seria superior para os FP, pois o seu par "capa" é um cognato idêntico (no sentido de "peça de vestuário") e um falso cognato (no sentido de "camada"), ou seja, "capa" é um falso cognato parcial. Por outro lado, "risco/riesgo" são falsos cognatos.

Por último, consideramos também o tamanho dos textos em ambos os testes. Para que os FP e os FE tivessem, em princípio, o mesmo tempo para a leitura das frases (nas Questões I e IV/V), tivemos o cuidado de contar todos os itens lexicais (incluindo artigos e preposições e excluindo o gráfico, apresentado na Questão V dos FE) das duas provas, para que ambas tivessem o mesmo número de palavras.

 

Resultados

Correção dos testes

Foi feita por uma equipe de dois professores, incluindo a autora deste trabalho, e quatro alunos (uma falante de português e três falantes nativos de espanhol e de português, como segunda língua), segundo as seguintes diretrizes:

Questão I e Questões IV/V: a correção variava, devido às características diferenciadas dessas questões. Por exemplo: na primeira, como as palavras estavam descontextualizadas, "patrón" (esp.) poderia ser traduzido por "patrão", mas, nas últimas questões, em que as palavras vinham dentro de um contexto específico, a resposta certa era apenas "padrão";

Questão II: na primeira pergunta, tanto os FE quanto os FP tinham mais de duas opções de resposta. Além disso, em ambos os casos, as perguntas eram bastante claras e fáceis de serem localizadas nos textos.

Quanto à segunda pergunta, os FP tiveram o privilégio de ler um texto mais claro, mais bem escrito e mais próximo do seu conhecimento de mundo. Os FE, por outro lado, tiveram que lidar com alguns complicadores no nível lexical (a serem discutidos mais adiante), além de se confrontarem com um texto mais difícil de ser entendido (por se tratar de algo que acontece dentro da UNICAMP, ou seja, fora do seu universo). Esses pontos só foram percebidos durante a análise dos dados, em vista da diferença entre os resultados – o que ajudou a ressaltar a importância de outros fatores (tais como o léxico, conhecimento do assunto e conhecimento de mundo) para a compreensão de textos. Apesar de tudo isso, os resultados dos dois grupos de sujeitos foram bastante aproximados.

Questão III: foram aceitas tanto as traduções literais quanto as que fugiam um pouco deste padrão. Não houve traduções livres, propriamente ditas. O que houve foi o uso, por exemplo, de apagamento de itens lexicais problemáticos (como "alvo", no teste dos FE), o que levava a uma reestruturação da frase. Por exemplo, ao invés de dizer "han sido objecto de un gran número de programas de reducción en la alimentación", o sujeito usava a estratégia de esquiva, ou seja, evitava usar a tradução do termo desconhecido. Para isso, tinha que reestruturar a frase, dizendo, por exemplo, "han utilizado un gran número de programas de reducción en la alimentación". Além disso, traduções aproximadas (como "víctimas", em vez de "objecto"), que demonstravam que o sujeito havia entendido o sentido do texto, foram consideradas corretas. Nos casos de omissão de uma palavra (que era, em geral, "alvo"), apenas um ponto foi tirado.

 

Anulação

Foram anulados os testes dos sujeitos que: (1) disseram ter mais de vinte e um anos, (2) deixaram questões inteiras em branco; e/ou (3) traduziram o texto errado (ou seja, o texto da compreensão de texto).

 

Análise dos dados

Pontuação

O teste foi dividido em duas partes: (I) Questão I e Questões IV/V, sobre o léxico (50 + 50 = 100 pontos); e (II) Questão II e Questão III, respectivamente, sobre compreensão de texto e tradução (55 + 45 = 100 pontos). Na primeira parte, atribuiu-se um ponto para cada resposta certa, como mostra o Quadro 1:

 

 

Na segunda parte, conforme se verifica pelo quadro abaixo, o número de pontos para a Questão II foi maior (55, ou seja, 36 para a primeira pergunta, que deveria conter duas respostas, de 18 pontos cada uma; e 19 para a segunda pergunta) porque a tarefa de compreensão de texto envolve operações mentais mais complexas (leitura e interpretação). À Questão III (a tradução), foram atribuídos 45 pontos, ou seja, um ponto para cada palavra correta (incluindo cognatos idênticos e não-idênticos). Em outras palavras, todos os acertos, inclusive as transferências da língua materna, tinham o mesmo valor. Nosso objetivo não era verificar a compreensão de palavras isoladas – como fizemos nas Questões I e IV/ V – mas, sim, verificar a compreensão de um texto autêntico, via tradução:

