SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
 issue28-29Porque mercados livres não bastamSão Paulo: do milagre à crise author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Lua Nova: Revista de Cultura e Política

Print version ISSN 0102-6445

Lua Nova  no.28-29 São Paulo Apr. 1993

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-64451993000100011 

ESTADO, REFORMAS E DESENVOLVIMENTO

 

Estado, mercado e desenvolvimento na América Latina*

 

 

Norbert Lechner

Diretor da FLACSO-Chile, em Santiago. Publicou, no número 21/1990 de Lua Nova, "A modernidade e a modernização são compatíveis?"

 

 

Junto com o desenvolvimento da diferenciação entre economia e política a sociedade moderna sempre postulou (de modo afirmativo ou crítico) certa correspondência entre ambas as esferas. O que antes foi assumido como uma premissa é hoje visto como uma relação problemática. Quando os países da América Latina se propõem harmonizar democracia política com crescimento econômico e eqüidade social estão propondo um novo desafio. Já não se trata de uma compatibilidade assegurada de antemão. Por um lado, o desenvolvimento econômico e, concretamente, o mercado já não podem ser considerados "pré-requisitos" da democracia. De fato, na Europa oriental a economia de mercado converte-se em objeto da democratização política. Por outro lado, tampouco a democracia política garante o desenvolvimento econômico. Mais do que isso: questiona-se hoje seriamente a capacidade do sistema político de processar a política macroeconômica. A relação entre Estado e mercado insere-se nesse quadro. A pergunta de fundo em toda a América Latina é: como compatibilizar democracia e desenvolvimento? Está em jogo, no final das contas, a determinação da ordem social. Isso explica a ideologização do debate. Pela mesma razão, no entanto, trata-se de uma discussão que não podemos ignorar.

O debate sobre o Estado e o mercado tem sido tradicionalmente um eixo de polarização política na América Latina. O debate ideológico tende a optar a priori por um ou outro desses princípios como estabelecendo a racionalidade exclusiva e excludente da organização social. Nesses últimos tempos essa visão cede terreno ante um enfoque mais pragmático, que revê caso a caso em que medida a liberalização do mercado é possível e em que grau é necessária a intervenção estatal. Essa sensatez é muito bem-vinda, embora se revele insuficiente. Uma estratégia de "safar-se bem", tipo muddling-through, pode ter êxito no curto prazo, mas é arriscada econômica e politicamente. Por um lado, um enfoque conjuntural, que dispense toda referência a um "modelo de desenvolvimento", torna difícil estabelecer as regras do jogo estáveis e consistentes exigidas por uma economia de mercado. Por outro lado, essa desideologização do debate pode esvaziar a democracia representativa, ao sustentar governos que executam programas manifestamente contraditórios com suas promessas eleitorais. Em conseqüência, parece conveniente não nos darmos por satisfeitos com o pragmatismo adquirido.

Para evitar que o Estado ou o mercado sejam fetichizados, sob a forma de uma racionalidade superior, torna-se oportuna uma breve revisão histórica. Ela permite visualizar não somente a contínua coexistência das duas lógicas como também a variável combinação entre ambas.

O primeiro e principal ponto a destacar é que na América Latina — diversamente da Europa — não se configurou uma sociedade capitalista anteriormente ao desenvolvimento do Estado durante o século XIX. O capitalismo não é um "elemento histórico" dado, que preceda a regulação estatal. Isso tem uma conseqüência decisiva para a configuração da ordem social: é o Estado que assume a tarefa de "instaurar" uma sociedade moderna. Disso deriva a especificidade de um intervencionismo estatal explicitamente dedicado a executar um "modelo de desenvolvimento" para a sociedade em seu conjunto.1 Vale dizer, a intervenção do Estado não corresponde tanto a uma função de "corretivo" do mercado como a um esforço deliberado de promover o desenvolvimento econômico e social. Isso implica, por outro lado, que a economia de mercado não só depende da iniciativa estatal como guarda uma estreita relação com a "razão de Estado" (questão nacional, questão social).

Considerando somente a história recente da América Latina, encontramos entre 1930 e 1970 o denominado modelo de "desenvolvimento para dentro", com forte predomínio do Estado como agente das mudanças sociais. O papel ativo do Estado responde não apenas à perda dos mercados externos na crise dos anos trinta quanto à necessidade de satisfazer às demandas das classes médias emergentes, mediante a ampliação dos mercados internos2.

