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Revista Brasileira de Ensino de Física

Print version ISSN 1806-1117On-line version ISSN 1806-9126

Rev. Bras. Ensino Fís. vol.25 no.4 São Paulo Nov./Dec. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S1806-11172003000400003 

CARTAS AO EDITOR

 

A intrigante epidemia do ''divergente''

 

 

Nivaldo A. Lemos

Instituto de Física Universidade Federal Fluminense E-mail: nivaldo@if.uff.br

 

 

Nos últimos anos tornou-se epidêmico o emprego, por parte de professores e estudantes de física e matemática, da expressão ''divergente" de um campo vetorial, em lugar de ''divergência" de um campo vetorial. Como argumentaremos a seguir, trata-se de um erro flagrante de tradução. Que esse erro apareça em diversas traduções de textos de física e matemática [1-4] não chega a ser surpreendente, tendo em vista que as péssimas tradu cões de textos científicos constituem uma triste tradição do Brasil. Pior, o ''divergente" aparece também em livros de autores brasileiros [5], que ajudam a propagar o erro. É confortante constatar que os importantes textos de física básica de Moysés Nussenzveig [6] e de Alaor Chaves [7] não contribuem para a disseminação desse equívoco.

Vale a pena traçar a origem do termo ''divergence" quando aplicado a um campo vetorial. Na terceira edição (1891) do seu monumental tratado de eletricidade e magnetismo [8], James Clerk Maxwell obteve a expressão -Ñ·s como a parte escalar do produto quaterniônico do operador nabla por um campo vetorial s. Analisando o comportamento das linhas de s na vizinhança de um ponto P, Maxwell propôs chamar -Ñ·s de ''convergence" de s no ponto P. Com o tempo, o sinal negativo foi abandonado e Ñ·s e passou a chamar-se ''divergence". Quanto à parte vetorial do produto do operador nabla pelo campo vetorial s, Maxwell propôs - ''with great diffidence" - chamá-la de ''rotation" de s no ponto P, que hoje, em inglês, chama-se de ''curl" e, em português, de ''rotacional". Comparando, ainda, o valor de uma função escalar num ponto P com o seu valor médio numa pequena esfera centrada em P, Maxwell sugeriu chamar o negativo do laplaciano de um campo escalar de ''concentration", mas este nome não pegou.

Como se vê, ''divergente" aparece como uma tradução aberrante de ''divergence". Ora, ''divergente" é um adjetivo: uma série pode ser convergente ou divergente; uma integral imprópria pode ser convergente ou divergente. Traduzir ''divergence" por ''divergente" é por todos os títulos injustificável. Os que o fazem ainda incorrem numa incoerência, pois, excetuado o caso da Ref. [2], nunca traduzem ''divergence theorem" por ''teorema do divergente", como deveriam, mas sempre por ''teorema da divergência". Que um erro tão óbvio seja tantas vezes mecanicamente repetido me causa espécie. A única teoria que eu consigo aventurar para explicar esse estranho fenômeno é a sonoridade induzida pela palavra ''gradiente". Para azar dos tradutores, ''divergente" é uma rima mas não é uma solução.

Português esmerado e terminologia coerente não são preocupações secundárias para o autor de um texto científico, devendo fazer parte do legado dos professores às novas gerações.

 

[1] M. Alonso e E. J. Finn, Física, Vol. II - Campos e Ondas (Editora Edgard Blücher, São Paulo, 1972), p. 128. Tradutores: Giorgio Moscati, Ivan C. Nascimento e Curt E. Hennies.

[2] J. R. Reitz, F. J. Milford and R. W. Christy, Fundamentos da Teoria Eletromagnética (Editora Campus, Rio de Janeiro, 1982), p. 24. Tradutores: Renê Balduino Sander e Carlos Duarte.

[3] E. M. Purcell, Eletricidade e Magnetismo, Curso de Física de Berkeley Vol. 2 (Editora Edgard Blücher, São Paulo, 1970), p. 54. Tradutores: Wiktor Wajntal, Antonio de Oliveira, Euclydes Cavallari, Richard Ocaña Zangari e Jan Talpe.

[4] M. A. Munem e D. J. Foulis, Cálculo, Vol. 2 (Livros Técnicos e Científicos, Rio de Janeiro, 1982), p. 1021. Tradutores: Mario Ferreira Sobrinho, André Lima Cordeiro, André Vidal Pessoa, Evandro H. M. de Almeida Filho e José M. Formigli Filho.

[5] H. L. Guidorizzi, Um Curso de Cálculo, Vol. 3 (Livros Técnicos e Científicos, Rio de Janeiro, 1998), p. 21.

[6] H. Moysés Nussenzveig, Curso de Física Básica, Vol. 3 - Eletromagnetismo (Editora Edgard Blücher, São Paulo, 1997), p. 33.

[7] Alaor Chaves, Física, Vol. 2 - Eletromagnetismo (Reichmann & Affonso Editores, Rio de Janeiro, 2000), p. 147.

[8] J. C. Maxwell, A Treatise on Electricity and Magnetism (Dover, New York, 1954), Arts. 25 e 26.

 

 

22/08/2003

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