 

 

O acerto foi medido através de proporção (em porcentagem) para cada questão (I, II, III e IV/V), em cada um dos dois grupos (FP e FE). O total de respostas certas foi o seguinte:

 

 

A compreensão do espanhol, pelos falantes nativos de português, e do português, pelos falantes de espanhol, analisados nesta pesquisa, chegou a:

 

 

Nas questões II e III, verificamos que, quanto menor a freqüência de falsos cognatos e de empréstimos (ou palavras não-cognatas), maior foi a porcentagem de acertos. Para os FP, a inferência lexical foi possível apesar de haver, nos textos, falsos cognatos parciais, como "brechas, ingresos e rasgos" (Questão II) e "alberga", "desarrollo" e "investigación" (Questão III). Na Questão III, no teste dos FE, a inferência foi dificultada pela palavra "alvo" (de difícil inferência). Apesar disso, no cômputo geral, os resultados não foram muito diferentes, ou seja, a porcentagem de acertos foi alta (acima de 90%).

Por outro lado, na Questão II, verificou-se uma diferença de 16.31 %, a favor dos FP, que se deve à existência de três palavras não-cognatas ("ainda, atingir e embora") no texto dos FE. Isso evidencia três pontos essenciais para o ensino/aprendizagem dessas línguas:

(1) a importância do léxico na depreensão do significado do texto;
(2) as palavras não-cognatas afetam diretamente o grau de compreensão (quanto maior a freqüência, maior será a dificuldade);
(3) a dificuldade que esses termos apresentam para os aprendizes de L2 equivale à dificuldade das expressões idiomáticas, dos falsos cognatos e de alguns conectivos.

No caso de itens lexicais (Questões I e IV), a possibilidade de inferência aumentou, em função do contexto (de 27.81% para 56.05% e de 30.71% para 58.37). Na Questão I, comparando os resultados dos FP com os dos FE, vemos uma diferença de 2.9%, a favor destes últimos, o que demonstra que a compreensão não é "unilateral" e também que a intercompreensão entre os falantes dessas duas línguas, a partir de textos escritos, é um ponto incontestável. Em outras palavras, os nossos resultados contestam o ponto de vista da unilateralidade (Baltra, 1979) e comprovam a tese da intercompreensão, verificada no trabalho de Jensen (1989).

A pequena superioridade dos FE, na Questão I, se deve ao fato de existirem, na sua língua, palavras cognatas (Cf. "enquanto, folha, banana" / "en cuanto, hollaje, banana"), que ajudaram na inferência. Devemos lembrar, também, que existem outras variáveis, sobre as quais não temos nenhum controle, que podem ter influenciado os resultados, como por exemplo as diferenças individuais entre os sujeitos (habilidade de leitura e interpretação, uso de estratégias, formação discursiva), entre outras.

 

Comparação entre nossas previsões e os resultados

A partir dessa comparação, verificamos que das 100 palavras (50 do português + 50 do espanhol), apenas as seguintes (num total de 15) apresentam um resultado diferente do previsto:

No Grupo (I), três palavras com previsão de serem não-inferíveis obtiveram alto nível de inferência:

(1) donde (para os FP; daqui para a frente, FP) / onde (para os falantes de espanhol; daqui para a frente, FE);
(2) no (FP);

No Grupo (II), nove itens com previsão de não-inferência apresentaram nível médio de inferência:

(3) semillas (FP) / sementes (FE);
(4) roja (FP) / vermelho (FE);
(5) o (FP) / o (FE);
(6) rato (FE);
(7) capa (FP);
(8) dos (FP);

No Grupo (III), três palavras com previsão de serem inferíveis ficaram no nível mais baixo de inferência:

(9) ajenas (FP);
(10) hoja (FP);
(11) cor (FE);

A discrepância nos dois primeiros grupos se deve, a nosso ver, à ajuda do contexto, aliada à capacidade de inferência dos sujeitos. No terceiro grupo, a discrepância pode ser explicada em função das alterações vocálicas, consonantais e silábicas, ocorridas de uma língua para a outra, dificultando a inferência.

