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Revista Brasileira de Ciências Sociais

On-line version ISSN 1806-9053

Rev. bras. Ci. Soc. vol.22 no.65 São Paulo Oct. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-69092007000300001 

Homenagem a Manuel Correia de Andrade: a geografia e a política do Nordeste brasileiro

 

 

Marcos Costa Lima

 

 

A maior homenagem que se pode fazer a um intelectual é refletir sobre os seus escritos, o que, em se tratando de Manuel Correia de Andrade, significa, sobretudo, discutir a questão agrária no Brasil. Filho da oligarquia açucareira, de senhores de engenho da Zona da Mata Norte de Pernambuco, nascido em Vicência, Manuel dedicou sua vida a entender a geografia humana, a história e as relações de poder no Nordeste brasileiro. Impressiona seu labor intelectual, autor de mais cem livros, em sua maioria dedicados a essa ampla temática, como A pecuária no agreste pernambucano (1961); Geografia do Brasil: região Nordeste (1962); Espaço, polarização e desenvolvimento: a teoria dos pólos de desenvolvimento e a realidade nordestina (1967); Nordeste, espaço e tempo (1970); O processo de ocupação do espaço regional do Nordeste (1975); O planejamento regional e o problema agrário no Brasil (1976); Latifúndio e reforma agrária no Brasil (1980); Capital e industrialização do Nordeste (1981); Classes sociais e agricultura no Nordeste (1985), entre tantos outros.

No campo da história, escreveu sobre movimentos de revolta, como A guerra dos Cabanos (1965), e movimentos nativistas no Nordeste, como a Revolução Praieira; estudou ainda os quilombos e a Revolução de 30.

Sua obra mais conhecida é A terra e o homem no Nordeste. Publicada em 1963, um ano antes do Golpe Militar de 1964, pela editora Brasilense, com prefácio de Caio Prado Júnior, granjeou espaço nos meios acadêmicos nacionais, sendo em seguida traduzida para o inglês e para o alemão. Manuel Correia preocupou-se em tratar das relações de trabalho dominantes no meio rural, dos processos de ocupação e apropriação do espaço nordestino, sendo um defensor ativo da reforma da estrutura agrária do país e, particularmente, da região Nordeste, que vivia as intensas lutas das Ligas Camponesas em Pernambuco1 e Paraíba, assim como no município de Governador Valadares, coração do latifúndio mineiro.2 Essa preocupação com os "deserdados da terra" fez com que Manuel Correia assumisse a direção do Grupo Executivo de Produção de Alimentos (Gepa) e a presidência do Grupo de Trabalho para elaboração de sugestões visando à aceleração do processo de Reforma Agrária (GTRA-PE), nos poucos momentos em que esteve afastado da lide acadêmica.

No prefácio de A terra e o homem, Caio Prado Júnior afirma que o livro é

[...] um paciente e exaustivo trabalho de campo, que se complementa de larga informação de conhecimentos geográficos, econômicos e sociológicos gerais [...]. E agora podemos dizer que pela primeira vez nos é apresentada a análise de conjunto da economia agrária nordestina, numa síntese de alto valor científico (1980, p. 14).

Em uma conferência pronunciada na 55ª Reunião Anual da SBPC,3 sob o título de "A terra e homem no Nordeste, hoje", Manuel Correia passa em revista sua obra escrita há quarenta anos e afirma com alegria que "as idéias [...] expostas foram, depois, aceitas pelos movimentos sociais rurais, como os da Contag e dos Sem-Terra [...], e vêm sendo objeto de discussão durante todo esse tempo" (p. 193). O relato das mudanças ocorridas desde então, na região, tomando como parâmetro a definição do autor das cinco sub-regiões nordestinas e a situação dos estados do Maranhão e Piauí, mostra a dimensão da sua sensibilidade e da pertinácia de sua análise. Manuel Correia afirma que o crescimento econômico e a expansão do povoamento

[...] foram feitas com grandes danos ecológicos e sociais, como a intensificação do desmatamento, deixando o solo à mercê da ação das intempéries e o desalojamento de populações indígenas com massacres como em Barra da Corda e dos caboclos que vieram do Sertão há décadas e que plantavam lavouras itinerantes e formavam pequenos povoados, verdadeiramente desconhecidos dos órgãos oficiais (p. 199).