O Estado fomenta uma industrialização com base na substituição de importações, investe em obras de infra-estrutura, expande os serviços públicos e promove mudanças estruturais (propriedade de recursos naturais, reforma agrária) com o objetivo de integrar os setores médios e populares. Retenhamos, pois, as características da intervenção estatal: 1) ela não se opõe a uma economia capitalista de mercado, mas pretende estruturá-la em função das mudanças na sociedade; e 2) ela representa uma iniciativa política, embora não se apóie nos argumentos técnicos oferecidos pelo keynesianismo e, posteriormente, pelo desenvolvimentismo da CEPAL.

Nos anos setenta o esgotamento do modelo é evidente: o dispendio fiscal dispara, ultrapassando os rendimentos tributários; o protecionismo distorce a competitividade das novas indústrias; o gasto social subvenciona os setores médios em detrimento dos setores mais pobres; uma burocracia ineficiente inibe qualquer esforço inovador. Põe-se em marcha uma dinâmica que mina simultaneamente o desenvolvimento e a democracia. A expansão ilimitada (populista) da iniciativa política não respeita a racionalidade própria do processo econômico e destrói a calculabilidade do mercado; em contrapartida, a instrumentalização da economia incrementa a polarização do sistema político e destrói sua capacidade reguladora.

A crise do Estado desencadeia a crítica do Estado. O neoliberalismo denuncia não somente o estatismo como condena toda intervenção estatal como inerentemente nefasta. O ataque esquece que o impulso estatal para a modernização industrial, agrária, educacional, etc. criou as bases estruturais de toda estratégia de desenvolvimento posterior. Sobretudo, esquece que a intervenção do Estado responde a uma vontade majoritária, que é o critério legítimo da ação política na democracia.

Paralelamente aos seus fortes tons ideológicos, a ofensiva neoliberal, iniciada pelo governo militar chileno nos anos setenta, redefine o modelo de desenvolvimento. Em vez de privilegiar as demandas sociais, o novo modelo põe toda a ênfase no lado da oferta produtiva.

A eliminação do intervencionismo estatal e a imposição de uma economia de mercado tanto interna (liberação dos preços e mercados) como externamente (abertura comercial e financeira) alcança resultados positivos em termos macroeconômicos, diminuindo o déficit fiscal e a inflação.3, Entretanto, a eficiencia econômica não se mede somente por esses critérios.

Antes de abordar este tema, vejamos o novo papel do Estado. Por um lado, ele se debilita, pois deve assumir o custo financeiro (dívida externa, saneamento de empresas públicas para sua privatização) da reconversão. Ademais, assume o custo político de uma drástica redução dos serviços públicos; o Estado vê-se restringido a medidas pontuais de assistência aos mais pobres, sem poder fazer frente de modo sistemático à crescente desintegração social gerada pelo avanço do mercado. Apesar disso, a redução do aparelho estatal também envolve vantagens: não somente diminui a corrupção e a ineficiência burocrática como também elimina a mentalidade rentista. Por outro lado, o modelo neoliberal supõe uma forte intervenção do Estado para reprimir as reivindicações sociais e impor a liberalização dos mercados aos sindicatos (legislação trabalhista) e aos empresários (política crediticia e monetária). Na realidade, a transformação das estruturas econômicas é levada a cabo sob ditaduras ou sob regimes presidencialistas com traços autoritários.

Lentamente essas experiências se refletem no debate latino-americano. A antinomia entre Estado e mercado cedeu lugar à compreensão de que tanto o "modelo desenvolvimentista", centrado no papel ativo do Estado, como o "modelo neoliberal", apoiado na dinâmica do mercado, devem ser analisados em relação ao contexto e não em função de discursos ideológicos. Não se trata de uma questão de "verdade". Assim como o significado da intervenção estatal não radica em alguma superioridade intrínseca do Estado mas no problema da integração social, da mesma forma o significado do mercado não deve ser buscado nos valores da liberdade e do individualismo mas em mudanças do mercado mundial. O mérito do "modelo neoliberal" consiste em propor um ajuste estrutural que responda às novas tendências da economia capitalista, como a globalização acelerada, a flexibilidade dos processos produtivos, a independência dos circuitos monetários e crediticios, a incorporação de inovações tecnológicas. Devido a esse processo de globalização, nossos países se condenariam ao subdesenvolvimento se não se adaptassem aos mercados mundiais. Mas seria uma falácia identificar mercado com desenvolvimento.