 

Equivalência entre o nível de dificuldade e o índice de inferência

Tendo em vista a porcentagem de acerto dos sujeitos, dividimos as cinquenta palavras das questões I e IV/V de ambos os testes (para FP e FE) em três grupos:

(I) Palavras com nível baixo de dificuldade e alto índice de inferência (de 35 a 50 acertos), que correspondem a 32% do número total de palavras;
(II) palavras com nível médio de dificuldade e índice relativo de inferência (de 18 a 34 acertos), que equivalem a 34% do total;
(III) palavras com alto nível de dificuldade e menor índice de inferência (de 1 a 17 acertos), equivalentes a 34% do total.

[Obs.: as palavras abaixo, que se encontram entre parênteses e em negrito, não foram inferidas pelos sujeitos, no grupo em que se encontram. Em outros termos, elas mostram a falta de correspondência entre os resultados dos dois grupos]:

(I) Baixo nível de dificuldade, alto índice de inferência:

FP (20% de acerto)

patrón, muestras, naranja
amarillo, almacenamiento
harina, riñon, población
grados, donde, tasa
empleo, desocupados
suero, leche, amplia
(plátano) (hoja)
(ajenas) (mientras)
raza
no, lujo, color

FE (21% de acerto)

 padrão, amostras, laranja
  amarelo, armazenamento
  farinha, rim, população
  grau, onde, taxa
  desemprego, ocupada
soro, leite, amplo
  banana, folhas
  semelhante, enquanto
  peças
  (no) (reflexo) (cor)

 

(II) nível médio de dificuldade, inferência relativa:

FP (15% de acerto)

datos, aguacate, manzana
sean, semillas, roja
cáscara, ventajas
dicha, indudable, o
organoléptico
(polvo) (lujo)
(lograr)
capa
bajo, dos

FE (16% de acerto)

  dados, abacate, maçã
  sejam, sementes, vermelho
  casca, vantagens
  dito, viável, o
  organoléptico
  rato, reflexo
  declínio, risco
  (sob) (dos)

 

(III) alto nível de dificuldade, menor índice de inferência:

FP (15% de acerto)

remolacha, aunque
cacahuete, piña
poner de manifiesto
impartir
pero, todavía
(no)
(color)
plátano, fresa, mientras
ajenas, hoja
polvo

FE (13% de acerto)

  beterraba, embora
  amendoim, pinha
  vir à tona
  arranjar
  porém, todavia
  no
  cor
  (banana) morango (enquanto)
  (semelhante) (folha)
  (rato)

 

A falta de correspondência entre os resultados de FP e FE mostra, com clareza, que as maiores dificuldades de cada grupo têm a ver com as diferenças léxico-semânticas entre português e espanhol. Em contrapartida, a correspondência, que constitui a maioria dos casos, aponta para as coincidências, devido à proximidade entre as duas línguas, o que reforça o argumento da correlação entre "proximidade > facilidade", em oposição a "distância > dificuldade".

 

Baixo nível de dificuldade, alto índice de inferência:

(I) Resultados equivalentes para FP e FE:

(1) Os dados mostram que, em ambas as línguas, quanto menores os números de alterações consonantais, vocálicas e silábicas, maior o índice de inferência:

FP

patrón
naranja
muestras
amarillo
donde
tasa
empleo
desocupados
harina

 FE

  padrão
  laranja
  amostras
  amarelo
  onde
  taxa
  desemprego
  ocupada
  farinha

(2) alto nível de inferência de palavras que apresentam alterações mais complexas, ou seja, que misturam as vocálicas, as consonantais e/ou as silábicas: riñon/rim; grado/grau; raza/peça (ç>z); almacenamiento/ armazenamento; población/população.
(3) igual dificuldade em processar alterações silábicas do tipo ditongo > vogais e vice-versa: suero/soro; leche/leite; amplia/ampla.