Infelizmente não há espaço aqui para apresentar toda a riqueza e importância da obra de Manuel Correia de Andrade, mas não poderíamos deixar de salientar alguns de seus traços intelectuais mais expressivos, quando em Brasil: realidade e utopia,4 ao fazer uma releitura do pensamento brasileiro desde os cronistas coloniais até aqueles da redemocratização de 1946, o autor revela as linhas mestras de seus estudos: "na análise do pensamento, a neutralidade é impossível" (p. 16), ou ainda que as soluções brasileiras "deveriam advir de resposta aos desafios da sociedade brasileira e não de uma transferência de teorias elaboradas em outros países e continentes por realidades diversas das nossas e por desafios típicos de outras áreas e de outras culturas" (p. 17).

Nessa mesma obra, o autor discute as contradições presentes em nosso país

[...] temos, para as elites escolas e hospitais os mais sofisticados, ao mesmo tempo em que falta às classes menos favorecidas escolas primárias e secundárias, hospitais e ambulatórios com o mínimo de eficiência, fazendo até que se desenvolvam, no país, endemias que se supunha terem sido erradicadas nos meados do século XIX e nas primeiras décadas do século XX (p. 18).

E analisa ainda os processos de mundialização, de formação do Mercosul e do impacto ambiental, expressando suas inquietações

[...] com o processo do chamado espaço-mundo [...] não ocorrerá uma queda do sentimento nacional e a perda dos atributos da soberania de países que não façam parte deste grupo, como o Brasil, mesmo com a integração com os países vizinhos? E esta integração trará benefícios à população como um todo, ou apenas às elites ou, mais restritamente ainda, aos grandes grupos econômicos internacionais? [...] E até que ponto o crescimento exponencial da produção, comandado unicamente pela preocupação do lucro, permitirá um desenvolvimento que não leve à destruição do planeta, levando-se em conta a aceleração da poluição ambiental e a destruição das reservas naturais? (pp. 19-20).

São excertos de um intelectual lúcido, comprometido com os problemas de seu tempo à maneira de Hans Jonas e de seu princípio responsabilidade, de uma ética para a civilização tecnológica.5

Podemos dizer de Manuel Correia de Andrade aquilo que Edward Said afirmou sobre o papel do intelectual, qual seja, "elucidar a disputa, desafiar e derrotar tanto o silêncio imposto quanto o silêncio conformado do poder invisível, em todo o lugar e momento que seja possível".6 O nosso geógrafo-historiador também compartilha com Said a idéia de que "a paz não poderá existir sem a igualdade: este é um valor intelectual que necessita desesperadamente de reforço e reiteração".7

Foi uma honra ter Manuel Correia de Andrade como colega no Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFPE e poder ter a possibilidade de com ele colaborar em seu projeto de seminários "Redescobrindo o Brasil" à frente da Cátedra Gilberto Freyre, que dirigiu do alto de seus 85 anos de vida.

 

Notas

1 Cf. o último capítulo de Terra e o homem no Nordeste (São Paulo, Editora Ciências Humanas, 1980, pp. 223-232, 4 ed.), que trata de "capitalismo e a evolução recente da agricultura nordestina", abordando o Estado e a consolidação do sistema empresarial no campo, a dualidade da legislação rural e as implicações ecológicas e sociais do modelo econômico, um tema sempre presente entre as preocupações do autor.

2 Ver Carlos Olavo da Cunha Pereira, Nas terras do rio sem dono, Belo Horizonte, Veja, 1980.         [ Links ]

3 Em 15 de julho de 2003, no Recife.

4 Manuel Correia de Andrade, Brasil: realidade e utopia, Recife, Editora Universitária, 2000.         [ Links ]

5 Hans Jonas, O princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica, Rio de Janeiro, Editora da PUC, 2006.         [ Links ]

6 Edward W. Said, "O papel público de escritores e intelectuais", em Said, Cultura e política, Rio de Janeiro, Boitempo, 2007, p. 35.        [ Links ]

7 Idem, p. 32.

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