 

UM CONTEXTO GLOBAL E FRAGMENTADO

O fim do século está marcado por uma grande tensão: o duplo processo de globalização e de fragmentação. Por um lado, assistimos a um processo acelerado de globalização econômica; a grande internacionalização dos mercados culmina num novo Estado em que os circuitos produtivos, comerciais, financeiros e tecnológicos configuram uma complexa rede planetária. Para além disso, contudo, globalizam-se os padrões e expectativas de consumo, os campos culturais e, sobretudo, forma-se um consenso global sobre o quadro normativo da ação política: os direitos humanos, a igualdade de gênero, a defesa do meio ambiente, a luta contra a pobreza extrema e a democracia. Por outro lado, observamos uma não menos poderosa tendência à fragmentação. Acentua-se a segmentação econômica entre os países, mas ainda mais grave é a acelerada desintegração no interior de cada país. Na Europa central isso assume a forma de um ressurgimento nacionalista; na América Latina acentua-se a fragmentação social. Ao mesmo tempo em que grupos sociais em países diferentes chegam a compartilhar um estilo de vida similar, aumenta a distância social entre diferentes setores dentro de uma mesma cidade. Pois bem, ambas as tendências estão vinculadas entre si. Dito de modo brutal: é o mesmo processo de globalização que provoca e/ou agrava os processos de decomposição social.

A tensão entre globalização e desintegração saltou à vista especialmente com os acontecimentos na Europa do Leste, mas é provavelmente na América Latina que esse duplo movimento se expressa com maior força. De fato, as sociedades latino-americanas — tanto seu desenvolvimento sócio-econômico como a democratização política — somente podem ser analisadas nesse contexto.

Os países latino-americanos defrontam-se com o seguinte dilema: por um lado, seu desenvolvimento sócio-econômico depende de uma inserção competitiva nos campos mais dinâmicos do mercado, mundial. Independentemente das crises inevitáveis, tornaram-se totalmente ilusórias as pretensões a um caminho de desenvolvimento autônomo, à margem do sistema capitalista mundial. Além disso, está-se esgotando também a estratégia inicial de inserção por meio de exportações baseadas em recursos naturais. Já não basta exportar, mas revela-se indispensável incrementar o fator tecnológico dos bens e serviços exportados. Por outro lado, a abertura ao exterior aprofunda ainda mais as já graves desigualdades sociais no interior da sociedade latino-americana. Esta se segmenta drasticamente segundo o grau diferencial de inserção de cada setor nos processos de globalização. Um terço da população latino-americana está excluída do desenvolvimento e relegada a situações de pobreza. Mas não só aumenta o número de pobres, especialmente nas cidades. Além disso, a segmentação torna-se mais rígida, dificultando mecanismos de mobilidade e ascensão social. Vale dizer, juntamente com a acentuação das tendências históricas a uma "sociedade dual" perpetua-se o setor da população excluída.

Um quadro comparativo sobre a distribuição de rendas permite poupar muitas palavras. As cifras de Larraín e Vergara indicam com uma nitidez esmagadora não apenas a menor renda per capita das sociedades latino-americanas em comparação com os países da Asia e da OCDE, como destacam a excepcional desigualdade na distribuição das rendas na América Latina. Enquanto os 20% mais ricos da população têm, em média, uma renda seis vezes maior que os 20% mais pobres nos países industrializados e sete vezes maior nos países asiáticos, na América Latina essa mesma relação é da ordem de quase 19 vezes, em média. Essa disparidade aumenta até as taxas de 26 e 32 pontos porcentuais, nos casos do Brasil e do Peru. Nessas condições torna-se difícil assegurar aquela coesão social mínima que permita falar de uma sociedade enquanto ordem coletiva. Em particular, é difícil compartilhar aquele sentimento de "comunidade" que sustenta o reconhecimento de procedimentos democráticos. À medida que a desintegração social se aprofunda, cresce a tentação de integrar a vida social mediante ditaduras e aumenta o risco de regressões populistas e/ou fundamentalistas.4

 

 

O DESENVOLVIMENTO — UMA DUPLA INTEGRAÇÃO

O desafio dos países latino-americanos é evidente: compatibilizar a integração na economia mundial com a integração social. O debate sobre o mercado e o Estado contribui para esse desafio mediante duas conclusões: 1) nem o mercado nem o Estado são capazes, por si só, de compatibilizar as exigências do desenvolvimento sócio-econômico e as condições para uma consolidação democrática; e 2) tampouco existe uma divisão de funções que atribua ao Estado a integração nacional e ao mercado a inserção internacional.