(II) Melhor desempenho dos FP:

(1) a alteração x > j aparece com maior número de acertos (para os FP): lujo/reflexo. Para os FE, "reflexo" ficou entre os termos de baixo nível de inferência;
(2) "no" (esp.) apresentou alto índice de inferência, devido, possivelmente, à semelhança com "no", do francês e/ou inglês, línguas bastante estudadas e/ou conhecidas no Brasil; "no" (port.) apresentou baixo índice de inferência, devido à contração (em + o = no), inexistente no espanhol (= en lo) e, possivelmente, à interceção do francês e/ou do inglês;
(3) índice mais alto de inferência da palavra "color", devido à existência do adjetivo "colorido", em português; "cor" (port.) ficou entre os termos de índice mais baixo de inferência, para os FE.

(III) Melhor desempenho dos FE:

(1) alto nível de inferência dos termos "folha, banana e enquanto", devido à semelhança destes com outras palavras existentes na língua ("follaje" = folhagem) e devido à existência de termos iguais ou semelhantes ("banana" e "en cuanto"), na L1 dos sujeitos. Os FP tiveram muita dificuldade com os termos equivalentes a esses ("hoja, plátano, mientras") ou porque não são cognatos ("mientras"), ou porque são desconhecidos, por serem considerados termos científicos ("plátano"), ou porque as alterações consonantais são muito grandes para uma palavra de apenas duas sílabas, como é o caso de "hoja";
(2) a alteração lh > j ("semelhante"/"semejante") aparece com maior porcentagem de acertos, para os FE, que a mesma alteração ("ajenas"/"alheias"), para os FP. O ambiente em que essa alteração se encontra pode facilitar ou dificultar a inferência. Os FP enfrentaram três complicadores: j > lh, e > ei e síncope do "n".

 

Nível médio de dificuldade, inferência relativa:

(I) Desempenho equivalente entre FP e FE na inferência de:

(1) palavras que apresentam alterações silábicas, consonantais e vocálicas, mas que contêm algumas pistas claras, como por exemplo, a grande semelhança ortográfica ("aguacate"/"abacate"), que pode estar aliada à semelhança de alguns fonemas, como é o caso de `z' e `ç' ("manzana"/"maçã" ) e até ao contexto ("datos"/"dados"; "cáscara"/"casca" ; "sean"/"sejam"; "dicha"/"dita");
(2) palavras não-cognatas: "rojo"/ "vermelho" (ambas com nível médio de inferência, devido ao contexto, em ambos os casos);
(3) termos científicos: "organoléptico"/"organoléptico" ;
(4) falsos cognatos parciais, ou seja, (A) que possuem, na L1 do sujeito, um outro termo semelhante ao da L2 e com o mesmo significado: "rato" (port.) = "curto espaço de tempo"; semelhante a "ratón" (esp.) = "rato" (port.); (B) que possuem pelo menos uma acepção semântica coincidente nas duas línguas: "capa" (esp.) = "peça de vestuário; aquilo que serve para cobrir; uma das camadas dos terrenos sedimentares; "capa" (port.) = "peça de vestuário; que serve para cobrir; a parte superior de qualquer camada rochosa." No caso de "capa", usado no teste para FP, o contexto estava relativamente claro, o que ajudou os leitores mais proficientes na tarefa de inferência. No caso de "rato", usado no teste para FE, também foi o contexto que ajudou aqueles leitores mais proficientes a depreenderem o significado do termo.

(II) Pequena variação nos números, a favor dos FE (o que não chega a alterar o resultado global):

(1) "vantagens" (port.) = "ventajas" (esp.): o contexto, no teste para os FE, estava mais claro, devido ao uso de palavras antônimas. O contexto, para os FP não fornecia pistas tão evidentes;
(2) "viável" (port.) = "viable" (esp.): "viável" foi mais fácil de ser inferido pelos FE do que seu par "indudable" (esp.) = "indubitável" (port.), devido ao menor número de divergências consonantais e silábicas naquele;
(3) "o" (esp.) = "el, lo" (esp.); "o" (esp.) = "ou" (port.): dentro do contexto, os FE não tiveram grande dificuldade em inferir o significado de "o", via estratégia gramatical. Já para os FP, ficou muito mais complicado depreender o significado de "o" porque o contexto não fornece pistas muito claras;
(4) "semente" (port.) = "semilla" e "simiente" (esp.): apesar de terem origens diferentes (<lat. seminia e sementis, respectivamente), estes dois últimos termos têm o mesmo significado. A diferença é que, no português, existe apenas o primeiro e, no espanhol, ambos são conhecidos (embora o de uso corrente seja "semilla"). A existência de apenas um deles, em português, dificultou para os FP;
(5) "risco" (port.) = "riesgo" (esp.); "risco" (cast.) = "penhasco" (port.); e "declínio" (port.) = "declinación; decadencia; inclinación" (esp.): a semelhança etimológica com termos existentes no espanhol facilitou o processo de inferência dos FE. Os pares destas palavras, no teste dos FP, eram, respectivamente, "capa" e "lograr", sendo que o primeiro, com nível médio e este último, com nível baixo de inferência. "Capa" foi mais fácil de ser inferido, devido ao contexto (muito mais claro que o de "lograr");

(III) Grande variação nos números, a favor dos FP, o que chega a alterar o resultado global:

(1) "bajo" (esp.) = "baixo" e "sob" (port.): fora do contexto (Questão I), os acertos dos FP eram atribuídos à primeira acepção; dentro (Questões IV e V), o sujeito só acertava através de inferência. "Sob" (port., < lat. sub) era mais difícil de ser inferido, pelos FE, devido à sua semelhança com "sobre"(< lat. super), que tem sentido oposto. Por isso, "bajo" apresentou inferência relativa, para os FP, e "sob" ficou entre as palavras de baixo índice de inferência;
(2) "dos" (esp.) = "dois" (port.); "dos" (port.) = "de los" (esp.): dentro do contexto, houve uma considerável variação nos números, a favor dos FP, possivelmente porque foi mais fácil inferir uma palavra de conteúdo específico do que uma forma contrata entre preposição e artigo. Assim, enquanto "dos" (esp.), para os FP, ficou no nível médio, "dos" (port.) ficou entre as palavras de alto nível de dificuldade, para os FE.

 

Alto nível de dificuldade, baixo índice de inferência

(I) Resultados equivalentes para FE e FP:

(1) expressões idiomáticas: "vir à tona" (port.) = "surgir" (esp.); "poner de manifiesto" (esp.) = "manifestar" (port.);
(2) termos semelhantes a outros existentes na L1, mas com sentidos diferentes: "impartir" (esp.) = "repartir, distribuir" (port.); "arranjar" (port.) = "obter, conseguir" (esp.). Em português, existe o termo "impartível", que quer dizer "impartilhável, não-divisível", e, em espanhol, existem as palavras "arrancar e arranchar", que têm o sentido de "tirar";
(3) "no" (port.) e "cor" (port.) apresentaram baixo índice de inferência (A) porque a contração "em + o = no " não existe em espanhol, além de parecer com "no" do inglês e do francês; (B) devido à alteração silábica e à alteração consonantal;
(4) Falsos cognatos e falsos cognatos parciais:
(A) "piña" (esp.) = "pinha e ananás" (port.), sendo que esta última é mais conhecida, no Brasil, por "abacaxi"; "pinha" é o "fruto do pinheiro" e "da pinheira";
(B) "lograr" (esp.) = "obter; desfrutar; enganar" (port.): em português, este verbo é usado, mais correntemente, na última destas acepções, que é inexistente, em espanhol; daí, a dificuldade;
(C) "todavía" (esp.) = "ainda" (port.); "todavia" (port.) = "pero" (esp.) = "porém" (port.);
(D) "polvo" (esp.) = "pó" (port.): o contexto, para os FP, não favoreceu a inferência. O par deste termo ("rato", em esp., = "espaço de tempo, em port.; e "ratón", em esp., = "rato", em port.), para os FE, foi mais fácil de ser inferido, por se tratar de palavras cognatas (<lat. raptus, segundo Corominas, 1961) e por aparecer em um contexto bem mais específico; ficou entre as palavras de nível médio de dificuldade, para os FE.
(5) Palavras não-cognatas: "embora" (port.) = "aunque" (esp.); "beterraba" (port.) = "remolacha" (esp.). A nosso ver, o fato de existirem as variantes "beteraba" e "betabel", possivelmente, foi o que fez com que houvesse uma pequena variação nos números, a favor dos FE, o que não chegou a alterar o resultado global. Em situação semelhante se encontra o par "pero" (esp., <lat. per hoc) = "porém" (port., <lat. proinde, através do arcaísmo `porende'), só que, desta vez, a variação numérica favorece os FP, possivelmente porque o contraste entre as idéias está mais claro no texto em espanhol.