O mecanismo de mercado tem um alcance limitado tanto para uma estratégia de inserção internacional como, especialmente, para a integração social. O mercado potencia a organização racional da empresa e, em conseqüência, promove a inserção internacional das empresas que sabem fazer uso de suas vantagens competitivas. Ainda que decisivo, esse aspecto não é o único. Hoje em dia, a inserção na economia mundial não opera exclusivamente no nível das empresas, mas exige uma inserção da sociedade em seu conjunto. Por conseguinte, a fragmentação de nossas sociedades representa mais do que uma questão moral. Ela reflete a precariedade da modernização econômica. Essa inserção enquanto sistema não pode ser assegurada pelo mercado; ela requer medidas de fomento (infra-estrutura, educação, etc.) que não são rentáveis individualmente, e medidas de regulação que dependem da iniciativa estatal. Se o mercado é um motor insuficiente para a inserção econômica internacional, é um mecanismo ainda mais limitado em relação à integração social. Por certo, um mercado estabelecido opera como um elemento de integração sistêmica; mas no curto prazo o desenvolvimento de uma economia de mercado incrementa as desigualdades sociais. Um exemplo ilustrativo é o do Chile, cujo governo militar avançou mais decididamente numa estratégia neoliberal. Entre 1978 e 1988 a parcela de 20% dos domicílios de Santiago aumentou sua participação no consumo total de 51 a 55%, enquanto todos os demais setores viram diminuída sua proporção. O desenvolvimento desigual é resultado inevitável do livre mercado. Quando existe não apenas a escassez, mas a miséria, as leis do mercado tornam-se inoperantes. Com efeito, a racionalidade do mercado supõe a igualdade de oportunidades para competir, mas o próprio mercado não gera esse pressuposto. Por conseguinte, a própria dinâmica do mercado exige corretivos externos para evitar que a iniqüidade se petrifique e tenha efeitos intergeracionais (educação).

Também o Estado encontra-se cada vez mais limitado para enfrentar por si só os desafios da integração social e, particularmente, da inserção internacional. O processo de globalização caracteriza-se precisamente por ultrapassar o âmbito do Estado nacional. Atualmente, as instâncias internacionais (Banco Mundial, FMI, etc.) restringem a autonomia estatal de tal modo que numerosos instrumentos (política monetária, gasto fiscal), que antes estavam à disposição do Estado, transformaram-se em condições ou parâmetros externos, que definem o quadro da ação estatal. Mas também as instâncias supranacionais têm, por sua vez, dificuldades para absorver as dinâmicas do mercado mundial. Basta ver as dificuldades do GATT (rodada Uruguai) para diminuir o protecionismo. Se a isso agregarmos problemas planetários como os do meio ambiente, é de sentido comum afirmar que o Estado moderno é demasiado pequeno para os grandes temas e demasiado grande para os assuntos cotidianos. Na realidade, o Estado encontra crescentes dificuldades não só para dar conta da complexidade da globalização como igualmente para assumir o que sempre foi uma das suas funções primordiais, a coesão social. Por um lado, entrou em crise o instrumental keynesiano do Welfare State para compensar as disfuncionalidades do mercado. Por outro, o Estado não pode refluir para o papel secundário que lhe atribuem os neoliberais, nem mesmo num regime autoritário como o do general Pinochet. O caso chileno mostra precisamente que o mercado não consegue oferecer uma legitimidade alternativa da ordem. Em outros termos: mesmo um funcionamento bem-sucedido do mercado não libera o Estado das exigências da legitimação. Pois bem, precisamente as sociedades "a duas velocidades" indicam que a legitimação da ordem não pode se limitar ao espaço nacional mas passa pelas formas de inserção no mercado mundial. Visualizamos que o Estado adquire um novo significado, mas por enquanto reina a perplexidade acerca das suas novas funções, dos mecanismos da intervenção estatal e, em particular, acerca das orientações normativas que deveriam guiar a ação estatal.