(II) Pequena variação nos números, a favor dos FE, devido a:

(1) grande semelhança com termos existentes na L1 do sujeito: "cacahuete" (esp.) = "amendoim" (port.), que pode tanto ajudar quanto prejudicar. Em português, existe a palavra "cacoete" (<gr. kakóethes <lat. cacoethe), que significa "gestos involuntários". Fora do contexto (Questão I), essa palavra intercedeu na tradução. Quanto a "amendoim", o índice de inferência foi um pouco maior, devido a "almendra" (esp.) = "amêndoa" (port.). O contexto, no entanto, está muito mais claro para os FP que para os FE;
(2) palavras não-cognatas: "fresa" (esp.) = "morango" (port.), de difícil inferência mesmo dentro dos contextos em que aparecem, nos testes (que é diferente do que acontece, por exemplo, com "rojo e vermelho"); "mientras" (esp.) = "enquanto" (port.); "plátano" (esp.) = "banana" (port.): embora o termo científico seja "plátano" (em português), ele não é de uso corrente; daí o baixo nível de inferência entre os FP; por outro lado, "enquanto" e "banana" apresentaram, para os FE, alta porcentagem de acerto, devido à semelhança com "en cuanto" e à existência do termo "banana", em algumas variedades lingüísticas, devido à influência do português e do francês. Quanto a "mientras", esta ficou entre os termos de baixa inferência, por não existir, na língua portuguesa, nenhuma palavra semelhante a esta, com o mesmo significado.

 

Conclusão

Como mostramos, existe um alto grau de intercompreensão entre os falantes de ambas as línguas, em relação à: (1) compreensão de textos (já que esses falantes podem usar estratégias de inferência lexical para ajudá-los na compreensão global do texto); (2) tradução (já que existe um alto índice de palavras cognatas idênticas e não-idênticas); e (3) inferência de itens lexicais (com a ajuda de estratégias de vocabulário e de gramática).

Contudo, existe ainda uma porcentagem pequena de palavras (falsos cognatos, conectores e expressões idiomáticas) não-inferíveis ou de difícil inferência, mesmo com a ajuda do contexto. Palavras desse tipo podem ocorrer em qualquer tipo de comunicação (verbal ou escrita) e podem causar interceções, no nível semântico, fazendo com que o locutor (ou o autor) diga uma coisa e o interlocutor (ou o leitor) entenda outra, completamente diferente (é o caso de "exquisito", do espanhol, e "esquisito", do português).

Retomando, o objetivo deste trabalho foi examinar a questão da intercompreensão entre os falantes nativos de português e de espanhol, através do texto escrito, o que ficou constatado nestas páginas. Contestamos, portanto, a noção da unilateralidade, que vem sendo passada de geração a geração. Se existem maiores dificuldades, para o falante de espanhol do que para o de português, em relação à compreensão do texto escrito na outra língua, estas não se devem a fatores lingüísticos, mas, com certeza, a fatores meta-lingüísticos, tais como falta de motivação, de necessidade ou de interesse por parte do aprendiz. Além disso, se ele rejeita a outra cultura, por um motivo ou por outro, obviamente, isto irá afetar seu sua competência comunicativa (e lingüística).

 

Implicações pedagógicas

Com base nos nossos resultados, podemos dizer que se o objetivo do aprendiz for ler/escrever, o professor deverá enfatizar, logo de início, os falsos cognatos (= interceções no nível semântico, que afetam a coerência), os conectores (que comprometem a coesão e, conseqüentemente, a coerência do texto) e as expressões idiomáticas. Existem outros fatores importantes, relativos à leitura/redação, que também devem ser contemplados (organização de idéias, estruturação do texto, ponto de vista, progressão temática, etc. (Henriques, 1995), que fogem ao objetivo deste trabalho. Em suma, o que propomos, com base nos resultados obtidos nesta pesquisa, é que o professor deixe para segundo plano questões muito pontuais sobre gramática (que têm sido a tônica em muitos cursos que lidam com as duas línguas) e que enfatize as diferenças existentes entre elas, nos níveis lexical e semântico e, sobretudo, no nível conversacional (que foge aos objetivos deste trabalho). 

 

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1 A diferença é que "patrón" pode ser sinônimo de "padrón", o que não acontece no português ("patrão" é diferente de "padrão"). Conseqüentemente, fora do contexto, o falante de português entenderia "patrón" como "patrão". Contextualizado, o termo só pode ser usado apenas num sentido. O falante de espanhol traduziria "padrão" ou como "padrón" ou como "patrón", fora do contexto; dentro, só poderia ter ou um ou outro sentido;

2 muestra/amostra (<lat. `monstrare', queda do "n", precedido de "s"; ditongo em esp., vogal em português); grado/grau (<lat. gradus); hoja/folha (< lat. folia); aguacate/abacate (< Azteca auácatl); datos/dados (< lat. datum; em espanhol, existem dois termos: "dado" e "dato", e, em português, existe apenas "dado", que tem os dois sentidos); manzana/maçã (<lat.vg. mattiana, abreviação de "mala mattiana"); naranja/laranja (<árabe "naránya, que veio do persa narang e do sânscrito narangah); amarillo/amarelo (< baixo-lat. "amarellu": alternância vocálica i/e; -ll-, em esp., e -l-, em port.); dicha/dito (< lat. dicere: alguns verbos latinos da terceira conjugação, como dicere, passaram para a segunda, em português, e para a quarta, em espanhol. Daí, a alternância vocálica entre "e" e "i" nas duas línguas; além disso, o "c" intervocálico antes de `e' ou `i' (em lat.) passa a `z' em português; harina/ farinha (< lat. farina); almacenamiento/ armazenamento (<árabe mahzan); riñon/rim (<lat. vg. renio, renionis; a diferença é que a palavra, em esp., deriva do genitivo e, em port., do nominativo); tasa/taxa (<lat. taxare); cáscara/casca (<lat. vg. *quasicare); suero/soro (<lat. *serum); leche/ leite (<lat. lac, lactis); amplia/ ampla (<lat. ampliare); ventajas/ vantagens (<fr. avantage); sean/sejam (<lat. esse); población/população (<lat. populus); empleo/ (des)emprego (<lat. implicare), além das seguintes: ajenas/alheias (<lat. alienus); semelhante/ semejante (<lat. similiare); raza/ raça (<lat. ratio), peça/ pieza (<Celt. *pettia), lujo/ luxo (<lat.luxus), reflexo/ reflejo (<lat. reflexus), viável/ viable (<fr. viable), indudable /indubitável (<lat. indubitabile), declinación, decadencia/ declínio (<lat. declinare); e risco (port.), do italiano "rischio" (<lat. resecare), que significa "linha, perigo"; em espanhol, "risco" (<lat. resecare) significa "penhasco"; "riesgo" (esp.) = "risco" (port).

3 aunque (<lat. aún<lat. adhuc=hasta ahora + que)/embora (contração de `em boa hora'); bajo (<lat. vg. "bassus"/sob (<lat. sub); mientras (<lat. clássico "dum interim" = mientras + entretanto, abr. da forma antiga "demientras")/enquanto (<lat. "in+quantu"); morango (<lat.moranicum < morum, -i = amora)/fresa (<fr. "fraise", <lat. "fraga"); plátano (<gr. "plátanos < lat. "platanus")/banana (<de uma língua do oeste africano, de onde foi levado o fruto até as Antilhas, em 1516); cacahuete (<náhuatl "tlalcacáuatl", composto de "tlalli" = terra + "cacáuath" = cacau, ou seja, "cacau da terra")/amendoim (<tupi mãdu'bi, mãdu'i, com influência de "amêndoa"); semilla (<lat. seminia, pl. de seminium = semilla, com mudança do "n" em "l" por dissimilação)/semente (<lat. sementis); rojo (<lat. russeus)/vermelho (<lat. vermiculus); pero (<lat. per + hoc)/porém (<lat. proinde);

4 Segundo Corominas (1961), "rato" e "ratón" vêm do latim "raptus", o que as torna cognatas, juntamente com "rato", do português (<lat. raptus). O fato de o espanhol ter o termo "ratón" facilita, para os FE, o processo de inferência, o que não acontece com "polvo", para os FP, porque "polvo" e "pó", aparentemente, não têm nada em comum (embora há quem diga que a origem de ambas é a mesma). De qualquer forma, prevê-se que ambas teriam um nível baixo de inferência, embora os FE, aparentemente, levassem uma certa vantagem sobre os outros.

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