 

O DESAFIO

A ruína do comunismo gerou para muitos a tentação a ceder ao canto das sereias neoliberais e a considerar o mercado como a única instância racional capaz de ordenar a convivência social. A economia de mercado representa, sem dúvida, um processo de racionalização; concretamente, o mercado capitalista impulsiona uma racionalidade instrumental que dá à sociedade moderna seu extraordinário dinamismo. Não obstante, não devemos tomar a racionalidade do mercado com o a racionalidade tout court. Convém recordar que a racionalidade do mercado opera em determinado quadro de condições. Em primeiro lugar, o quadro legal, que inclui tanto o direito positivo como a consciência jurídica. Ao lado das normas legais, a dinâmica do mercado acha-se condicionada pelas normas morais da sociedade, que motivam a tolerância das pessoas perante as forças inovadoras ou destrutivas do mercado. Ademais, influem os hábitos sociais e os padrões culturais, que determinam as preferências e expectativas com que os indivíduos interpretam os sinais do mercado. Em suma, o mercado inscreve-se na ordem social e não pode ser isolado dessa inserção.5 A esse quadro regulador alude a noção de "economia social de mercado".

Desejo realçar este ponto, que me parece decisivo: o mercado por si só não gera nem sustenta uma ordem sociale, pelo contrário, pressupõe uma política de ordenação. Essa inserção social do mercado salta à vista nos atuais processos de transição na Europa oriental. As dificuldades em implantar uma economia de mercado não têm origem tanto numa falta de vontade política quanto na ausência de um contexto sócio-cultural que regule o desenvolvimento das "leis do mercado". Anteriormente, a experiencia chilena sob Pinochet já havia fornecido uma lição ainda mais precisa: mesmo existindo uma cultura econômica favorável, a economia de mercado não consegue legitimar-se por si mesma. Apesar de um bom desempenho conforme os indicadores macroeconômicos, o governo militar fracassa, na medida em que não consegue legitimar politicamente o custo social das suas medidas econômicas. Vale dizer, o desempenho do mercado não é avaliado exclusivamente segundo critérios econômicos (embora estes sejam decisivos), mas também em relação à idéia predominante de ordem, e esta é, fundamentalmente, uma elaboração política.

O tema da ordem, presente nos debates sobre o desenvolvimento nas décadas de cinqüeta e sessenta, desapareceu sob o impacto neoliberal dos anos oitenta. Mais exatamente: a construção da ordem foi circunscrita ao âmbito político (democracia) e desvinculada do processo econômico. O debate tende a tratar separadamente a ordem democrática e o desenvolvimento econômico, sem tematizar a relação entre ambos. Isso explica a apologia ingênua do mercado, que confunde a economia de mercado com os processos de desregulação e de privatização. Essas medidas tornam-se necessárias para romper estruturas obsoletas, incluindo as da institucionalidade estatal. Com efeito, empresas públicas que em seu momento surgiram como iniciativas progressistas contra o peso das elites oligárquicas podem transformar-se por seu turno em feudos burocráticos e fontes de corrupção. No entanto isso não justifica uma rejeição de toda intervenção estatal; é uma falácia argumentativa construir a partir da situação presente uma causalidade retrospectiva para denunciar qualquer atividade do Estado. Com demasiada freqüência o discurso do mercado, na América Latina, traz a carga de um anti-estatismo ideológico (digo ideológico porque não inibe exigir o socorro do Estado quando o ciclo econômico revela-se desfavorável). Essa posição entra em choque com uma cultura política fortemente influída pelas solidariedades da tradição familiar e comunitária ou pelas seguranças oferecidas por um Welfare State, por precário que tenha sido o seu desenvolvimento na América Latina.6

Hoje em dia as opiniões divergem acerca da necessidade de uma intervenção do Estado para contrabalançar a tendência estrutural à desintegração social. Por conseguinte, a reforma do Estado torna-se um tema destacado para os próximos anos. Existindo consenso em torno da necessidade de reformar o Estado na América Latina, continua sendo controvertido o significado dessa reforma. Inicialmente identificada de maneira simplista com o "Estado subsidiário", a reforma do Estado é enfocada agora de modo mais adequado às condições particulares da região. Alguns privilegiam uma redefinição das políticas públicas, outros destacam a reorganização da burocracia estatal, e outros promovem uma mudança do regime político (presidencialismo). O desafio fundamental, entretanto, consiste em repensar o conceito mesmo de Estado. Seria pois errôneo reduzir o problema a "mais Estado" ou "menos Estado". Parece difícil impulsionar um desenvolvimento sustentado na América Latina enquanto a relação entre o mercado e o Estado for visualizado como uma "soma zero", em que o avanço de um elemento necessariamente implica o retrocesso do outro. O lema "menos Estado, mais mercado" reflete uma ingenuidade perigosa. Em outras palavras: dado o caráter social do mercado, o ordenamento da sociedade é um fator determinante da eficiência macroeconômica. Se queremos ser fiadores de uma economia social de mercado, então devemos considerar o fortalecimento da ordem social. Esse deveria ser o alvo de uma reforma do Estado; não mais ou menos Estado, mas outro Estado. Vale dizer, um Estado democrático, que integre efetivamente todos os cidadãos.

Pois bem, não será também numa reforma do Estado que se encontrará a panacéia para o desenvolvimento da América Latina. Outrora o desenvolvimento estava determinado principalmente por referências nacionais: mercado nacional, Estado nacional. Hoje não podemos enfocar o desenvolvimento de um país senão no contexto global.7 Os mercados são mais do que nunca mercados mundiais, e a ação do Estado acha-se condicionada em todas as matérias relevantes pela agenda mundial. Como pensar a ordem social num espaço e num tempo redimensionados?

Nessa perspectiva, o debate mercado-Estado fica ainda adstrito a um esquema tradicional, que se revela insatisfatório para dar conta dos processos em curso. Uma vez realizado o ajuste estrutural da economia, que funções assume o Estado e de que instrumentário institucional dispõe? Como interpretamos o crescente divórcio entre os mecanismos de geração de decisão e de legitimidade política e os mecanismos de desenho e de gestão de políticas macroeconômicas?8 Que efeitos têm as enormes mudanças nos padrões culturais—fenômeno também presente na América Latina9 — sobre a transformação produtiva e as reformas da institucionalidade política? Olhando-se para o futuro, os processos de privatização não somente econômicos mas especialmente político-culturais e, por outro lado, a busca de modalidades não estatais do "público" assinalam um quadro talvez mais relevante. Mas isso é matéria para outro debate.

 

 

* Lechner, N. "El debate sobre Estado y mercado", Nueva Sociedad 118, maio-junho de 1992.         [ Links ] Tradução de Gabriel Cohn.
1 Faletto, E. "La especificidad del Estado en América Latina", Revista de la CEPAL nº 38, 1989.         [ Links ]
2 Sunkel, O. "Auge, crisis e renovación del Estado: una perspectiva de largo plazo" in Lander e Sonntag (orgs.). Caracasx: Universalismo y Desarrollo, Nueva Sociedad, 1991.         [ Links ]
3 Larraín, F., e Selowsky, M. (orgs.) El Sector Público y la Crisis da Ia América Latina, El Trimestre Económico, México, 1990.         [ Links ] Inclui antecedentes sobre a Argentina, o Brasil, o México, o Chile, o Peru e a Venezuela.
4 Veja-se meu artigo "A la búsqueda de comunidad perdida", Revista Internacional de Ciencias Sociales, UNESCO, nº 129, 1991.         [ Links ]
5 Ver, recentemente, Altvater, E. Die Zukunfides Marktes, Munster, 1991.         [ Links ]
6 Ainda hoje, menos da metade da população economicamente ativa do Brasil, México e Venezuela está coberta pela seguridade social.
7 Fernando Henrique Cardoso assinala acertadamente que as novas relações já não podem ser enfocadas no quadro da "dependência". "Las relaciones Norte-Sur en el contexto actual. Una nueva dependencia?", El Socialismo del Futuro, nº 3, 1991.         [ Links ]
8 Smith, W. "Consolidación política y proyectos neoliberales en democracias frágiles", Cono Sur, FLACSO-Chile, nº 6,1991.         [ Links ]
9 Recomendo duas leituras sugestivas: o já clássico livro de José Joaquin Bruner, Un Espejo Trizado, FLACSO, Santiago, 1988;         [ Links ] e, recentemente, Matin Hopenhayn, "Ni apocalípticos ni integrados", Revista de Critica Cultural nº 4 , 1991.         [ Links ]